segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Clássicos Disney (I)

Hoje eu começarei aqui no átomo uma nova série de posts. Não sei se vocês gostam de séries, mas eu gosto: elas me poupam o trabalho de escolher assunto para um monte de posts, e ainda me dão espaço para falar à vontade sobre um assunto qualquer do qual eu goste muito. No caso de hoje, sobre os Clássicos Disney.

Clássicos Disney, para quem não está acostumado à terminologia, são aqueles desenhos feitos para o cinema, normalmente lançados um por ano e baseados em contos de fadas ou famosos livros infantis. Embora eu não seja particularmente fã dos medalhões da Disney - Mickey, Pateta e Pato Donald - desde criança, sempre convivi com os clássicos, principalmente por influência da minha mãe, que é fã e até chegou a comprar um monte de fitas de vídeo para, um dia "assisti-los com os netos". Os netos não vieram, o video-cassete acabou, mas tudo bem. Hoje sou eu quem compra os DVDs, para mim mesmo. E para, talvez um dia, assistir com os netos dela, quem sabe.

Sendo, por hereditariedade, um fã dos Clássicos Disney, é evidente que, eventualmente, eu fosse falar deles aqui no átomo. A primeira vez que tive vontade foi no ano passado, quando Enrolados foi lançado e a lista de Clássicos chegou a 50 desenhos. Na época, porém, eu preferi falar de outras coisas, e, como de costume, fui adiando o assunto. Até hoje, quando, como eu já falei, estreia essa série. E vamos logo começar com ela, porque eu já estou meio sem saber o que mais dizer nessa introdução, que já está ficando meio tosca.

Antes disso, um aparte: sendo essa uma série sobre os Clássicos Disney, obviamente somente os Clássicos Disney - os atualmente 51 desenhos considerados clássicos pela própria Disney - farão parte dela. Continuações lançadas direto em DVD, como Bambi 2 ou Cinderela 3 (por alguma razão, nunca me conformei com isso...) serão até citados, mas não ganharão suas próprias entradas. Desenhos "secundários" (como Leitão, o Filme ou Tinker Bell) poderão ser citados ou não, e filmes misturados com desenhos (Meu Amigo o Dragão, Uma Cilada para Roger Rabbit) provavelmente não o serão. Os filmes da Pixar também não entram na lista, se bem que, agora que eu toquei no assunto, como assim eu ainda não fiz um post sobre eles?

Bem, sem mais delongas, comecemos.

O Início


Walt Disney começou sua carreira cinematográfica na cidade de Kansas City, no Missouri, Estados Unidos, ao lado do irmão Roy, no início de 1923, produzindo um curta chamado Alice's Wonderland ("O País das Maravilhas de Alice"), no qual a atriz mirim Virginia Davis, no papel de Alice, contracenava com vários personagens de desenho animado. A empresária Margaret J. Winkler, após assistir ao curta, ofereceu aos Disney um contrato para a produção de uma série estrelando Alice, que seria exibida nos cinemas. Após assinar o contrato, os Disney se mudariam para Los Angeles, onde usariam a garagem de seu tio Robert como estúdio improvisado.

A produção dos curtas de Alice duraria até 1927, e renderia dinheiro suficiente para que os Disney comprassem seu próprio estúdio e começassem a investir em seus próprios desenhos animados, sendo seu primeiro personagem Oswald, o Coelho Sortudo. Através de Winkler, os Disney conseguiram um contrato de distribuição para o desenho de Oswald com a Universal Pictures; infelizmente, apenas 28 desenhos do coelho seriam produzidos antes de uma reviravolta: em fevereiro de 1928, o marido de Winkler, Charles Mintz, assumiria a distribuidora, revogaria o contrato com a Universal, e roubaria todos os animadores dos Disney, exceto um, Ub Iwerks, para trabalhar em seu próprio estúdio de animação. Pior que isso, graças aos termos do contrato, Oswald agora era de propriedade de Mintz, e não mais dos Disney.

O baque não abalaria a confiança de Walt, que, naquele mesmo ano, criaria um novo personagem nos mesmos moldes de Oswald: Mickey Mouse. Após estrelar dois curtas animados quase que unicamente por Iwerks, Mickey estrelaria o primeiro desenho animado com som incorporado da história - até então, a "trilha sonora" era tocada ao vivo no cinema, com a ajuda de um piano ou outro instrumento. Esse desenho, chamado Steamboat Willie, se tornaria um marco da animação.

O sucesso de Mickey faria com que Walt conseguisse dar a volta por cima, comprando a parte do irmão no estúdio que haviam fundado em 1923 e conseguindo, nos anos seguintes, contratos de distribuição com a Celebrity Pictures, Columbia Pictures, United Artists e, em 1936, com a RKO Pictures, com quem ficaria até fundar sua própria distribuidora. Em 1932, Disney conseguiria também um contrato com a Technicolor, que o permitiria produzir curtas animados em cores, algo extremamente raro na época. Entre 1928 e 1934, seriam fundadas as companhias Walt Disney Productions, Walt Disney Enterprises e Disney Film Recording Company, responsáveis pela produção e lançamento da série Silly Symphonies, do clássico de 1933 Os Três Porquinhos e dos curtas Mickey's Revue e The Wise Little Hen, que marcaram as estreias, respectivamente, do Pateta e do Pato Donald, além de vários outros curtas estrelando estes dois personagens e, é claro, Mickey.

Mas Walt Disney queria mais. Seu sonho era lançar o primeiro desenho animado em longa-metragem da história do cinema - o que traria mais prestígio a seu estúdio. Ele começaria a trabalhar nesse sonho já em 1934, mas só conseguiria realizá-lo três anos depois.

Branca de Neve e os Sete Anões
Snow White and the Seven Dwarfs
1937


A maior dificuldade de Disney em produzir o primeiro desenho em longa-metragem da história do cinema era justamente essa: ninguém jamais havia tentado isso antes. Ambiciosamente, além de querer criar o primeiro desenho em longa-metragem, Disney também queria criar o primeiro desenho em longa-metragem totalmente colorido, o que, em seu planejamento inicial, custaria por volta de 250 mil dólares - dez vezes mais que um dos curtas da série Silly Symphonies, os mais caros produzidos pelos estúdios Disney na época. Devido a esse alto custo e à dificuldade da empreitada, o irmão de Walt, Roy, e sua esposa, Lilian - que chegou a declarar que "ninguém pagaria um centavo para ver um filme estrelado por anões" - foram contra, e a indústria cinematográfica apelidou o projeto de "a bobeira de Disney".

Mas Disney não se deixou abalar. Após decidir que seu primeiro longa-metragem seria baseado em um conto de fadas dos Irmãos Grimm, Branca de Neve, ele reuniu sua equipe de roteiristas, que começou a trabalhar já em 1934. O roteirista Richard Creedon ficaria responsável por compilar todas as sugestões da equipe a respeito dos personagens, cenários e situações cômicas. Na opinião de Disney, os protagonistas da história deveriam ser os sete anões - e não a princesa Branca de Neve - o que poderia render mais situações cômicas. Disney até mesmo chegou a sugerir que o desenho já começasse com Branca de Neve descobrindo a cabana dos anões, sem nem contar como ela chegou até lá.

No conto original, nenhum dos anões tem nome. Disney sugeriu que seus nomes refletissem suas personalidades, e que cada um deles representasse um arquétipo próprio - como, por exemplo, um anão que estivesse sempre assustado, com medo de tudo, e que se chamaria, muito propriamente, Assustado. Disney e sua equipe de roteiristas elaboraram, então, uma lista de 50 nomes, que foram submetidos a sucessivas votações e argumentações, até que os seis preferidos fossem escolhidos: Mestre, Feliz, Zangado, Dengoso, Soneca e Assustado. Eventualmente, Assustado seria substituído por Atchim, e para sétimo e último anão seria escolhido Dunga (que, originalmente, em inglês, se chama Dopey, "bobo").

Além de ser centrada nos anões, a primeira versão do roteiro era muito mais voltada para a comédia, com o Príncipe sendo desajeitado e meio palhaço, e a Rainha Má sendo gorducha e sem-noção. Foi o próprio Disney quem achou que as coisas já estavam saindo do controle, e que um tom tão cômico poderia prejudicar a aceitação dos personagens. Em meados de 1935 ele chegou a achar que não teria capacidade para realizar o desenho, e, somente após um período de férias na Europa ele retornaria animado a continuar com o projeto, determinando que os roteiristas focassem em cenas envolvendo Branca de Neve e os animais da floresta, e que a Rainha Má fosse bela e vaidosa como no conto original. Decidindo que Branca de Neve deveria ser a protagonista, e que o enredo deveria girar em torno de seu relacionamento conturbado com a Rainha, Disney determinou que várias cenas envolvendo os anões fossem descartadas, o que fez com que um dos animadores, revoltado, ameaçasse abandonar o estúdio.

Além das cenas envolvendo os anões, pelo menos duas outras ideias dessa nova fase dos roteiros não seriam aproveitadas: originalmente, ao invés de mandar o Caçador matar Branca de Neve, a própria Rainha tentaria matá-la com um pente envenenado, mas ela conseguiria escapar para a floresta. Além disso, para impedir que o Príncipe a salvasse do encanto da maçã envenenada com um beijo, ela o aprisionaria em sua masmorra, que se encheria lentamente de água para afogá-lo. O Príncipe seria salvo pelos animais da floresta, e levado por eles até Branca de Neve.

Na versão final do roteiro, Branca de Neve (voz de Adriana Caselotti) é uma princesa que se vê em apuros após a morte de sua mãe, pois sua madrasta, conhecida apenas como a Rainha Má (Lucille La Verne) tem inveja de sua beleza. Um dia, em um acesso de fúria e se aproveitado da ausência do Rei, a Rainha manda que um Caçador (Stuart Buchanan) a leve para a floresta e a mate. O Caçador, entretanto, fica com pena, e permite que Branca de Neve fuja. Durante a fuga, ela acaba encontrando uma cabana na qual vivem sete anões (vozes de Roy Atwell, Pinto Colvig, Otis Harlan, Scotty Mattraw e Billy Gilbert), que trabalham em uma mina de pedras preciosas. Os anões acolhem Branca de Neve, que julga estar a salvo da Rainha. Através de seu Espelho Mágico (Moroni Olsen), porém, a Rainha descobre que Branca de Neve ainda vive, e decide ela mesma matá-la, enganando-a para que ela coma uma maçã envenenada. A única coisa que pode salvar Branca de Neve é o beijo apaixonado de um Príncipe (Harry Stockwell, pai do famoso ator de seriados Dean Stockwell).

A produção de Branca de Neve e os Sete Anões levou três anos, e acabou consumindo um milhão e meio de dólares, um valor absurdo para a época. Disney teve de hipotecar a própria casa e dar seu estúdio como garantia a credores para garantir sua realização. No final, tudo valeu a pena: estreando em 21 de dezembro de 1937, o desenho foi um gigantesco sucesso de público e crítica, rendendo 3,5 milhões de dólares e se tornando o filme de maior bilheteria da história do cinema até ser desbancado por ...E o Vento Levou em 1941. O jornal The New York Times, um dos detratores do projeto, se renderia à beleza do desenho e estamparia em sua manchete do dia seguinte à da estreia Obrigado, Sr. Disney. Na mesma semana, a revista Time colocaria Branca de Neve e os sete anões em sua capa. O desenho seria elogiado por Charles Chaplin e Sergei Eisenstein, e motivaria a filmagem de O Màgico de Oz e do desenho As Viagens de Gulliver, de Max Fleischer.

A trilha sonora do desenho, com clássicos como Heigh-Ho ("eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou..."), Whistle While You Work, With a Smile and a Song e Someday My Prince Will Come - que no ano seguinte se tornaria uma canção de jazz, interpretada por vários artistas ao longo dos anos - entraria rapidamente para a cultura popular, e seria indicada ao Oscar. Infelizmente, não levou, mas a Academia decidiria dar a Disney um Oscar honorário por "inovação significativa e pioneirismo", entregue a ele por Shirley Temple na forma de uma estatueta de tamanho normal e sete menorzinhas.

Branca de Neve seria um sucesso tão grande que acabaria sendo relançado nos cinemas oito outras vezes, em 1944, 1952, 1958, 1967, 1975, 1983, 1987 e 1993. Em todas elas o desenho seria muito bem sucedido, e a soma de todas as suas bilheterias já alcança mais de 180 milhões de dólares, o que o põe na lista das dez maiores bilheterias de todos os tempos. Branca de Neve se tornaria a primeira Princesa Disney, pioneira da linha do estúdio mais popular entre as meninas, e o desenho se tornaria um dos principais responsáveis por transformar a Disney no gigante que é hoje - de fato, se Disney tivesse dado ouvidos às críticas e desistido, nem mesmo este post vocês estariam lendo.

Pinóquio
Pinocchio
1940


Preocupado com o longo tempo que Branca de Neve consumiu até ficar pronto, Walt Disney determinou que a produção de seus dois próximos desenhos começasse já em 1937, antes mesmo de o primeiro ser finalizado. Pinóquio deveria ser o terceiro desenho produzido pela Disney, logo após Bambi, mas dificuldades encontradas pelos roteiristas fizeram com que a ordem fosse invertida, e Pinóquio se tornasse o segundo.

Assim como Branca de Neve era baseado em um conto de fadas dos Irmãos Grimm, Pinóquio seria baseado em um famoso livro infantil, As Aventuras de Pinóquio, do italiano Carlo Collodi. No início, inúmeros personagens e tramas presentes no livro original também fariam parte do desenho, cujo roteiro, na opinião de Disney, estava ficando longo e confuso. Em determinado momento, ele optaria por interromper a produção e recomeçar o roteiro do zero, tornando-o mais limpo e conciso.

Originalmente, por exemplo, Pinóquio seria esperto, sarcástico e criador de confusão. Seus primeiros esboços não deixavam dúvidas de que ele era um boneco de madeira, com um nariz pontudo, cabeça redonda e mãos sem dedos. Disney, entretanto, achou que a plateia não iria simpatizar com ele, o que era um defeito fatal em qualquer protagonista. O boneco, então, tornou-se inocente e ingênuo como uma criança, e sua aparência foi repaginada até que, praticamente, de boneco mesmo só restassem os cotovelos e joelhos. Essa repaginada levou a um fato curioso: a maior característica de Pinóquio, a de que seu nariz cresce quando ele conta uma mentira, só é retratada em uma única cena do desenho - e, ainda assim, entraria para o imaginário popular como se seu nariz crescesse umas cem vezes ao longo da projeção.

O personagem do Grilo Falante também passaria por uma radical transformação: originalmente ele seria um grilo mesmo, com uma pequena participação; no roteiro revisado ele se tornaria o narrador da história, a consciência de Pinóquio, e sua aparência seria a de um homenzinho de cabeça ovalada, que, segundo seu animador, "só era um grilo porque nos referíamos a ele assim". O animador do Grilo, aliás, seria Ward Kimball, que, na época da produção de Branca de Neve, passaria meses animando uma sequência dos anões que acabaria ficando de fora da versão final, e, revoltado, ameaçaria abandonar os Estúdios Disney. Sua escolha para animador do Grilo Falante foi praticamente um suborno de Disney para que ele ficasse.

No desenho, Pinóquio é um menino de madeira, criado pelo carpinteiro Gepeto, que deseja, mas não pode, ter um filho, e vive solitário com seu gato Fígaro, seu peixe Cléo e suas criações. Um dia, atendendo ao pedido de Gepeto, a Fada Azul decide dar vida a Pinóquio, e o promete que ele se tornará um menino de verdade se for bravo, verdadeiro e altruísta. A ingenuidade de Pinóquio, entretanto, faz com que ele seja enganado pela dupla de trambiqueiros João Honesto e Gideão, que o vendem para o cigano Stromboli, que o coloca como atração principal de seu show de marionetes. Pinóquio é salvo pela Fada e pelo Grilo Falante - a quem a Fada incumbe de servir como sua consciência - e, no caminho para casa, acaba enganado novamente pelos trambiqueiros, que o vendem para o Cocheiro, um homem que leva crianças para a Ilha dos Prazeres, um local onde aparentemente eles não farão nada além de se divertir, mas que esconde um segredo terrível. Pinóquio acaba conseguindo escapar da Ilha, mas descobre que Gepeto, Fígaro e Cléo, preocupados com sua ausência, saíram para procurá-lo, e acabaram engolidos pela gigante baleia Monstro. O boneco, então, parte para salvá-los, mostrando, ao longo da aventura, as características que farão com que a Fada cumpra sua promessa.

Pinóquio foi o primeiro desenho animado a trazer astros e estrelas como dubladores de seus personagens, algo que hoje em dia é praticamente uma obrigatoriedade. A voz do Grilo Falante, por exemplo, caberia ao famoso ator da Broadway Cliff Edwards, primeiro a gravar o clássico Singing in the Rain. A voz de Pinóquio caberia ao ator mirim Dickie Jones, enquanto a de João Honesto ficaria com o ator shakespeareano Walter Catlett, e para a da Fada Azul seria escolhida Evelyn Venable. Mas o ator mais famoso do elenco seria Christian Rub, a voz de Gepeto, sendo o personagem, inclusive, desenhado à sua imagem e semelhança. Outro ator famoso da época, Charles Judels, emprestaria suz voz aos dois vilões do filme, Stromboli e o Cocheiro. Uma curiosidade em relação ao elenco é a de que o superdublador Mel Blanc, responsável por praticamente todas as vozes dos Looney Tunes, chegaria a gravar como dublador de Gideão; em determinado momento da produção, porém, foi determinado que seria melhor se Gideão fosse mudo, e nenhuma das falas gravadas por Blanc, à exceção de dois soluços, acabaria sendo aproveitada no desenho.

Pinóquio é até hoje considerado um marco da animação, por ter introduzido técnicas mais do que modernas para a época, e que só não seriam copiadas em larga escala devido a seu alto custo, só vindo a ser utilizadas com frequência bastante tempo depois do lançamento do desenho. Cada personagem, por exemplo, tinha um modelo em argila, para que os animadores soubessem qual deveria ser sua aparência de diversos ângulos diferentes. Disney invetnaria, especialmente para Pinóquio, o hoje comum cargo de animador de efeitos: enquanto os animadores de cada personagem se preocupavam apenas com seus personagens, os animadores de efeitos trabalhariam em outros elementos da cena que se movessem, ou seja, que não estivessem estáticos no cenário, como veículos, máquinas e efeitos naturais como chuva, fumaça e sombras. O animador Oskar Fischinger, por exemplo, que depois trabalharia em Fantasia, e era conhecido por seu traço abstrato, ficaria encarregado apenas dos efeitos especiais gerados pela varinha de condão da Fada Azul. Um outro animador, Sandy Strother, ficaria responsável apenas pelos efeitos de água, incluindo bolhas, ondas, respingos e a ilusão de se estar sob a água. Para que a ilusão fosse o mais realista possível, os animadores criaram uma técnica de que os elementos mais próximos da tela possuem mais detalhes, enquanto os mais ao fundo são mais borrados, quase impressionistas. Mas as cenas mais trabalhosas seriam as das carroças de Stromboli e do Cocheiro: acreditando que não era possível animar satisfatoriamente uma carroça em movimento apenas desenhando-a, os animadores decidiram criar um modelo de cada veículo, tirar fotos dele como se estivessem filmando em stop motion, ampliar as fotos ao tamanho do papel usado no desenho, colocar as células de animação sobre as fotos e então pintar sobre a carroça, incluindo os personagens depois, cada um em sua própria célula.

Esse trabalho todo faria com que Pinóquio custasse quase um milhão de dólares a mais que Branca de Neve, que, como vimos, já foi absurdamente caro: nada menos que dois milhões e trezentos mil dólares seriam torrados em sua produção. O desenho estrearia em 7 de fevereiro de 1940 nos Estados Unidos, e, apesar de ser mais um megasucesso de público e crítica, renderia menos de um milhão e meio em sua bilheteria, se tornando um fracasso comercial. Disney planejava recuperar o restante do dinheiro com a bilheteria internacional, mas acabaria tendo de esperar até 1945 para isso, já que a Segunda Guerra Mundial atrasaria sua estreia na Europa e Ásia. Assim como Branca de Neve, Pinóquio seria relançado sucessivas vezes nos cinemas norte-americanos, em 1945, 1954, 1962, 1971, 1978, 1984 e 1992, obtendo boa bilheteria em todas elas.

Pinóquio é considerado por muita gente ligada ao meio como a maior obra-prima da Disney, e é até hoje referência quando se fala em animação tradicional. É difícil encontrar uma crítica negativa ao desenho - até mesmo o crítico Archer Wisten, que não gostou de Branca de Neve, escreveria que quaisquer defeitos que existissem no primeiro desenho haviam sido sanados no segundo. Além de elogiado em sua parte visual, o desenho também possui uma trilha sonora de respeito, vencedora de dois Oscars, de Melhor Trilha Sonora e de Melhor Canção, esse último indo para When You Wish upon a Star, música que se tornaria o tema oficial da Disney nos anos vindouros.

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