segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Darkstalkers

Semana passada, quando fiz o post sobre O Monstro da Lagoa Negra, mencionei o jogo Darkstalkers, que, para quem não sabe, é uma espécie de Street Fighter com monstros clássicos como lutadores. Eu gostava muito de Darkstalkers, gastei muitas fichas com os jogos da série, e, de vez em quando, até já pensei em fazer um post sobre eles aqui no átomo. Por alguma razão, nunca o fiz - até hoje, quando, motivado pelo post da semana passada, resolvi finalmente escrevê-lo.

Lançado em 1994, Darkstalkers: The Night Warriors (algo como "perseguidores das trevas: os guerreiros da noite", o que parece até título daqueles filmes que passam de madrugada na Band; em japonês, o jogo possui o singelo título de Vampire) foi a primeira tentativa da Capcom de criar um jogo de luta que não pertencesse à série Street Fighter. Ao invés de criar um novo elenco de lutadores do zero, a Capcom optaria por usar caras conhecidas, dando novos nomes aos monstros clássicos do cinema e do folclore, e inventando uma razão qualquer para que eles brigassem entre si.

Como é comum nos jogos de luta, essa razão até que nem importava tanto: resumindo, os Darkstalkers não são nativos de nosso mundo, e sim de uma dimensão paralela chamada Demon World, onde todos os habitantes são monstros. O Demon World é governado há milênios por Pyron, um elemental do fogo, mas o vampiro Demitri acha que já é hora de os monstros terem um novo governante. Ao desafiar Pyron, ele o convence a colocar seu título em jogo, criando um torneio do qual o vencedor será o novo governante. Uma das condições de Pyron, porém, é que o torneio ocorra em campo neutro - no caso, o planeta Terra.

No melhor estilo Street Fighter II, cada um dos dez monstros à disposição do jogador representa um país (o que, na minha cabeça, não faz o menor sentido, já que eles não são nativos da Terra, e sim do Demon World): representando a Romênia, temos o vampiro Demitri Maximoff; representando a Inglaterra, o lobisomem Jon Talbain (cujo nome original em japonês é Gallon, e o nome em inglês é inspirado no do pai do protagonista do clássico filme de 1941 O Lobisomem, da Universal, que se chama John Talbot); representando a Alemanha, o golem (nome técnico do Monstro de Frankenstein) Victor Von Gerdenheim; representando a Austrália, o zumbi roqueiro Lord Raptor (cujo nome em japonês, bem mais legal, é Zabel Zarock); representando a Escócia, a súcubo Morrigan Aensland; representando o Egito, a múmia do faraó Anakaris (que é homem; curiosamente, todo mundo que eu conheço se refere a ele como "a Anakaris", não sei se por ser uma múmia, palavra feminina, ou pelo nome soar feminino); representando o Japão, o fantasma do samurai Bishamon; representando o Brasil, Rikuo, uma criatura inspirada no Monstro da Lagoa Negra (cujo nome em japonês é Aulbath, e o nome em inglês é em homenagem a Ricou Browning, que, como vimos semana passada, interpretava o Monstro da Lagoa Negra nas cenas subaquáticas); representando o Canadá, o pé-grande Sasquatch; e, representando os Estados Unidos, Felicia, uma nekomimi (criatura do folclore japonês que é uma mistura de uma menina adolescente e um gato, aparentemente incluída no jogo só para que o mesmo não ficasse sem nenhum representante dos Estados Unidos). O jogo também conta com dois chefes, o robô Huitzil (que em japonês se chama Phobos e luta no México) e o próprio Pyron (que, segundo o jogo, luta no planeta Hellstorm).

Usando a placa CPS-2, que mais tarde se tornaria famosa pelos crossovers, como X-Men vs Street Fighter, Darkstalkers expandiria alguns conceitos introduzidos em Super Street Fighter II Turbo, e ainda aproveitaria para trazer novidades mais tarde incluídas nos demais jogos de luta da Capcom. Foi nesse jogo, por exemplo, que estrearam o bloqueio no ar, a capacidade de se caminhar abaixado, os contra-ataques e os infames chain combos, combinações de golpes comuns e especiais que, se realizadas corretamente, impediam que o oponente se defendesse. Assim como em Super Street Fighter II Turbo, cada personagem possui uma "barra de super", que vai enchendo conforme o jogador executa golpes ou é acertado por golpes do adversário. Uma vez cheia, a barra de super permite que o jogador use versões superpoderosas dos especiais de seus personagens, chamados ES Specials, ou que use o Super Combo, um único especial que gasta toda a barra de uma só vez, mas devasta a energia do oponente se o acertar. Diferentemente do tradicional, a barra de super de Darkstalkers esvazia sozinha se o jogador não usar o Super Combo alguns segundos depois que ela se encher totalmente; a intenção era não permitir que o jogador "guardasse" o Super Combo para mais tarde.

Outra característica de Darkstalkers que mais tarde seria adotada nos demais jogos de luta da Capcom era o estilo de seus gráficos: ao invés de tentar o realismo, como em Super Street Fighter II, a Capcom optaria por gráficos grandes, exagerados e coloridos, usando um estilo de desenho animado que renderia muitos elogios. Após repeti-lo com igual sucesso em X-Men: Children of the Atom, a Capcom decidiria adotá-lo em Street Fighter Alpha, e, mais tarde, nos crossovers.

Darkstalkers seria um grande sucesso, sendo eleito segundo melhor jogo de 1994 pela revista Video Games & Computer Entertainment (atrás apenas de Tekken) e melhor jogo de luta em 2D do ano pela IGN. Em 1996, o jogo seria lançado para Playstation, sendo essa sua única versão caseira, mas, antes disso, ganharia uma sequência.

Por alguma razão, ao invés de Darkstalkers 2 ou algo do tipo, a Capcom optaria por inverter título e subtítulo e chamar o segundo jogo de Night Warriors: Darkstalkers' Revenge (no Japão, o jogo se chamaria Vampire Hunter, o "caçador de vampiros"). Lançado em 1995, o jogo também só ganharia uma única versão caseira, lançada para o Sega Saturn em 1996.

Não engolindo a derrota sofrida no último torneio, Pyron decide destruir a Terra para se vingar. Talvez se sentindo responsáveis, os Darkstalkers decidem impedi-lo. Mas, além de lidar com Pyron, os Darkstalkers também terão em seu encalço dois caçadores de monstros, Donovan Baine e Hsien-Ko, que querem aproveitar que eles vêm à Terra para destruí-los. Donovan é um dhampir, criatura do folclore do leste europeu meio-humano, meio-vampiro, fruto do relacionamento entre um pai vampiro e uma mãe humana, que possui alguns poderes misteriosos, como a capacidade de canalizar espíritos que aumentam suas habilidades. Donovan luta acompanhado de Anita, uma garotinha órfã que ele salvou de ser morta acusada de bruxaria. Já Hsien-Ko (cujo nome em japonês é Lei-Lei) é uma jiang shi (literalmente, "cadáver que pula"), espécie de zumbi do folclore chinês.

Ao todo, Night Warriors conta com 14 personagens à disposição do jogador - os 10 do jogo original, Donovan, Hsien-Ko e mais Huitzil e Pyron, que agora podem ser escolhidos normalmente, apesar de Pyron ainda ser o último chefe para todos, inclusive para ele mesmo. Os monstros já não representam um país cada um; embora Hsien-Ko seja evidentemente chinesa, não é feita qualquer menção sobre a nacionalidade de Donovan ou Anita. Dentre as novidades na jogabilidade, há a possibilidade de o jogador escolher entre bloqueio normal ou automático, e a possibilidade de se guardar a barra de super para depois - os Super Combos, aliás, agora se chamam EX Specials, e cada personagem possui dois deles. Os gráficos também tiveram algumas pequenas modificações, ficando mais nítidos e com animações mais fluidas.

Em 1997, o jogo completaria uma trilogia com o lançamento de Darkstalkers 3 (que, no Japão, se chama Vampire Savior: The Lord of Vampire, assim em inglês mesmo). Desta vez, Jedah Dohma, um demônio, acorda de um sono de mil anos e decide destruir o Demon World para reconstrui-lo, acreditando que está tudo errado e que somente ele pode consertar as coisas. Como era de se esperar, os Darkstalkers decidem impedi-lo.

O jogo trazia 15 personagens à disposição do jogador: Demitri, Talbain, Victor, Raptor, Morrigan, Anakaris, Bishamon, Rikuo, Sasquatch, Felicia, Hsien-Ko e quatro novos: Jedah; Q-Bee, rainha de uma raça de monstros que se parecem com abelhas humanoides; Lilith, a irmã pré-adolescente de Morrigan; e B.B. Hood (cujo bizarro nome em japonês é Buletta), uma caçadora de monstros que se parece com a Chapeuzinho Vermelho e esconde todo tipo de armas em sua cestinha. Pela primeira vez, o jogo também trouxe personagens secretos: Dark Talbain, a versão maligna de Jon Talbain (e, obviamente, chamado Dark Gallon em japonês), e Oboro Bishamon (chamado Shin Bishamon em japonês), uma versão mais poderosa de Bishamon. Ambos podem ser apenas enfrentados, não escolhidos. Donovan, Huitzil e Pyron ficaram de fora, não aparecendo no jogo.

Mais uma vez, o jogo introduziu uma novidade que acabaria sendo usada em diversos outros jogos de luta: ao invés de as lutas serem disputadas em melhor de três rounds, sendo vencedor o lutador que primeiro ganhar dois, cada personagem possui duas barras de energia. Quando a primeira barra de um lutador se esgota, a luta faz uma pausa e recomeça, mas a energia do outro lutador não recarrega; o primeiro lutador cujas duas barras se esgotarem perde a luta. Outra novidade do jogo era a Dark Force, um estado que, quando ativado, conferia mais força nos ataques, ou até mesmo novos ataques, durante 6 segundos.

Depois do terceiro jogo, a Capcom, curiosamente, optaria por lançar não um quarto jogo, e sim sequências para o segundo e o terceiro jogos. Ambas as sequências seriam lançadas em 1997, ambas exclusivamente para arcades, e ambas exclusivamente no Japão. A primeira dessas sequências seria Vampire Hunter 2, que tem os mesmos personagens e cenários de Night Warriors, mas a mesma jogabilidade de Darkstalkers 3, com duas barras de energia e Dark Force, mais Dark Talbain e Oboro Bishamon como personagens secretos.

A segunda sequência foi Vampire Savior 2, uma nova versão de Darkstalkers 3 que contava com a presença de Donovan, Huitzil e Pyron no lugar de Talbain, Rikuo e Sasquatch. Como o jogo não tinha Talbain, também não tinha Dark Talbain, mas, em compensação, tinha dois personagens secretos novos, que podiam ser selecionados pelo jogador, chamados Marionette e Shadow. Ambos possuíam mecânicas de jogo curiosas: Marionette, que, como o nome sugere, é uma marionete possuída por um espírito, transforma o jogo em uma série de Mirror Matches - ao invés de escolher um personagem e enfrentar todos os demais com ele, você deverá jogar sempre com o mesmo personagem que o oponente, ou seja, se a primeira luta é contra Victor, você joga com Victor, se a segunda é contra Q-Bee, você joga com Q-Bee, e assim sucessivamente. Já se escolher o espectro Shadow (cujo nome em japonês é Shadow Soul), o jogador poderá escolher um personagem, mas deverá sempre usar na luta seguinte sempre o personagem que acabou de derrotar - se a primeira luta for contra Victor, na segunda luta jogará com Victor, se essa segunda for contra Q-Bee, na terceira jogará com Q-Bee, e assim por diante.


Darkstalkers 3 seria lançado para Playstation e Saturn em 1998. Curiosamente, essa versão era na verdade, uma mistura do Darkstalkers 3 dos arcades e Vampire Savior 2: todos os 18 personagens estavam à disposição do jogador (Demitri, Talbain, Victor, Raptor, Morrigan, Anakaris, Bishamon, Rikuo, Sasquatch, Felicia, Huitzil, Pyron, Donovan, Hsien-Ko, Jedah, Q-Bee, Lilith e B.B. Hood) e Dark Talbain, Oboro Bishamon, Shadow e Marionette apareciam como secretos, podendo, os quatro, serem escolhidos.

Darkstalkers 3 ainda ganharia uma nova versão em 2004, lançada para PSP e Dreamcast - a versão PSP se chamaria Darkstalkers Chronicle: The Chaos Tower (Vampire Chronicle: The Chaos Tower no Japão), enquanto a do Dreamcast, lançada exclusivamente no Japão, tinha o nome esquisito de Vampire Chronicle for Matching Service. Nessa nova versão estão presentes todos os personagens, cenários e golpes de todos os jogos da série, com o jogador, ao escolher um personagem, podendo escolher com qual de suas versões irá jogar - Demitri, por exemplo, tem três versões, a de Darkstalkers, a de Night Warriors e a de Darkstalkers 3, enquanto Donovan só tem duas, a de Night Warriors e a de Vampire Savior 2. Todos os finais, entretanto, são idênticos aos de Darkstalkers 3, não importando qual versão do personagem você escolha.

No ano seguinte, 2005, seria lançada uma coletânea para o Playstation 2, exclusivamente no Japão. Vampire: Darkstalkers Collection era uma reunião de cinco jogos: Vampire, Vampire Hunter, Vampire Hunter 2, Vampire Savior (a versão dos arcades) e Vampire Savior 2. Se o jogador cumprir certas condições ao terminar os jogos, poderia ainda liberar "Arranged Versions" dos jogos Vampire Savior, Vampire Hunter 2 e Vampire Savior 2, que traziam personagens extras - a versão Arranged de Vampire Savior 2, por exemplo, é igual à versão Playstation/Saturn de Darkstalkers 3 - e um novo personagem secreto, Dee, uma versão maligna e com amnésia de Donovan.

Nesse ano de 2013 seria lançada mais uma coletânea e mais recente título da série, Darkstalkers Resurrection (Vampire Resurrection no Japão), para Playstation 3 e Xbox 360. Essa coletânea é uma reunião de Night Warriors e Darkstalkers 3, que conta com novos gráficos em alta definição e widescreen, músicas remasterizadas, um modo para jogar online e vários itens, como arte exclusiva, que podem ser liberados de acordo com o desempenho do jogador. A característica mais bizarra do jogo, porém, é o spectator mode, no qual o jogador joga como se estivesse em frente a uma máquina de arcades, com o gabinete e parte dos botões aparecendo na tela da TV.

Darkstalkers ainda é um jogo bastante popular; apesar disso, as tentativas de sua equipe em produzir um quarto jogo para a série têm sido infrutíferas. Desde 2010, o produtor Yoshinori Ono tenta convencer a Capcom a deixá-lo produzir um quarto Darkstalkers, mas sempre ouve desculpas do tipo "somente quando um milhão de fãs pedirem" ou "somente se você provar que teremos retorno". Ono tentou até mesmo usar o sucesso do relançamento da franquia Street Fighter, que começou com Street Fighter IV, como argumento de que um relançamento de Darkstalkers seria igualmente bem sucedido, mas o máximo que conseguiu foi autorização para produzir e lançar Darkstalkers Resurrection. As baixas vendas da coletânea deram ainda mais munição para a Capcom em suas negativas de um título inédito.

Enquanto esperam por seu novo título, que aparentemente nunca virá, os Darkstalkers - especialmente Morrigan e Felicia - fazem participações em jogos da Capcom que contem com personagens de mais de um universo, como SNK vs Capcom e Marvel vs Capcom 3.

1 enfiaram o nariz:

CLAUDIE disse...

Gostei muito deste texto, entro em seu blog e admiro a forma que você escreve. Darkstalkers é meu jogo de luta favorito, por lembrar muito a minha infância.

4:37 PM

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