segunda-feira, 1 de abril de 2013

Super Fighter

Como eu disse no post 500, eu me casei ano passado. E, com o casamento, veio a mudança. Não a de vida, que é óbvia e veio também, mas a de casa. É a terceira mudança de endereço pela qual eu passo, tendo a última ocorrido quando eu tinha 14 anos de idade (e a primeira não conta porque eu tinha quatro anos e meio e não participei dela). Aquela foi mais pesada, é verdade, já que tínhamos que tirar absolutamente tudo de dentro de uma casa e levar para outra, ao passo de que, agora, basta que eu traga meus pertences pessoais para a casa nova, ficando coisas como móveis e eletrodomésticos na casa dos meus pais. Além disso, da última vez tínhamos mais ou menos uma semana para concluir a mudança, ao passo que, agora, já estou prestes a completar quatro meses de casado e ainda estou trazendo coisas. Assim como na última vez, entretanto, muitas coisas não sobreviverão à mudança: algumas serão jogadas fora, outras ficarão por lá, seja por falta de espaço aqui, seja por falta de eu ter o que fazer com elas. Porque, quem se mudou já sabe, na hora da mudança a gente acha um monte de coisas que não sabe bem por que está guardando, mas também não está muito a fim de jogar fora.

Uma dessas coisas, que eu encontrei logo quando comecei a trazer minhas tralhas para cá, é uma caixa de disquetes. Não é uma caixa de sapatos, tampouco a caixa na qual eles eram vendidos, e sim uma caixa própria, feita de plástico com tampa em acrílico e com um fecho com chave, até muito comum na época em que as pessoas precisavam ter disquetes. Não sei o que vou fazer com ela, já que meu computador nem tem mais drive de disquetes, mas a caixa é tão bonitinha que deixei lá para resolver depois. Com os disquetes dentro.

Os disquetes contêm, em sua maioria, jogos. Alguns têm arquivos que eu queria guardar, um programa ou outro que alguém copiou pra mim, mas a maioria tem jogos, adquiridos numa loja que eu já citei aqui, no post sobre o Doom. Essa loja, que já não existe há uns quinze anos, vendia, essencialmente, pirataria: eles tinham um catálogo, do qual a gente escolhia o jogo e pagava um preço fixo dependendo do número de discos que o jogo ocupava. Esse preço era fixo porque eles não vendiam o jogo original pra gente, e sim pegavam os disquetes originais que eles tinham e os copiavam, nos vendendo a cópia - o preço, portanto, era pelo "serviço", não pelo jogo, e, inclusive, era mais barato se nós mesmos levássemos os disquetes. Não me lembro se o preço era caro, mas não devia ser, já que eu tinha muitos jogos dessa loja - principalmente os que ocupavam um disco só, os quais acredito ter comprado todos os do catálogo. Ávido por novidades, quantidade era melhor que qualidade.

A grande maioria dos disquetes que eu comprei dessa forma foi sendo descartada ao longo dos anos - alguns jogos, como Doom, eu comprei depois em CD, alguns eu desgravei porque eram muito ruins, e os que me interessavam eu instalei no meu computador enquanto ainda tinha um drive de disquetes, depois gravei em um CD. Como eles são todos para DOS, mesmo os que ainda estão instalados no meu computador eu nunca mais joguei, de forma que, por que eu ainda estou guardando seus disquetes é um total mistério - a caixinha é bonitinha e está em perfeito estado, mas os disquetes aparentemente só servem mesmo para descanso de copo.

Ter reencontrado essa caixa, porém, serviu para pelo menos uma coisa: graças a ela, eu relembrei Super Fighter, um jogo da época que eu adorava, e fiquei tão feliz de ter redescoberto que decidi transformar no tema do post de hoje - falem a verdade, depois dessa introdução tão imensa, já tinha gente pensando que o post de hoje era sobre a caixa de disquetes.

Super Fighter foi um dos muitos games de luta que surgiram no rastro do sucesso de Street Fighter II - e, como muitos deles, não se envergonhava de copiá-lo descaradamente, de forma que o jogo tem seu próprio Ryu, seu próprio Ken, seu próprio Zangief e sua própria Chun Li, por exemplo. O que Super Fighter tinha e muitos de seus concorrentes não eram gráficos fantásticos (para a época, e ainda mais fantásticos se você considerar que o jogo inteiro ocupa menos de 5 MB), jogabilidade fluida (não ficava emperrando, travando, nem falhando os golpes em momentos cruciais da luta) e personagens muito interessantes (tirando os copiados de Street Fighter II).

Eu, sinceramente, não me lembro por que eu comprei Super Fighter, deve ter sido por que ocupava um disquete só. O que me lembro é que, desde a primeira vez que joguei, adorei, e não parei até zerá-lo com todos os oito personagens disponíveis. Era bem possível que, se alguém me perguntasse, na época, quais eram meus três jogos de luta preferidos, a resposta seria Mortal Kombat, World Heroes e Super Fighter. Depois, evidentemente, fui perdendo o interesse e me esqueci completamente dele, até reencontrar o disquete perdido na já tanto citada hoje caixinha.

Após reencontrar o disquete, a primeira coisa que eu fiz foi ver se eu ainda tinha o jogo sem ser gravado nele. Descobri que tinha no meu computador e em um CD. O próximo passo foi tentar jogá-lo para relembrar. Deu um certo trabalho, mas, graças ao DOSBox, consegui - consegui até usar meu joystick USB, coisa que achei que seria impossível. Joguei um pouquinho, relembrei, apanhei feio, e a próxima coisa em que pensei foi em escrever esse post. Para isso, eu precisava ver se havia informações suficientes sobre ele na internet.

Pesquisando, descobri, surpreendentemente, que não somente eu gostava do jogo: ele é elogiado por vários jogadores da época, e há até um grupo que tenta "ressucitá-lo", se autodenominando Super Fighter Team. Bizarramente, eles conseguiram uma licença do criador original do jogo para fazer isso, e já chegaram até a lançar uma "sequência", um jogo de puzzle estilo Pocket Fighters (ou o Puzzle Kombat de Mortal Kombat Deception), lançado para celulares em 2008.

O Super Fighter original foi lançado em 1993, para PC, rodando em DOS, pela empresa C&E, sediada em Taiwan. O jogo original é todo em chinês, e o objetivo da C&E era simplesmente ganhar alguns trocados na carona de Street Fighter II. Para sua surpresa, entretanto, o jogo fez um sucesso enorme em Taiwan, chegou até o Japão, onde também foi bem sucedido, e acabou chegando aos Estados Unidos, onde também atingiu uma certa popularidade. Para tentar penetrar no mercado norte-americano, no final de 1993 a C&E lançaria uma versão em inglês. Por alguma razão, ela não conseguiria registrar nos Estados Unidos o nome Super Fighter, então a versão norte-americana se chama Fatal Encounter. O nome de alguns personagens na versão em inglês também é diferente, por diversas razões. O meu é em chinês, ou seja, seja lá quem conseguiu o jogo para que a loja copiasse e oferecesse, conseguiu a versão original.

A história, que eu só vim a descobrir agora (pois não leio chinês) é até bem rudimentar: um violento traficante conhecido apenas como Red Man, após conseguir uma soma considerável de dinheiro e poder, decide dominar o mundo. Os atos criminosos praticados por seus asseclas colocam as Nações Unidas em alerta. Sem conseguir destruir sua organização criminosa, os governos do mundo nada mais têm a fazer do que recorrer a oito lutadores, os melhores em suas respectivas artes marciais, que se infiltrarão na organização e enfrentarão os criminosos, buscando retomar a paz mundial. Eles enfrentarão uns aos outros também, aparentemente porque cada um quer levar sozinho o crédito por ter salvado o mundo.

O primeiro dos oito lutadores é Jaan, o clone de Ryu. Tricampeão mundial de caratê e vindo do Japão, Jaan acredita na honra, na disciplina a na limpeza, e quer destruir Red Man para livrar as crianças das drogas.

Em seguida temos Sarkov (Sarorkov na versão em chinês - pelo menos os nomes dos lutadores sob as barras de energia estão escritos com o nosso alfabeto), o clone de Zangief. Nascido na Rússia e descendente de uma tribo guerreira da Mongólia, Sarkov era fraco e pequeno quando criança, mas treinou até se tornar o homem mais forte de toda a Rússia. Seus especiais envolvem agarrar o oponente e então arremessá-lo com violência.

Um dos lutadores originais do jogo é o norte-americano Bullet, que, segundo sua história, é lutador amador de boxe e trabalha em uma academia de boxe, mas, por alguma razão bizarra, todos os seus especiais usam chutes. Bullet entrou no torneio pela recompensa, que planeja usar para tratar sua namorada Vanessa, acometida de uma doença grave.

A mulher do plantel é Phoenix (Pho Huang no original chinês), chinesa que, após ser campeã em todos os torneios de seu país, decidiu aceitar o convite das Nações Unidas para se infiltrar na organização de Red Man em busca de oponentes que lhe oferecessem um desafio de verdade. Desnecessário dizer, ela é o clone da Chun Li.

Na China, Phoenix tinha um rival, Lan, por quem ela era apaixonada mais jamais foi correspondida. Descendente de uma família de artistas marciais, Lan sempre foi considerado um gênio das artes marciais, e sempre preferiu se exibir a participar de torneios. Mas Red Man pode estar envolvido com o misterioso desaparecimento de seu pai, que ocorreu quando Lan tinha sete anos, o que motivou sua participação no torneio.

Assim como a China, os Estados Unidos também têm dois lutadores no torneio, sendo o segundo Frank, o clone do Ken. Após o falecimento de sua esposa, Frank passou a viver como um nômade, sempre na estrada e sobrevivendo do que ganhava em lutas ilegais. O dinheiro da recompensa pela derrota de Red Man é o que ele precisa para não ter mais de lutar no submundo.

O Japão é o terceiro país com dois lutadores, e seu segundo é Onimaru (Onimalu em chinês). Descendente do antigo clã ninja Iga, Onimaru aparenta ter centenas de anos, tem o rosto desfigurado, implantes cibernéticos, uma perna de pau e luta apoiado em um cajado. Se não é o personagem mais estranho de todos os jogos de luta que existem, eu não sei qual é. Durante vinte anos, Onimaru estudou e perseguiu a organização de Red Man, e, agora que tem a chance de destruí-la por completo, não deixará que mais ninguém o faça.

Completa o grupo dos oito Kim Tai Chi, sul-coreano que já chegou a trabalhar como assassino de aluguel, mas que deixou para trás essa vida após conhecer sua esposa. O chamado da batalha ainda corre forte em seu sangue, porém, e ele não conseguiu resistir ao convite para enfrentar a organização de Red Man. Kim Tai Chi é o único dos oito lutadores que luta portando uma arma, uma espada enorme, e é uma espécie de participação especial, já que é um personagem do famoso programa infantil Pili, exibido em Taiwan desde 1985, e que chegou a passar, pesadamente alterado e editado, no Cartoon Network dos Estados Unidos, com o nome de Wulin Warriors. Desconheço se passou por aqui.

Após enfrentar os outros sete lutadores, o jogador se verá finalmente diante dos asseclas de Red Man, e terá de enfrentar dois deles antes que possa, finalmente, ficar cara a cara com o vilão. No melhor estilo Street Fighter II, os vilões não podem ser selecionados pelo jogador na versão original, embora algumas versões hackeadas do jogo permitam que isso seja feito.

O primeiro dos vilões é a inglesa Widow, uma mulher enorme de maiô roxo que luta usando um chicote. Com poses sexy e extremamente veloz, Widow também era bem diferente do que se costumava ver nos jogos de luta da época.

O segundo vilão é Joker, um baixinho gordinho e sem camisa vindo do Egito. Único personagem a ter cinco especiais (Widow tinha dois; Red Man, Jaan, Sarkov, Bullet e Frank tinham três cada; Phoenix, Lan, Onimaru e Kim Tai Chi tinham quatro cada), Joker nasceu em família rica, mas, extremamente entediado, decidiu se unir a Red Man para dominar o mundo.

Derrotando Widow e Joker, o jogador finalmente chega na luta contra Red Man, o misterioso homem capaz de deixar a ONU com tanto medo que sua única saída é recorrer a um torneio de luta para detê-lo. Traficante, homicida e megalomaníaco, considerando a si mesmo a reencarnação do Demônio (sim, isso está no manual em inglês), ele deseja nada menos que dominar o mundo, e somente os oito lutadores podem detê-lo.

O mais curioso é que, no jogo, Red Man é um índio norte-americano, completo com cocar, pintura de guerra e roupas típicas - seu nome no jogo chinês, inclusive, é Indian Joe. Esse fato bizarro me leva a crer que essa história do tráfico internacional de drogas foi inventada apenas para a versão em inglês, sendo que na versão original ele era apenas o atual campeão do Torneio Super Fighter ou qualquer coisa do tipo.

Os personagens de Super Fighter são bem desenhados, contando com diversas animações - os controles do jogo só incluem um soco e um chute, ao invés de três de cada como Street Fighter II ou dois de cada como nos jogos do Neo Geo, mas os personagens são capazes de diversos outros movimentos, como rolagens no chão, agarrões (inclusive aéreos) e, é claro, os especiais, também bastante bem feitos e diferentes para cada um - Jaan e Frank, mesmo sendo clones de Ryu e Ken, têm golpes diferentes, e, mesmo vários personagens tendo magias, elas têm formas e tamanhos diferentes. Os cenários são ricamente detalhados, com movimento, e, entre as lutas temos cut scenes e as famosas telas que colocam um lutador contra o outro no início e o vencedor contra o derrotado, todo esculhambado, no final. Cada lutador também tem seu próprio final, com belas cut scenes. Em outras palavras, um jogo que cabe em um disquete, lançado em 1993, tem um monte de coisas que outros mais modernos e de memória maior não têm.

A C&E parou de desenvolver jogos em 1998, mas, desde 2001, o Super Fighter Team assumiu seu catálogo, inclusive lançando nos Estados Unidos, bem tardiamente, dois jogos que a C&E havia lançado para Mega Drive apenas em Taiwan, Beggar Prince e The Legend of Wukong. Atualmente, o Super Fighter Team distribui gratuitamente os jogos Super Fighter, Sango Fighter e Sango Fighter 2 para PC, Super Fighter Block Battle para celulares, e vende online Beggar Prince, The Legend of Wukong e Star Odyssey para Mega Drive, além de Zaku para o Atari Lynx. Eles também estão se preparando para lançar Nightmare Busters para Super Nintendo, e versões de Super Fighter que rodem em Windows e Linux.

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