segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

The Last Blade

Algumas vezes, a melhor fonte de assunto para o átomo é o próprio átomo. Por exemplo, depois que eu fiz o post sobre Art of Fighting, decidi pesquisar sobre quais jogos de luta do Neo Geo eu ainda não havia falado, e descobri que ainda não escrevi sobre The Last Blade. Não posso dizer que The Last Blade seja um dos meus jogos preferidos, mas apenas porque o joguei muito pouco - que eu me lembre, não tinha em nenhum fliperama que eu frequentava, e foi lançado quando eu já não jogava mais Neo Geo com frequência. Joguei tão pouco, inclusive, que nem sabia o nome da metade dos personagens, e nem fazia ideia de qual seria sua história. Ainda assim, o acho um jogo bonito e interessante, então creio que vale a pena escrever um post sobre ele. Que vocês começarão a ler agora.

The Last Blade (que significa algo como "o último espadachim", em inglês, embora a tradução literal seja "a última lâmina") foi lançado no Japão em 1997, com o nome original de Bakumatsu Rouman: Gekka no Kenshi ("Romance de Bakumatsu: O Espadachim do Luar"), e era considerado o "sucessor espiritual" de Samurai Shodown, devido a suas várias semelhanças com os jogos dessa outra série: assim como Samurai Shodown, The Last Blade é ambientado no Japão antigo - mais precisamente no período Bakumatsu (palavra que significa "fim do governo militar"), os últimos anos da Era Edo, entre 1853 e 1867, quando o shogunato Tokugawa, que governava o Japão em regime feudal, deu lugar ao governo Meiji, que abriu o país para a modernidade - e os personagens lutam usando armas.

Também como em alguns jogos de Samurai Shodown, após selecionar seu personagem você pode escolher entre dois estilos de jogo, o Speed e o Power. No modo Speed, o personagem fica mais veloz e pode realizar combos, inclusive ligando ataques normais e especiais. Se a barra de super estiver totalmente cheia, o personagem poderá usar um Desperation Move, um especial que causa uma quantidade enorme de dano, e, com a barra de super totalmente cheia e 25% ou menos de sua energia restante, poderá acessar o Combo Special: a barra de super começa a esvaziar lentamente, e, enquanto ela não estiver totalmente vazia, o personagem ficará ainda mais rápido, e seus combos serão impossíveis de serem defendidos.

Já no modo Power, o dano causado pelo personagem é bem maior, e, se sua barra de super estiver totalmente cheia e sua barra de energia com 25% ou menos restante, ele poderá usar o Super Desperation Move, um ataque especial que causa uma quantidade absurda de dano. No modo Power também é possível usar os Desperation Moves normais e o Super Cancel, que interrompe qualquer especial para que o personagem use o Desperation Move e pegue o oponente de surpresa. Via de regra, personagens maiores e mais lentos se dão melhor com o Power, enquanto menores e mais ágeis se dão melhor com o Speed, mas é possível jogar bem com qualquer personagem em qualquer dos dois modos.

A maior inovação do jogo, porém, estava no botão de contra-ataque. O jogo usava o esquema normal de quatro botões do Neo Geo, com os botões A, B e C correspondendo a ataques fracos, médios e fortes, com o tipo de ataque dependendo do personagem e da direção na qual o direcional era pressionado (se alguma) junto com o botão; o botão D, que sobrou, era usado para o contra-ataque: pressionando-o, algumas vezes em conjunto com o direcional, o personagem poderia tentar repelir qualquer ataque que não fosse um projétil, exceto Desperation e Super Desperation Moves. Para repelir o ataque, porém, era preciso pressionar o botão D no instante exato no qual o braço ou perna do oponente tocava seu personagem. Conseguindo, o oponente ficava levemente atordoado e aberto a um contra-ataque seu; se o botão D fosse pressionado muito cedo ou muito tarde, porém, quem ficava levemente atordoado e aberto a um ataque era você.

A história era meio bizarra: existem duas dimensões paralelas, o mundo dos vivos, onde estamos, e o mundo dos mortos, para onde vão os falecidos. Há uma tênue barreira entre esses mundos, na qual há um portal, vigiado eternamente por quatro guardiões, cada um relacionado a um dos pontos cardeais (Norte, Sul, Leste e Oeste). Um dia, porém, um desastre natural faz com que esse portal entre em colapso, ameaçando misturar o mundo dos vivos e o dos mortos, e levando a população ao desespero. Os personagens do jogo são indivíduos que não se deixaram abalar com esse acontecimento, e estão dispostos a restaurar a ordem natural das coisas, enfrentando quaisquer ameaças que se ponham em seu caminho. Por que eles também lutam uns contra os outros, é um mistério típico dos jogos de luta.

Ao todo, 12 personagens não se deixaram abalar e decidiram restaurar a ordem natural das coisas: Kaede, filho de um mestre espadachim que o treinou desde criança, e que busca vingança pelo assassinato de seu pai; Moriya Minakata, órfão também treinado desde criança pelo pai de Kaede, e que foi injustamente acusado por este de ser o assassino, decidindo então fugir e dedicar sua vida a encontrar o verdadeiro criminoso; Yuki ("neve" em japonês), mais uma órfã treinada desde criança pelo pai de Kaede, apaixonada por Moriya e que acredita em sua inocência, e que decide acompanhar Kaede em sua busca para evitar que ele cometa uma injustiça; Keiichiro Washizuka, líder do Shinsengumi, milícia que deseja restaurar a ordem no Japão; Shikyoh, assassino serial que se uniu ao Shinsengumi apenas para matar inocentes, acabou expulso por Washizuka, e agora busca vingança e a oportunidade de matar mais gente em meio à confusão do desastre; Lee Rekka, que veio da China tentar impedir o colapso do portal, que ameaça não só o Japão, mas todo o planeta; Zantetsu, ninja que deseja impedir a ameaça para provar a superioridade do ninjitsu sobre as outras artes marciais; Akari Ichijou, garotinha que possui o poder do teletransporte, cuja irmã ficou seriamente doente quando o portal começou a entrar em colapso, e que deseja restaurar a ordem para salvar sua vida; Juzoh Kanzaki, grandalhão bonachão que é irmão adotivo de Akari e foi convencido por ela a ajudá-la, mas na verdade quer se divertir esmagando coisas com seu porrete; Hyo Amano, bon vivant que adora saquê, mulheres e uma boa luta, tanto que decide também impedir o colapso; Genbu no Okina ("o velho da tartaruga preta" em japonês), um dos quatro guardiões do portal, que deseja descobrir por que ele está entrando em colapso e restaurá-lo; e Shigen Naoe, um antigo guardião do portal que foi enganado por outro a quem considerava seu amigo e selado dentro de uma pedra mágica por dez anos, que conseguiu escapar com o colapso, e agora busca vingança. Todos os personagens são japoneses, exceto Lee Rekka, que é chinês, e Yuki, que é russa.

O jogo possui dois chefes: Musashi Akatsuki, um antigo espadachim que espalhava o terror pelo Japão, foi morto em combate, mas acabou escapando para o mundo dos vivos durante o colapso; e Shinnosuke Kagami, um dos guardiões do portal, que via os humanos como inferiores e, diante de uma oportunidade, decidiu causar o colapso para levar a raça humana à extinção. Foi Kagami quem matou o pai de Kaede, aprisionou Shigen, ajudou Musashi a escapar, e aparentemente fez tudo de ruim que aconteceu na história do jogo. Na versão Arcade, Musashi pode ser selecionado através de um truque, mas só é possível jogar com Kagami (também com um truque) na versão Neo Geo.

É curioso notar que Kaede (tido como protagonista) e Kagami podem assumir por alguns segundos (Kagami por mais tempo, já que é um chefe) uma forma Awakened ("despertado"), durante a qual ficam mais poderosos e capazes de usar golpes exclusivos dessa forma. Kaede pode assumir a forma à vontade, mas, quando o faz, sua barra de energia começa a esvaziar lentamente sozinha, mesmo que ele não esteja recebendo dano.

The Last Blade rapidamente se tornou um dos jogos favoritos dos fãs de Neo Geo, e foi considerado pela crítica especializada como um dos melhores jogos lançados pelo sistema em termos de gráficos e música. E esse sucesso levou a quê? Isso mesmo, a uma continuação.

Lançado em 1998, The Last Blade 2 (Bakumatsu Rouman Dainimaku: Gekka no Kenshi - Tsuki ni Saku Hana, Chiri Yuku Hana, "Romance em Bakumatsu Segundo Ato: O Espadachim do Luar - Na Lua, uma Flor se Abre, uma Pétala Cai") é ambientado um ano após seu antecessor, e tem um clima bem mais sombrio - as cores são mais escuras, as músicas mais soturnas, e as cut scenes bem mais longas, para dar mais ênfase à história: um ano após o quase colapso do portal, as coisas já quase retornaram ao normal; para que o portal seja selado de vez e a mistura dos dois mundos seja evitada, porém, é necessário um ritual, envolvendo os quatro guardiões e uma sacerdotisa. Os personagens, então, se enfrentam para tentar garantir ou evitar esse ritual.

Doze personagens retornam do jogo anterior: Kaede, Moriya, Yuki, Washizuka, Lee Rekka, Zantetsu, Akari, Juzoh, Genbu, Shigen, Amano e Kagami - curiosamente, Kaede e Kagami estão, nesse jogo, eternamente em suas formas Awakened, mas bem menos poderosos que no jogo anterior. Quatro outros personagens são novos, para um total de 16: Mukuro, que na verdade é Shikyoh, que morreu e foi ressucitado como um zumbi; Hibiki Takane, filha de um famoso fabricante de espadas, cujo pai ficou gravemente doente após forjar uma espada para um homem misterioso, e que decidiu vagar pelo Japão em busca desse homem; Setsuna, espírito que conseguiu escapar do mundo dos mortos durante os eventos do jogo anterior, e quer impedir que o portal seja selado; e Kojiroh Sanada, capitão do Shinsengumi designado para investigar o portal. O último chefe é Kouryu, que na verdade é o cadáver do pai de Kaede reanimado e tornado mais poderoso pelos espíritos do mundo dos mortos, que desejam evitar que o portal seja selado a qualquer custo. Kouryu pode ser selecionado através de um truque, assim como três "personagens secretos": a versão comum (não-Awakened) de Kaede; Hagure Hitogata, boneco de papel animado que acompanha Akari; e Kotetsu Naoe, a filha de Shigen.

A única novidade do jogo é um modo secreto, acessado através de um código na hora em que se deve escolher entre Power ou Speed, chamado EX, que combina as características de ambos, mas tem um preço: o personagem pode executar combos, usar o Super Desperation Move, o Super Cancel e o Combo Special, mas, em compensação, causa bem menos dano com seus golpes, recebe bem mais dano dos golpes do adversário, e sua barra de super leva mais tempo para encher.

Talvez pelo tom soturno, talvez pela falta de novidades, talvez porque o Neo Geo já não estivesse mais tão popular na época, The Last Blade 2 não fez tanto sucesso quanto seu antecessor - aliás, fez bem pouco sucesso, o que levou a SNK a decidir interromper a série após apenas dois títulos, não investindo em uma nova continuação.

Depois de The Last Blade 2, portanto, não foi lançado nenhum título novo, mas ainda foram lançadas três versões caseiras que merecem destaque. A primeira, de 1999, é uma versão de The Last Blade para o Playstation. O jogo não traz nenhuma alteração a não ser o fato de que os dois chefes são selecionáveis e existem três personagens novos: Sanada; "Akari" Ichijou (assim mesmo, com aspas), que na verdade é um tanuki (criatura mitológica japonesa parecida com um texugo e com o poder de mudar de forma) disfarçado de Akari; e Deku no Shigen ("Shigen Fantoche"), um boneco controlado pela consciência de Shigen enquanto ele ainda estava aprisionado na pedra. O jogo também traz pequenas introduções animadas para cada lutador.

A segunda versão, para Dreamcast e lançada em 2000, se chamava The Last Blade 2: Heart of the Samurai (Bakumatsu Rouman Dainimaku: Gekka no Kenshi Final Edition no Japão), era idêntica a The Last Blade 2, mas trazia um modo quiz, de perguntas e respostas, uma galeria de arte conceitual, narração nas cut scenes e a possibilidade de se jogar com Musashi.

Finalmente, The Last Blade: Beyond the Destiny (Bakumatsu Roman Tokubetsu: Gekka no Kenshi - Tsuki ni Saku Hana, Chiri Yuku Hana, mesmo título em japonês de The Last Blade 2, mas trocando "dainimaku" por "tokubetsu", que significa algo como "edição limitada"), também de 2000, foi lançado para o Neo Geo Pocket Color, e trazia personagens no estilo super deformed, aquele no qual eles se parecem com adultos em miniatura. Nessa versão, apenas nove personagens estavam presentes desde o início: Kaede, Moriya, Yuki, Washizuka, Lee Rekka, Zantetsu, Akari, Genbu, Shigen e Amano. Jogando com eles, o jogador ganha pontos, que podem ser trocados por animações, minigames, e por cinco novos personagens: Kagami, Hibiki, Sanada, Setsuna e Kouryu - que também é o último chefe. Dois outros personagens, Awakened Kaede e Hagure Hitogata, podem ser selecionados através de truques.

The Last Blade e The Last Blade 2 também seriam lançados em uma coletânea para o Playstation 2, Bakumatsu Rouman 1&2 lançada exclusivamente no Japão em 2001. Ambos os jogos dessa coletânea são versões idênticas às do arcade.

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