segunda-feira, 29 de outubro de 2012

The Rocky Horror Picture Show

Depois de amanhã é Halloween. E, embora eu não tenha a intenção de fazer dos posts de Halloween uma nova tradição do átomo, quando me lembrei de que, ano passado, fiz um post sobre Orgulho e Preconceito e Zumbis para "comemorar" a data, imediatamente tive a ideia de um novo post para esse ano. Um post sobre The Rocky Horror Picture Show.

The Rocky Horror Picture Show é um dos meus filmes preferidos, mas parece que aqui no Brasil é um daqueles filmes que todo mundo conhece, mas quase ninguém assistiu, e só uma ou outra pessoa conhece a história - tipo Carruagens de Fogo ou Pássaros Feridos, podem perguntar a seus amigos para comprovar. Enfim, embora por aqui ele seja meio marginal, nos Estados Unidos The Rocky Horror Picture Show é um filme cult e um grande clássico, tanto que é dono de um recorde invejável: é o filme que está a há mais tempo em cartaz nos cinemas do mundo inteiro, não tendo ainda encerrado sua temporada desde que estreou em 1975. Mas, antes que vocês pensem que algum cinema maluco está exibindo o mesmo filme há 37 anos, vale dizer que, desde 1977, The Rocky Horror Picture Show é exibido no sistema de limited release - ou seja, apenas em algumas salas, apenas durante algum tempo. No caso, somente nas sessões de meia-noite do dia 31 de outubro, mas em mais de 300 cidades dos Estados Unidos, o que faz com que a Fox, sua distribuidora, considere tudo como um único período de exibição.

Riff Raff, Brad, Janet, MagentaThe Rocky Horror Picture Show não foi originalmente concebido como um filme, mas como um musical para o teatro, chamado The Rocky Horror Show (sem o Picture). E nem era um musical da Broadway, mas um musical inglês, que estreou no Royal Court Theatre de Londres em 19 de junho de 1973. Seu autor, Richard O'Brien, era um ator que decidiu escrevê-lo para se manter ocupado durante a temporada de inverno, na qual as peças de teatro rareavam na Inglaterra. Desde jovem, O'Brien era apaixonado por filmes B norte-americanos, e começaria a escrever sua peça sem nenhuma pretensão, buscando aliar o humor involuntário dos filmes B; o diálogo pretensioso dos filmes de horror da década de 1970; as cenas insólitas dos filmes estrelados por homens musculosos, conhecidos como muscle flicks e famosos na Inglaterra da época graças ao ator Steve Reeves; e muito rock and roll dos anos 1950, seu estilo de música preferido.

O'Brien mostraria uma versão preliminar de seu roteiro ao diretor Jim Sharman, a quem havia conhecido durante a montagem de Jesus Cristo Superstar, dirigida por Sharman e na qual O'Brien havia interpretado Herodes. Sharman adoraria a história e o convenceria a montar a peça no segundo andar do Royal Court Theatre, espaço reservado para peças experimentais. Sharman traria praticamente toda a equipe de Jesus Cristo Superstar para o projeto, exceto alguns cargos, como o de diretor musical, o qual ofereceria a amigos seus. Após a finalização do roteiro e o início dos ensaios, o título escolhido para a peça seria It Came from Denton High, bem ao estilo dos filmes de horror B; poucos dias antes da primeira pre-estreia, entretanto, Sharman sugeriria mudá-lo para The Rocky Horror Show, nome mais parecido com os dos musicais ingleses da época.

Após duas pre-estreias, o musical estrearia com casa cheia. Seu sucesso inesperado garantiria não só um contrato para que o elenco gravasse um álbum com a trilha sonora da peça - algo reservado normalmente apenas às maiores produções do gênero - mas também que, após pouco mais de um mês, ela se mudasse do acanhado segundo andar do Royal Court Theatre, de apenas 63 lugares e localizado em Kensington, para o bem maior Classic Cinema, de 270 lugares e localizado em Chelsea, bairro bem mais chique, onde ficaria de 14 de agosto a 20 de outubro de 1973. A casa não parava de lotar, e, em 3 de novembro, a peça se mudaria para o King's Road Theatre, também em Chelsea, com 500 lugares à disposição. Logo o musical se tornaria também um sucesso de crítica, ganhando o Evening Standard Award, mais prestigiado prêmio do teatro britânico. Além disso, a peça conquistaria uma audiência cativa - um grupo de espectadores que ia assisti-la toda semana, decorando suas canções e cantando-as junto com os atores.

The Rocky Horror Show ficaria no King's Road Theatre até 31 de março de 1979, quando se mudaria para o Harold Pinter Theatre, em Westminster, com capacidade para 820 espectadores. Lá ele ficaria até 13 de setembro de 1980, onde encerraria sua temporada original após 2.960 apresentações. Após uma breve temporada em 1984 no Theatre Royal de Hanley, o musical seria ressucitado em 1990 no Piccadilly Theatre, onde ficaria por um ano. Desde 2006, o musical está em turnê itinerante, sendo montado com diversos elencos em várias cidades do Reino Unido.

Mas a peça começaria a virar filme já durante sua primeira montagem. Em julho de 1973, o produtor norte-americano Lou Adler iria assisti-la no Royal Court Theatre, e, acreditando estar diante de um sucesso mundial, faria questão de conhecer os realizadores nos bastidores e negociar com eles os direitos para montar a peça nos Estados Unidos. The Rocky Horror Show estrearia em solo norte-americano em 24 de março de 1974 no Roxy Theatre de Los Angeles, onde ficou por nove meses. Assim como a original inglesa, a montagem norte-americana seria um grande sucesso, e com frequência se apresentaria para a casa cheia. Esse sucesso garantiria um lugar na Broadway, onde o musical estrearia em 3 de janeiro de 1975. Infelizmente, o público da costa leste não se mostraria tão receptivo quanto o da costa oeste, e a versão Broadway seria um grande fracasso de público, encerrando sua temporada após apenas 45 apresentações - a crítica, entretanto, o elogiaria, indicando-o, inclusive, a um prêmio Tony, o mais importante da Broadway, na categoria Design de Iluminação.

No final de 1975, Adler decidiria retornar com a peça para a costa oeste, e com isso The Rocky Horror Show estrearia em 3 de fevereiro de 1976 no Montgomery Playhouse de San Francisco, onde ficou até 30 de maio. O musical ainda seria brevemente ressucitado em uma turnê por várias cidades norte-americanas em 1980, e retornaria à Broadway em outubro de 2000, lá ficando até janeiro de 2002. Essa segunda montagem da Broadway seria indicada a quatro Tonys (Melhor Remontagem, Melhor Ator Principal, Melhor Direção e Melhor Figurino), mas acabaria sendo encerrada por dificuldades financeiras. Desde então, The Rocky Horror Show não foi mais montado nos Estados Unidos.

Pois bem, enquanto The Rocky Horror Show ainda estava em sua montagem norte-americana original, lá no Roxy Theatre, o executivo da Fox Gordon Stulberg decidiu ir assisti-lo. Adorando o clima da peça e acreditando estar diante de um sucesso cinematográfico em potencial, ele procuraria Adler, e ofereceria um contrato de um milhão de dólares para transformar a peça em um musical de cinema. As negociações com O'Brien e Sharman se desenvolveriam sem problemas, e as filmagens começariam em dezembro de 1974.

Além de ser filmado na Inglaterra - em sua maior parte em um castelo em Berkshire já usado muitas vezes em filmes de horror da produtora Hammer - a versão cinematográfica de The Rocky Horror Show - que O'Brien e Sharman fizeram questão de que se chamasse The Rocky Horror Picture Show - manteriam praticamente toda a equipe do musical original: O'Brien e Sharman escreveriam o roteiro, Sharman dirigiria, as músicas usadas seriam as mesmas, compostas por Richard Hartley para a peça, e o elenco seria praticamente o mesmo, encabeçado por Tim Curry, protagonista tanto da montagem inglesa quanto da primeira montagem norte-americana do Roxy Theatre.

O roteiro também é praticamente o mesmo: recém casados, dois universitários, Brad Majors (Barry Bostwick) e Janet Weiss (Susan Sarandon, em um de seus primeiros papéis), estão viajando de carro quando, durante um temporal, um dos pneus fura. O casal ruma até a casa mais próxima, um estranho castelo, para tentar usar um telefone para pedir ajuda. Ao chegar lá, eles descobrem que a residência, normalmente habitada pelo mordomo Riff Raff (Richard O'Brien, que também fazia o papel na peça original inglesa) e a doméstica Magenta (Patricia Quinn, idem), está sediando a Convenção Anual da Transilvânia, abrigando todo o tipo de pessoas estranhas, em especial uma amiga de Magenta, a groupie Columbia (Nell Campbell, mais uma da peça). Após uma curta interação com os convidados, Brad e Janet conhecem o dono da casa, o Dr. Frank-N-Furter (Tim Curry), um travesti bissexual egocêntrico e megalomaníaco que busca criar o homem perfeito para ser seu amante. Contra todos os prognósticos, ele consegue, criando o musculoso Rocky Horror (Peter Hinwood).

Frank-N-FurterApós uma pequena confusão envolvendo o roqueiro motoqueiro Eddie (o cantor Meat Loaf), ex-namorado de Columbia, o Dr. Frank-N-Furter e Rocky Horror se casam, mas o cientista, aparentemente insatisfeito, decide seduzir tanto Brad quanto Janet - que, para piorar as coisas, se apaixona por Rocky. Depois dessa bagunça, o casal tenta desesperadamente fugir da mansão e retornar a suas vidas normais, contando com a ajuda do Dr. Everett V. Scott (Jonathan Adams), rival de Frank-N-Furter que vai à reunião sem ser convidado. Toda essa história é narrada por um criminologista (Charles Gray), que investiga o destino dos jovens.

Assim como a peça, o filme foi um grande sucesso: com orçamento de 1,2 milhões de dólares, rendeu até hoje quase 140 milhões. Curiosamente, a maior parte desse sucesso só veio depois que o filme começou a ser exibido à meia-noite no Halloween: suas primeiras sessões após a estreia, em 26 de setembro de 1975, tiveram pouco público, oito cidades desistiriam de exibi-lo após apenas uma semana, e até mesmo uma sessão epspecial no Halloween de 1975 em Nova Iorque seria cancelada pelo temor da falta de público. Para tentar salvá-lo, a Fox começou a promover sessões duplas com O Fantasma do Paraíso, Pink Flamingoes e até com Reefer Madness, um filme de 1936 originalmente produzido para tentar desencorajar o uso de maconha entre os jovens.

Como esses filmes costumavam ser exibidos à meia-noite, a Fox tentaria exibir The Rocky Horror Picture Show também nesse horário, como uma última cartada. A primeira sessão à meia-noite do filme ocorreria não em um Halloween, mas em um Primeiro de Abril, também em Nova Iorque, em 1976; por algum motivo, a sessão teve tanto público que a rede de cinemas decidiu repetir no Halloween daquele ano, começando a tradição que dura até hoje.

O sucesso das sessões à meia-noite foi tanto que por volta de 50 cidades exibiram o filme nesse horário o ano de 1978 inteiro, sempre às sextas-feiras e sábados. Em 1979, esse número aumentou para por volta de 230. Foi nessa época que o filme começou a ganhar status de cult, adquirindo uma plateia cativa também no cinema - com a maioria, inclusive, indo assisti-lo fantasiada. Logo surgiriam também as primeiras convenções, periódicos e itens colecionáveis relacionados à obra. No início da década de 1980, The Rocky Horror Picture Show era um fenômeno de massa tão grande quanto Star Wars.

Em 1981, O'Brien e Sharman pensaram em escrever uma sequência para o filme, chamada The Brad and Janet Show. Após muitas mudanças, o roteiro acabaria dando origem a um filme completamente diferente, chamado Tratamento de Choque. Embora também seja protagonizado por um casal chamado Brad e Janet, esse filme, um musical de humor negro, não tem nada a ver com The Rocky Horror Picture Show, embora seja considerado um "filme associado". O'Brien tentaria novamente no ano seguinte, escrevendo um roteiro que chamou de Revenge of the Old Queen, esse sim uma verdadeira sequência para The Rocky Horror Picture Show. Esse filme, entretanto, jamais chegaria a ser feito, e o próprio O'Brien admite que tanto tempo se passou desde a estreia do original que uma sequência talvez nem faça mais sentido.

Se bem que, para um filme que está em cartaz desde 1975, "muito tempo após a estreia" parece ser um termo um tanto vago.

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