segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Nikola Tesla

Eu não tenho muitos ídolos - e, como já devo ter dito por aqui, costumo brincar que, os que tenho, são todos do mais alto escalão. Isso ocorre porque ídolos, por definição, são pessoas que, na opinião particular de quem os toma como tal, se excedem de forma tamanha que se tornam bem mais que somente "preferidos" - Johnny Depp, por exemplo, é um dos meus atores preferidos, mas Schwarzenegger é um dos meus ídolos. Tomando essa definição por base, acho muito engraçado pessoas que têm dez ou doze "ídolos", como se qualquer cantor ou ator de quem essa pessoa gostasse automaticamente se tornasse um ídolo. Eu, pessoalmente, prefiro manter esse número baixo, idolatrando apenas aqueles que, além de ocuparem o lugar especial no topo da minha lista de preferidos, ainda tenham feito alguma coisa durante suas vidas que realmente os faça merecer se destacar em meio aos demais, suficiente para que sejam incluídos também em uma outra e bem mais seleta lista. Que, talvez seja desnecessário dizer, não é imutável: alguns deslizes são até perdoáveis, embora não sem alguma dor no coração - pô, Schwarzenegger, você tinha mesmo que trair sua esposa com a empregada? - mas outros podem fazer com que o sujeito seja expelido da minha lista de ídolos, às vezes voltando para minha lista de preferidos, às vezes até saindo de lá também - durante minha pré-adolescência, por exemplo, eu adorava Mariah Carey, mas hoje, por motivos vários, a acho até meio ridícula. Muitas vezes, não é nem um deslize por parte do ex-ídolo que faz com que ele perca seu status, apenas a constatação de que eu já estive empolgado com aquela pessoa, mas hoje vejo que essa empolgação não era suficiente para destacá-lo dos demais preferidos.

Esse intrólito grande e meio confuso foi para dizer que eu já falei de quase todos os meus ídolos aqui no átomo. Essa semana, percebi que faltava um - aliás, dois, mas o outro é meu pai, que não é uma celebridade e talvez não seja um bom assunto para um post. O que não é meu pai, e é o tema do post de hoje, não é um ator, escritor ou cantor, e sim um cientista: Nikola Tesla.

Minha admiração por Tesla vem desde a época do ensino médio, quando fiz, no CEFET, o curso de técnico em eletrônica. Tesla nem era um personagem tão presente, mas li uma ou duas coisas sobre sua vida e seus inventos que fizeram com que ele ganhasse meu respeito instantaneamente. Lá nos primórdios do átomo, quando os posts eram mais experimentais, até pensei em fazer um sobre ele (se não me engano, logo depois de ter feito um sobre H.R. Giger), mas a falta de informações satisfatórias para coletar (na época, não existia Wikipédia) me desanimou. Ao sentir vontade de falar sobre ele, até pensei por um momento que talvez, no átomo atual, não coubesse um post sobre um cientista, mas como ultimamente eu tenho voltado a falar sobre coisas obscuras como horseball, Gen 13 e Parodius, cheguei à conclusão de que um post sobre Tesla não seria nada de mais.

Tesla nasceu em 10 de julho de 1856 na cidade de Smiljan, que na época fazia parte da Áustria, mas hoje fica na Croácia - entretanto, como tanto seu pai quanto sua mãe eram sérvios, ele não era austríaco nem croata, e sim sérvio também. Quarto de cinco filhos (tendo um irmão mais velho e três irmãs), seu pai, Milutin, era padre ortodoxo, e sua mãe, Duka, filha de um padre ortodoxo. Duka Mandic Tesla, aliás, nunca recebeu uma educação formal, mas tinha um talento nato para criar ferramentas que a ajudavam no serviço doméstico, consertar máquinas e decorar poemas. Tesla creditava sua memória eidética e sua criatividade à genética e influência da mãe, que sempre estimulou seus filhos a pensar e a aprender.

Aos 6 anos, um ano após um acidente com um cavalo que matou seu irmão - e do qual ele levou a culpa, já que testemunhas afirmaram que ele assutara o cavalo - Tesla se mudaria com a família para a cidade de Gospic (também ex-Áustria atual Croácia), onde havia uma igreja para a qual seu pai fora transferido. Lá Tesla começaria sua vida escolar, tendo como matérias preferidas alemão, aritmética e religião. Aos 14 anos, ele decidiria ir estudar em Karlovac (que hoje também fica na Croácia, mas na época era do Império Austro-Húngaro, fundado em 1867), onde seria aceito no Real Ginásio Superior, uma das escolas de ensino médio de maior prestígio do Império.

Foi em Karlovac que Tesla decidiu se tornar um cientista, empolgado com as aulas de um de seus professores de física, dado a experimentos criativos e que costumava usar os equipamentos do laboratório para impressionar seus alunos. Mas Tesla também impressionava seus professores: capaz de fazer cálculos complexos de cabeça, ele frequentemente era acusado de ter se valido de alguma trapaça para conseguir suas frequentes boas notas, que conseguia mesmo quando as condições eram desfavoráveis - pouco após o início das aulas, por exemplo, Tesla contrairia malária, e ficaria um longo tempo de cama, estudando apenas com livros e anotações que seus colegas o forneciam. As notas de Tesla eram tão boas e seu desempenho nas aulas tão produtivo que os diretores do colégio decidiram lhe conceder uma rara honra: o curso durava quatro anos, mas Tesla o concluiria em três, com todas as honras possíveis.

O pai de Tesla, porém, não queria que ele se tornasse um cientista, e sim um padre, conforme a tradição familiar. De certa forma, foi um ato divino que possibilitou que ele escolhesse sua própria carreira: quando Tesla terminou o colégio em Karlovac, aos 17 anos, decidiria não voltar a Gospic, e sim a Smiljan; pouco após chegar, Tesla contrairia cólera, ficando de cama à beira da morte durante nove meses. Em um momento de desespero, seu pai prometeu a Deus que, caso seu filho se recuperasse daquela enfermidade, o matricularia na melhor faculdade de engenharia do Império.

Assim, em 1875, Tesla começaria seus estudos na Universidade de Tecnologia de Graz (cidade que, até hoje, fica na Áustria). Durante seu primeiro ano, Tesla não faltaria a nenhuma aula, tiraria a nota máxima em todos os testes e trabalhos e ainda passaria em nove provas - sendo que as regras da universidade permitiam que ele fosse aprovado passando em apenas cinco. Essa dedicação renderia uma carta de elogios do Reitor à sua família, na qual dizia que o jovem Tesla era uma "estrela de primeira grandeza". As teorias revolucionárias de Tesla frequentemente o colocavam em conflito com seus professores, com algumas se provando certas, e outras jamais sendo testadas porque os professores não admitiam que um simples aluno os corrigisse.

Infelizmente, durante seu período na Universidade, Tesla sucumbiria às más influências e se viciaria em jogo - uma vez, ele chegaria a perder todo o dinheiro que sua família havia separado para financiar seus estudos, e teve de continuar jogando até recuperá-lo. Por conta desse vício, quando estava no último ano, em 1878, Tesla perdeu o prazo para as provas, e pediu uma extensão. Como foi incapaz de fornecer um motivo justo, o pedido foi negado, e ele jamais se formou. Envergonhado, não contou nada a sua família, e fugiu para a cidade de Maribor (hoje na Eslovênia), onde arrumou um emprego como desenhista técnico. Muitos de seus amigos acreditavam que ele tinha morrido - alguns reconheceram como seu um corpo encontrado no Rio Mur, em Graz - mas seu pai o procurou até encontrá-lo, chegando a ir a Maribor para tentar convencê-lo a voltar para casa. Tesla não aceitou, teve um colapso nervoso e abandonou o emprego, passando a viver na rua.

Tesla seria preso por vagabundagem e reencaminhado a Gospic em março de 1879; um mês depois, seu pai faleceria de ataque cardíaco. Desolado, Tesla não sabia que rumo tomar na vida, então dois de seus tios, para ajudá-lo, juntaram dinheiro para que ele se mudasse para Praga (hoje capital da República Tcheca, mas na época também parte do Império Austro-Húngaro) e se matriculasse na Universidade Carolina, que aceitaria parte das matérias que ele cursou em Graz. Infelizmente, Tesla não seria aceito, pois, além de não saber nada de grego nem de tcheco, dois pré-requisitos fundamentais para cursar essa Universidade, ainda chegaria a Praga depois de o prazo para as inscrições ter se encerrado. Após muito insistir, Tesla seria admitido como ouvinte e cursaria várias matérias, mas sem poder receber notas de seus professores.

Cursando como ouvinte, porém, Tesla conheceria o dono da Companhia Telefônica de Budapeste, e decidiria se mudar, em 1881, para a atual capital da Hungria (que, evidentemente, na época também fazia parte do Império Austro-Húngaro) para trabalhar como desenhista técnico no Escritório Central de Telégrafos da Companhia. Em poucos meses, ele passaria a eletricista-chefe, e sugeriria melhorias que aumentariam a funcionalidade e a potência de seus equipamentos. Seu trabalho chamaria a atenção da Continental Edison Company, de propriedade de Thomas Edison (também conhecido como "o inventor da lâmpada"), que, no ano seguinte, o convidaria para morar em Paris (que sempre ficou na França) e trabalhar aperfeiçoando também seus equipamentos. Seu trabalho seria tão bom que ele seria convidado por Edison para trabalhar como seu assistente em Nova Iorque, nos Estados Unidos.

Tesla se mudaria para a América em 1885. Como uma maré de azar parece acompanhá-lo toda vez que ele se muda de cidade, houve um motim no navio, durante o qual quase todos os seus pertences foram roubados e ele quase foi jogado ao mar. A princípio, ele trabalharia como engenheiro elétrico para a Edison Machine Works, mas sua criatividade e habilidade logo fariam com que ele passasse a ser requisitado para solucionar os problemas mais complicados da empresa. Em 1885, ele seria convidado a redesenhar os geradores de corrente contínua usados pela empresa, e diria ser capaz de aumentar sua eficiência e torná-los mais econômicos. Edison, então, teria prometido 50 mil dólares caso ele conseguisse. Tesla trabalharia dia e noite durante meses, cumprindo o prometido, mas, ao cobrar o pagamento, Edison diria que "estava brincando" e que os europeus não entendiam o humor americano. Revoltado, Tesla pediria demissão.

Tesla decidiria usar o dinheiro que ganhou enquanto trabalhava para Edison para abrir sua própria empresa, a Tesla Electric Light and Manufacturing, que construía lâmpadas de arco voltaico e comutadores a dínamo, ambos usando projetos próprios de Tesla, os primeiros que ele patenteou nos Estados Unidos. Tesla também desejava que a companhia construísse geradores e transmissores de corrente alternada, que ele considerava melhor que a corrente contínua, usada até então, mas seus sócios na empresa eram contra, acreditando que seria um gasto de dinheiro inútil. Após muita discussão, os sócios se aproveitaram de uma brecha no estatuto da empresa para demiti-lo, sem pagar um único tostão. Sem dinheiro, Tesla teve de trabalhar durante o inverno de 1886 e 1887 como limpador de neve. Seus projetos de geradores de corrente alternada, porém, chamaram a atenção de Alfred Brown, presidente da instituição financeira Western Union. Brown e o advogado Charles Peck propuseram uma nova sociedade a Tesla, para que ele fundasse a Tesla Electric Company, empresa dedicada exclusivamente à fabricação de geradores e transmissores de energia elétrica. Foi trabalhando para essa empresa que Tesla criou seu primeiro gerador de corrente alternada, patenteado em maio de 1888.

Ao contrário do que muita gente pensa, Tesla não "inventou" nem "descobriu" a corrente alternada, conceito que já vinha sendo estudado há algum tempo - outros cientistas, inclusive, já haviam construído modelos de geradores, como o italiano Galileo Ferraris, que construiu um e demonstrou seu funcionamento em 1885. Tesla, porém, foi o primeiro a construir um gerador em tamanho real que funcionasse como deveria, algo que muitos engenheiros da época tentavam sem sucesso. Um desses engenheiros era Oliver Schallenberger, que trabalhava para a famosa companhia Westinghouse Electric & Manufacturing, que tentava há anos patentear um gerador de corrente alternada que funcionasse. Schallenberger viu uma demonstração do gerador de Tesla no Instituto Americano de Engenharia Elétrica, patrocinada pela revista Electrical World, e contou ao presidente da companhia, George Westinghouse, que ofereceu a Tesla 60 mil dólares em dinheiro pelo projeto e mais 2,50 dólares por cada gerador vendido pela Westinghouse, além de um emprego com salário de dois mil dólares por mês como consultor na filial de Pittsburgh.

Tesla aceitaria a proposta, mas só trabalharia em Pittsburgh durante o ano de 1889. Tentando criar um sistema de corrente alternada para alimentar os bondes da cidade, Tesla frequentemente se viu em conflito com os demais engenheiros da companhia, que discordavam de suas ideias, e, eventualmente, optaram por um gerador de corrente contínua, alegando que o gerador de Tesla, que só trabalhava se fosse mantida uma velocidade constante, não servia para veículos. Depois disso, Tesla deixaria o cargo e usaria o dinheiro que a Westinghouse lhe pagava pelos geradores para criar um laboratório em Nova Iorque, no qual passaria a trabalhar em dois de seus mais famosos projetos, a hoje chamada Bobina de Tesla e a transmissão de energia elétrica sem fios (hoje conhecida como Efeito Tesla), a qual conseguiu demonstrar pela primeira vez em 1891. Nesse mesmo ano, ele conseguiria a cidadania norte-americana.

No ano seguinte, Tesla receberia um convite de alguns cientistas europeus para ir a Paris visitá-los; após o encontro, ele decidiu retornar a Gospic e visitar sua mãe, que, doente, faleceria algumas horas após sua chegada. Tesla ficaria extremamente abalado com a morte da mãe, e ele mesmo cairia doente, tendo de permanecer em Gospic para se recuperar. Ao retornar aos Estados Unidos, ele começaria a trabalhar em outra teoria, a de que seria possível "colher" eletricidade do espaço sideral ao invés de gerá-la aqui na Terra.

Em 1893, ocorreria em Chicago uma Feira em homenagem aos 400 anos da chegada de Cristóvão Colombo às Américas, com diversões, concertos e palestras. A Westinghouse havia ganhado a licitação para fornecer a eletricidade que alimentaria a Feira, e, decidindo usar seus geradores de corrente alternada, chamaria Tesla para conduzir uma espécie de show, no qual ele demonstraria as maravilhas, a confiabilidade e a segurança da corrente alternada em relação à corrente contínua. Mostrando pela primeira vez um outro lado seu que ficaria famoso, o de showman, Tesla usaria máquinas que lançariam raios pela sala, acenderiam lâmpadas a metros de distância de qualquer fio e até mesmo fariam um ovo de cobre ficar de pé com seu magnetismo - experimento que, por causa da Feira, ficaria conhecido como "Ovo de Colombo".

A Feira de 1893 marcaria o início do que ficaria conhecido como "Guerra das Correntes", com, de um lado, a Westinghouse promovendo a corrente alternada, do outro, Thomas Edison promovendo a corrente contínua. Como a corrente alternada rapidamente se tornava a mais popular, sendo implementada em cada vez mais cidades dos Estados Unidos, Edison seria quase levado à falência, sendo obrigado a vender sua companhia para o banqueiro J.P. Morgan. A Westinghouse, por sua vez, não estava em situação melhor, já que devia uma fortuna a Tesla pelo uso de seus projetos e pelo tal contrato que lhe dava direito a 2,50 dólares por cada gerador vendido - pois agora eles já eram vendidos na casa dos milhares. Westinghouse chamou Tesla para negociar, e disse que não tinha como manter o contrato, pois, se a coisa continuasse como estava, logo ele iria à falência, e Tesla teria que negociar seus geradores sozinho, convencendo-o a aceitar um pagamento final de 216 mil dólares para que a companhia se livrasse dos pagamentos por gerador vendido.

Com esse dinheiro, Tesla começaria a trabalhar para tentar identificar e criar uma aplicação para um fenômeno até então desconhecido, uma energia invisível que danificava muitos dos filmes que ele guardava em seu laboratório - os hoje chamados raios-X. Tesla é considerado por muitos como a primeira pessoa a conseguir tirar uma radiografia - acidentalmente, enquanto tentava tirar uma foto de Mark Twain em janeiro de 1895 - mas todas as suas máquinas de raios-X e radiografias seriam perdidas em um incêndio ocorrido em seu laboratório em março daquele mesmo ano. Somente em novembro de 1895 o físico alemão Wilhelm Röntgen publicaria seu trabalho sobre a descoberta dos raios-X (nome que escolheu por serem uma nova e desconhecida forma de raios), passando a ser considerado seu descobridor oficial. Ao ler as publicações de Röntgen, em 1896, Tesla teria novas ideias para suas máquinas, conseguindo criar uma máquina de radiografias muito mais potente que a de Rötgen - tão potente que queimava a pele de quem estava sendo radiografado, razão pela qual acabaria sendo descartada. Muitos dos projetos de Tesla, porém, são usados até hoje no campo dos raios-X.

Paralelamente ao estudo dos raios-X, Tesla se dedicaria ao estudo das ondas de rádio, com a intenção não de transmitir música, mas de criar máquinas radiocontroladas, como os carrinhos e aviõezinhos de controle remoto que temos hoje. Tesla construiria um pequeno navio radiocontrolado que demonstraria em uma feira no Madison Square Garden, em Nova Iorque, em 1898. A maior parte dos presentes não acreditou que o navio estava sendo controlado à distância - e alguns o acusaram, até mesmo, de ter treinado um macaco que estaria escondido dentro do navio, pilotando-o. Tesla tentaria vender seu projeto para os militares, que não se interessaram por não ver no radiocontrole nenhuma aplicação prática - de fato, esse interesse só surgiria na época da Primeira Guerra Mundial, quando qualquer vantagem que um exército tivesse sobre o outro era grandemente valorizada.

Tesla patentearia todas as suas descobertas quanto às ondas de rádio em 1900, e processaria o italiano Guglielmo Marconi, quando esse fizesse sua primeira transmissão de rádio, em 1901, alegando quebra de 17 delas. A justiça daria ganho de causa a Tesla em 1903, mas Marconi recorreria e ganharia em 1904. Em 1943, a Suprema Corte dos Estados Unidos reverteria mais uma vez a decisão, dando ganho de causa a Tesla, mas Marconi é que se tornaria internacionalmente conhecido como o inventor do rádio.

Em 1899, Tesla construiria um novo laboratório na cidade de Colorado Springs. Maior que o de Nova Iorque e mais isolado da civilização, esse laboratório permitiria que ele fizesse experimentos com alta voltagem e alta frequência. Tesla não escolheria Colorado Springs aleatoriamente, e sim porque tinha amigos na companhia elétrica da cidade, que se ofereceram para fornecer toda a energia de que ele precisasse sem cobrar um tostão - para as autoridades, porém, ele teve de dizer que fazia experimentos com telégrafos, pois o medo das experiências com energia elétrica podiam fazer com que ele não fosse bem-vindo. Foi nesse laboratório que Tesla provou que a Terra é um condutor de eletricidade, descobriu que a frequência de ressonância do planeta é de aproximadamente 8 Hz (valor hoje conhecido como Ressonância Schumann, em homenagem ao físico alemão Winfried Otto Schumann, que publicou um trabalho sobre o assunto em 1952) e conduziu um experimento que criou raios artificiais - tão fortes que o trovão foi ouvido a 24 Km de distância, lâmpadas em um raio de 30 metros se acenderam sozinhas, torneiras de água lançaram faíscas quando abertas, borboletas foram eletrocutadas e pessoas viram pequenos raios saltando de um para o outro de seus pés.

Tesla deixaria Colorado Springs no início de 1900, quando se cansou dos experimentos com alta voltagem e decidiu se dedicar às telecomunicações transatlânticas sem fio. Ele usaria suas últimas economias, mais um empréstimo de J.P. Morgan, para construir um laboratório em Long Island chamado Wardenclyffe Tower (em homenagem ao dono do terreno no qual a torre fora construída) e teve que desmontar o laboratório de Colorado Springs e vender suas peças para pagar dívidas que acumulou em sua estada na cidade. Infelizmente, Tesla jamais poderia usar a Wardenclyffe Tower para transmissão de ondas de rádio, já que o dinheiro acabou antes que a torre estivesse totalmente pronta, e Morgan se recusou a emprestar mais. Ainda assim, ele decidiu mover tudo o que tinha em seu laboratório de Nova Iorque para Wardenclyffe, usando-a como seu laboratório principal durante 17 anos, inventando lá a Turbina de Tesla (que não tem hélices) e aperfeiçoando o Oscilador de Tesla, responsável por uma das mais curiosas histórias envolvendo seu nome: diz a lenda que, ao testar o Oscilador ainda em Nova Iorque, Tesla teria conseguido igualar a frequência de ressonância de seu próprio prédio, o que faria com que o edifício desabasse. Sem conseguir desligá-lo, ele teria pego uma marreta e o destruído, terminando o serviço momentos antes de a polícia chegar, chamada pelos vizinhos em pânico. Essa história daria ao Oscilador de Tesla o apelido de "máquina de terremotos".

Em 1915, um repórter da agência Reuters divulgaria, incorretamente, que Tesla e Edison haviam ganhado o Prêmio Nobel de física daquele ano. Uma semana depois, a própria Reuters retificaria a notícia, dizendo que havia ocorrido um engano, e que os verdadeiros vencedores foram William Henry Bragg e William Lawrence Bragg por seu trabalho com raios-X. Imediatamente, começaram a circular boatos na imprensa de que Tesla e Edison foram realmente os vencedores, mas que, ao terem recusado o prêmio, Bragg e Bragg haviam sido escolhidos em seu lugar - de fato, Edison e Tesla se odiavam, e teorias não faltavam para justificar essa recusa, tipo que um só aceitaria o prêmio se o outro não, que ambos queriam recebê-lo em separado e antes do outro, ou até que Edison teria se recusado apenas para que Tesla não recebesse o dinheiro do prêmio, que só poderia ser dado aos dois. A Real Academia da Suécia, responsável pela eleição dos prêmios Nobel, desmentiu todos esses rumores, alegando que "a ideia de um cientista recusar um Nobel é ridícula". Seja como for, nem Edison, nem Tesla jamais receberiam um Nobel - Edison, de fato, foi um dos indicados em 1915, e Tesla seria indicado, mas perderia para Clinton Joseph Davisson e George Paget Thomson, por seu trabalho com difração de elétrons, em 1937.

Enquanto trabalhava em Wardenclyffe, Tesla, sem conseguir investidores nos Estados Unidos, buscou investidores estrangeiros, conseguindo um financiamento da companhia elétrica alemã Telefunken para construir uma nova torre em Sayville, na qual ele realizaria muitos dos experimentos de radiotransmissão que havia planejado para a Wardenclyffe. Infelizmente, com o início da Primeira Guerra Mundial, todos os investidores europeus retiraram seu apoio financeiro, e Tesla se viu, mais uma vez, quebrado - para piorar a situação, como a torre em Sayville era financiada pela Telefunken, o exército norte-americano decidiu destruí-la, com medo de que os alemães a usassem para espionar os Estados Unidos. Em 1917, sem ter outra opção, Tesla venderia a Wardenclyffe Tower para George Boldt, proprietário do hotel Waldorf-Astoria, em troca de poder ficar morando lá sem pagar. Boldt destruiria a torre para melhor aproveitar o terreno.

Nos anos seguintes, Tesla estabeleceu os princípios hoje usados nos mecanismos de radar, e em 1928 projetou o primeiro avião capaz de decolar de forma vertical. Em meados da década de 1930, ele alegou ter projetado um "raio da morte", uma arma que disparava um raio elétrico direcionado de grande potência, capaz, segundo ele, de "acabar com as guerras", destruindo uma frota de aviões inimigos a 300 Km de distância. Tesla tentaria vender seu invento, sem sucesso, para os governos dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha, da União Soviética e da Iugoslávia; enquanto as negociações estavam em curso, seu quarto no hotel foi invadido e revirado atrás do projeto - que, segundo ele, devido ao perigo que a arma representava, jamais fora colocado em papel, permanecendo, apenas, em sua mente. Após o episódio, com medo de que a arma caísse em mãos erradas, Tesla nunca mais falou dela, e, se tinha algum projeto que não estava em sua cabeça, o destruiu.

Tesla morou no Waldorf-Astoria até 1934, quando se mudou para outro hotel, o New Yorker. Todas as suas despesas no New Yorker eram pagas pela Westinghouse, que ainda lhe pagava um salário mensal de 125 dólares; detalhes do porquê desses pagamentos, porém, jamais foram fornecidos, com boatos variando de um novo emprego como consultor até medo de que a divulgação na imprensa de que o principal inventor de máquinas da Westinghouse estava pobre e falido pudessem prejudicar suas vendas.

Em meados de 1937, Tesla estava atravessando uma rua em um caminho habitual que fazia do hotel para a catedral e então para a biblioteca quando foi atropelado por um táxi. Ele se recusou a ser atendido por um médico, e apenas pediu que fosse levado de volta ao seu quarto no hotel. Devido à gravidade do choque e à sua idade avançada - 81 anos - ele precisou ficar vários meses de cama, mas se recuperou, voltando a caminhar normalmente pouco mais de um ano após o acidente.

Tesla ainda sobreviveria até 7 de janeiro de 1943, quando faleceu, aos 86 anos, de trombose coronariana. Seu corpo ficaria dentro do quarto do hotel por dois dias, com um aviso de "não perturbe" na porta, até uma das camareiras decidir entrar assim mesmo. Curiosamente, após sua morte, todos os seus pertences foram confiscados pelo FBI, e um técnico foi designado para definir se algum de seus projetos ou protótipos poderia dar alguma vantagem aos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial ou representar risco se caísse nas mãos dos inimigos - caso alguém esteja curioso, a investigação determinou que não para ambos os casos. Tesla receberia várias homenagens na cidade de Nova Iorque em 1943, e seus pertences, assim como suas cinzas, seriam enviados a Belgrado, hoje capital da Sérvia, após o fim da Segunda Guerra, onde permanecem em exposição no Museu Nikola Tesla.

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