segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Ana Karenina

Quando eu estou procurando assunto para o átomo, normalmente eu olho para a minha coleção de DVDs. Hoje, por algum motivo, eu resolvi olhar para a minha estante. E o primeiro livro no qual eu bati o olho foi Ana Karenina, de Leon Tolstoi.

Para quem só conhece esse título de algum filme, ou porque tem alguma amiga com esse nome (aliás, por um acaso, eu tenho), vale dizer que Ana Karenina é um dos maiores clássicos da literatura universal. Um daqueles livros que, quando você termina, fica com pena porque não vai mais ler sobre aqueles personagens. Infelizmente, também não é um livro para qualquer um: tem um zilhão de personagens, todos com nomes um tanto diferentes dos que estamos acostumados, e, embora tenha ação, tragédia e comédia, não é centrado em nenhum desses três elementos, e sim nas relações desses personagens entre si e consigo mesmos. Mas, se você aprecia uma boa leitura e uma boa história recheada de referências culturais a um local e época para nós brasileiros considerados exóticos - a Rússia do Século XIX, na época dos czares, antes do comunismo - vale se aventurar por suas páginas.

Eu, por exemplo, como já disse, adorei. Tanto que, ao encontrá-lo na minha estante, logo fiquei com vontade de escrever um post sobre ele. Post esse que começa agora.

Leon Tolstoi nasceu Lev Nicolayevich Tolstoy - o "Leon" fica por conta do hábito de outrora de traduzir nomes próprios, que levou, por exemplo a chamarmos o descobridor da América de Cristóvão Colombo (ele era italiano, evidentemente não se chamava Cristóvão) e o famoso rei inglês que fundou a Igreja Anglicana de Henrique VIII (sendo inglês, evidentemente se chamava Henry); embora essa prática tenha caído em desuso, ainda restam exceções: os nomes dos Papas, por exemplo, são traduzidos até hoje (o Papa Francisco também não se chama Francisco no mundo todo), assim como os nomes de alguns monarcas, especialmente em Portugal (a Rainha Elizabeth II, por lá, é conhecida como Rainha Isabel II, e o Príncipe Charles como Príncipe Carlos).

Mas enfim, Leon Tolstoi nasceu Lev Nicolayevich Tosltoy - mais uma curiosidade: "lev", em russo, significa "leão", o Rei dos Animais, mesmo significado de "león" em espanhol - no vilarejo de Yasnaya Polyana - "clareira clara", em russo - em 9 de setembro de 1828 - ainda na época do Império Russo, portanto; aliás, na época se usava um calendário diferente por lá, de forma que, no calendário em vigor quando Tolstoi nasceu, ainda era 28 de agosto. E chega de curiosidades por enquanto.

Voltando ao fio da meada, Tolstoi nasceu durante o Império Russo, em um vilarejo do interior da Rússia, em uma família pertencente à nobreza. Nobreza mesmo, do tipo "donos de toda Yasnaya Polyana". Quarto dos cinco filhos de um conde e uma condessa, ele se viu órfão de pai e mãe antes dos dez anos de idade, sendo criado, junto com os irmãos, por parentes. Aos 16 anos, conseguiu permissão para estudar Direito e Idiomas Ocidentais na Universidade de Kazan, mas seus professores o consideravam "sem vontade de aprender" e "impossível de ser ensinado". Ainda assim, ele se tornaria fluente em inglês, francês e alemão, mas jamais terminaria o curso de Direito, saindo por vontade própria da universidade dois anos depois. Dividindo seu tempo entre Yasnaya Polyana e a alta sociedade de Moscou e São Petesburgo, logo se viciaria em jogo, adquirindo grandes dívidas. Para escapar dessa vida, em 1850, ao saber que seu irmão se alistaria no exército, decidiria se alistar também, sendo enviado para o Cáucaso.

Seria no exército que Tolstoi começaria a escrever. Confrontado com questões de moralidade - a principal luta dos russos na região, na época, era contra os chechenos por razões étnicas, algo que ainda não foi resolvido até hoje, e, durante uma jornada a Paris, Tolstoi testemunharia a execução de um criminoso - ele começaria a questionar valores da sociedade russa e da humanidade como um todo, e decidiria colocar suas ideias e opiniões no papel em forma de ficção. Seu primeiro romance, Infância, seria escrito aos 23 anos e publicado em 1852 em um encarte do popular jornal russo Sovremennik (algo como "o contemporâneo"). Misturando fatos reais a ficção para narrar a infância do menino Nikolenka - um personagem autobiográfico - o texto seria um grande sucesso de crítica, atraindo elogios de um autor de renome, Ivan Turgenev, que declarou em entrevista que Tolstoy ainda seria uma das mais importantes figuras da literatura russa.

Em 1856, Tolstoi, após ter escrito outros dois romances de sucesso - Adolescência e Juventude, que formavam uma trilogia com Infância - decidiria deixar o exército e viajar pela Europa, retornando, em 1859, a Yasnaya Polyana, onde viveria até o fim da vida. Em 1862, ele se casaria com Sophia Andreyevna Behrs, filha de um médico da Corte Imperial, 16 anos mais jovem que ele, com quem teria 13 filhos - não foi erro de digitação, foram treze mesmo. Após o casamento, sua produção literária se intensificaria, com a publicação de suas três histórias mais famosas: em 1863 ele escreveria Os Cossacos, em 1869, Guerra e Paz, e, em 1878, Ana Karenina.

Tolstoi faleceria em 20 de novembro de 1910 (7 de novembro pelo calendário da época), de pneumonia, aos 82 anos, na cidade de Astapovo, enquanto fazia uma viagem de trem. Deixaria sete romances, cinco novelas, seis peças de teatro e mais de 50 contos.

O que interessa para nós, hoje, é Ana Karenina. Tolstoi começaria a escrever a história em 1873, com a ideia de fazer uma história de amor centrada em três personagens: uma mulher, seu marido e seu amante. Enquanto escrevia, ele ficaria insatisfeito com o resultado, e decidiria acrescentar mais um protagonista, um homem do campo através do qual poderia discutir as diferenças da vida no campo em relação à vida nas cidades.

Após um ano escrevendo, ele interromperia totalmente seu trabalho - parte do texto já havia sido até enviado para o jornal Vestnik ("o mensageiro"), no qual seria publicado, mas Tolstoi pediria para que eles não o imprimissem, alegando precisar de mais pesquisa para terminar a história. Na verdade, o autor acreditava que sua escrita já não era mais a mesma, e que já não conseguia encontrar inspiração para concluir a história. Deixando-a de lado, ele se dedicaria ao estudo da pedagogia, pelo qual desenvolvera um grande interesse na época.

O jornal seguraria a publicação até o início de 1875, quando decidiria publicar o primeiro segmento. Aos poucos, o restante do texto escrito seria publicado em outros segmentos, e a resposta favorável do público levaria Tolstoi a voltar a escrever. Ele retornaria ao trabalho em 1876, mas, na época, já estava interessado no estudo de textos religiosos e filosóficos, se dedicando mais a esse campo que à produção textual. Pressionado por Mikhail Katkov, editor do Vestnik, ele decidiria transformar Lievin (o tal homem do campo) em um personagem autobiográfico, envolvendo-o, também, com o estudo da filosofia e da religião. Isso faria com que, aos poucos, Lievin se tornasse um personagem de mais destaque até do que a própria Ana.

Tolstoi levaria, ao todo, mais de quatro anos para concluir a obra, terminando de escrevê-la apenas em 1877. No final, ela teria oito segmentos, mas apenas sete seriam publicados pelo Vestnik: no último, Tolstoi faz uma crítica à guerra da Rússia contra a Sérvia, que estava acontecendo justamente naquele momento; Katkov, que não possuía a mesma posição política que Tolstoi, se recusou a publicar esse oitavo segmento, encerrando a história no sétimo. O oitavo e último segmento só seria publicado no ano seguinte, 1878, quando o texto integral de Ana Karenina seria publicado em forma de livro, em três volumes.

Mas, afinal, do que trata a história? Antes de começarmos, mais uma curiosidade - ou melhor, duas: Ana Karenina, óbvio, é o nome não só do livro, mas da protagonista. A primeira curiosidade fica por conta de que esse é seu nome de casada. Nascida Ana Arcadievna Oblonskaya, ela se tornaria Karenina ao se casar, antes de a história começar, com Alexei Karenin. E daí vem a segunda curiosidade: ela se tornaria Karenina porque, em russo, os sobrenomes também têm masculino e feminino. O irmão de Ana, por exemplo, se chama Stepan Arcadyish Oblonsky, e a esposa de Tolstoi, após o casamento, passou a se chamar Sophia Andreyevna Tolstaya. Vale citar, ainda, uma terceira curiosidade: a pronúncia, em russo, do sobrenome de Ana não é "karenína", como estamos acostumados a falar em português, mas "karênina" - normalmente, os sobrenomes em russo são palavras proparoxítonas; Maria Sharapova, portanto, não é "sharapôva", e sim "sharápova", e, como Sharapova é um sobrenome feminino, seu pai se chama Yuri Sharapov. E chega de curiosidades novamente.

Apesar de ser a protagonista, Ana até demora a aparecer na história. O primeiro segmento começa centrado em Stiva - apelido de Stepan Oblonsky - que acabou de ter um caso extraconjugal, e vê a possibilidade de sua família desmoronar. Enquanto tenta convencer sua mulher, Dolly (cujo nome completo é Darya Alexandrovna Oblonskaya), a perdoá-lo, Stiva nos apresenta aos demais personagens de destaque: Konstantin Dmitrich Lievin, seu melhor amigo, que vive em uma grande fazenda no interior, não gosta muito da vida na cidade, e é apaixonado pela irmã de Dolly, Kitty (na verdade Ekaterina Alexandrovna Shcherbatskaya - os nomes são a melhor parte); e Alexei Kirillovich Vronsky, conde e oficial de cavalaria, por quem Kitty é apaixonada e com quem imagina que irá se casar.

TolstoiO destino de todos esses personagens é drasticamente alterado quando Ana chega de trem a Moscou, onde vivem Stiva e Kitty, vinda de São Petesburgo, onde ela mora, para visitar o irmão. Ana se casou muito nova com Alexei Alexandrovich Karenin, um ministro do governo, com quem teve um filho, Seryozha (apelido de Sergei), que está com uns cinco anos no início da história. Jovem, bonita e extrovertida, Ana pensa ser feliz no casamento com o conservador, rígido e emocionalmente distante Karenin - até conhecer, ao chegar na estação, o assim como ela jovem, bonito e extrovertido Vronsky, que veio buscar sua mãe, que, por acaso, viajou na mesma cabine de Ana. Ana e Vronsky se apaixonam, e essa paixão passa por vários estágios, começando pela negação, passando por encontros às escondidas para que Karenin não descubra, até que, não aguentando mais, Ana decide largar tudo e ir viver ao lado do amante - decisão que trará sérias consequências para sua vida.

Paralelamente à história de Ana e Vronski, acompanhamos as histórias de Kitty, que não se conforma de perder Vronsky, chegando a ficar até doente e ter de se tratar no estrangeiro; de Stiva, que se mostra fanfarrão, sempre visando um emprego de salário melhor - ele é funcionário público, e está sempre se candidatando a outros cargos diferentes do que ocupa - mas de bom coração, apaixonado pela esposa e pela família, apesar do caso extra-conjugal, e bastante pé no chão; diferentemente do sonhador Lievin, que faz o possível para se esquecer de Kitty, se vê constantemente envolvido nos problemas de seus dois irmãos, um deles gravemente doente, e, enquanto trabalha na fazenda, serve como conduíte para os pensamentos do próprio Tolstoi para questões como reforma agrária, religião, família, sociedade russa e o papel da Rússia no mundo.

Ana Karenina é hoje considerado uma das maiores obras da literatura universal, e um dos mais perfeitos exemplos do movimento literário conhecido como Realismo. Sua primeira frase, "todas as famílias felizes são iguais, mas as infelizes o são cada uma à sua maneira" - que abre caminho para que conheçamos os problemas conjugais de Stiva - é considerada uma das mais famosas já escritas. Já na época de seu lançamento, o famoso escritor Fiodor Dostoiévski declararia que se tratava de "uma obra de arte sem nenhuma falha", e o norte-americano Willaim Faulkner, Prêmio Nobel de Literatura, o consideraria "o melhor romance jamais escrito", opinião compartilhada por muitos críticos até hoje, conforme demonstra a eleição dos melhores livros de todos os tempos realizada pela revista Time em 2007, na qual Ana Karenina ficou nada menos que em primeiro lugar.

Dois pontos frequentemente destacados que contribuem para a excelência da obra são a multiplicidade de pontos de vista narrativos, que influenciaria e seria imitada por muitas outras obras posteriores - apesar de narrado em terceira pessoa, ou seja, fazendo uso de um narrador, o romance faz uso de técnicas como fluxo de consciência (na qual os pensamentos do personagem guiam a história) e narração cinemática (na qual a mesma cena é narrada repetidas vezes sob a ótica de diferentes personagens) - e a ambiguidade dos personagens - nenhum deles é claramente bom ou mau, todos têm defeitos e qualidades que os tornam passíveis de identificação ou rejeição de acordo com a disposição do leitor. Os personagens de Ana Karenina são considerados dentre os mais complexos da história da literatura, e Tolstoi é frequentemente elogiado por ter conseguido torná-los tão humanos, principalmente no tocante a suas relações interpessoais. O uso de fatos da vida real combinados com os fatos fictícios da história também contribuiu para sua grandeza, já que, na época em que o romance foi escrito, a Rússia passava por uma época de grandes transformações políticas, econômicas e sociais, e tais mudanças interferem na vida dos personagens como interferiam na vida dos leitores de então.

Ao longo dos anos, Ana Karenina também seria adaptada múltiplas vezes para o cinema, TV, rádio, ópera e balé - é uma história russa, afinal. A primeira adaptação para o cinema seria francesa, lançada em 1911 e dirigida por Maurice André Maître. A primeira versão russa viria a seguir, lançada em 1914 e dirigida por Vladimir Gardin. A primeira versão norte-americana seria a terceira, de 1915, dirigida por J. Gordon Edwards. Greta Garbo interpretaria Ana em duas outras versões, uma de 1927, chamada simplesmente Love, com muitas mudanças em relação ao texto original, principalmente no final, e outra de 1935, essa mais fiel ao texto original e também chamada Ana Karenina. Em 1948, em mais uma versão norte-americana, seria a vez de Vivien Leigh (a Scarlett O'Hara de ...E O Vento Levou) interpretar Ana.

A Rússia produziria duas famosas versões a seguir, em 1953 e 1967. A próxima versão norte-americana seria lançada apenas em 1997, filmada integralmente na Rússia, estrelando Sophie Marceau (de Coração Valente) e Sean Bean (o Boromir de O Senhor dos Anéis). A mais recente versão é britânica e foi lançada em 2012, dirigida por Joe Wright (de Orgulho e Preconceito) e estrelando Keira Knightley (também de Orgulho e Preconceito), Aaron Taylor-Johnson (de Kick Ass) e Jude Law (de Gattaca). É interessante notar que as produções cinematográficas normalmente ignoram a trama de Lievin - embora algumas, como a mais recente, incluam o personagem, embora sem o desenvolvimento devido - para compactar a história e colocar um maior foco sobre Ana, que, afinal de contas, é a protagonista.

Na TV, a obra mais famosa é uma minissérie em dez partes exibida pela BBC em 1977, dirigida por Basil Coleman e estrelando Nicola Pagett (a Princesa Mary de Ana dos Mil Dias), Eric Porter (o Professor Moriarty da série de TV do Sherlock Holmes dos anos 80) e Stuart Wilson (o Jack Travis de Máquina Mortífera 3). Nos Estados Unidos, em 1985, foi lançado um filme para a TV estrelado por Jacqueline Bisset (de Assassinato no Expresso do Oriente) e Christopher Reeve (o Super-Homem). Uma nova minissérie britânica, dessa vez em quatro episódios, foi exibida em 2000, estrelada por Helen McCrory (a Narcissa Malfoy de Harry Potter) e Kevin McKidd (de Roma).

Por fim, vale citar a obra derivada Androide Karenina. Escrita por Ben H. Winters, no mesmo estilo de Orgulho e Preconceito e Zumbis e Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos (esse último também de Winters), a história mostra uma Rússia vitoriana steampunk, na qual alta tecnologia - movida a vapor - e robôs são parte integrante da sociedade. O enredo central é basicamente o mesmo, com a adição de robôs, alienígenas, viagens no tempo e monstros criados por engenharia genética. Se isso é bom ou ruim, depende de sua opinião pessoal.

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