segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O Poderoso Chefão

Como eu costumo dizer, assuntos para o átomo costumam vir de lugares estranhos. Hoje, por exemplo, enquanto procurava por um, li na internet sobre o lançamento de uma edição especial em Blu-ray de 40 anos de lançamento do filme O Poderoso Chefão. Embora eu não me considere um fã, nem o coloque em minhas listas de filmes favoritos, deve dizer que esse filme - assim como suas continuações - está dentre os mais impressionantes que eu já vi. Sério, se você nunca viu, veja, é uma aula de cinema.

Para quem acha que essa mania de fazer filmes baseados em livros começou agora, O Poderoso Chefão (cujo nome em inglês é The Godfather, "O Padrinho", nome pelo qual o filme é conhecido em Portugal, e, caso alguém queira a minha opinião, que eu acho melhor que o título brasileiro, que sempre me pareceu meio caricato e inapropriado para um filme tão sério), originalmente, era um livro, escrito pelo ítalo-americano Mario Puzo e publicado em 1969 pela editora G.P. Putnam's Sons. Ambientado entre os anos de 1945 e 1955, o filme contava a história de Vito Corleone, cuja infância e juventude eram contadas em flashbacks, um menino pobre da Sicília que, após imigrar para os Estados Unidos e se ver vivendo em meio à pobreza e desigualdade da Nova Iorque do início do século XX, decide deixar de jogar limpo. Se envolvendo com contrabando, jogo e outras atividades ilegais, ele se especializaria em fazer favores para as camadas mais pobres da população, especialmente outros imigrantes italianos, o que logo lhe renderia muito respeito, ao ponto de todos se referirem a ele como "padrinho" - daí o título do livro. O Poderoso Chefão seria o primeiro romance em língua inglesa a abordar a máfia ítalo-americana, popularizando termos como don, consiglieri, cosa nostra e omertà.

O livro seria um gigantesco sucesso de vendas, e seria considerado por muitos críticos como o catalisador de uma transformação na cultura pop norte-americana, apelidada, em inglês, de Godfather Effect: O Poderoso Chefão distorcia o mito do Sonho Americano - a teoria de que qualquer imigrante, por mais pobre que fosse, poderia se tornar rico e respeitado na América - ao colocar como protagonista um imigrante que realiza esse Sonho, mas, se tornando, no processo, um criminoso temido e quase intocável. Graças a ele, voltavam à voga os personagens com várias camadas, como assassinos que faziam filantropia e amavam suas famílias, deixando de lado o maniqueísmo tão forte na época do pós-guerra. A "humanização" desse tipo de personagem, aliás, faria com que os leitores, que antes os rejeitavam, passassem até mesmo a torcer por eles e encontrar formas de perdoar seus pecados.

Esse sucesso e esse bafafá todo, evidentemente, mais do que rapidamente fariam com que um estúdio corresse para assegurar os direitos de transformar essa história em um filme. Quem saiu na frente foi a Paramount, que comprou os direitos de adaptação em 1971, convidando o italiano Sergio Leone, famoso por seus filmes de faroeste (como Por Um Punhado de Dólares e Era Uma Vez no Oeste), para dirigi-la. Leone, porém, já estava envolvido com outro filme sobre a máfia em Nova Iorque, chamado Era Uma Vez na América, e não quis abrir mão de um projeto pessoal para dirigir uma adaptação. Peter Bogdanovich, de A Última Sessão de Cinema, chegou a ser procurado, mas também recusou, por já estar envolvido com as filmagens de Essa Pequena é uma Parada. O diretor-chefe da Paramount, Robert Evans, que sugeriu Leone, não ficou satisfeito com o convite a Bogdanovich, e ordenou que se encontrasse um diretor italiano ou ítalo-americano - segundo Evans, os filmes anteriores que retratavam a máfia haviam sido todos fracassos de bilheteria porque o diretor não sabia o que estava fazendo; para esse, em suas palavras, ele queria "sentir o cheiro do espaguete". Foi assim que os produtores chegaram a Francis Ford Coppola.

Coppola estava em início de carreira, tendo dirigido apenas cinco filmes até então, nenhum deles exatamente um sucesso, mas já havia sido indicado ao Globo de Ouro duas vezes e ganhado um Oscar de Melhor Roteiro Original por Patton: Rebelde ou Herói? (dirigido não por ele, mas por Franklin J. Schaffner). Coppola aceitaria o convite sem hesitar, primeiro por achar que essa seria sua grande chance no cinema, segundo por estar cheio de dívidas oriundas de ter atuado como produtor em THX 1138, bomba de bilheteria dirigida por seu amigo George Lucas. Além disso, Coppola era de ascendência siciliana, e planejava fazer do filme uma metáfora do capitalismo norte-americano.

A relação entre Coppola e a Paramount, porém, foi cheia de atritos: o estúdio alegava que ele não conseguia cumprir o cronograma, estava sempre com as filmagens atrasadas, escolheu atores inadequados para os papéis, cometia erros de produção e fazia gastos desnecessários. Um dos motivos para essa reclamação toda foi que a Paramount estava tendo sérias dificuldades financeiras na época, e acreditava que O Poderoso Chefão seria o filme que a tiraria do buraco; os produtores, portanto, não estavam nada satisfeitos de entregar um projeto tão importante a um diretor, em sua opinião, inexperiente, e o mantinham sob pressão para que tudo saísse exatamente como o estúdio queria - os produtores chegaram até mesmo a inventar que já tinham outro diretor escolhido para completar o filme quando Coppola fosse demitido, apenas para mantê-lo sob pressão.

O atrito entre Coppola e a produção começaria já no roteiro: quando a Paramount comprou os direitos do livro, planejava fazer uma "versão moderna", ambientando a história no início da década de 1970. Após ler o livro e o roteiro, porém, Coppola foi irredutível em sua decisão de ambientar o livro no início da década de 1950, alegando que modernizar a história iria destruí-la. O próprio Coppola escreveria um novo roteiro, em parceria com ninguém menos que Mario Puzo, autor do livro. Mesmo assim, os produtores frequentemente reclamavam de uma ou outra passagem, e sempre pediam para que uma ou outra cena fosse incluída ou modificada - várias cenas foram refilmadas porque os produtores queriam que elas fossem "mais violentas", e Coppola acabaria tendo de aceitar que o roteirista Robert Towne escrevesse muitas outras, sem ser creditado, como a cena na qual Vito Corleone e seu filho Michael conversam em uma plantação de tomates.

A escolha do elenco foi outro ponto de divergência entre o diretor e os executivos do estúdio, principalmente a escolha de Marlon Brando para o papel de Don Vito Corleone - verdade seja dita, Coppola queria Laurence Olivier, mas seu agente responderia que ele não estaria interessado por estar "doente e prestes a morrer" (e Olivier ainda viveria 18 anos após essa recusa). Os executivos da Paramount preferiam Ernest Borgnine, e viam Brando como caro demais e problemático demais, o que poderia atrasar as filmagens. Após muito insistir, Coppola conseguiria convencer os executivos de que Brando era a melhor escolha para o papel, mas, mesmo assim, eles só o aceitariam se ele concordasse em receber menos da metade do que lhe pagavam atualmente, pagasse um seguro que cobriria eventuais atrasos nas filmagens, e fizesse um teste junto com Borgnine e o ator de TV Danny Thomas. Brando se sairia tão bem no teste que acabaria convencendo os executivos, que a princípio tinham armado essa situação justamente para poder rejeitá-lo.

Para o papel de Michael Corleone, os executivos queriam Robert Redford ou Ryan O'Neal, mas Coppola insistiu que deveria ser um ator novo e praticamente desconhecido, além de alegar que Redford e O'Neal não pareciam ítalo-americanos. Coppola acabaria escolhendo Al Pacino, que, até então, só havia feito dois papéis em filmes de pouca visibilidade. Os executivos, naturalmente, rejeitaram, e fizeram testes dos quais participaram Jack Nicholson, Dustin Hoffman, Warren Beatty, Martin Sheen e James Caan, com Caan sendo escolhido. Coppola se recusou a aceitar, e, após muito negociar, conseguiu que Pacino fosse escolhido para o papel, mas com duas condições: que Caan interpretasse o irmão mais velho de Michael, Sonny Corleone, e que Robert De Niro, que interpretaria o capanga Paulie, fosse liberado para filmar a comédia The Gang That Couldn't Shoot Straight, para a qual Pacino já havia sido reservado. Curiosamente, Pacino quase acabaria causando a demissão de Coppola com apenas uma semana de filmagens, ao se ferir durante as gravações a atrasar as cenas de Michael. Brando não atrasaria nenhuma das suas.

Muitos outros atores famosos fariam testes para o filme. Para o advogado Tom Hagen, participariam dos testes Bruce Dern, Paul Newman, Steve McQueen e Robert Duvall, ficando o papel com esse último. Sylvester Stallone faria um teste para os papéis de Carlo Rizzi, que acabaria ficando com Gianni Russo, e de Paulie, que, após De Niro ser desligado do filme, ficaria com Johnny Martino. Anthony Perkins faria o teste para Sonny, e Mia Farrow para o papel da namorada de Michael, Kay Adams, que acabaria ficando com Diane Keaton. Coppola também aproveitaria para empregar grande parte de sua família: seu pai, o compositor Carmine Coppola, trabalharia na trilha sonora do filme, composta por Nino Rota; sua mãe, Italia Coppola, faria uma ponta como figurante; seus filhos, Gian-Carlo e Roman, seriam os filhos de Tom Hagen; sua irmã, a atriz Talia Shire (que alguns anos mais tarde seria conhecida como a Adrian de Rocky), ficaria com o papel de Connie, a filha mais nova de Vito Corleone; e até mesmo a filha recém-nascida do diretor, Sofia Coppola, participaria, representando o filho de Connie na cena do batizado do mesmo.

O filme é bastante fiel ao livro, deixando de fora apenas os flashbacks da infância e juventude de Vito Corleone e do passado de alguns personagens. Embora o "poderoso chefão" (ou "padrinho") do título seja Vito, o personagem principal da história é seu filho, Michael Corleone. Michael (Al Pacino) é o terceiro dos quatro filhos de Vito (Marlon Brando), e o mais parecido com o pai: o mais velho, Sonny (James Caan), tem temperamento difícil e violento; o segundo, Fredo (John Cazale), é um bon vivant; e a mais nova, Connie (Talia Shire), é tímida e submissa. A princípio, Michael não deseja envolvimento com os negócios de seu pai, se alistando no exército e namorando a professora Kay Adams (Diane Keaton), mas, quando Vito Corleone se recusa a "dar proteção" a um esquema de venda de drogas de outro mafioso, Virgil Sollozzo (Al Lettieri), um atentado o deixa entre a vida e a morte, e força Michael a assumir os negócios da família.

Além do núcleo central, que conta ainda com a mama Carmela Corleone (Morgana King), a Família Corleone inclui o advogado e consiglieri Tom Hagen (Robert Duvall), filho adotivo de Vito e Carmela; os caporegimes ("chefes" que se reportam diretamente ao Don, que é o "chefão") Peter Clemenza (Richard S. Castellano) e Salvatore Tessio (Abe Vigoda); os capangas Paulie Gatto (Johnny Martino), Willi Cicci (Joe Spinell), Rocco Lamponi (Tom Rosqui) e Luca Brasi (Lenny Montana); o guarda-costas de Michael, Al Neri (Richard Bright); o cantor Johnny Fontane (Al Martino), afilhado (mesmo) de Vito; e Carlo Rizzi (Gianni Russo), amigo de Sonny que acaba se casando com Connie. Seus aliados incluem Moe Greene (Alex Rocco), dono de cassinos nos quais o dinheiro dos Corleone está investido; e Don Tommasino (Corrado Gaipa), antigo amigo de Vito que ainda vive na Sicília. Além de Sollozzo, o principal antagonista do filme é o Capitão McCluskey (Sterling Hayden), policial corrupto que o protege.

Coppola estourou, e muito, o orçamento do filme: a Paramount lhe deu 2 milhões de dólares, ele gastou 6,5 milhões. Felizmente, para o diretor e para o estúdio, O Poderoso Chefão acabaria sendo a pedra de salvação que ambos esperavam, se tornando um gigantesco sucesso de público e crítica: lançado em 15 de março de 1972, o filme renderia 135 milhões de dólares só nos Estados Unidos, destronando ...E O Vento Levou como filme mais assistido de todos os tempos (recorde que duraria pouco, já que seria batido apenas três anos depois por Tubarão). Talvez mais impressionante que esses números seja o fato de que o filme estrearia em apenas cinco salas em todo o país; conforme a propaganda boca a boca levava mais e mais gente para os cinemas, mais salas se interessariam em exibi-lo.

O filme também seria universalmente aclamado pela crítica, que usou termos desde "o melhor filme de todos os tempos" até "o ápice da indústria cinematográfica". O filme seria escolhido para preservação na Biblioteca do Congresso norte-americano por seu valor cultural, histórico e estético, e seria eleito o segundo melhor de todos os tempos (perdendo apenas para Cidadão Kane) pelo renomado American Film Institute. Uma das frases de Vito Corleone - "vou lhe fazer uma oferta que ele não poderá recusar" - seria eleita como uma das mais famosas da história do cinema, e entraria para o rol das expressões linguísticas norte-americanas. Igualmente famosas se tornariam a cena da cabeça de cavalo na cama do empresário que não quis aceitar a tal oferta - na qual seria usada uma cabeça de cavalo real, o que motivaria inúmeros protestos de ativistas dos direitos dos animais, mesmo após Coppola ter garantido que a cabeça viera de um cavalo morto por uma fábrica de ração, e não de um morto especificamente para as filmagens - e a de Don Corleone acariciando um gato enquanto trata de seus negócios - gato esse que não estava no roteiro, mas, como estava passeando pelo set, foi pego por Brando e incorporado à cena. Ambas as cenas estão hoje dentre as mais influentes e parodiadas do cinema - praticamente todo vilão tem um gato, e várias cenas cômicas colocam cabeças de variados bichos nas camas dos desafetos dos protagonistas.

O Poderoso Chefão seria indicado a 10 Oscars, ganhando o de Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator (para Marlon Brando, cuja performance também foi universalmente aclamada), sendo indicado ainda para Melhor Diretor (perdido para Bob Fosse, de Cabaré), Melhor Figurino, Melhor Edição, Melhor Som, e três prêmios de Melhor Ator Coadjuvante (Al Pacino, James Cann e Robert Duvall, que perderam para Joel Grey, também de Cabaré). Curiosamente, o filme também seria indicado para Melhor Trilha Sonora Original, mas seria desclassificado após uma alegação de que Nino Rota teria plagiado uma música da trilha do filme Fontanella, de 1958 - Rota, pelo menos, ganharia um Grammy de Melhor Trilha Sonora para Filme ou Especial de TV. Também curiosamente, Marlon Brando se recusou a receber o Oscar que ganhou, enviando em seu lugar uma índia vestida com roupas típicas, que, ao receber a estatueta, fez um discurso contra a exploração e retratação estereotipada dos nativos norte-americanos no cinema. Al Pacino também boicotaria a cerimônia de premiação, alegando não concordar com sua indicação para Ator Coadjuvante - segundo ele, ele aparecia durante mais tempo no filme do que Brando, então o justo seria indicá-lo ao prêmio principal.

O impacto do filme nos cofres da Paramount seria tão grande que Charles Bluhdorn, o presidente da Gulf-Western, companhia que controlava o estúdio, procuraria Coppola ainda em 1972 e o pediria para fazer uma sequência. Até então, sequências eram vistas como apenas uma forma de ganhar um dinheirinho a mais com o sucesso de um filme - mais ou menos como ainda é hoje, diga-se de passagem - e Coppola não concordava com a forma com a qual elas eram produzidas, muitas vezes com personagens ou enredo completamente diferentes, mantendo apenas algumas linhas gerais para que o público identificasse a sequência como tal. Coppola respondeu que só aceitaria produzir uma continuação caso ela fosse verdadeiramente isso: um prolongamento da história do primeiro filme, como se ambos fossem um único filme dividido em dois. Bluhdorn estava tão animado com o desempenho do primeiro filme, e tão confiante de que a sequência não tinha como falhar, que deu carta branca a Coppola para ele fazer o que quisesse com ela. Diferentemente do que ocorrera da primeira vez, agora ele poderia trabalhar com liberdade, sem pressão e sem críticas dos produtores.

Bem, com apenas uma crítica. Coppola insistiria em chamar o filme de O Poderoso Chefão - Parte II (The Godfather - Part II), em consoância com sua ideia de que o filme fosse uma verdadeira continuação do anterior. Mas os executivos da Paramount acreditavam que isso iria afastar o público, que não estaria interessado em ver uma nova parte de uma história que já conhecia - as sequências, na época, aliás, evitavam ser numeradas, usando nomes como "O Filho de Fulano", "A Volta de Ciclano" etc. Levando isso em conta, os executivos da Paramount queriam que o filme se chamasse Don Michael, mas Coppola bateu o pé, e, com o o apoio de Bluhdorn, conseguiu manter o "parte II" no título.

Desde que foi convencido a trabalhar na sequência, Coppola já tinha em mente o que desejava fazer: aproveitar as cenas não utilizadas do livro, que mostravam a infância e juventude de Vito Corleone, enquanto, simultaneamente, contava a história da ascensão profissional e declínio moral de Michael como novo Don Corleone, após a morte de seu pai. Como essa segunda parte não existia no livro, e para não desviar demais do enredo original, Coppola convidaria mais uma vez Mario Puzo para escrever o roteiro com ele, o que dava à sequência uma sensação de continuidade não somente com o primeiro filme, mas também com o próprio livro.

Esse roteiro, porém, não agradaria a Al Pacino, que não gostou do desenvolvimento do personagem, considerando-o incoerente com o que vimos de Michael no primeiro filme, e ameaçaria não assinar para a continuação, principalmente porque já tinha outros projetos em vista. Coppola passaria uma noite em claro reescrevendo várias cenas, e as apresentaria para aprovação do ator na manhã seguinte. Pacino gostaria das mudanças, assinaria o contrato, e a produção, finalmente, começaria.

Pacino não seria o único problema de Coppola com o elenco: a princípio, Peter Clemenza seria um dos personagens principais da sequência, mas o ator que o intrepretou no filme anterior, Richard Castellano, não entrou em acordo com a Paramount - além de exigir um salário maior, ele ainda queria poder escrever suas próprias falas, algo que os produtores consideraram absurdo. Coppola acabaria optando por excluir Clemenza da história, substituindo-o por um novo personagem, Frank Pentangeli. Uma cena de flashback que requeria participação de James Caan e Marlon Brando também estava prevista no roteiro; Brando aceitaria participar da cena sem problemas, mas Caan exigiria receber apenas por essa cena o mesmo salário que recebeu por todo o filme anterior. Após muitas negociações, os executivos da Paramount concordaram com o pagamento, e aí, no dia das filmagens, foi Brando quem não apareceu, alegando ter sido mal tratado pelos executivos. Coppola acabaria reescrevendo a cena na hora, para que ela pudesse estar no filme sem maiores contratempos.

Para interpretar Vito Corleone nas cenas de flashback, Coppola escolheria Robert De Niro, que, após ficar de fora do primeiro filme, seria elogiadíssimo por sua atuação em Era Uma Vez na América. De fato, tanto De Niro quanto Pacino teriam atuações elogiadíssimas, com De Niro ganhando o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante e Pacino sendo indicado ao de Melhor Ator - no que, para muitos, foi uma das maiores injustiças da história do prêmio, já que, mesmo com a que muitos consideram até hoje a melhor atuação de sua carreira, Pacino perderia o Oscar para Art Carney, de Harry, o Amigo de Tonto.

Além do jovem Vito Corleone, as cenas de flashback contam com uma jovem Carmela (Francesca de Sapio), um jovem Clemenza (Bruno Kirby) e um jovem Tessio (John Aprea), além dos novos personagens Don Ciccio (Giuseppe Sillato), chefe da máfia siciliana que manda matar o pai de Vito; e Genco Abbandando (Frank Sivero), amigo de infância de Vito e primeiro consiglieri dos Corleone. Na linha do tempo normal, ambientada três anos após o final do primeiro filme, retornam Michael, Kay, Connie, Fredo, Hagen, Carmela, Neri e Cicci, e temos os novos personagens Frank Pentangeli (Michael V. Gazzo), caporegime que acredita que Michael está lhe traindo; Hyman Roth (Lee Strasberg), empresário que planeja abrir cassinos em Cuba (na época do filme praticamente uma colônia dos Estados Unidos, como Porto Rico) em parceria com os Corleone; Johnny Ola (Dominic Chianese), guarda-costas de Roth; e o Senador Pat Geary (G.D. Spradlin), membro de uma comissão que investiga os negócios dos Corleone. Vale citar duas curiosidades do elenco: as participações de Danny Aiello, que se tornaria famoso por fazer vários filmes de máfia, em um pequeno papel; e de Troy Donahue como um namorado de Connie chamado Merle Johnson - a curiosidade ficando por conta de que Merle Johnson era o nome de batismo de Troy Donahue.

O Poderoso Chefão - Parte II estrearia em 20 de dezembro de 1974 e, embora não fosse tão bem sucedido nas bilheterias quanto seu antecessor, seria um novo sucesso de público e crítica: com orçamento de 13 milhões de dólares, renderia 47,5 milhões só nos Estados Unidos, e seria, mais uma vez, universalmente aclamado. Muitos críticos o considerariam superior ao anterior, e outros, compartilhando da visão de Coppola, considerariam que os dois filmes formam, na verdade, um grande épico, que seria o maior de toda a história do cinema. O Poderoso Chefão - Parte II se tornaria a primeira sequência a ganhar um Oscar de Melhor Filme, e, ironicamente, acabaria popularizando o hábito de numerar as sequências, até então malvisto pelos estúdios.

O filme ganharia um total de seis Oscars: além dos de Melhor Filme e Melhor Ator Coadjuvante, renderia mais um Oscar de Melhor Roteiro Adaptado para Coppola e Puzo, e finalmente daria o de Melhor Diretor a Coppola, além de ganhar os de Melhor Direção de Arte e de Melhor Trilha Sonora Original - mesmo com a controversa canção supostamente plagiada por Rota fazendo parte mais uma vez da trilha. No total, o filme receberia 11 indicações, sendo indicado ainda nas categorias Melhor Ator (Al Pacino), Melhor Atriz Coadjuvante (Talia Shire), Melhor Figurino e duas outras vezes na de Melhor Ator Coadjuvante (Lee Strasberg e Michael V. Gazzo). Assim como o primeiro filme, a Parte II seria selecionada para preservação pela Biblioteca do Congresso.

Com o sucesso do segundo, a Paramount tentaria convencer Coppola a escrever um terceiro, no qual Michael morresse ao final, para fechar uma trilogia. O diretor, que acreditava que a história já estava completa com os dois filmes, não aceitou, e o estúdio também não teve coragem de entregar o projeto a outro. A proposta, porém, permaneceria de pé durante anos, com a Paramount de vez em quando procurando Coppola, que sempre recusava. Em 1982, entretanto, Coppola lançaria O Fundo do Coração, filme que custaria 26 milhões de dólares e renderia apenas 636 mil. A maior parte do prejuízo ficaria com o próprio diretor, que investiu muito de seu dinheiro na produção, esperando recuperá-lo com a bilheteria, o que jamais aconteceu. As dificuldades financeiras o acompanhariam durante toda a década de 1980, até que, se vendo sem saída, ele decidiu aceitar a proposta. A pré-produção começaria em 1989, e a ideia de Coppola era lançar o filme em 1991, mas a Paramount, querendo lucrar com os feriados de fim de ano, pediu para que ele o aprontasse para dezembro de 1990.

A Paramount já tinha um roteiro pronto caso decidisse filmar a terceira parte sem Coppola, escrito por Dean Riesner em 1979, centrado no filho de Michael, Tony, que seria um agente da CIA e descobriria planos dos Corleone para assassinar um ditador da América Central. Coppola achou esse roteiro inadmissível, e chamou mais uma vez Puzo para ajudá-lo a escrever uma história ambientada 18 anos após os eventos do segundo filme, com um Michael Corleone maduro, tentando legalizar seus negócios e fazer as pazes com sua mulher e filhos, mas se vendo impedido de sair da trama que ele mesmo criou. Al Pacino, Talia Shire e Diane Keaton aceitaram repetir seus papéis mais uma vez, mas Robert Duvall se recusou, alegando achar injusto que o salário de Pacino fosse quatro vezes maior que o dos demais atores veteranos. Com a recusa de Duvall, Coppola teve de reescrever partes do roteiro, para fazer com que Tom Hagen tivesse morrido antes dos eventos do terceiro filme e dar à Família Corleone um novo advogado.

Um dos maiores problemas com o elenco do filme foi o papel de Mary Corleone, filha de Michael. Inicialmente, o papel ficaria com Rebecca Schaeffer, jovem estrela da série My Sister Sam, que seria assassinada por um fã ainda durante a pré-produção do filme. Julia Roberts, uma estrela em ascensão na época, seria procurada, mas acabaria recusando ao ser convidada por Steven Spielberg para interpretar a Fada Sininho em Hook: A Volta do Capitão Gancho. Madonna procurou a Paramount e se disse interessada no papel, mas Coppola argumentou que ela não convenceria como uma menina de 18 anos. Winona Ryder chegou a assinar contrato, mas se demitiu pouco antes do início das filmagens, alegando "motivos pessoais". O diretor, então, decidiria entregar o papel a sua própria filha, Sofia Coppola. A performance de Sofia seria muito criticada, e o diretor seria acusado de nepotismo. Coppola se irritaria imensamente com as acusações, garantiria que Sofia se subeteu a todos os testes, sendo aprovada pela produção e direção de elenco, e declararia que seus críticos estavam usando sua filha para atingi-lo. De qualquer forma, a atuação de Sofia seria bem riunzinha mesmo, tanto que ela só faria mais três pequeninos papéis em três outros filmes (um deles o Episódio I de Star Wars, onde faz uma das aias da Rainha Amidala) antes de se dedicar de vez a uma bem sucedida carreira de diretora, dirigindo sucessos como As Virgens Suicidas, Encontros e Desencontros e Um Lugar Qualquer.

No filme, Michael Corleone (Pacino) tem por volta de 50 anos, está diabético, cansado da vida de Don e planeja legalizar os negócios da família para poder se reconciliar com a esposa, Kay (Keaton), de quem se divorciou, e com os filhos, Tony (Franc D'Ambrosio), que o despreza e quer ser cantor lírico, e Mary (Sofia Coppola), que o idolatra e dirige a Fundação Vito Corleone, que faz doações para as crianças pobres, mas é acusada de servir como esquema de lavagem de dinheiro. Por suas frequentes doações à igreja, Michael é procurado pelo Arcebispo Gilday (Donal Donnelly), presidente do Banco do Vaticano, que está cheio de dívidas. Michael vê na ocasião a oportunidade perfeita para legalizar seus negócios, comprando as ações do Banco e usando-as para adquirir uma imobiliária multimilionária. Os pecados do passado de Michael parecem persegui-lo, porém, principalmente quando um mafioso rival, Joey Zasa (Joe Mantegna), o acusa de trair seus antigos colegas ao não querer incluí-los no negócio.

Além de Connie (Shire), agora uma mulher segura de si e conselheira do irmão, e Al Neri (Richard Bright), ainda guarda-costas de Michael, o filme traz de volta Johnny Fontane (Al Martino) e Don Tommasino (agora interpretado por Vittorio Duse). Personagens novos incluem Don Altobello (Eli Wallach), antigo amigo de Vito Corleone, agora aposentado; B.J. Harrison (George Hamilton), novo advogado dos Corleone; Grace Hamilton (Bridget Fonda), repórter que busca conseguir um furo de reportagem com a Família; o Cardeal Lamberto (Raf Vallone), aliado dos Corleone no Vaticano; Andrew Hagen (John Savage), filho de Tom, que decidiu seguir a carreira eclesiástica, se ordenando padre; um assassino profissional contratado para matar Michael, conhecido apenas como Mosca (Mario Donatone), e seu filho (Michele Russo); Frederick Keinszig (Helmut Berger), diretor do Banco do Vaticano; e Vinny Mancini (Andy Garcia), filho fora do casamento de Sonny, que planeja se tornar o novo Don Corleone, se envolve romanticamente com Mary e é acolhido por Michael para aprender os negócios da família por insistência de Connie. Vinny tem o temperamento bastante parecido com o de Sonny, e, com Michael doente e cansado, assume para si o papel que o próprio Michael assumiu quando Vito ficou entre a vida e a morte.

O Poderoso Chefão - Parte III (diz a lenda que Coppola planejava chamá-lo de "A Morte de Michael Corleone", mas a Paramount exigiu que fosse The Godfather - Part III) estrearia em 25 de dezembro de 1990, com orçamento de 54 milhões e bilheteria de 66 milhões de dólares (na verdade, curiosos 66.666.062 dólares). A crítica, dessa vez, ficou dividida, sendo o ponto mais controverso o de que era impossível entender a história sem se ter visto os dois anteriores - o que, na minha opinião, é até bastante normal para uma "parte III". Mesmo com a crítica dividida, o filme seria indicado a sete Oscars: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Andy Garcia), Melhor Fotografia, Melhor Edição, Melhor Direção de Arte e Melhor Canção. Não ganharia nenhum.

Aparentemente, a saga de Michael Corleone se encerraria definitivamente. Mas nunca se sabe, a parte III não conta o que aconteceu com Michael durante sua velhice, Al Pacino está com 73 anos, e Hollywood anda bem interessada em sequências tardias...

0 enfiaram o nariz:

Postar um comentário