segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Clássicos Disney (XIV)

E vamos a mais três Clássicos Disney!

Fantasia 2000
1999

Quando finalizou Fantasia, lá em 1940, Walt Disney pretendia que o filme fosse uma obra em eterna construção: a cada ano, novos segmentos seriam acrescentados e outros retirados, apresentado aos amantes da animação e da música clássica praticamente um novo espetáculo a cada reestreia. Em sua exibição original, Fantasia, entretanto, seria um gigantesco fracasso de bilheteria, o que faria Disney desistir da ideia, transformando o desenho em uma obra fechada.

Após a morte de Walt, em 1966, seu sobrinho, Roy E. Disney, pensaria em pôr em prática a ideia de seu tio, acrescentando novos segmentos a Fantasia e relançando-o como homenagem, atualizando-o a partir de então. O final da década de 1960, porém, seria de muitas incertezas para a Disney, e Roy também acabaria abandonando esse projeto. Somente em 1974 ele voltaria a pensar em algo do tipo, mas dessa vez com uma diferença: ao invés de atualizar Fantasia, criaria uma sequência, um desenho completamente novo mas no mesmo estilo, com segmentos musicais animados intercalados por cenas filmadas.

O timing de Roy é que não seria muito bom, já que, na época, a Disney já estava pensando em fazer justamente isso, mas não como uma sequência de Fantasia. O projeto se chamaria Musicana, e exploraria as culturas do mundo através de sua música, com segmentos dedicados ao blues norte-americano, aos ritmos tradicionais africanos e à música clássica europeia, dentre outros.

Musicana chegou a ter músicas escolhidas, storyboards e arte conceitual preparados e pré-produção iniciada quando foi cancelado, no início dos anos 1980, por questões financeiras. Quando Roy soube, decidiu conversar com Michael Eisner, então presidente da Disney, e tentar aproveitar o que já havia sido feito em seu próprio projeto. Roy apresentaria o projeto a Eisner em 1984, e o executivo decidiria não aproveitar o que seria feito em Musicana, e sim começar do zero, criando uma verdadeira sequência para Fantasia, sem qualquer imposição temática.

Os tais problemas financeiros, entretanto, atrasariam, e muito, o projeto. Somente em 1990 é que começaria a pré-produção do que então se chamava Fantasia Continued. No final de 1991, Roy convidaria o maestro James Levine para reger a orquestra, e somente então os dois e a equipe de produção se sentariam para decidir quais músicas fariam parte do programa. Acabou se chegando a uma lista de seis novas músicas, mais três que seriam repetidas do Fantasia original, para tentar reproduzir a intenção original de Walt Disney.

Essa não seria, contudo, a lista final do filme. Durante a produção, ela sofreria várias modificações, a mais notável a redução de sequências transpostas do Fantasia original - das três propostas, acabaria ficando apenas uma, O Aprendiz de Feiticeiro, com A Dança das Horas e O Quebra-Nozes sendo removidos, este último poucos meses antes da estreia do filme, e já constando até do trailer e do material de divulgação. Além disso, o diretor Eric Goldberg já estava trabalhando em um curta cuja arte era - assim como Aladdin, no qual supervisionou a animação do gênio - inspirada nos cartuns de Al Hirschfeld, e que tinha como música de fundo Rhapsody in Blue, música que combina elementos de música clássica e jazz, composta pelo norte-americano George Gershwin; imaginando que seria bom ter um segmento dedicado a um compositor norte-americano, Roy pediria a Goldberg que incluísse seu curta no projeto, aumentando o total de músicas novas para sete.

O novo Fantasia teria três diferenças fundamentais em relação a seu antecessor. Para começar, o piano, agora, era um instrumento importante, presente em mais da metade dos segmentos, enquanto no original não havia piano em nenhum deles. Segundo, além da animação tradicional, os segmentos faziam amplo uso de computação gráfica, fosse mesclada à animação ou usada de forma independente - um dos segmentos, Concerto para Piano número 2 em Fá Maior, de Dmitri Shostakovich, inclusive, é completamente produzido em computação gráfica, sendo a primeira animação Disney produzida totalmente nesse formato. Finalmente, enquanto Fantasia tinha apenas um mestre de cerimônias - o compositor, crítico de música e personalidade do rádio Deems Taylor - Roy achou que o filme ficaria mais divertido se diversas personalidades atuassem no papel, cada uma apresentando um segmento, e convidou vários artistas ligados à Disney para o papel, muitos deles atuando sem sequer cobrar cachê.

No total, o filme contaria com oito segmentos. No começo, o mestre de cerimônias é o ator Steve Martin, que fala brevemente sobre o Fantasia original e sobre o projeto de Walt Disney de aprimoração contínua da obra, e introduz o segmento cuja trilha é a Sinfonia número cinco em Dó Menor, de Ludwig van Beethoven, no qual formas abstratas que lembram borboletas e morcegos dançam eum cenário de luz e sombras. A equipe de animação chegou a visitar um zoológico e um viveiro de borboletas para estudar o comportamento dos animais e fazer seu voo o mais realístico possível. O segmento é feito com animação tradicional mesclada a computação gráfica, com os elementos tradicionais sendo animados através do computador.

Na volta, Martin se recusa a ser substituído, mas é o violinista Itzhak Perlman quem introduz o segundo segmento, também feito de computação gráfica mesclada a animação tradicional, cuja trilha é Os Pinheiros de Roma, de Ottorino Respighi, música escolhida pelo próprio Roy E. Disney. No segmento, um grupo de baleias viaja pelo mar e pelo céu, com um filhote desgarrado tentando se reunir a seus pais.

O terceiro segmento é o de Rhapsody in Blue, de George Gershwin, totalmente feito em animação tradicional e introduzido pelo músico Quincy Jones, retratando a vida cotidiana da Nova Iorque da década de 1930. Em seguida, a atriz Bette Midler fala sobre os segmentos originalmente selecionados para fazer parte do Fantasia original mas posteriormente descartados, e introduz o quarto segmento, Concerto para Piano número 2 em Fá Maior, de Dmitri Shostakovich, totalmente feito em computação gráfica. Assim como o próprio concerto, o segmento é inspirado na história O Soldadinho de Chumbo, e mostra um soldadinho de uma única perna tendo que salvar sua amada, a bailarina de uma caixinha de música, de um vilão, um daqueles palhaços que salta de uma caixa para assustar as pessoas.

O quinto segmento é introduzido pelo ator James Earl Jones, usa a canção O Carnaval dos Animais, de Camille Saint-Saëns, e mostra um grupo de flamingos que quer obrigar um membro rebelde a agir como eles, mas o rebelde está mais interessado em brincar de io-iô. Feito em animação tradicional, o segmento foi ideia do roteirista Joe Grant, apaixonado pelo balé dos avestruzes do Fantasia original, e que se inspirou em um colega, o diretor Mike Gabriel, que sempre brincava com um io-iô nos intervalos da produção de Pocahontas.

O sexto segmento é O Aprendiz de Feiticeiro, introduzido pela dupla de mágicos Penn & Teller. O segmento é idêntico ao do Fantasia original, incluindo seu final, no qual Mickey conversa com o maestro Leopold Stokowski. Depois disso, porém, Mickey conversa também com James Levine, comentando sobre o atraso de Donald para a apresentação. É a introdução para o sétimo segmento, também em animação tradicional, Pompa e Circunstância, de Edward Elgar. O segmento conta a história da Arca de Noé, com Donald e Margarida, que se perdem um do outro durante a viagem, no papel do casal de patos.

O oitavo e último segmento é introduzido pela atriz e dubladora Angela Lansbury. Sua tilha sonora é o balé O Pássaro de Fogo, de Igor Stravinsky. Roy queria para encerrar o filme um número tão emocionante quanto o do Fantasia original, e a ideia veio dos diretores e roteiristas Paul e Gaëtan Brizzi, que criaram uma interpretação poética para a erupção do Monte Santa Helena, no Estado de Washington, Estados Unidos, em 1980, na vida real seguida de uma rápida recuperação da flora e fauna locais. No segmento, a Ninfa da Primavera e seu amigo, o uapiti (espécie de veado encontrado apenas naquela região), acidentalmente libertam uma fênix que mora dentro do vulcão, que destrói toda a floresta antes de morrer. A Ninfa fica arrasada, mas é convencida pelo uapiti a restaurar a floresta para se alegrar. O segmento é quase todo feito em animação tradicional, exceto pelos chifres do uapiti, feitos de computação.

O filme seria integralmente concluído em 1999, e a Disney chegaria a cogitar o nome Fantasia 1999, decidindo depois que Fantasia 2000 teria mais impacto. Sua estreia seria em 17 de dezembro de 1999 em Nova Iorque, estreando em 1o de janeiro de 2000 no restante do mundo. Além das sessões "normais" de cinema - exibidas no formato IMAX, na primeira vez em que um longa de animação utilizava esse formato - Fantasia 2000 contou com sessões especiais no Carnegie Hall de Nova Iorque, no Royal Albert Hall de Londres, no Théâtre des Champs-Élysées em Paris, no Orchard Hall de Tóquio e no Pasadena Civic Auditorium de Pasadena, Flórida, nas quais os segmentos filmados eram omitidos, e as músicas eram interpretadas ao vivo por uma orquestra de 120 membros regida por Levine - exceto o de Pasadena, regido por Derrick Inouye.

Fantasia 2000 faria um grande sucesso junto à crítica, mas não renderia muito dinheiro - com orçamento de 80 milhões, renderia nos Estados Unidos apenas 64,5 milhões, precisando da renda internacional para se pagar. Apesar disso, bateria vários recordes do formato IMAX - é até hoje o mais bem sucedido filme no formato, além de estabelecer na época recordes hoje superados de maior arrecadação no primeiro fim de semana e em uma única semana - e não seria considerado um fracasso pela Disney, que o tratou como um projeto especial, dissociado de seus carros-chefe para 1999 e 2000 - Tarzan e A Nova Onda do Imperador, respectivamente.

Dinossauro
Dinosaur
2000

Em 1988, o roteirista de documentários Walon Green ofereceu à Disney um roteiro para um filme de ficção estrelando dinossauros, chamado, obviamente, Dinossauro. A Disney gostou do projeto, e chegou a entrar em negociações com o técnico de efeitos especiais Phil Tippett, especialista em stop-motion, aquela técnica na qual bonecos são animados quadro a quadro, para desenvolvê-lo. Até mesmo o diretor Paul Verhoeven (de Robocop e Tropas Estelares) se mostrou interessado, negociando sua participação com a Disney. O projeto, porém, esbarrou em um problema mercadológico: no final daquele mesmo ano, Don Bluth, principal concorrente da Disney na época, lançaria seu Em Busca do Vale Encantado, que, por acaso, era sobre dinossauros, e tinha um enredo até bastante parecido com o do roteiro de Green. Não querendo ser acusada de falta de originalidade, a Disney engavetaria o projeto.

No final de 1994, animada com o desenvolvimento de Toy Story, que seria lançado no ano seguinte, a Disney resolveu ela mesma experimentar o desenvolvimento de um longa de computação gráfica, e se lembrou do projeto Dinossauro. Desengavetando-o, a Disney colocou seus técnicos para trabalhar nos modelos que poderiam ser usados no filme, e sua equipe de produção para pesquisar como seria a melhor forma de fazê-lo. Os roteiristas John Harrison e Robert Nelson Jacobs foram chamados para desenvolver o roteiro de Green, que era quase um documentário, e transformá-lo em uma obra de ficção. Ralph Zondag, o animador mais fanático por dinossauros que a Disney encontrou, seria escolhido para dirigi-lo, acompanhado de Eric Leighton.

O maior problema que a Disney teria de enfrentar era que nenhum de seus estúdios estava verdadeiramente preparado para produzir um filme de animação em computação gráfica. Para que o projeto se tornasse possível, ela passaria quatro anos apenas reformando e atualizando seu departamento de efeitos especiais, até que a produção do filme pudesse começar pra valer. Curiosamente, entretanto, Dinossauro não seria um filme totalmente feito em computação gráfica: muitos de seus cenários são locais reais da Terra atual, descobertos e filmados pela Disney enquanto o parque gráfico era montado. Essa ideia, de mesclar planos de fundo reais a personagens de computação, surgiria ainda em 1995, durante as reuniões da pré-produção, originalmente com o intuito de cortar custos. A mescla dos gráficos com os planos de fundo acabaria sendo tão perfeita, porém, que pouca gente percebe - ou acredita - que esses cenários existam mesmo, o que só contribui para o realismo e beleza do filme. Também como costumava fazer em nome do realismo, a equipe da Disney visitaria museus e conversaria com paleontólogos e especialistas, tudo para que a aparência e o comportamento dos dinossauros - deixando de lado as características humanas, evidentemente - fossem o mais próximos do que hoje se acredita ser o real - já que o real mesmo talvez só se saiba quando alguém inventar uma máquina do tempo. Foi durante essas conversas que os roteiristas decidiram mudar seu protagonista: originalmente, seria um estiracossauro, parente do triceratops, quadrúpede, com chifres, uma grande coroa e um bico no lugar da boca. Conversando com os paleontólogos, os roteiristas imaginaram que um iguanodonte, de aparência mais semelhante a um cavalo, boca mais larga e capaz de andar somente nas pernas traseiras por algum tempo possibilitaria uma gama maior de emoções e movimentos.

Originalmente, aliás, o filme seria mudo, com apenas um narrador explicando a história enquanto os dinossauros agiam. O intuito era, mais uma vez, evitar comparações com Em Busca do Vale Encantado. Michael Eisner, porém, achou que seria difícil criar uma empatia do público com os dinossauros se esses não se comportassem como personagens Disney tradicionais, e pediu para que eles passassem a falar e se emocionar como se tivessem características humanas. Na versão final do roteiro, apenas os dinossauros carnívoros, como carnossauros e velocirraptors, mais interessados em comer os protagonistas do que em conversar com eles, não falam.

O protagonista de Dinossauro é Aladar (D.B. Sweeney), um iguanodonte. Seu ovo foi roubado do ninho por um pterodáctilo, caiu e chocou em uma ilha isolada, habitada por lêmures. Aladar acabaria "adotado" por uma família dos simpáticos primatas, composta pelo ancião Yar (Ossie Davis), também líder de todo o grupo, e que inicialmente é contra a criação do "monstro" dentre os seus; sua filha, Plio (Alfre Woodard), que se recusa a deixar Aladar para morrer na floresta e o traz para a família; o outro filho de Yar, Zini (Max Casella), brincalhão e um tanto atrapalhado, que tem grande dificuldade em encontrar uma parceira que o aceite e acaba se tornando o melhor amigo de Aladar; e a filha de Plio, Suri (Hayden Panettiere, de Heroes, na época com dez anos de idade).

Um dia, um evento cataclísmico muda a vida da família, que se vê obrigada a deixar a ilha. Durante sua peregrinação, eles acabam chegando a um deserto, onde encontram um grande grupo de dinossauros, liderados pelo iguanodonte Kron (Samuel E. Wright). O grupo procura por um vale escondido, onde a água ainda seria abundante e a comida farta, diferentemente do grande deserto que o resto do mundo parece ter se tornado. Kron, entretanto, acredita que somente os mais fortes terão o direito de viver nesse vale, contando com a ajuda de outro iguanodonte, o brutamontes Bruton (Peter Siragusa), para manter o grupo na linha e em marcha, e não vê com bons olhos a chegada de Aladar, principalmente depois que ele resolve ajudar duas idosas, a braquiossauro Baylene (Joan Plowright) e a estiracossauro Eema (Della Reese), que não têm forças para companhar o grupo propriamente, e ainda carregam um bichinho de estimação, o anquilossauro Url (Frank Welker). Aladar, os lêmures, as idosas e os bichinhos acabam formando um subgrupo, que, na opinião de Kron, podia muito bem ficar para trás e virar comida de carnossauro, mas, para insatisfação do líder, sua irmã, Neera (Julianna Marguilles, de Plantão Médico) se apaixona por Aladar e decide ajudá-lo.

A trilha sonora de Dinossauro ficaria a cargo do veterano James Newton Howard, que comporia várias canções instrumentais para o filme. A Disney chegaria a contratar a cantora Kate Bush para escrever e gravar uma canção que também seria tocada nas rádios para promover o filme, mas, depois que a plateia de teste considerou a canção sem graça, a Disney pediu que Bush a reescrevesse e a cantora se negou, a canção acabaria removida do filme e o contrato rescindido, com Dinossauro ficando apenas com as canções instrumentais. Curiosamente, na China, uma canção do artista local Jacky Cheung, Something Only Love Can Do, com versões em inglês, mandarim e cantonês, substituiria a de Bush no filme e nas rádios.

Graças à computação gráfica, Dinossauro usaria uma equipe muito menor de profissionais que o normal para uma produção Disney, apenas 48 pessoas. Por outro lado, o uso de uma tecnologia ainda em desenvolvimento representaria um orçamento inchado, de 127,5 milhões de dólares. Para tentar recuperar esse dinheiro o quanto antes, a Disney decidiria lançá-lo ainda em 19 de maio de 2000, "esprimido" entre Fantasia 2000 e o Clássico previsto para aquele ano, A Nova Onda do Imperador - curiosamente, originalmente a Disney não consideraria Dinossauro um de seus Clássicos, só vindo a incluí-lo na lista em 2008. A estratégia acabaria dando certo: talvez movidos pela curiosidade em relação à computação gráfica, o público lotaria as salas dos cinemas, que arrecadariam quase 40 milhões de dólares em seu primeiro fim de semana, e 140 milhões no total apenas nos Estados Unidos.

A crítica também receberia bem o filme, mas com uma ressalva: a de que, fazendo os dinossauros falarem, a Disney teria anulado seus esforços para fazer o filme tão realístico. De fato, parece que não se pode agradar a todos.

A Nova Onda do Imperador
The Emperor's New Groove
2000

O Império Inca é governado com irresponsabilidade pelo jovem Imperador Cuzco (David Spade), mais interessado em realizar seus caprichos e vontades do que no bem-estar de seu povo. Ele chega até a planejar destruir uma vila inteira, desalojando a família do simpático Pacha (John Goodman), simplesmente para construir Kuzcotopia, um parque de diversões que somente ele poderá usar. Kuzco não sabe, entretanto, que sua principal conselheira, Yzma (a cantora Ertha Kitt, também conhecida por interpretar a Mulher-Gato na terceira temporada do seriado do Batman da década de 1960), e seu assecla, o fortão mas pouco inteligente Kronk Pepikrankenitz (Patrick Warburton), tramam para assassiná-lo e tomar seu lugar. Graças a uma trapalhada, entretanto, Kuzco não é morto, e sim transformado em uma lhama, e acaba sendo salvo por ninguém menos que Pacha. Vivendo como lhama e na companhia do pobre porém generoso amigo, Kuzco aprenderá que há coisas mais importantes na vida que o dinheiro e o poder - mas ainda terá de derrotar Yzma e Kronk e retomar sua forma original se quiser viver para colocar esses ensinamentos em prática.

A produção de A Nova Onda do Imperador começaria em 1994, logo após a estreia de O Rei Leão. À época, o filme se chamaria Kingdom of the Sun ("O Reino do Sol"), seria um musical dirigido por Roger Allers (co-diretor de O Rei Leão) com trilha sonora composta por Sting (já que O Rei Leão teve trilha composta por Elton John) e teria uma história bem diferente: Kuzco (que ainda seria dublado por David Spade) ainda seria um imperador jovem e irresponsável, mas, um dia, ele encontraria um camponês de aparência idêntica à sua (dublado por Owen Wilson). Aproveitando a oportunidade, Kuzco e o camponês trocariam de lugar, como no conto O Príncipe e o Mendigo, com o camponês assumindo as responsabilidades do trono e Kuzco indo viver os prazeres da vida. A malvada Yzma descobriria a troca, e, transformando Kuzco em lhama, obrigaria o camponês a fazer todas as suas vontades, sob pena de revelar que ele era um impostor, o que resultaria em sua morte. Enquanto Yzma efetivamente governava o Império, Kuzco conheceria uma jovem pastora de lhamas (Wendie Malick, que na versão final dublaria Chicha, esposa de Pacha), por quem se apaixonaria, aprenderia a ser humilde e acompanharia em sua jornada para reaver o trono e sua forma humana.

Esse projeto, entretanto, sofreria inúmeros problemas desde seu início. Para começar, Michael Eisner, diretor da Disney na época, não se mostrou muito empolgado em fazer mais uma versão de O Príncipe e o Mendigo, principalmente porque a própria Disney já havia feito uma, com Mickey nos dois papéis. Além disso, o roteiro era considerado falho e dramático demais, e as plateias de teste que assistiriam aos storyboards preliminares não se mostrariam muito empolgadas. Para tentar reverter essa situação, Eisner convidaria o roteirista Mike Dindal, famoso por suas comédias. Mas Allers, que, além de dirigir também estava escrevendo o roteiro de Kingdom of the Sun, não aceitou a interferência, e, na prática, o resultado foi que duas versões diferentes do filme entrariam em produção, uma escrita por Allers, mais dramática, e uma escrita por Dindal, mais de comédia.

Essa bagunça, evidentemente, atrasaria a conclusão do projeto, que veria sua data de lançamento adiada inúmeras vezes enquanto outros Clássicos como Pocahontas e O Corcunda de Notre Dame estreavam. A princípio, Eisner decidiria dar um voto de confiança a Allers, já que O Rei Leão também tinha tido uma produção problemática e acabaria sendo um grande sucesso, mas, em 1998, quando foi estabelecida a data de lançamento para o verão de 2000, e mesmo assim se corria o risco de o filme não ficar pronto a tempo, Eisner perdeu a paciência. Chamando o produtor Randy Fullmer, ele ameaçou o filme de cancelamento se o prazo não fosse cumprido. Fullmer passou a mensagem a Allers, que disse estar confiante de que, se a Disney adiasse a data de lançamento para 2001, o desenho ficaria pronto a tempo. Fullmer se recusou a levar a proposta de adiamento a Eisner, e Allers se demitiu.

Com a saída de Allers, Dindal assumiria, também, o papel de diretor do filme. Eisner não ficou nada satisfeito com isso, e deu a Fullmer duas semanas para apresentar resultados, ou o projeto seria cancelado. Fullmer e Dindal, então, se reuniriam com os roteiristas Chris Williams e David Reynolds e reformulariam completamente a história do filme: saíam o sósia camponês e o interesse amoroso, entravam um grande amigo para Kuzco e um ajudante abobalhado para Yzma. O desenho deixaria de ser um musical - para desgosto de Sting, cujas canções, já todas prontas, só apareceriam no álbum da trilha sonora, exceto uma, My Funny Friend and Me - e se tornaria uma comédia escrachada. E, talvez o mais importante, deixaria de ser inspirado em O Príncipe e o Mendigo e passaria a se basear em A Nova Roupa do Imperador, fábula que também mostrava um governante mais interessado em seu prazer pessoal que no bem-estar de seu povo. Para mostrar que o projeto era totalmente dissociado do anterior, Dindal e Fuller decidiram também mudar o título, abandonando Kingdom of the Sun e escolhendo um novo, semelhante ao da fábula na qual agora se inspirava.

Apesar de ser absurdamente engraçado - se bem que eu posso ser suspeito para falar, já que A Nova Onda do Imperador é um dos meus Clássicos Disney preferidos - o desenho, que estreou em 15 de dezembro de 2000 - estourando em seis meses o prazo fatal dado por Eisner a Allers - não chamou muita atenção do público, não sendo bem sucedido nas bilheterias - com orçamento de 100 milhões de dólares, rendeu apenas 80 milhões nos Estados Unidos. A crítica se dividiria, com alguns exaltando justamente o humor do filme, outros considerando que não era um Clássico Disney à altura de seus antecessores. Pelo menos, para compensar a frustração de Sting, My Funny Friend and Me seria indicada ao Oscar e ao Globo de Ouro de Melhor Canção e ao Grammy de Melhor Canção Escrita para Filme ou Televisão - mas não ganharia nenhum desses três prêmios.

A Nova Onda do Imperador ganharia uma continuação lançada diretamente para DVD em 2005, chamada A Nova Onda do Kronk (Kronk's New Groove), que, como o nome sugere, traz Kronk como protagonista, tendo de lidar com o fato de que seu pai, que está chegando para visitá-lo, não aceita as escolhas que ele fez na vida, preferindo que ele tivesse se casado e hoje vivesse em uma bela casa no alto de uma montanha, como Pacha. O filme também daria origem a uma série animada, A Nova Escola do Imperador (The Emperor's New School), exibida entre janeiro de 2006 e novembro de 2008 pela ABC, com um total de 52 episódios. Oficialmente ambientada entre os dois filmes, a série mostra Kuzco frequentando uma escola como exigência para que possa reassumir o trono após deixar de seu um lhama, e Yzma se disfarçando como a diretora (sob o nome de Amzy) para tentar matá-lo e tomar o trono novamente. Kronk, Pacha e Chicha também participam de vários episódios.

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