segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Roverandom

Desde criança, eu adoro ler. Graças à minha mãe, que sempre leu para mim e para a minha irmã quando éramos pequenos, e sempre manteve a casa bem abastecida de livros adequados à nossa faixa etária. Mas, de uns dois ou três anos pra cá, infelizmente, não tenho mais conseguido ler com frequência - minha média, que na adolescência chegou a uns dois livros por mês, agora caiu para um por ano. Eu costumava botar a culpa na falta de tempo, mas recentemente desenvolvi a teoria de que já tenho tanto que ler "profissionalmente" - ou seja, ler tantos textos e livros que usarei na minha profissão - que, quando chega na hora do lazer, prefiro assistir a um DVD do que continuar lendo - afinal, para o meu cérebro, é tudo leitura, não importa se por obrigação ou por diversão, então acho que ele não se anima muito a se distrair fazendo a mesma coisa que já faz no horário comercial.

Para vocês terem uma ideia de como minha leitura está prejudicada, o último livro que li foi Roverandom, de J.R.R. Tolkien. Terminei de lê-lo no último mês de setembro. Sendo que o comprei em outubro de 2011. Não, não fiquei um ano lendo um livro de cem páginas, na verdade só consegui começar a lê-lo em julho, quando terminei Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos, que havia comprado em setembro de 2011, mas só consegui começar a ler em fevereiro desse ano. E, antes dele, quem acompanha o átomo deve saber, o último que eu li foi seu antecessor espiritual, Orgulho e Preconceito e Zumbis, que comprei em 2010 e terminei de ler em março de 2011. Sinceramente, até tem mais uns dois ou três livros que eu gostaria de comprar, mas esse ritmo de lesma me desanima a fazê-lo tão cedo.

Enfim, mimimi à parte, o fato é que, depois que terminei de ler Roverandom, fiquei com vontade de escrever um post sobre ele. Que é esse aqui. E sim, eu vou terminar essa introdução assim de qualquer jeito mesmo, porque me lembrar que eu não consigo ler tudo o que eu queria me deixou deprimido.

Tolkien criou Roverandom para seu filho do meio, Michael. Quando tinha por volta de cinco anos de idade, Michael tinha um cãozinho de brinquedo, chamado Rover, que adorava. Andava com ele pra cima e pra baixo, comia com ele sobre a mesa, e não o largava nem para lavar as mãos. Um dia, entretanto, Michael perdeu o cãozinho, e ficou tão desolado que a única maneira que seu pai encontrou de curar sua depressão foi criando uma história fantástica que explicasse como o cãozinho havia sumido.

Era o verão de 1925, e a família Tolkien passava férias na cidade litorânea de Filey, tendo alugado um pequeno chalé localizado em um penhasco de onde era possível ver o mar, no qual, à noite, a Lua formava um caminho prateado sobre as águas, que encantava John, filho mais velho do escritor. Michael, como era de se esperar, levou Rover para essas férias, e não desgrudava dele, até o dia no qual seu pai e seu irmão foram até a praia jogar pedrinhas no mar para tentar fazê-las quicar na água. Michael quis experimentar, e deixou o brinquedo na areia. Quando voltaram, o cãozinho tinha sumido. Rover jamais foi reencontrado, apesar dos inúmeros esforços de Tolkien, de sua esposa e até mesmo de John, que por vários dias o procuraram no local onde Michael o havia deixado e nas cercanias.

Vendo que nada consolava o menino, Tolkien decidiu "explicar" a ele por que o cãozinho havia sumido. Começando em um dia no qual uma tempestade fortíssima atingiu a costa da Inglaterra, e na qual as crianças ficaram com muito medo de o teto do chalé ser arrancado pelos fortes ventos, todas as noites ele se sentava com John e Michael e, para distraí-los, contava parte de uma história, na qual Rover, originalmente, era um cãozinho de verdade, transformado em brinquedo por um mago, adotado por um menininho (que, sem dúvida, era Michael), e então, por obra de outro mago, ganhava vida - não voltava a ser cachorro, e sim passava a ser um brinquedo com vida - e vivia aventuras inimagináveis, até reencontrar o primeiro mago, que o transformava em cachorro novamente. Rover, portanto, ao ser deixado na areia para que Michael jogasse pedras no mar, teria ganhado vida e partido para suas aventuras. O menino pareceu satisfeito com a história, e se conformou com a perda do brinquedo.

Tolkien, entretanto, não se conformaria em simplesmente contar a história. Perfeccionista, ele logo quis registrar a história e ampliá-la, acrescentando referências à sociedade, política, costumes e acontecimentos da época, como já havia feito em outro livro seu, Mestre Gil de Ham. Após voltar a Oxford, entretanto, ele deixaria esse projeto de lado, e só o retomaria em 1927, quando, ao mostrar ilustrações das aventuras de Rover que fez durante essas férias de 1925 para seu filho mais novo, Christopher - que, na época do desaparecimento de Rover, ainda era um bebê de colo, incapaz de compreender o que se passava - seu interesse pelas aventuras do cãozinho se reacendeu.

Ao todo, existem até hoje quatro versões do texto original de Roverandom escritas pelo próprio Tolkien. A primeira e mais antiga parece ter sido escrita às pressas, no papel que ele tinha à mão, com numerosas correções. Essa versão, embora não possua data, parece ter sido um esforço de Tolkien em registrar a história já em 1925, durante as férias ou logo após voltar, para que não se esquecesse dos fatos principais. Infelizmente, um quinto da história, o equivalente a todo o capítulo 1 e ao início do capítulo 2, se perdeu; as 22 folhas sobreviventes estão guardadas na Bodleian Library, em Oxford.

A segunda versão é datilografada, e, embora também não possua data, parece ser de dezembro de 1927, ano no qual Tolkien teria decidido escrever a história "a sério". O mês de dezembro é apontado pelos estudiosos devido a três fatos: primeiro, era quando Tolkien estava de férias, o que lhe daria tempo livre para escrever; segundo, essa versão é a primeira a mencionar um eclipse que "teria sido um fracasso", justamente a manchete do The London Times de 8 de dezembro de 1927, falando sobre um eclipse muito aguardado pela população em geral, mas que só pôde ser visto pelos astrônomos; terceiro, Tolkien tinha o costume de se fantasiar de Papai Noel no Natal e, junto com os presentes, entregar a seus filhos cartas em resposta às que eles enviavam ao Bom Velhinho; uma dessa cartas, escritas por Tolkien para o Natal de 1927, faz referência ao Homem da Lua, importante personagem da história, e a eventos semelhantes aos acontecidos em Roverandom.

Essa segunda versão ocupa 39 páginas, e, apesar de também ser cheia de correções, algumas delas a caneta, se mantém em sua maior parte fiel ao manuscrito - o que, inclusive, ajudou os estudiosos a "decifrar" algumas partes parcialmente ilegíveis devido à caligrafia apressada. Essa versão também traz acréscimos e modificações importantes, principalmente no final da história, que, no manuscrito, era quase um anticlímax, mas na segunda versão se tornou um momento de impacto e humor. O título datilografado na segunda versão - provavelmente o mesmo da primeira, o que não há como se confirmar já que a primeira página daquela se perdeu - era As Aventuras de Rover, mas Tolkien o riscou a caneta e o alterou para Roverandom, título que passaria a usar desde então.

A terceira versão ocupa apenas nove páginas, sendo que a última possui apenas algumas linhas, com a história se interrompendo lá pela metade do primeiro capítulo, mas é bem mais limpa e profissional que a anterior: possui bem menos correções, quase todas de erros de datilografia, os números das páginas são datilografados, ao invés de incluídos mais tarde a caneta, e o texto é dividido em parágrafos para indicar interlocutores diferentes - no anterior, o texto era contínuo, sendo as falas de diferentes personagens demarcadas por aspas. Essa versão possui mais revisões e aperfeiçoamentos em relação à segunda, e, em uma das folhas, Tolkien chegou a começar de um lado, depois descartar aquilo e escrever a versão final da página do outro.

Por seu estilo, suspeita-se que essa versão estava sendo produzida para ser apresentada à editora Allen & Unwin, mesma que publicou O Hobbit em 1937. Através de passagens do diário pessoal de Tolkien, estima-se que a terceira versão tenha sido datilografada em 1936, logo após O Hobbit ter sido aceito pela editora: embora o livro ainda não fosse um sucesso, os editores haviam pedido que Tolkien os apresentasse mais histórias infantis, se as tivesse; sabe-se que ele lhes apresentou Mr. Bliss e Mestre Gil de Ham, mas não há registros de que ele tenha apresentado Roverandom nessa época. Talvez ele a estivesse preparando para apresentação mas desistido, provavelmente porque a história ainda não estava de seu agrado, o que pode ser uma explicação sobre por que a versão é interrompida abruptamente.

A quarta e última versão de Roverandom é também a mais profissional, quase não apresentando emendas ou correções, e datilografada em 60 folhas de papel bonde com perfeita divisão de páginas, capítulos e parágrafos. Essa foi a versão que Tolkien apresentou à editora em 1937, e que, apesar de elogiada, não foi aceita para a publicação. Segundo um memorando do presidente da editora, Stanley Unwin, a história, apesar de divertida e bem escrita, era um dos muitos contos de fadas que (ele imaginava) Tolkien tinha prontos para publicação. Devido ao grande sucesso de O Hobbit, entretanto, a editora estaria mais interessada em uma continuação - outra história envolvendo Hobbits, anões e feiticeiros - ao invés de um conto de fadas "comum". Isso faria com que Roverandom fosse esquecido até mesmo por Tolkien, que, a partir daí, começaria a trabalhar em sua maior obra, O Senhor dos Anéis.

Como Roverandom nunca foi aprovado para publicação, Tolkien jamais chegou a finalizá-lo propriamente - até mesmo essa quarta versão possui problemas de pontuação e uso de maiúsculas, além de frases estranhas, que parecem fora de contexto, e algumas incoerências. O livro passaria sessenta anos esquecido, até que, em 1997, as obras de Tolkien passariam por uma ressurreição editorial, talvez já motivada pelo anúncio de que, em um futuro próximo, sairiam os filmes de O Senhor dos Anéis. Em meio a essa renascença, além de relançar as obras às quais tinha direito, a editora Harper-Collins decidiu publicar pela primeira vez histórias de Tolkien que jamais o haviam sido. Foi só então que Roverandom ganhou sua chance.

A iniciativa partiu de Christina Scull, estudiosa da obra de Tolkien, e de seu marido Wayne G. Hammond, com quem, em 1995, havia escrito o livro J.R.R. Tolkien: Artist and Illustrator, sobre as inúmeras ilustrações que o autor havia feito para suas obras. O casal procurou Christopher Tolkien, e, com sua permissão, "finalizou" a história, revisando o texto, corrigindo a pontuação e as maiúsculas e solucionando as incoerências e estranhezas. Em 1998, a Harper-Collins publicaria Roverandom pela primeira vez, atribuído a Tolkien e citando Scull e Hammond como "organizadores".

Antes que o post termine, o resumo da história: no início do livro, o cãozinho Rover está brincando com sua bola, quando surge o mago Ataxerxes. Rover morde sua perna e rasga sua calça, e, como castigo, é transformado em brinquedo. Ele acaba sendo levado para uma loja, onde é comprado pela mãe do meino Dois, que dá o cãozinho a seu filho de presente. Um dia, durante um passeio na praia, Dois deixa o cãozinho na areia e o perde.

Rover é encontrado por outro mago, Psamatos Psamatides, o Psmatista, que tenta reverter o feitiço de Ataxerxes, mas não consegue. Ele consegue, porém, animá-lo (no sentido de dar-lhe vida, e não de deixá-lo feliz), e pede para que sua amiga, a gaivota Mew, o leve até a Lua, onde vive um dos maiores magos que existem, o Homem da Lua. Na Lua, Rover vive incríveis aventuras acompanhado do cachorro do Homem da Lua, o Cão da Lua, cujo nome também é Rover. Por causa disso, o Homem da Lua coloca em Rover o apelido de Roverandom - random, em inglês, significa "aleatório", uma referência ao fato de que Rover está vivendo suas aventuras meio que por acaso.

O Homem da Lua, infelizmente, também não consegue reverter o feitiço de Ataxerxes, e, após um certo tempo, Roverandom decide voltar com Mew para a praia. Psamatos, então, o manda para o fundo do mar, onde Ataxerxes está vivendo, após se casar com a filha do Rei do Mar. Ao chegar ao Reino Submarino, Roverandom faz amizade com a Sra. Ataxerxes e com seu cachorro, o Cão do Mar, cujo nome também é Rover. Juntos, os dois Rovers vivem novas incríveis aventuras, até que um incidente faz com que Ataxerxes seja expulso do Reino Submarino. Somente então ele concorda em retornar o cãozinho à forma original, para que ele possa voltar a viver sua vida - embora, a essa altura, ele preferisse viver para sempre com o menino Dois, de quem sempre sentiu saudades durante suas aventuras.

Mesmo sendo uma história simples, um conto de fadas voltado para crianças, a importância de Roverandom para a obra de Tolkien é inestimável: foi com esse tipo de história, criada e contada para seus filhos, que ele se interessou pela carreira de escritor de ficção profissional - O Hobbit, seu primeiro livro publicado, mas escrito depois de Roverandom, teve essa mesma origem. Se não fosse o cãozinho Rover, talvez Tolkien fosse apenas mais um acadêmico, e o mundo de hoje não conheceria a fantasia medieval.

0 enfiaram o nariz:

Postar um comentário