segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Medium

Eu tenho pensado muito na série Medium, por vários motivos. Penso nela, por exemplo, quando penso em séries que foram lançadas em DVD e descontinuadas aqui no Brasil - de Medium, por exemplo, só foi lançada a primeira temporada, e nem há previsão de quando serão lançadas as demais ou explicação do porquê delas não terem sido lançadas. Também penso nela quando penso que já não acompanho mais série nenhuma na TV - foi uma das últimas que eu acompanhei. E, essa semana, pensei nela ao pensar como a relação dos norte-americanos com o espiritismo é engraçada - a alma da pessoa fica presa na Terra enquanto ela tiver um "negócio inacabado", só conseguindo "ver a luz" quando resolve esse problema. Como eu tenho pensado bastante na série, achei que seria legal fazer um post sobre ela. E voilà.

Medium foi criada por Glenn Gordon Caron, que também criou outra de minhas séries preferidas, A Gata e o Rato. Caron se inspirou na história real da médium Allison DuBois (se prononcia "dubuá"), residente da cidade de Phoenix, Arizona, Estados Unidos, que alega usar seus "poderes" para auxiliar a polícia a resolver casos complexos. Allison teve suas habilidades psíquicas testadas por um professor da Universidade do Arizona, mas esses testes são contestados por céticos, que alegam eles terem sido tendenciosos e falhos. Algumas das contribuições de Allison para a polícia também se mostraram de pouco valor ou completamente erradas, mas, mesmo assim, ela se tornou uma espécie de celebridade local, e até escreveu um livro de relativo sucesso, Don't Kiss Them Goodbye (algo como "não se despeça deles").

Foi após ler esse livro que Caron teve a ideia de produzir uma série sobre uma médium que ajuda a polícia a desvendar crimes complexos, a qual ofereceu à Paramount. A série seria produzida em conjunto pela Paramount, pela produtora de Caron, a Picturemaker, e pela Grammnet, produtora de Kelsey Grammer (de Cheers e Fraser), amigo de Caron, e que atuaria como produtor executivo. Após oferecer a série sem sucesso à CBS, a Paramount a negociaria com a NBC, onde a série estrearia em 3 de janeiro de 2005.

Embora a série não seja uma biografia de Allison, com todos os casos e situações dos episódios sendo fictícias, ela traz vários elementos espelhados na vida da médium: ela é ambientada em Phoenix, sua protagonista também se chama Allison DuBois, seu marido também se chama Joe DuBois, eles também têm três filhas (embora, na série, as três também sejam médiuns e tenham nomes diferentes das filhas da Allison real), Joe também é engenheiro aero-espacial, e o primeiro caso, mostrado no episódio piloto, envolve os Texas Rangers, a unidade de polícia especial do estado do Texas, com a qual a Allison real também trabalhou em seu primeiro caso. A Allison real não teve envolvimento com a produção da série ou com os roteiros, mas apareceu diversas vezes em programas de entrevistas para declarar que a série retratava "exatamente" como era sua vida.

Na primeira temporada, que teve 16 episódios, somos apresentados a Allison DuBois (Patricia Arquette), uma dona de casa da cidade de Phoenix, casada com o engenheiro Joe (Jake Weber) e mãe de três filhas, Ariel (Sofia Vassilieva), que tem por volta de uns 10 anos, Bridgette (Maria Lark), que tem por volta de uns 5, e a bebezinha Marie (as gêmeas Madison e Miranda Carabello). Desde criança, Allison tem sonhos vívidos que imagina serem visões do passado ou premonições, mas nunca conseguiu fazer ninguém acreditar neles.

A vida de Allison muda quando, para não ficar em casa o dia inteiro, ela decide trabalhar meio período no gabinete da promotoria da cidade, cujo Promotor é Manuel Devalos (Miguel Sandoval). Durante uma investigação rotineira, Allison conhece outra médium, que a estimula a usar seus dons e nunca deixar de acreditar neles. Quando Devalos recebe um pedido de ajuda dos Texas Rangers para investigar um caso de pedofilia, Allison recebe informações da irmã de uma das vítimas - que já é falecida, mas aparece e fala com ela como se fosse uma pessoa viva. Como essas informações levam à captura do pedófilo, Devalos decide dar um crédito à moça, e a estimula a vir a ele sempre que tiver sonhos ou premonições envolvendo crimes.

A partir de então, a cada episódio, Allison tem um sonho ligado a algum crime - que, infelizmente, nunca é alto e claro, devendo sempre ser investigado e interpretado. No decorrer das investigações, ela tem premonições, conversa com espíritos e, aos poucos, vai ajudando Devalos a solucionar o crime. Conforme suas previsões se mostram acertadas, Allison vai ganhando também a confiança do marido, que começa a série sem acreditar nela, mas passa a dar o benefício da dúvida, e do policial Lee Scanlon (David Cubitt), que se torna seu principal aliado nas investigações e uma espécie de anjo da guarda, prortegendo Allison de criminosos que queiram se vingar ou impedir que ela solucione o caso.

A primeira temporada fez bastante sucesso, e rendeu a Arquette um Emmy de Melhor Atriz em Série Dramática. Esse sucesso levaria à renovação para a segunda temporada, que estrearia em 19 de setembro de 2005 com mais 22 episódios. Na segunda temporada, Ariel e Bridgette começariam a demonstrar terem os mesmos dons da mãe, e a série ganharia dois novos personagens recorrentes, Lynn DiNovi (Tina DiJoseph), que atua como ligação entre o gabinete da promotoria e o Prefeito da cidade; e o pai de Joe (Bruce Gray; o personagem não tem nome, sendo referenciado apenas como "pai", "vovô" ou "Sr. DuBois"), que já é falecido, mas aparece para Allison e suas filhas. O meio-irmão de Allison, Michael (Ryan Hurst), que também tem o mesmo dom que a irmã, mas o usa para cometer trambiques, e já tinha aparecido em um episódio da primeira temporada, também se torna um personagem recorrente a partir da segunda.

No geral, a segunda temporada foi uma espécie de continuação da primeira, sem grandes novidades. Uma grande curiosidade, porém, foi um episódio com trechos em 3D, que, para serem assistidos propriamente, usavam óculos anáglifos - daqueles que têm uma lente vermelha e a outra azul - distribuídos como brinde nos Estados Unidos em revistas especializadas em séries e programação de TV, como o TV Guide, e enviados por algumas operadoras de TV a cabo a seus clientes. O box norte-americano da segunda temporada em DVD vem com quatro óculos desses, e rola um boato de que não ter que distribuir os óculos teria sido um dos motivos para a Paramount ter decidido não lançar a segunda temporada em DVD por aqui.

A terceira temporada, por outro lado, traria grandes mudanças para a vida de Allison e de sua família - a menor delas a de que a caçula Marie também começaria a demonstrar dons mediúnicos. Estreando em 15 de novembro de 2006, com mais 22 episódios, ela começaria seguindo a fórmula de sempre, mas, lá pela metade, traria um episódio tenso, no qual Joe e seus colegas são feitos reféns por um ex-empregado insatisfeito que decide se vingar da companhia onde trabalham. Após o caso, Joe fica traumatizado, e é convencido por um advogado a pedir demissão e entrar na justiça pedindo indenização. Paralelamente a isso, Allison faz amizade com uma moça chamada Debra (Neve Campbell, de Pânico), que acaba se revelando uma repórter que quer expô-la como uma fraude para demiti-la da promotoria.

Esses eventos teriam grande impacto na quarta temporada, que, após alguns atrasos causados pela própria NBC, que teve problemas para montar sua grade do segundo semestre, estrearia em 7 de janeiro de 2008, com apenas 16 episódios. Com a história de Debra sendo publicada, Allison e Devalos - que se descobre diabético - são demitidos, e têm de reconstruir suas vidas. Além disso, o advogado que tinha aconselhado Joe a ingressar na justiça recomenda que ele retire a ação, ou a mediunidade de sua esposa poderá ser usada pela empresa para se recusar a pagar a indenização, expondo a família a ainda mais ridículo. Sem podder recorrer a Devalos ou Scanlon, mas ainda tendo sonhos premonitórios, Allison acaba aceitando uma proposta de Cynthia Keener (Anjelica Huston), que chefia uma ONG que tenta encontrar crianças desaparecidas, e decide contratar Allison para que ela a ajude em seus casos. Enquanto isso, Joe consegue um novo emprego, mas uma colega de trabalho, Meghan Doyle (Kelly Preston), aparentemente tenta seduzi-lo, o que abala seu casamento.

Ao final da temporada, Devalos consegue voltar a ser Promotor, recontratando Allison, e Doyle se mostra algo diferente do que Allison imaginava, o que faz com que sua vida volte mais ou menos para os trilhos no início da quinta temporada, que estrearia em 2 de fevereiro de 2009, com 19 episódios. A quinta temporada teria episódios no estilo da primeira, cada um com um caso diferente e sem nenhuma grande reviravolta, mas terminaria com um cliffhanger e tanto: Allison descobre um tumor no cérebro; se não operá-lo, pode vir a morrer, mas, se operá-lo, pode perder seus dons. Adiando a cirurgia até o último minuto para ajudar a solucionar um caso cabeludo, ela acaba entrando em coma e com grandes possibilidades de jamais acordar novamente.

O pior dessa história é que essa tragédia quase foi o episódio final de Medium: em meio à quinta temporada, a NBC havia renovado o contrato com Caron para a produção de uma sexta - o que motivou a criação do cliffhanger - mas, após o último episódio, insatisfeita com os índices de audiência, a emissora decidiria rescindir o contrato e cancelar a série. Felizmente para os produtores e os fãs, a Paramount Television, que co-produzia a série, graças a uma manobra de compra e venda realizada pela Viacom, agora era parte da CBS - que, bizarramente, a havia rejeitado lá no começo. Com a desistência da NBC, a CBS passaria a exibir a série, começando pela sexta temporada, que estrearia em 25 de setembro de 2009 e teria 22 episódios.

Bridgette, Allison, Marie, Joe, ArielNo início da sexta temporada, Allison sai do coma com sequelas motoras - dificuldades para mover a mão direita e necessidade de se apoiar em uma bengala para andar - que a levam a fazer fisioterapia, mas mantendo seu dom. Joe consegue um novo emprego com um chefe excêntrico que quase o enlouquece (Joel Moore); Scanlon e DiNovi começam um relacionamento e têm um bebê, uma menina chamada Leigh; e Ariel termina o colégio e decide cursar faculdade em outro estado, o que desagrada Allison. A maior parte dos episódios envolve médicos e doenças, com sonhos motivados pelo longo período que Allison passou no hospital.

Infelizmente, ao contrário de Allison, a série não teria vida longa após o fim da quinta temporada. Como ela possuía uma grande base de fãs e sempre recebia críticas positivas, a CBS imaginou que a audiência decrescente era devido à incompetência da NBC, que atrasava a estreia das temporadas, mudava o dia da semana na qual ela era exibida a cada temporada e encomendava poucos episódios; a audiência da sexta temporada, porém, foi ainda pior que a da quinta, o que, aliado ao fato de que a CBS já estava planejando reformular seu horário de séries, cancelando produções antigas como Ghost Whisperer, fez com que o canal decidisse cancelar Medium também. Caron e Grammer ainda conseguiram convencê-los a produzir uma sétima temporada, para dar um fechamento à série. A CBS concordou, mas com a condição de que essa última temporada tivesse apenas 13 episódios.

A sétima e última temporada estrearia em 24 de setembro de 2010, e começaria com um arco envolvendo a mãe de Joe, Marjorie (Kathy Baker), que está gravemente doente. Ariel está na faculdade, Devalos decide se candidatar a prefeito, e Allison decide se matricular na faculdade de direito. Uma curiosidade sobre a sétima temporada é que, nela, o irmão de Allison, Michael, é interpretado por David Arquette, irmão de Patricia na vida real, e não por Ryan Hurst. O último episódio, exibido em 21 de janeiro de 2011, teria a maior média de audiência desde a estreia da sexta temporada, mas, ainda assim, seria criticado por muitos fãs, que não concordaram com o fechamento dado à série.

Mesmo com esse fechamento, os fãs ainda tentaram salvar a série, fazendo apelos para que outro canal qualquer a assumisse. Não teve jeito, mas talvez tenha sido melhor assim. Na minha opinião, sete é um número bem satisfatório de temporadas para uma série. Afinal, nem mesmo os sonhos premonitórios de Allison conseguiriam fazer com que ela não caísse na mesmisse se continuasse indefinidamente no ar.

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