segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O Nome da Rosa

Acabei hoje de ler O Nome da Rosa. O filme eu já tinha visto umas duas vezes: da primeira, era muito novo e não entendi nada. Da segunda, já era mais velho e entendi um pouco mais. Lendo o livro, cheguei à conclusão de que entender tudo é impossível.

Brincadeira. Mas, de fato, não é uma leitura fácil. É preciso prestar bastante atenção, se virar com um monte de trechos em latim, e ainda ter paciência para passar por parágrafos que ocupam uma página inteira - às vezes mais de uma - sendo compostos de descrições super detalhadas do quê os personagens estão vendo ou pensando. Quem reclama que Tolkien era detalhista nunca leu Umberto Eco.

Mesmo com essa dificuldade toda, confesso que adorei o livro. E também gosto muito do filme, que me traz boas recordações da pré-adolescência. Diante disso, resolvi aproveitar o timing e escrever esse post, falando um pouco sobre essa tão interessante obra.

um dos posters mais sensacionais da história do cinemaO Nome da Rosa foi o primeiro romance escrito pelo italiano Umberto Eco, lançado em 1980 pela Editora Bompiani com o título de Il Nome Della Rosa. Eco, entretanto, não era um autor iniciante, que um dia escreveu uma obra-prima que algum editor adorou e decidiu publicar: aos 48 anos, já era um famoso semiótico, ensaísta, crítico literário e professor de filosofia e literatura, com uma dúzia de livros de não-ficção publicados, quando decidiu se aventurar pelo terreno da ficção. Ou quase, já que O Nome da Rosa é um romance histórico, misturando personagens e acontecimentos fictícios a reais.

Nascido em 5 de janeiro de 1932 na cidade de Alexandria, Piemonte, norte da Itália, educado em um colégio salesiano e especialista em Idade Média, Eco decidiria ambientar seu romance também nesse período - embora, para que o cenário se adequasse melhor ao principal personagem que tinha criado, o tenha ambientado, à contragosto, no século XIV, que não era sua especialidade, preferindo estudar os séculos XII e XIII - e usá-lo para discutir temas como histórias dentro de histórias, ambiguidade linguística e, é claro, semiótica - o estudo dos signos e dos processos pelos quais esses signos são interpretados e dotados de significado.

O personagem principal da história é Guilherme de Baskerville, um monge franciscano, ex-inquisidor, discípulo de Roger Bacon e estudioso da semiótica, que busca sempre usar o raciocínio lógico e a observação para solucionar questões cujas respostas não sejam a um primeiro momento aparentes - vaidoso, aliás, Guilherme faz questão de exibir sua linha de raciocínio sempre que possível, para demonstrar aos outros como conseguiu encontrar uma saída quando nenhuma parecia possível: já no primeiro capítulo, ao encontrar um grupo de cavalariços perseguindo um cavalo fugitivo pela neve, ele se usa de deduções através de fatos como a direção das pegadas e a preocupação do celeireiro, líder do grupo, para deduzir qual é o cavalo que eles procuram, mesmo sem nunca tê-lo visto. Guilherme teria sido inspirado, adivinhem, em Sherlock Holmes, tanto que é inglês e natural da cidade de Baskerville - que remete a O Cão dos Baskervilles. O nome Guilherme teria sido escolhido por Eco em homenagem a Guilherme de Ockham (que é até citado por Guilherme de Baskerville no livro), filósofo e também frade franciscano, criador do princípio da Navalha de Occam, que costuma ser traduzido como "se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor".

Guilherme é enviado por sua ordem à abadia de um mosteiro beneditino nas montanhas do norte da Itália para tomar parte em uma discussão teológica entre representantes do Papa João XXII e do Imperador Ludovico, visando estabelecer se o voto de pobreza, pregado pelos franciscanos, deve ser seguido pelas demais ordens da Igreja. Ao chegar à abadia, porém, Guilherme se depara com uma morte, a do monge Adelmo de Otranto, que a maioria dos monges julga ter sido suicídio, mas que, por suas características, pode também ter sido homicídio. Atraído pelo mistério, Guilherme pede ao Abade para investigar o caso, e acaba se vendo envolvido em uma trama de traições, mortes e dissimulações - tudo isso enquanto ainda deve se preparar e discursar no embate teológico, que acontecerá poucos dias após sua chegada.

Guilherme não é o único personagem do livro baseado em uma figura real: o monge cego Jorge de Burgos é uma homenagem ao escritor argentino Jorge Luis Borges. Assim como Jorge, Borges amava os livros, viveu uma vida de celibato e, já idoso, perdeu a visão. Alguns outros personagens, como o inquisidor Bernardo Gui, que chega à abadia junto com a delegação enviada pelo Papa, são figuras reais do tempo no qual os acontecimentos do livro ocorreram, como é comum haver em romances históricos. Um personagem que não é real nem - até onde se saiba - inspirado em ninguém, mas mesmo assim merece ser citado, é Salvatore, monge de aparência hedionda e que fala seu próprio idioma, resultado da mistura de vários dialetos dos locais onde viveu. Salvatore não pertence à ordem do mosteiro e é considerado um proscrito, mas é amigo do celeireiro, e os demais monges o deixam viver dentro de seus muros por pena.

Quem narra os acontecimentos que se sucedem durante a visita de Guilherme é Adso de Melk, noviço beneditino que o franciscano adotou como seu pupilo - alguns conjecturam que o nome Adso remete a "Watson", parceiro inseparável de Holmes e narrador de suas aventuras. O livro é a narração que Adso, já um senhor idoso e à beira da morte, faz dos eventos que aconteceram quando ele, ainda adolescente, acompanhou seu mestre à abadia. Eco, aliás, se utiliza de um recurso narrativo interessante: durante um prefácio, explica que o livro, na verdade, seria uma transcrição de uma cópia da tradução do manuscrito original de Adso, que chegou a ter em mãos mas jamais reencontrou. Cinco níveis separam, portanto, a história original da que chega até o leitor: Eco (1) transcreve de memória o copista (2), que copiou o que o tradutor (3) traduziu do que o Adso velho (4) se lembrou da época em que era jovem (5). Fica implícito, portanto, que nem todos os eventos se sucederam exatamente como estão no livro, visto que detalhes podem ter sido modificados no meio desse caminho.

Outro detalhe interessante sobre o livro é a forma como ele é estruturado: além do prefácio e do epílogo, a história se divide em sete dias, que correspondem aos sete dias que a visita de Guilherme e Adso à abadia durou. Cada um desses dias é subdividido em capítulos nomeados de acordo com os nomes em latim para as partes do dia - matinas, noa, completas, e outros. Em cada capítulo, portanto, Adso narra o que ocorreu em uma determinada parte de um determinado dia. Por conta disso, os capítulos são irregulares, com os mais curtos ocupando apenas uma página e os mais longos, quase uma centena.

Finalmente, há o detalhe do título: Eco diz ter pensado primeiro em chamar seu romance de A Abadia do Delito, mas desistiu porque tal título poderia atrair apenas os fãs de romances policiais, e sua obra é bem mais que isso. Buscando um título genérico, que não revelasse nenhum detalhe da história, ele decidiria por Adso de Melk, mas seu editor, achando-o genérico demais, desaconselhou. Nesse momento, O Nome da Rosa teria vindo quase que por acidente. Tal título alude a um ditado em latim, stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus, algo como "da rosa original resta o nome, e apenas o nome", visto como uma alusão ao fato de que toda a beleza do passado teria desaparecido, restando apenas o relato que fizeram dela (há uma discussão de que, no ditado original, o sujeito não era "rosa", mas "Roma", mas isso não vem ao caso). Se o título foi uma escolha consciente ou não, só Eco sabe, mas caiu como uma luva, e ainda gerou uma discussão muito bem-vinda.

O Nome da Rosa foi um grande sucesso de crítica e público, e ajudou a alavancar a carreira internacional de Eco, sendo traduzido para mais de 30 idiomas. E o que acontece com livros de grande sucesso? Viram filmes. No caso, curiosamente, não um filme de Hollywood, mas uma co-produção envolvendo Itália, França e Alemanha Ocidental, mas falada em inglês para ter apelo junto ao público internacional, e com o elenco contando com vários nomes conhecidos.

Quem primeiro teve a ideia de fazer o filme foi o diretor francês Jean-Jacques Annaud, que, na época, só havia dirigido três (Preto e Branco a Cores, Coup de Tête e A Guerra do Fogo), mas mais tarde acrescentaria ao seu currículo Sete Anos no Tibet e Círculo de Fogo (o que tem o Jude Law, não o dos robôs gigantes). Após ler o livro, Annaud procurou Eco e lhe disse que somente uma pessoa no mundo poderia dirigir a versão para o cinema de sua obra: ele (ele Annaud, não ele Eco). Aparentemente, Eco acreditou e negociou os direitos da adaptação.

Annaud levaria quatro anos pré-produzindo o filme, supervisionando um roteiro escrito por Andrew Birkin, Gérard Brach, Howard Franklin e Alain Godard, e fazendo várias viagens entre a Europa e os Estados Unidos para formar o elenco, que ele queria que fosse multi-étnico e multinacional. Através de testes, ele escolheria Christian Slater, na época com 16 anos, para o papel de Adso, e, por sugestão dos produtores (cinco, ao todo), F. Murray Abraham, que obtivera grande destaque dois anos antes interpretando Salieri em Amadeus, seria convidado para o papel de Bernardo Gui. Os produtores também sugeririam Sean Connery para o papel de Guilherme de Baskerville, mas Annaud alegaria que o personagem já era uma combinação de Sherlock Holmes com Guilherme de Ockham, e adicionar 007 à mistura talvez fosse demais. Eco também não se mostrou favorável à sugestão, mas, sem conseguir encontrar um ator que considerasse apropriado para o papel, Annaud acabaria aceitando testar Connery, que o convenceria com sua interpretação. Além de Connery, Slater e Abraham, o filme conta com o francês Michael Lonsdale (o Hugo Drax de 007 contra o Foguete da Morte) como o Abade; o russo Feodor Chaliapin Jr. (de Veludo Negro) como Jorge de Burgos; e Ron Perlman (o Hellboy) como Salvatore, em seu terceiro papel no cinema.

Com orçamento de 18,5 milhões de dólares, o filme estrearia em 24 de setembro de 1986 nos Estados Unidos, chegando no mês seguinte à Alemanha Ocidental e Itália, e em dezembro ao resto da Europa. Nos Estados Unidos o filme seria um grande fracasso, rendendo apenas 7,2 milhões, mas na Europa ele faria bastante sucesso, rendendo 77 milhões de dólares, um César (o "Oscar francês") de Melhor Filme Estrangeiro e dois BAFTAs (o mais importante prêmio da Grã-Bretanha), de Melhor Ator para Sean Connery e de Melhor Maquiagem. O filme também seria um grande sucesso de crítica no mundo todo, com muitos elogios e poucas reclamações - a maior parte delas quanto ao roteiro e ao ritmo do filme.

O Nome da Rosa foi co-produzido pela alemã Constantin Film, pela francesa Les Films de Ariane Cristaldi e pela italiana RAI, e distribuído pela Fox (embora, por alguma razão, o DVD brasileiro seja da Warner). Originalmente, a distribuição seria feita pela Columbia, mas, quando Connery foi escolhido para o filme, o estúdio desistiu, alegando que a carreira do ator escocês estava na descendente, não sendo adequado investir em uma produção protagonizada por ele. Ironicamente, embora realmente já estivesse há muitos anos sem emplacar um sucesso, Connery começaria a se reeguer justamente com O Nome da Rosa, atuando, em seguida, em Highlander e Os Intocáveis - pelo qual ganharia o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.

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