segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Contatos Imediatos do Terceiro Grau

Como eu já disse aqui algumas vezes, eu costumo escrever os posts do átomo com uma certa antecedência. Isso significa que, embora vocês estejam lendo esse post na última semana no ano, eu o estou escrevendo ainda no mês de novembro, no dia seguinte a um no qual eu fui ao cinema. Fui assistir ao documentário Senna, mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é que, antes do filme, passou um trailer de Skyline: A Invasão (que, a essa altura, já deve até ter saído de cartaz). Passadas 24 horas, me pus a refletir sobre como é curioso que, para vender filmes hoje em dia, extraterrestres tenham de ser maus. Talvez não maus, mas dispostos a fazer com a gente a mesma coisa que os colonizadores europeus fizeram com os povos indígenas norte-americanos, por exemplo. Eu acho isso curioso porque cresci vendo filmes de extraterrestres, e, pelo que me lembro, a maioria não era má; pelo contrário, ao invés de chegar destruindo tudo e tratando o povo da Terra como gado, ou nos visitavam na encolha, como o E.T., ou tentavam travar contato pacífico, como os de Contatos Imediatos do Terceiro Grau.

Que, eu confesso, não era um dos meus filmes preferidos na infância. Embora os discos voadores fizessem uma aparição no início, os alienígenas só apareciam bem no final, e eu não achava muita graça em ver aquele pobre homem largar tudo para ir atrás deles. Somente já depois da adolescência é que eu comecei a apreciá-lo, e hoje até o considero um dos filmes de extraterrestres mais legais já feitos. Por causa disso, achei que seria legal lembrar dele nessa época em que todo o Universo parece ter ficado com raiva da Terra.



Por alguma razão que eu desconheço, muita gente acha que Contatos Imediatos foi o primeiro filme de Steven Spielberg. A verdade, evidentemente, é que ele não somente não foi o primeiro como nem pode ser considerado o primeiro de sucesso, já que foi filmado depois de Tubarão. A ideia da história, porém, é realmente muito antiga, pois Spielberg a teve ainda criança, quando assistia a uma chuva de meteoros ao lado de seu pai.

Spielberg se utilizou dessa ideia já em seu primeiro longa, filmado quando ele tinha apenas 16 anos. Chamado Firelight ("luz do fogo"), o filme acompanhava um grupo de cientistas que investigava misteriosas luzes no céu e o desaparecimento de animais e pessoas em uma fictícia cidade do Arizona. Embora hoje seja conhecido exatamente por filmes desse tipo, Spielberg começaria sua carreira profissional com filmes mais "convencionais", de drama, ação ou suspense policial. Somente em 1973, enquanto filmava Louca Escapada, seu primeiro longa lançado profissionalmente, ele conseguiria convencer a Columbia Pictures a firmar com ele um contrato para a produção de um filme envolvendo extraterrestres.

O único problema desse contrato era o orçamento reservado para o filme, de 2 milhões e meio de dólares, valor que o diretor considerava insuficiente para realizar um filme de ficção científica com efeitos especiais de última geração. Spielberg cogitaria filmar um documentário sobre pessoas que acreditavam em discos voadores, mas depois decidiria filmar um drama sobre o assunto baseado no Projeto Livro Azul, um programa da Força Aérea dos Estados Unidos voltado ao estudo de naves espaciais alienígenas, para determinar se elas constituíam ou não uma ameaça à segurança nacional. Spielberg batizou o filme como Watch the Skies ("vigiem os céus"), e mostrou um rascunho do roteiro aos seus amigos roteiristas Willard Huyck e Gloria Katz, que o detestaram. Seguindo o conselho de que seria melhor que outra pessoa escrevesse o roteiro, Spielberg contratou Paul Schreider, de Taxi Driver, e o incumbiu dessa missão.

O intuito de Spielberg era começar a produção do filme em 1974, mas, bem naquele ano, ele se envolveria com Tubarão, o que adiou o filme dos alienígenas por tempo indeterminado. Como vocês devem saber, Tubarão, filmado pela Universal, foi um gigantesco sucesso, o que motivou a Columbia a dar controle criativo total do filme sobre discos voadores a Spielberg, inclusive aumentando o orçamento para que ele pudesse fazer o filme da forma como bem entendesse. Spielberg, então, pediu para ver o roteiro de Schreider, e se surpreendeu com o que viu. Infelizmente, não positivamente.

Segundo Spielberg, o roteiro, batizado por Schreider de Kingdom Come, era "a coisa mais vergonhosa que um roteirista profissional já havia entregado a um diretor ou estúdio", um drama protagonizado por um oficial da Força Aérea de 45 anos, cujo trabalho era ridicularizar e desmistificar os discos voadores. Um dia, ele vê ele mesmo uma espaçonave, e ameaça revelar toda a verdade por trás do Projeto Livro Azul ao público. Seus superiores, então, ao invés de matá-lo, se mostrariam extremamente interessados em ver um disco voador também e passariam quinze anos investindo dinheiro do governo para esse propósito, até finalmente conseguir travar contato. Essa história já era suficientemente ruim, mas ainda tinha o problema de não mostrar na tela os discos voadores, que Spielberg imaginava serem o ponto principal do filme. Spielberg então contratou o novato John Hill para reescrever o roteiro em parceria com Schreider, e se desiludiu mais uma vez, já que eles mudaram o protagonista para um policial, e queriam fazer da história uma aventura de espionagem ao estilo James Bond.

Spielberg desejava que o protagonista fosse uma pessoa comum, com a qual qualquer espectador pudesse se identificar, e que o filme fosse mais focado na descoberta da existência dos extraterrestres. Durante uma conversa com outros amigos roteiristas, David Giler, Hal Barwood e Matthew Robbins, estes sugeriram que o filme envolvesse uma criança raptada por alienígenas. Vendo que o melhor era que ele mesmo escrevesse o filme da forma como desejava, Spielberg pegou várias ideias de todas essas versões escritas até então, e, com a ajuda do amigo Jerry Belson, finalmente escreveu uma história que trazia tudo o que ele queria mostrar a princípio.

Mesmo com todas essas colaborações, o roteiro final do filme acabaria creditado apenas ao próprio Spielberg, principalmente porque os outros só contribuíram com ideias. Após ter o roteiro pronto, o diretor mudaria o nome do filme mais uma vez, para Close Encounters of the Third Kind, nome inspirado pela escala de classificação de encontros com naves e criaturas extraterrestres criada por J. Allen Hynek, ufólogo que foi consultor da Força Aérea no Projeto Livro Azul - segundo essa escala, um encontro de "terceiro grau" envolveria a visualização não somente do disco voador, mas também de seres animados relacionados a ele. Hynek atuou como consultor de Spielberg durante a produção do filme, atestando que a obra era fiel aos fatos conhecidos sobre discos voadores, e declarando que Spielberg foi bastante corajoso ao bancar um filme sobre esse tema, que não era muito querido do público em geral, após ter feito tanto sucesso com Tubarão.

O protagonista de Contatos Imediatos é Roy Neary (Richard Dreyfuss), um eletricista da pequena cidade de Muncie, Indiana, casado com Ronnie (Teri Garr) e pai de três filhos. Um dia, enquanto investiga um blecaute, Roy vê três discos voadores, e sua vida muda para sempre. Apesar dos protestos de Ronnie, que deseja que ele esqueça logo essa história para que eles retomem sua vida normal, Roy se mostra a cada dia mais obcecado com os extraterrestres, e, por alguma razão, é compelido a esculpir constantemente uma estranha forma de montanha.

Roy não é o único morador de Muncie a se envolver com os discos: na periferia da cidade, vive Jillian Guiler (Melinda Dillon), mãe solteira do pequeno Barry, de três anos. Na mesma noite em que Roy vê os discos voadores, eles visitam a casa de Jillian, e Barry os persegue, imaginando serem brinquedos. Após o evento, Jillian também passa a desenhar a montanha compulsivamente.

Paralelamente a isso, o cientista francês Claude Lacombe (François Truffaut) investiga vários eventos bizarros ao redor do mundo que podem ter ligação com extraterrestres, como o reaparecimento de aviões desaparecidos há anos, em perfeito estado e no meio do deserto. Lacombe chega à conclusão de que os extertarrestres estão tentando se comunicar através de uma música, e, ao respondê-los, recebe de volta um conjunto de números, que seu assistente e intérprete, David Laughlin (Bob Balaban), descobre serem coordenadas para o local de um encontro: a mesma montanha que Roy e Jillian veem insistentemente em suas mentes, localizada no estado do Wyoming, nos Estados Unidos.

Ao ver a montanha na televisão, Roy e Jillian mais do que depresa rumam para lá. O governo, porém, pretende esconder a presença dos extraterrestres da população, restringindo o contato a uma pequena equipe de servidores treinados. Obcecado pelos discos, Roy não dá a mínima para isso, e arriscará sua vida para vê-los de perto.

Richard Dreyfuss não foi a primeira escolha de Spielberg para o papel de Roy - na verdade, foi a última. O diretor originalmente queria Steve McQueen, que gostou do roteiro mas recusou com a desculpa de que não conseguia chorar de propósito. Dustin Hoffman, Al Pacino e Gene Hackman foram chamados em seguida, mas não se interessaram. Jack Nicholson aceitou o papel, mas depois teve de recusã-lo por já estar envolvido com dois filmes, O Último Magnata e Duelo de Gigantes. Dreyfuss, que trabalhava com Spielberg em Tubarão, começou então uma verdadeira campanha para convencer o diretor a lhe escolher, pedindo para ouvir detalhes do filme, contribuindo com ideias, e até mesmo falando mal de seus "concorrentes", até convencer Spielberg de que era o ator certo para o papel.

Da mesma forma, Truffaut não foi a primeira escolha de Spielberg, que queria Gérard Depardieu no papel de Lacombe. Quando Depardieu não pôde aceitar, os produtores consideraram três astros franceses da época, Philippe Noiret, Jean-Louis Trintignant e Lino Ventura (que na verdade era italiano, mas fez carreira no cinema francês), antes de optar por Truffaut. Truffaut, que também era diretor, aproveitou os intervalos das filmagens para escrever o roteiro de um filme seu, O Homem que Amava as Mulheres. Finalmente, Teri Garr foi cotada para o papel de Jillian, mas, após os testes, Spielberg decidiu que ela ficaria melhor como Ronnie. Melinda Dillon foi indicada para o papel por Hal Ashby, diretor e produtor amigo de Spielberg que havia trabalhado com ela em Esta Terra é Minha. Dillon acabaria escalada para interpretar Jillian apenas três dias antes do início das filmagens.

As filmagens de Contatos Imediatos começariam em maio de 1976. Graças ao perfeccionismo de Spielberg, o filme acabou custando à Columbia 19 milhões e meio de dólares, com 3,3 milhões gastos apenas em efeitos especiais. Isso não teria sido muito problema, se a Columbia não estivesse às margens da falência. John Veich, um dos executivos do estúdio, declararia anos depois que, se soubesse que o filme custaria tanto, jamais teria dado a luz verde. Diz a lenda que, a cada dia de filmagens, Spielberg aparecia com novas ideias, o que ia empurrando a conclusão do filme cada vez para mais longe. Mas seu perfeccionismo não seria a única dificuldade encontrada durante as filmagens - um estúdio no Alabama seria destruído por um raio, pouco depois de uma tempestade arrasar com a cidade na qual eles estavam filmando as externas - e, verdade seja dita, ainda pouparia alguns dólares à Columbia: a princípio, os discos voadores seriam feitos de computação gráfica, mas Spielberg achou que o resultado final não ficou convincente, e preferiu fazê-los com maquetes, bem mais baratas do que uma tecnologia que ainda estava dando seus primeiros passos.

Ao invés do visual metálico das espaçonaves de Star Wars, referência na época, os responsáveis pelos efeitos especiais, Douglas Trumbull e Carlo Rambaldi, optaram pelo visual cheio de luzes dos relatos daqueles que diziam ter avistado discos voadores. Vários objetos foram testados para se chegar ao resultado esperado por Spielberg, inclusive uma máscara de oxigênio com luzes de Natal e um R2-D2 de brinquedo pintado com outras cores. Rambaldi ficaria responsável pelos extraterrestres, e a princípio cogitara usar marionetes; como o resultado final não ficou tão bom quanto o esperado, a produção contratou várias meninas da cidade onde estavam ocorrendo as filmagens e as vestiu de alienígenas - diz outra lenda que apenas meninas foram escolhidas por decisão de Spielberg, que achava que elas se moveriam de forma mais graciosa que meninos da mesma idade. Apenas o mais alto dos extraterrestres, que aparece bem no final do filme, é um boneco, animado por stop motion, aquela técnica com a qual os movimentos são filmados quadro a quadro.

A música do filme, conduzida por John Williams, criador dos temas de Star Wars e Tubarão, é um espetáculo à parte, e a música mais famosa de todas (tin-tin-tin-tum-tuuuum) tem uma história só dela: Spielberg encomendou a Williams uma música de cinco notas, e o maestro teria lhe mostrado umas trezentas até ele se decidir por esta. O tema acabou ficando tão famoso que foi parodiado em praticamente todos os filmes de ficção científica desde então, sendo hoje uma das melodias mais conhecidas da história do cinema. A única frustração de Spielberg em relação à trilha sonora foi que ele queria que a canção When You Wish upon a Star, do desenho Pinóquio e tema oficial da Disney, tocasse durante a última cena do filme, mas não conseguiu permissão.

A Columbia queria lançar Contatos Imediatos em julho de 1977, mas atrasos na pós-produção fizeram com que ele só fosse lançado em 16 de novembro do mesmo ano. Spielberg ainda tentou convencer o estúdio a esperar mais seis meses, lançando-o em julho de 1978, mas àquela altura a Columbia já estava quase fechando as portas, e precisava da renda da bilheteria o quanto antes, fosse ela qual fosse. Para sorte de todos, o filme foi um sucesso avassalador, rendendo, apenas nos Estados Unidos, 116,39 milhões de dólares, seis vezes mais do que custou. A crítica foi bastante favorável, com até mesmo os que não gostaram tanto lhe fazendo alguns elogios, e o escritor Ray Bradbury chegando a declarar que Contatos Imediatos era o melhor filme de ficção científica já feito.

Após salvar sua pele, a Columbia decidiu agradecer Spielberg lhe dando a oportunidade de fazer uma Versão do Diretor do filme, inclusive lhe destinando mais um milhão e meio de dólares para que ele filmasse algumas cenas adicionais. A única condição do contrato era que essa nova versão mostrasse o interior da nave alienígena, para que eles pudessem fazer uma nova campanha de marketing. Spielberg concordou com os termos, e chegou a adicionar sete minutos de novas cenas ao filme; curiosamente, porém, a Versão do Diretor (que, oficialmente, se chama Special Edition) é três minutos mais curta que a original, já que ele também removeu algumas cenas que achava desnecessárias. A Versão do Diretor estrearia nos cinemas em agosto de 1980, rendendo mais 15,7 milhões de dólares à Columbia.

Motivado por um making of de 101 minutos feito para a TV em 1997, em comemoração aos 20 anos do lançamento do filme, em 1998 Spielberg pediu permissão à Columbia para editar uma nova versão de Contatos Imediatos, que ficaria conhecida como Collector's Edition, ou Edição de Colecionador, para ser lançada diretamente em vídeo. O principal motivo foi que ele se arrependeu de ter aceitado mostrar o interior da nave, acreditando que teria sido melhor manter o suspense. A Edição de Colecionador traz de volta algumas cenas da versão original do filme, e omite as cenas do interior da nave, o que faz com ela seja três minutos mais longa que a versão original. Spielberg considera a Edição de Colecionador como a versão definitiva do filme, aquela que ele teria feito se a Columbia lhe tivesse dado mais seis meses em 1977.

Contatos Imediatos - o original - foi indicado a nada menos que nove Oscars, mas só ganhou um, o de Melhor Fotografia, além de um prêmio especial por sua edição de som. O filme é hoje um dos mais icônicos de todos os tempos, com cenas como a de Barry abrindo a porta para os extraterrestres e a de Roy esculpindo uma réplica da montanha no purê de batata estando dentre as mais clássicas da história do cinema. Para muitos críticos, Contatos Imediatos foi responsável, junto com Star Wars, por uma onda de filmes de ficção científica que varreu os anos 80, e que, por sua vez levou à sobrevivência do gênero até hoje - acreditem ou não, na década de 1970 a ficção científica era considerada um gênero decadente, no qual poucos estúdios queriam investir. O filme se tornou tão emblemático que o próprio Spielberg ficaria conhecido como um "diretor de filmes de extraterrestres bonzinhos", embora, a rigor, só tenha feito mais um, E.T.

Extraterrestres bonzinhos que nos levam de volta ao assunto do início do post. Não que eu ache filmes com extraterrestres maus de todo ruins. Só queria saber onde os bonzinhos foram parar.

0 enfiaram o nariz:

Postar um comentário