segunda-feira, 22 de abril de 2013

O Vingador do Futuro

Outro dia eu li na internet uma coisa com a qual eu concordo plenamente: em matéria de remakes, Hollywood está fazendo o exato inverso do que deveria. Podem reparar: toda vez que sai um remake, o filme original é, no mínimo, bom, enquanto o remake é, no máximo, duvidoso. Seria muito mais vantajoso se fizessem remakes de filmes ruins, deixando-os bons, do que insistir em estragar filmes que nunca fizeram mal a ninguém. Ao invés de termos remakes de Planeta dos Macacos, RoboCop e O Dia em que a Terra Parou, poderíamos ter novas versões de Contato, Reino de Fogo e X-Men: O Confronto Final.

Mas, infelizmente, eu sei que não funciona assim. Hollywood não vai fazer remakes dos filmes ruins justamente porque eles foram ruins - e quem vai pagar para ver uma nova versão de um filme ruim, na esperança de que ela seja boa? É mais negócio lançar uma nova versão de um filme que, no mínimo, vai fazer quem gostou dele ir lá ver para depois ficar dizendo que o original é melhor. Porque, depois de ver um filme no cinema, não interessa se você o achou bom ou ruim, você já pagou por ele.

A todos os que, como eu, sentem arrepios na espinha quando ouvem que Ryan Reynolds pode estrelar um novo Highlander, só resta uma esperança: a de torcer para que, no final das contas, o remake não seja tão ruim assim. Melhor que o original é sempre impossível, e até bom é um tanto difícil, mas "não tão ruim assim" é bem plausível. Na minha lista dos não tão ruins assim, estão, por exemplo, A Pantera Cor-de-Rosa, Karate Kid e o tema do post de hoje, O Vingador do Futuro.

Pra mim, O Vingador do Futuro será sempre um dos grandes clássicos da década de 1980 - mesmo tendo sido lançado em 1o de junho de 1990, o que é só um detalhe insignificante. Inspirado em um conto de Philip K. Dick, We Can Remember It for You Wholesale ("nós podemos lembrar para você por atacado" - sendo "atacado" o contrário de "varejo", e não alguém que sofreu um ataque de alguma coisa), o filme é um dos maiores sucessos de Arnold Schwarzenegger - o que explica o título em português, uma clara alusão a O Exterminador do Futuro, sem nada a ver com o original Total Recall (que, além de significar "lembranças totais", ainda é um trocadilho com a firma que vende lembranças no filme, a Rekall).

O filme começou a tomar forma no início dos anos 1980, quando os roteiristas de Alien: O Oitavo Passageiro, Dan O'Bannon e Ronald Shusett, compraram do próprio Dick os direitos de adaptação do conto, visando transformá-lo em um longa-metragem - o que requeriria algumas adaptações, já que o conto tem só umas quinze páginas. O'Bannon e Shusett passariam muitos anos sem conseguir um patrocinador para o projeto, até que o famoso Dino De Laurentiis, em 1987, aceitaria produzi-lo como o primeiro filme de seu recém-fundado estúdio DEL, convidando primeiro Patrick Swayze e depois Richard Dreyfuss para protagonizá-lo.

De Laurentiis também convidaria David Cronenberg para a direção, que só aceitaria o cargo se William Hurt fosse o protagonista e ele pudesse escrever o roteiro junto com O'Bannon e Shusett. Entretanto, a visão de Cronenberg, que queria fazer o filme o mais fiel possível ao conto, contrastava com a de Shusett, que queria fazer "Os Caçadores da Arca Perdida em Marte". Enquanto Cronenberg e Shusett não chegavam a um acordo, Duna seria um fracasso de bilheteria, e De Laurentiis desistiria do projeto.

Então surge Arnold Schwarzenegger, que, assim que soube que De Laurentiis, responsável por lançá-lo em Conan: O Bárbaro, havia decidido produzir o filme, tentou convencê-lo a ser seu protagonista, mas sem sucesso. Com a desistência de De Laurentiis, Schwarzenegger viu a oportunidade perfeita, e convenceu a Carolco, responsável pelos dois primeiros filmes do Rambo, e que já vinha há algum tempo tentando produzir um filme estrelado por Schwarzenegger, a comprar os direitos de O'Bannon e Shusett - que concordaram em vender, desde que continuassem como os roteiristas do projeto.

A Carolco devia estar muito desesperada para produzir um filme estrelado por Schwarzenegger, pois, apesar de ter comprado os direitos por apenas 3 milhões de dólares, concordaria em pagar 10 milhões mais 15% da bilheteria ao ator, mais direito de veto sobre o produtor, diretor e restante do elenco, além de poder aprovar ou rejeitar o roteiro e as técnicas de promoção do filme. Aproveitando esses privilégios, Schwarzenegger convidaria Paul Verhoeven para dirigir, pois ele havia feito o teste para protagonizar RoboCop, mas acabaria preterido em favor de Peter Weller, e desde então desejava estrelar um filme de Verhoeven. O diretor, por sua vez, trouxe grande parte da equipe de RoboCop para esse filme, incluindo o diretor de fotografia, o designer de produção, o responsável pelos efeitos especiais e o ator Ronny Cox, que interpretaria o vilão em ambos os filmes. Como o roteiro ainda estava incompleto, Verhoeven também sugeriu o roteirista Gary Goldman, de Aventureiros do Bairro Proibido, que aproveitaria algumas das ideias de Cronenberg - como o fato de existirem mutantes em Marte - mas, trabalhando com Shusett, chegaria a uma versão final que agradaria tanto a este quanto a Schwarzenegger.

Ambientado em 2084, o filme tem como protagonista Douglas Quaid (Schwarzenegger), operário da construção civil que tem frequentes sonhos no qual está na companhia de uma mulher misteriosa chamada Melina (Rachel Ticotin) em Marte, que, nesse futuro, foi colonizada, mas cujo suprimento de oxigênio é escasso, o que faz com que seus habitantes fiquem nas mãos do governador do planeta, Vilos Cohaagen (Ronny Cox), político corrupto responsável por controlar o quanto cada distrito recebe de oxigênio. Uma facção rebelde se opõe a Cohaagen, mas tem poucas chances de destituí-lo, principalmente graças a uma equipe de mercenários que põe cabo aos planos malignos do governador, liderada por Richter (Michael Ironside).

Intrigado com esses sonhos, Quaid, indo contra o que sua esposa, Lori (Sharon Stone), e seu melhor amigo, Harry (Robert Constanzo), recomendam, procura uma empresa chamada Rekall, que vende memórias. Lá, ele pede para ser um agente secreto em Marte, mas, quando está prestes a ter as memórias implantadas, reage violentamente. A partir de então, Quaid descobre que ele realmente era um agente secreto em Marte, lutando ao lado dos rebeldes, e que teve sua memória apagada por ordem de Cohaagen, decidindo voltar ao Planeta Vermelho e lutar ao lado de Melina para derrotar o vilão - ou será que isso tudo faz parte das memórias implantadas pela Rekall?

Com orçamento de 65 milhões de dólares, O Vingador do Futuro renderia quase 120 milhões apenas nos Estados Unidos, sendo 25 milhões somente no primeiro fim de semana. A crítica ficaria dividida, principalmente por causa da violência - a primeira versão do filme seria classificada X (totalmente proibido para menores de 18 anos), e teve de sofrer uma edição para poder ser lançada como R (menores de 17 anos somente acompanhados dos pais) - mas, no geral, elogiaria o filme, que seria indicado aos Oscars de Melhor Mixagem de Som, Melhor Edição de Som e Melhores Efeitos Visuais, ganhando esse último.

O sucesso de O Vingador do Futuro fez com que a Carolco decidisse investir em uma continuação. Para criá-la, Shusett decidiria se inspirar em outro conto de Dick, The Minority Report. Nela, Quaid seria um agente da polícia, que evita crimes antes que eles aconteçam graças aos dons telepáticos de um seleto grupo de mutantes marcianos, capazes de ver o futuro toda vez que alguém está prestes a cometer um assassinato. Quando um desses mutantes vê que Quaid será o responsável por um crime, ele decide fugir de seus colegas de profissão, disposto a provar que o sistema é falho e que ele é inocente, tendo alguém armado para ele.

Como todo mundo deve saber, esse roteiro acabaria não se tornando a continuação de O Vingador do Futuro, mas reescrito anos mais tarde para se tornar um outro filme, dirigido por Steven Spielberg e estrelando Tom Cruise. Com o descarte do roteiro e sem conseguir encontrar um novo que lhe agradasse, Schwarzenegger acabaria desistindo do projeto, o que faria com que o filme jamais tivesse essa continuação.

Em 1999, O Vingador do Futuro seria ressucitado pelo canal canadense CHCH-TV, na forma do seriado Total Recall 2070, exibido entre 5 de janeiro e 8 de junho daquele ano, em uma única temporada de 22 episódios. Curiosamente, o seriado não se inspirava no filme, mas em dois contos de Dick, We Can Remember It for You Wholesale e Do Androids Dream of Electric Sheep?, o conto que também inspiraria o filme Blade Runner - o que faz com que a ambientação do seriado seja praticamente idêntica à de Blade Runner, sem nada a ver com a de O Vingador do Futuro.

No seriado, o governo é controlado por um complexo de corporações conhecido como Consórcio, do qual fazem parte, dentre outras, a Rekall e a Uber Braun, fabricante de androides que substituem os humanos em várias funções. Seu protagonista é o detetive David Hume (Michael Easton), cujo parceiro foi morto por um androide. Quando um outro androide, Ian Farve (Karl Pruner) é designado para ser seu novo parceiro, ele decide se rebelar e investigar o Consórcio, revelando uma trama que envolve a Rekall, a Uber Braun, sua própria esposa, Olivia (Cynthia Preston), e a descoberta de DNA alienígena em Marte, que estaria sendo mesclado ao de seres humanos em experiências sinistras.

Com o cancelamento do seriado por baixa audiência, os principais arcos de história ficaram inacabados, e ninguém jamais soube até onde as descobertas de Hume o levaram. Curiosamente, o seriado se tornaria famoso pela quantidade de cenas de nudez e violência explícita, algo incomum nas séries da TV aberta norte-americana. Isso, por sua vez, fez com que ele adquirisse um certo status cult, motivando o canal Showtime, dos Estados Unidos, a comprar a série para exibição, e, após editá-la para remover o conteúdo inapropriado, vendê-lo em sistema de syndication para vários outros canais.

Antes mesmo do lançamento da série, em 1995, a Carolco iria à falência, principalmente devido a desastres de bilheteria como A Ilha da Garganta Cortada e Showgirls. Pouco antes, ela venderia os direitos a seus filmes para várias produtoras. O Vingador do Futuro seria vendido para a Tri-Star, que mais tarde seria comprada pela Columbia, que, então, seria comprada pela Sony.

Em meados dos anos 2000, a Sony decidiu que, já que tinha os direitos mesmo, bem que poderia fazer uma nova versão do filme. Ela então contrataria Kurt Wimmer (de Salt e Thomas Crown: A Arte do Crime) e Mark Bomback (de Duro de Matar 4.0) para escrever o roteiro. Ao saber da nova versão, Schwarzenegger, malandramente, se ofereceu para protagonizá-la, mas a Sony não se interessou, preferindo uma cara nova. Por sugestão de Bomback, Len Wiseman, diretor de Duro de Matar 4.0, seria escolhido para dirigir, e manifestaria interesse em três nomes para o papel principal: Colin Farrell, Tom Hardy ou Michael Fassbender. Farrell acabaria ficando com o papel porque os outros dois não estariam disponíveis durante o período de filmagens.

O papel de Melina também tinha três candidatas, Eva Green, Diane Kruger e Kate Bosworth, mas todas as três recusaram, e a mocinha acabaria ficando com Jessica Biel. Para o papel de Lori não houve discussão, ficando com a esposa do diretor, Kate Beckinsale. Wiseman também escolheria Bryan Cranston, da série Breaking Bad para o papel de Cohaagen, e convidaria Ethan Hawke para uma participação especial, mais tarde cortada da versão final. Completariam o elenco Bokeem Woodbine como Harry e Bill Nighy como o líder dos rebeldes.

Curiosamente, o novo filme exclui Marte por completo da história - o que é ainda mais bizarro se considerarmos que a viagem ao planeta também fazia parte do conto de Dick, não tendo sido inventada para o filme de Schwarzenegger. Além disso, assim como a série, ele possui uma estética Blade Runner, com casas e prédios amontoados a perder de vista, grandes outdoors eletrônicos dos mais diversos produtos e muitas coisas escritas em caracteres orientais. Aliás, o novo filme usa vários elementos da série, e faz várias "homenagens" ao filme anterior, através de cenas nas quais reconhecemos situações ou personagens.

O novo Vingador do Futuro é ambientado em um futuro pós-apocalíptico, no qual uma guerra biológica devastou a maior parte da Terra, deixando apenas duas regiões habitáveis: a Federação Unida Britânica, correspondente ao que hoje é a Grã-Bretanha, e a Colônia, correspondente ao que hoje é a Austrália. Como o nome indica, a Colônia não é uma nação independente, e sim uma colônia da UFB, sendo seu povo explorado por seus colonizadores, obrigado a trabalhar em condições subumanas e a cruzar o planeta através do núcleo, usando um veículo esquisito chamado Queda. Por causa disso, um grupo rebelde começa a lutar pela independência da Colônia, se opondo ao governo do Chanceler Cohaagen.

Na Colônia, vive Douglas Quaid, operário de uma fábrica de androides policiais. Insatisfeito com seu trabalho e atormentado por estranhos sonhos, ele decide ir à Rekall para ter umas memórias implantadas. Antes mesmo que o procedimento comece, porém, um bando de policiais surge para prendê-lo, e ele acaba descobrindo que, na verdade, é um agente secreto aliado dos rebeldes, único capaz de deter um plano maligno de Cohaagen, e que, por isso mesmo, teve sua memória apagada. Com a ajuda de Melina, ele deve recuperar seu passado para então ajudar os rebeldes a livrar a Colônia da opressão.

Com orçamento de 125 milhões de dólares, O Vingador do Futuro de Farrell rendeu apenas 58 milhões nos Estados Unidos, sendo considerado um grande fracasso. A crítica também não poupou as palavras, elogiando as sequências de ação mas reclamando de todo o resto, acusando o filme de não ter humor, de ter um enredo fraco, nenhum desenvolvimento dos personagens, e até mesmo dizendo que a luta de Quaid contra Cohaagen parecia "um sujeito espancando seu próprio pai".

Eu, como já disse, não achei tão ruim assim, mas esse é o risco que se corre ao se refilmar um clássico de Schwarzenegger. Ou qualquer clássico, por sinal. Talvez um dia algum estúdio perceba isso e resolva melhorar um filme ruim ao invés de estragar um bom, para variar.

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