segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O Monstro da Lagoa Negra

Recentemente (pra falar a verdade, há uns quatro meses), eu comprei uma coleção de filmes clássicos de monstros da Universal. Drácula, Frankenstein, O Lobisomem e companhia, todos em suas versões originais em preto-e-branco remasterizados para o deleite dos fãs. E aí, enquanto eu assistia, fiquei com pena do Monstro da Lagoa Negra.

Não porque ele morra no filme nem nada disso, mas simplesmente porque, ao contrário de seus amigos mais famosos, o Monstro da Lagoa Negra não recebe muita atenção na cultura pop. Todo mundo quer ser vampiro, lobisomens estão cada vez mais bonitões, zumbis povoam a TV, até uma ou outra múmia aparece por aí de vez em quando. Enquanto isso, o Monstro da Lagoa Negra, relegado a segundo plano, no máximo tem uma filha estudando no Monster High.

Portanto, hoje, para corrigir essa injustiça, e já que eu já falei aqui várias vezes sobre vampiros e lobisomens, decidi fazer um post sobre o Monstro da Lagoa Negra. Segurem o fôlego.

Assim como os vampiros, os lobisomens e as múmias que voltam à vida, o Monstro da Lagoa Negra - cujo "nome oficial" é Gill-Man, algo como o "homem com guelras" - tem sua origem em uma antiga lenda. Nesse caso, porém, não era uma lenda europeia, e sim sul-americana, de uma raça de homens-peixe que habitaria a bacia amazônica - ou seja, você que achava que o Rikuo dos Darkstalkers lutava no Brasil só para que o jogo tivesse um personagem brasileiro, fique sabendo que é bem provável que ele realmente tenha nascido aqui. Diferentemente da maioria dos demais filmes clássicos de monstros da Universal, entretanto, o Monstro da Lagoa Negra não é adaptação de um romance famoso - Drácula é adaptação da obra homônima de Bram Stocker, Frankenstein da de Mary Shelley e O Homem Invisível da de H.G. Wells, por exemplo - e sim uma criação do produtor William Alland.

No início da década de 1940, Alland participava de uma festa durante as filmagens de Cidadão Kane, no qual ele interpretava o repórter Jerry Thompson, e começou a conversar, casualmente, com o diretor de fotografia mexicano Gabriel Figueroa. Conversa vai, conversa vem, Figueroa mencionou a Alland a lenda da região amazônica, segundo a qual uma raça de criaturas meio-homens, meio-peixes ainda habitaria as águas do Rio Amazonas. Alland achou a história interessante, e tomou várias notas sobre a lenda.

Dez anos depois, Alland reencontrou essas notas, e decidiu entrar em contato com o escritor Maurice Zimm, encomendando-o uma história baseada nessa lenda. Zimm escreveria uma história inspirada em A Bela e a Fera, na qual, durante uma expedição científica, uma bela jovem é sequestrada por uma dessas criaturas, devendo ser salva por seu valoroso pretendente. Alland ofereceu a sinopse à Universal, já famosa por seus filmes de monstros, que a adorou, contratando Harry Essex e Arthur Ross para escrever um roteiro baseado nela. Com o roteiro pronto e Alland como produtor, o estúdio escolheria Jack Arnold para dirigir o filme, graças a seu sucesso com outra produção de terror, A Casa de Cera.

Ambientado no Brasil, com direito a bandeira brasileira e placas escritas em português (mas filmado na Flórida), o filme começa com uma expedição arqueológica na amazônia, liderada pelo Dr. Carl Maia (Antonio Moreno), que descobre o que pode ser um elo perdido entre as criaturas terrestres e as aquáticas, um fóssil de uma mão aparentemente humana, mas com membranas entre os dedos, e de aspecto aquático. Animado com a descoberta, o Dr. Maia entra em contato com um amigo, o ictiólogo Dr. David Reed (Richard Carlson), que trabalha em um oceanário na Califórnia. Reed consegue convencer seu chefe, o Dr. Mark Williams (Richard Denning) a financiar uma nova expedição à amazônia, com o objetivo de encontrar o restante do esqueleto ou novos fósseis do mesmo tipo de criatura.

A expedição, composta por Maia, Reed, Williams, outro cientista, Dr. Edwin Thompson (Whit Bissell), e a namorada de Reed, a técnica Kay Lawrence (Julie Adams), por quem Williams também tem uma queda, parte para a amazônia, onde aluga o barco Rita, do Capitão Lucas (Nestor Paiva) e seus ajudantes Zé (Bernie Golzier) e Chico (Henry Escalante) para se encontrar com os dois ajudantes do Dr. Maia, Tomás (Perry Lopez) e Luís (Rodd Redwing) - e eu juro que todos esses nomes em português estão na versão original, não tendo sido inventados na tradução - que ficaram tomando conta do local onde o fóssil foi descoberto. Ao chegar lá, porém, eles descobrem que Tomás e Luís foram mortos por uma criatura desconhecida, e, após muito procurar, que não existem novos fósseis no local. Reed, contudo, encontra evidências de erosão, e deduz que os fósseis podem ter caído em um riacho próximo e sido levados até a Lagoa Negra, onde o riacho deságua.

O Rita, então, parte em direção à Lagoa, onde Reed e Williams mergulham em busca de fósseis. Sem que a tripulação saiba, porém, eles estão sendo o tempo todo observados por uma criatura da mesma raça do fóssil encontrado por Maia, que também se apaixona por Kay (aparentemente, a mãe dela não tinha talco), decidindo sequestrá-la e levá-la para seu refúgio subaquático. E as providências que a criatura toma para isso são bloquear a única passagem que o Rita tem para sair da Lagoa Negra e começar a matar toda a sua tripulação. Cabe a Reed salvar Kay e deter a criatura antes que seja tarde demais.

Para criar o visual da criatura, a Universal contrataria uma animadora da Disney, Millicent Patrick. Infelizmente, seu trabalho não seria creditado, e, durante anos, quem receberia todos os créditos pela aparência do monstro seria o maquiador Bud Westmore, que era responsável, apenas, por vestir o ator com a roupa de criatura, tendo a roupa em si sido criada por Jack Kevan, de O Mágico de Oz, exceto a cabeça, criação de Chris Mueller Jr. Dois atores vestiram a roupa de monstro durante as filmagens: Ben Chapman era o responsável por "interpretar" a criatura no seco, enquanto o mergulhador Ricou Browning fazia o monstro nas sequências subaquáticas, as quais também dirigiu. Browning se sentia à vontade com a roupa de monstro, mas o mesmo não se podia dizer de Chapman, que morria de calor quando vestido com ela, e preferia passar o tempo em que não estava filmando dentro do lago no qual eram realizadas as filmagens ou tomando banhos de mangueira. Chapman também não enxergava direito com a máscara da criatura, e chegou a bater a cabeça de Adams em uma pedra enquanto a carregava em seu colo pelo refúgio do monstro.

O Monstro da Lagoa Negra (no original, Creature from the Black Lagoon) seria lançado em 5 de março de 1954, e faria um imenso sucesso, rendendo a impressionante marca (pelo menos para um filme de terror) de um 1,3 milhão de dólares. Curiosamente, seria filmado e lançado em 3D, que na época estava na moda pela primeira vez - e nem foi naquele 3D do óculos vermelho e azul, e sim em 3D polarizado, formato semelhante ao de hoje - tendo sido o segundo filme da Universal lançado nesse formato (o primeiro foi A Ameaça Veio do Espaço, lançado no ano anterior). Como exibir em 3D era muito complicado, e poucos cinemas tinham a tecnologia necessária - eram precisos dois projetores exibindo o filme simultaneamente e em perfeita sincronia, em uma tela especialmente tratada com prata, em uma sala na qual todas as cadeiras deviam estar de frente para ela, sendo que era comum na época salas em semicírculo, com cadeiras em ângulo de 45o com a tela - a Universal prepararia também uma versão 2D, para que mais gente pudesse ver o filme. Também é interessante notar que, ao contrário dos outros filmes clássicos de monstros em preto-e-branco, e talvez por causa do 3D, O Monstro da Lagoa Negra foi filmado em widescreen.

O sucesso do filme deu origem àquilo que todos nós já sabemos: sequências. A primeira delas, A Revanche do Monstro (Revenge of the Creature, no original) seria lançada em 13 de maio de 1955. Também filmada em 3D, seria o único filme em 3D de todo o ano de 1955, e entraria para a história como a primeira sequência de um filme em 3D a ser filmada também em 3D. O filme também se tornou famoso por ter sido o primeiríssimo da carreira de Clint Eastwood, que nele interpretou um técnico de laboratório, sem sequer ter sido creditado.

Também dirigido por John Arnold, o segundo filme é uma sequência direta do primeiro, com a criatura - que, aparentemente, não morreu no outro filme - sendo capturada e levada para um oceanário na Flórida, onde será estudada pelo psicólogo de animais Dr. Clete Ferguson (John Agar) - que, além de se chamar Clete e ser psicólogo de animais, ainda acredita poder se comunicar com a criatura - e por sua assistente, a bela estudante de ictiologia Helen Dobson (Lori Nelson). Como era de se esperar, a criatura se apaixona por Helen, foge, a sequestra e a leva para o oceano - ignorando o fato de que, no primeiro filme, vivia em água doce - sendo perseguida por Clete e por Joe Hayes (John Bromfield), técnico também apaixonado por Helen e designado pelo oceanário para ser o tratador da criatura.

Mais uma vez, as cenas da criatura sob a água seriam dirigidas por Ricou Browning, que vestia sua roupa durante as gravações; para as gravações no seco, porém, quem vestiu a roupa foi Tom Hennesy, já que não conseguiram convencer Ben Chapman a repetir o papel. O filme conta ainda com uma participação de Nestor Paiva repetindo o papel do Capitão Lucas.

A Revanche do Monstro não seria bem recebido pela crítica, que o consideraria inferior ao original em todos os quesitos, mas ainda faria um bom sucesso de público, rendendo 1,1 milhão de dólares, o que motivaria a Universal a fazer um novo filme para fechar uma trilogia, chamado À Caça do Monstro (que, em inglês, tem o criativo título de The Creature Walks Among Us, algo como "a criatura está entre nós").

No terceiro filme, dirigido por John Sherwood, a criatura (mais uma vez interpretada na água por Ricou Browning, mas agora interpretada no seco por Don Megowan) foge para os Everglades, região pantanosa da Flórida, onde é capturada pelos cientistas Dr. William Barton (Jeff Morrow) e Dr. Thomas Morgan (Rex Reason) e por seu assistente Jed Grant (Gregg Palmer). O Dr. Barton percebe que a criatura está trocando de pele e deixando de ter guelras para respirar por pulmões, e decide vesti-la com roupas humanas e incorporá-la à sociedade. Seu plano é arruinado, porém, quando Jed dá em cima de sua esposa, Marcia Barton (Leigh Snowden). Furioso, o Dr. Barton mata o assistente, e coloca a culpa na criatura, que, revoltada por ser acusada de um crime que não cometeu, decide destruir a cidade e matar todo mundo.

Lançado em 26 de abril de 1956, À Caça do Monstro seria o único da trilogia a não ser filmado em 3D, o que no fim se mostrou uma decisão acertada, já que o filme foi um fracasso tanto de público quanto de crítica. Diante do insucesso, a Universal considerou que seu Gill-Man já dera o que tinha que dar e encerrou sua carreira.

Em 1974, para comemorar os 20 anos do filme original, e para aproveitar que os filmes em 3D estavam na moda pela segunda vez, O Monstro da Lagoa Negra foi relançado nos cinemas. Desta vez, porém, o filme não era exibido em seu 3D polarizado original - para o qual já não devia ter nenhuma sala apropriada nos cinemas dos Estados Unidos - e sim no formato anáglifo - esse sim o do óculos de uma lente vermelha e a outra azul, formato no qual os filmes em 3D eram produzidos nas décadas de 1970 e 1980. Além de o formato anáglifo ser considerado tecnicamente inferior ao polarizado, a conversão do filme não foi bem feita, e o resultado não agradou ao público, resultando em poucas semanas de cartaz para o relançamento.

Assim como os outros monstros clássicos da Universal, o Monstro da Lagoa Negra se tornaria um ícone pop - não tão famoso quanto vampiros e lobisomens, mas ainda assim famoso, já que todos os filmes, séries e desenhos que tratam de monstros clássicos têm um ou outro monstro aquático que lembra a criatura do filme. Em 1992, a Midway lançaria uma máquina de pinball inspirada no filme, e em 2009 estrearia nos Universal Studios, acreditem ou não, um musical, que ficaria em cartaz até março de 2010.

Desde 1982 se fala na produção de um remake, que, ao longo dos anos, teve como diretores John Carpenter (O Enigma do Outro Mundo), Peter Jackson (O Senhor dos Anéis), Ivan Reitman (Os Caça-Fantasmas) e Guillermo del Toro (O Labirinto do Fauno). Em 1999, com o sucesso de A Múmia com Brendan Fraser, o remake era tido praticamente como certo, mas acabou cancelado por falta de um roteiro apropriado - um deles, acreditem ou não, previa duas criaturas, uma boa e a outra má, com a boa sendo caçada pela Marinha dos Estados Unidos enquanto a má espalhava destruição, e outro previa que a criatura era resultado de companhias farmacêuticas poluindo o Rio Amazonas, trazendo uma forte mensagem ecológica. O remake ainda não foi totalmente descartado pela Universal, que, em 2012, chegou a anunciar o título de The Black Lagoon e marcar a data de lançamento para maio de 2014 - até hoje, porém, a produção ainda nem começou.

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