segunda-feira, 16 de julho de 2012

Tchoukbol

Quando eu era criança, pensei em inventar um esporte. Saiu uma coisa bem bizarra, com todo mundo tendo de pular com um pogobol entre as pernas e carregar a bola em uma cesta amarrada na cabeça. Além de muito esquisito, provavelmente impraticável.

Por isso, me causa estranheza saber que existem pessoas por aí que inventam esportes coerentes e praticáveis - sim, eu sei que todo esporte foi inventado por alguém, que nenhum surgiu do nada; estou me referindo àquelas pessoas que, um dia, pensam "vou inventar um esporte", e se sentam para criar as regras, ao invés de codificar alguma coisa que surgiu espontaneamente como passatempo. Pessoas mais experientes e capacitadas do que eu em minha infância, logicamente, mas, ainda assim, merecedoras de todo o meu respeito por terem conseguido inventar um esporte novo - e, muitas vezes, diferente dos que todo mundo conhecia.

Essa história - de que eu, um dia, tentei inventar um esporte - me veio à mente essa semana, quando conversava com uma amiga professora de educação física. Um dos assuntos da conversa era o tchoukbol, esporte razoavelmente diferente dos demais - se parece um pouco com o handebol, mas ainda assim possui diferenças fundamentais - inventado por uma única pessoa, e que, já há algum tempo, vem se popularizando aqui no Brasil. Motivado por essa conversa - adivinhem - hoje é dia de tchoukbol aqui no átomo!



O tchoukbol é jogado em uma quadra que pode ter de 26 a 29 metros de comprimento por de 15 a 17 metros de largura, sendo a medida mais comum 27 por 16. As únicas marcações na quadra são uma linha que a divide no meio, no sentido da largura, e duas "áreas proibidas", semicírculos de 3 m de raio centrados nas linhas de fundo. Todas as linhas que marcam a quadra devem ter no mínimo 5 cm de largura, e fazem parte de suas determinadas áreas - as linhas que delimitam a quadra fazem parte da quadra, e as que delimitam a área proibida fazem parte da área proibida.

Centrados sobre as linhas de fundo, se projetando para fora do campo de jogo, ficam os quadros, os elementos mais característicos do jogo: um quadro é uma espécie de trampolim, de 1 metro de altura por 1 metro de largura, inclinado a 45 graus em relação ao solo e bem firme no chão, mas não fixo, para não se mover quando for atingido pela bola, mas não machucar os jogadores caso se choquem contra ele. O centro do quadro possui uma rede, bem firme e esticada, contra o qual a bola será arremessada. O objetivo do jogo é lançar a bola no quadro, para que ela quique na rede e retorne para a quadra - fazendo o som "tchouk" que dá nome ao jogo. Caso a bola, após quicar no quadro, quique novamente dentro da quadra, fora da área proibida, o time que a arremessou marcará um ponto.

A bola é semelhante a uma bola de handebol. Para partidas masculinas, deve ter entre 58 e 60 cm de circunferência e pesar entre 425 e 475 gramas; para partidas femininas ou mistas, entre 54 e 56 cm de circunferência e entre 325 e 400 gramas de peso.

Um time de tchoukbol é composto de 12 jogadores, sendo que sete atuam em quadra e os outros cinco ficam na reserva. As substituições são ilimitadas, mas só podem ser feitas depois que um ponto é marcado, antes de o jogo recomeçar. Todos os reservas entram pelo meio da quadra, e devem esperar os jogadores que estão substituindo saírem completamente pelo mesmo local antes de entrarem. O tchoukbol pode ser disputado nas categorias masculina, feminina ou misto, sendo que cada time misto deve ter obrigatoriamente seis homens e seis mulheres.

Uma partida de tchoukbol dura três tempos de 15 minutos cada, com um intervalo de 5 minutos entre eles. O relógio nunca para, a não ser em caso de atendimento médico ou substituição de equipamento. Ao final do terceiro tempo, a equipe com mais pontos é declarada vencedora. Empates são possíveis, mas, caso seja um jogo que não pode terminar empatado (como a final de um campeonato), são jogadas sucessivas prorrogações de 5 minutos cada, até que haja um vencedor.

Uma coisa muito curiosa sobre o tchoukbol é que cada time não possui um lado próprio - ou seja, qualquer time pode pontuar lançando a bola em qualquer um dos dois quadros, com a única exceção sendo a de que não se pode pontuar mais de três vezes consecutivas no mesmo quadro - ou seja, depois que três pontos consecutivos tenham sido marcados naquele quadro, o seguinte deverá ser marcado no outro. Também é proibido qualquer contato físico, tentar roubar a bola da mão de um adversário e tentar interceptar a bola quando ela está sendo passada de um adversário para o outro - praticamente a única forma de se roubar a bola do time adversário é pegando-a depois que ela quica no quadro.

No início de cada partida, a equipe que irá começar é escolhida através do lançamento de uma moeda. Um dos jogadores dessa equipe, então, se posiciona atrás da linha de fundo, ao lado de um dos quadros, escolhido por ela. Toda vez que um ponto é marcado, a equipe que sofreu o ponto é que recebe a bola atrás da linha de fundo, ao lado do quadro no qual o ponto foi marcado. No início do segundo tempo, o outro time (o que não começou o primeiro) recomeça o jogo ao lado de qualquer um dos quadros. No início do terceiro tempo, é o time que está perdendo quem começa, ou, no caso de um empate, o time que começou a partida. Em cada prorrogação, quem começa é o time que não começou o tempo ou prorrogação imediatamente anterior.

Em cada começo ou recomeço, os jogadores podem ficar em qualquer lugar da quadra. O jogador que está começando ou recomeçando, então, lança a bola para um deles. Para que o começo ou recomeço seja válido, a bola tem que passar totalmente do meio do campo, e o jogador que a pegou não pode ter nenhuma parte de seu corpo na mesma metade do campo de onde a bola saiu.

Uma vez que um time tenha a posse de bola, ele tentará chegar a um dos quadros (normalmente o mais próximo). Os jogadores podem se movimentar livremente, mas um jogador que esteja com a bola só poderá dar no máximo três passos com ela antes de ter de passá-la para um companheiro. Mesmo que não tenha dado os três passos, um jogador só pode ficar com a posse de bola durante três segundos antes de ter de passá-la para um companheiro. E somente três passes podem ser dados - ou seja, três pessoas do time ter a posse de bola - antes que o time tenha de arremessar para tentar marcar um ponto. Essas regras fazem com que o tchoukbol seja um jogo muito veloz e dinâmico, e compensam a proibição de não se poder roubar a bola do outro time.

Quando o jogador arremessa a bola em direção ao quadro, os pontos podem ser marcados de várias formas: será ponto para o time que arremessou a bola caso a bola quique no quadro, retorne para dentro da quadra e quique novamente fora da área proibida; caso a bola quique no quadro, volte para a quadra e bata abaixo dos joelhos de um dos jogadores do time oponente; caso um dos jogadores do time oponente, após a bola quicar no quadro e voltar para a quadra, a pegue mas não consiga manter seu controle, derrubando-a no chão ou saindo da quadra; ou caso a bola, após quicar no quadro e voltar para a quadra, for parar nas mãos de um jogador do time oponente que esteja dentro da área proibida, fora da quadra, ou tenha passado por dentro da área proibida antes de pegá-la.

Também é possível que o ponto vá para o time que não arremessou a bola, nos seguintes casos: se o jogador errar o quadro, lançando a bola para fora; se a bola, após quicar no quadro, quicar dentro da área proibida ou fora da quadra; caso o próprio jogador que arremessou a bola para o quadro toque nela após ela quicar; ou caso um outro jogador do time que arremessou a bola toque nela enquanto está dentro da área proibida, fora da quadra ou para evitar que ela quique dentro da área proibida ou fora da quadra. Caso a bola quique no quadro e seja pega por um jogador qualquer fora da área proibida e dentro de quadra, o jogo continua normalmente, sem que ninguém ganhe o ponto. Caso a bola acerte a armação de metal do quadro, ou seus ganchos e cordas de sustentação, será posse de bola para o outro time no local onde ela voltou para a quadra, embora ele não ganhe o ponto.

No caso de uma falta, a posse de bola também passa para o outro time, no local onde a falta ocorreu. É considerado falta quando um jogador dá mais de três passos com a bola; fica mais de três segundos com a bola; quando um time passa a bola mais de três vezes antes de arremessá-la para o quadro; quando um jogador toca a bola com suas canelas ou pés (embora seja permitido tocá-la com as coxas ou joelhos); quando um jogador tem parte do corpo fora da quadra quando toca na bola, ou se passou por fora da quadra imediatamente antes de receber a bola; se um jogador derrubar a bola no chão; obstruir um passe feito por um jogador adversário; tocar uma bola arremessada por um adversário na direção do quadro antes de ela tocar o quadro; pisar dentro da área proibida de posse da bola ou passar por dentro da área proibida imediatamente antes de receber a bola; arremessar na direção de um quadro no qual já foram marcados três pontos consecutivos; ou se a bola não cruzar a linha do meio após um começo ou recomeço. Se a bola sair da quadra, é posse de bola para o time que não a estava tocando quando ela saiu no ponto onde ela saiu, mas não é considerado falta. Para cobrar uma falta, o jogador deve segurar a bola com as duas mãos e tocá-la no chão antes de sair jogando; pelo menos um passe deve ser dado após a cobrança de uma falta antes que o time possa tentar arremessar a bola para o quadro.

Uma partida de tchoukbol é oficiada por três árbitros. O árbitro principal corre ao longo da linha de lado mais próxima dos bancos de reservas, e pode marcar faltas, autorizar substituições, validar começos e recomeços, interromper o jogo em caso de atendimento médico ou substituição de material, e tomar outras decisões relacionadas ao andamento da partida. Os árbitros secundários correm um ao longo de cada linha de fundo, validando pontos e auxiliando o principal no que for necessário. O árbitro principal carrega consigo um cartão amarelo e um vermelho, os quais pode aplicar a jogadores que insistam em determinadas faltas, incorram em faltas especialmente graves ou tenham conduta antidesportiva. Um cartão amarelo vale apenas como advertência, mas dois cartões amarelos na mesma partida levam à expulsão do jogador, assim como um cartão vermelho. Um jogador expulso não pode mais atuar naquela partida, e seu time deverá jogar com um a menos até marcar ou sofrer um ponto, quando poderá colocar outro em seu lugar.

A competição mais importante do tchoukbol é o Campeonato Mundial, disputado desde 1984 em intervalos irregulares. Já foram disputadas até hoje 9 edições, tanto no masculino quanto no feminino. Taiwan é soberana nesse esporte, tendo conquistado todas as edições do feminino e oito das nove edições do masculino, sendo a exceção o de 2004, conquistado pela Suíça. O tchoukbol ainda é muito pouco praticado para pleitear uma inclusão nos Jogos Olímpicos, mas já conseguiu fazer parte do programa dos World Games, tendo sua primeira participação em 2009, em Taiwan, com a seleção da casa levando os dois títulos, e já estando confirmada para 2013, na Colômbia. Tanto em 2009 quanto em 2013 a participação do tchoukbol nos World Games também serve como Campeonato Mundial daquele ano.

O tchoukbol foi inventado em 1970 pelo médico suíço Dr. Hermann Brandt. Preocupado com as inúmeras lesões que atletas de fim de semana apresentavam, ele decidiu criar um esporte que não tivesse contato físico ou agressão, e cujos pilares fossem a cooperação, o respeito e a sociabilização, tendo como objetivo secundário criar um esporte no qual qualquer um pudesse competir, independente de sexo, idade ou nível de habilidade. Segundo ele, o objetivo principal da prática esportiva não deveria ser criar campeões e estimular a competição, mas contribuir para uma sociedade mais harmônica.

Brandt começou a divulgar seu esporte em um clube próximo a seu consultório, em Genebra, usando uma quadra e bolas de handebol e trampolins usados na ginástica; com o tempo, e a popularização do esporte, ele pôde desenvolver materiais próprios para a sua prática. O esporte se tornaria popular surpreendentemente rápido, se espalhando pela Suíça e sendo levado à Inglaterra e a Taiwan através de estudantes de intercâmbio. Essa popularização levou ao surgimento, já em 1971, da Federação Internacional de Tchoukbol (FITB), que teve Suíça, Reino Unido, França, Taiwan, Japão e Coreia do Sul como membros fundadores. O Dr. Brandt seria seu primeiro presidente, mas, infelizmente, faleceria no ano seguinte à fundação do órgão, sendo substituído por um amigo, o Dr. Théodore Werey.

Werey não pouparia esforços para realizar o sonho do amigo, de que o tchoukbol fosse praticado em todo o planeta: em 1973, ele apresentou ao Conselho Executivo da FITB um plano de difusão do esporte e de seus valores através de escolas e estudantes. Apesar do orçamento reduzido, a FITB hoje é uma das Federações Internacionais que mais investe na divulgação de seu esporte, o que faz com que o tchoukbol seja um dos esportes que mais rapidamente cresce em praticantes ao redor do mundo: atualmente, a FITB já conta com 31 membros espalhados por Ásia, África, Europa e Américas, dentre eles o Brasil, membro desde 1998; além de 23 países dos cinco continentes que contam com seus "representantes oficiais", escritórios dedicados à implementação do tchoukbol naquele país.

Para contribuir com a difusão do esporte, além do tchoukbol "original", disputado numa quadra, a FITB hoje também investe em duas outras modalidades, o tchoukbol de grama e o tchoukbol de praia - o que faz com que, tendo a bola e os quadros, o tchoukbol possa ser jogado em qualquer lugar. As regras de ambas as versões são exatamente idênticas às do tchoukbol de quadra, mas o tchoukbol de praia é jogado em um campo menor, de 21 por 12 metros, e com apenas cinco jogadores de cada lado.

1 enfiaram o nariz:

asd3copas disse...

muito bom o blog, abs.

6:06 PM

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