quarta-feira, 28 de julho de 2010

A Cor que Caiu do Céu

H.P. Lovecraft, meu autor preferido, jamais publicou um livro. Todos os seus trabalhos foram originalmente publicados em revistas de horror ou ficção científica, como a Weird Tales e a Astounding Stories. Quando alguns de seus contos foram finalmente selecionados para publicação em forma de livro, os editores não acreditaram que eles pudessem ser um sucesso comercial e os descartaram. Lovecraft nunca se conformou, mas não teve jeito: morreria apenas tendo publicado em revistas.

Após sua morte, porém, graças aos esforços de dois de seus amigos, Donald Wandrei e August Derleth, seus contos seriam publicados e republicados várias vezes, não somente em outras revistas, mas também finalmente em livros, muitos dos quais lançados por uma editora que Wandrei e Derleth criaram especialmente para esse fim, a Arkham House. Depois que eles começaram a cair em domínio público, então, a republicação foi geral, e hoje centenas de livros diferentes podem ser encontrados no mercado contendo as obras de Lovecraft.

Esse intrólito todo é para dizer que, durante muito tempo, eu busquei uma forma de falar dos contos de Lovecraft aqui no átomo. Como a maioria é curtinha, não dá para fazer (pelo menos não de forma satisfatória) um post para cada um, como eu fiz com The Call of Cthulhu. Pensei em fazer uma série falando de todos eles em ordem alfabética, em ordem cronológica, falar só dos mais famosos, só dos meus preferidos. Nenhuma dessas ideias me agradava. Essa semana, entretanto, enquanto procurava um negócio na minha estante, eu finalmente tive uma luz: falar dos contos através dos livros nos quais eles foram publicados.

O que, de acordo com minha introdução, também seria uma tarefa ingrata, não fosse um detalhe providencial: aqui no Brasil, a editora Iluminuras lançou uma coleção de Lovecraft, composta de seis livros de contos e O Horror Sobrenatural em Literatura, obra de não-ficção na qual Lovecraft discute a literatura fantástica de horror através de seus mais conhecidos autores. Como os seis livros de contos da coleção contêm quase todos os contos escritos por Lovecraft em sua curta porém produtiva carreira, eu finalmente encontrei uma forma de falar sobre os contos: falando sobre os livros da Iluminuras nos quais eles foram publicados.

Assim, hoje teremos o primeiro post nesse estilo, falando dos nove contos publicados em A Cor que Caiu do Céu, não por acaso meu livro preferido da coleção - tanto que foi parar até no meu perfil ali da esquerda. Apresentarei os contos na ordem na qual eles são apresentados no livro, que, na minha opinião, é uma ordem tão boa quanto qualquer outra. Dito isto, comecemos.

O Alquimista (The Alchemist) - Curiosamente, o conto que abre o livro não é um conto típico de Lovecraft. Na minha opinião, ele se parece mais com um conto de Edgar Allan Poe, que, aliás, foi um dos maiores ídolos e principais influências do próprio Lovecraft, o que faz com que essa semelhança não seja tão estranha assim. Além desta, a semelhança tem, ainda, outra explicação: O Alquimista foi escrito por volta de 1908, quando Lovecraft tinha por volta de 17 ou 18 anos, não tendo ainda desenvolvido seu estilo característico.

O conto ficou inédito por oito anos, sendo publicado pela primeira vez na revista The United Amateur de novembro de 1916. A United Amateur era a revista oficial da UAPA, a Associação da Imprensa Amadora Unida, organização à qual Lovecraft se filiou em 1914, após um curioso episódio: no mesmo ano de 1908 em que escreveu o conto, quando estava prestes a se formar no colégio, Lovecraft sofreu um colapso nervoso, que evitou que ele realizasse seu sonho de estudar astronomia na Universidade de Brown. Após esse colapso, Lovecraft destruiu a maior parte do que havia escrito até então, e se auto-impôs um exílio de cinco anos, dos quais praticamente não há registros, fora o de que suas principais atividades no período foram andar de bonde sem rumo e ler revistas de fantasia, horror e ficção científica.

Seria graças a uma dessas revistas que ele desistiria de sua reclusão e voltaria à convivência social: Lovecraft se sentiria tão irritado com as contribuições de Fred Jackson, um dos escritores da revista The Argosy, que escreveria uma carta de protesto ao editor. Não teria sido nada de mais, se essa carta não fosse uma epístola satírica em verso. Intrigado, o editor decidiu publicá-la, e, nos meses seguintes, o que se deu foi uma verdadeira batalha literária entre Lovecraft e os defensores de Jackson na seção de cartas, com as respostas de Lovecraft quase sempre sendo escritas em dísticos heroicos. A batalha chamaria a atenção de Edward F. Daas, presidente da UAPA, que, mais do que depressa, convidou Lovecraft para se filiar à associação, o que ele, talvez surpreendentemente, aceitou de imediato.

Estimulado por outros escritores membros da associação, Lovecraft publicaria alguns de seus contos sobreviventes na United Amateur. Os elogios dos colegas a esses contos, por sua vez, fariam com que ele retomasse sua produção literária, até então suspensa. Em outras palavras, O Alquimista pode não ser um excelente exemplo de conto de Lovecraft, mas, sem ele, talvez os "verdadeiros" contos de Lovecraft nem existissem.

O Alquimista é ambientado na França, onde vive em seu decadente castelo o narrador e protagonista da história, o Conde Antoine. Séculos antes do início da narrativa, um de seus ancestrais matou injustamente um homem acusado de feitiçaria. Em vingança, seu filho lançou uma maldição na família, de que todos os seus descendentes morreriam de forma misteriosa ao alcançar a idade de 32 anos, o que de fato acontece sem falhas até o pai de Antoine. Conforme o trigésimo-segundo aniversário de Antoine se aproxima, ele decide não esperar passivamente pela morte, mas encontrar uma forma de anular a maldição, estudando a fundo feitiçaria e demonologia. O que ele descobrirá, porém, está além do que sua imaginação pôde supor.

A Fera na Caverna (The Beast in the Cave) - Apesar de esse conto ser ainda mais antigo que O Alquimista - foi escrito em 1905, quando Lovecraft tinha apenas 14 anos - ele guarda mais semelhanças com o estilo que consagraria Lovecraft do que o anterior. A Fera na Caverna também seria publicado originalmente por intermédio da UAPA, na edição de junho de 1918 do periódico Vagrant, editado por W. Paul Cook, também membro da associação e um dos principais incentivadores para que Lovecraft voltasse a escrever.

Esse conto acompanha um narrador sem nome, que se perde do grupo durante uma visita a uma caverna. Andando sem rumo pelos labirintos do local até sua tocha se extinguir, o narrador se vê em apuros ao ouvir e sentir a presença de uma fera, que ele imagina ser uma espécie de felino. Mesmo na escuridão, ele consegue ferir a fera e fugir, encontrando o guia do grupo, que retornou para procurá-lo após dar por sua falta na saída da caverna. Os dois decidem, então, retornar ao local do encontro com a fera, onde terão uma incrível surpresa. Eu confesso que descobri o final antes de lê-lo, mas isso não diminui a grandeza do conto - que, afinal, não é o tipo de coisa que qualquer um escreve antes dos 15 anos.

A Cor que Caiu do Céu (The Colour Out of Space) - Agora nós começamos a falar a língua de Lovecraft. O conto que dá nome ao livro não somente é um dos mais republicados escritos pelo autor, mas também é considerado por muitos críticos e estudiosos de sua obra simplesmente como o melhor de todos. Um senhor título, se você levar em conta que a maioria das obras de Lovecraft é considerada como ótima ou excelente por esses mesmos críticos e estudiosos. É interessante dizer que o próprio Lovecraft também considerava a história como sua melhor, tendo ficado extremamente satisfeito ao concluí-la.

A Cor que Caiu do Céu, que tem um título muito mais legal em português do que seu original, acompanha mais uma vez um narrador sem nome, um funcionário público de Boston, enviado aos arredores da cidade de Arkham (local fictício na Nova Inglaterra que abriga várias das histórias criadas por Lovecraft), para pesquisar o local mais apropriado para ser inundado por um novo reservatório de água. Lá, ele se depara com uma extensa área, de aproximadamente 20.000 metros quadrados, totalmente deserta, sem nenhum indício de vida, e no centro da qual há um poço abandonado. Apelidada pelos moradores locais de blasted heath (algo como "brejo maldito"), a área é tida como amaldiçoada, responsável por sonhos perturbadores daqueles que tentam dormir em suas imediações, e evitada com pavor.

Retornando a Arkham, o narrador, movido pela curiosidade, decide pesquisar qual seria a origem da área amaldiçoada, e os moradores recomendam que ele converse com Ammi Pierce, um eremita que vivia próximo ao local antes de a maldição se abater sobre ele. Ammi, então, conta ao narrador uma terrível história: nos idos de 1880, o local havia sido uma produtiva fazenda, de propriedade de Nahum Gardner. Um dia, um estranho meteorito caiu na fazenda, ao lado do poço. Três professores da Miskatonic University (outro local fictício citado em diversas obras de Lovecraft) vieram às pressas examiná-lo, e descobriram que ele continha uma substância de cor indescritível, provavelmente tóxica. A partir de então, o horror se instaurou na fazenda. Tudo na área começou a apresentar uma cor cinzenta. As plantas cresceram sem explicação, pareciam mover-se sem que o vento as tocasse, e os vegetais, embora aumentados em tamanho, possuíam sabor amargo e desagradável. Os animais enlouqueceram, e, aos poucos, morreram sem explicação. Os próprios membros da família de Gardner aos poucos enlouqueceram, morreram ou desapareceram sem deixar vestígios. Jamais foi determinada a natureza do meteorito ou encontrada uma explicação para o acontecido, mas a área permanece sem vida e evitada até hoje, e Ammi é a única testemunha viva do fato. Desnecessário dizer, esse relato deixa o narrador profundamente perturbado.

Um dos elementos mais marcantes do conto, escrito no início de 1927 e publicado originalmente na revista Amazing Stories de setembro do mesmo ano, é que seu antagonista não é um monstro, feiticeiro ou criatura, mas simplesmente uma cor. Cor que é, na verdade, um organismo alienígena, que chegou a nosso planeta através do meteorito. Aparentemente, trata-se de um organismo sem forma definida, cuja única característica perceptível por nós humanos é apresentar uma cor que não pertence ao espectro, e, portanto, não pode ser descrita. A escolha por Lovecraft de um organismo tão singular teria se dado por seu descontentamento com as histórias de alienígenas da época, nas quais todos eram "humanos demais", com formas e comportamento humanóides. Lovecraft teria, então, criado um alienígena "verdadeiramente alienígena", sem forma ou cor distinguível ou motivações discerníveis; ao longo do conto, não ficamos sabendo nada sobre suas motivações, objetivos ou antecedentes, ou sequer se o organismo possui alguma forma de inteligência. Tudo que nos é permitido saber é o que acontece com os organismos de nosso próprio planeta ao serem afetados por sua presença ou suas ações: após sair do meteorito, a cor aparentemente se instalou no poço da fazenda de Gardner, onde contaminou a água. De lá, ela se espalhou pelo terreno, afetando a vida animal e vegetal.

A Cor que Caiu do Céu se destaca dentre as histórias de Lovecraft por ser pura ficção científica, sem qualquer traço de sobrenatural, magia, encantamentos e acontecimentos do mundo espiritual. Curiosamente, ela também é a única que traz referências bíblicas: uma passagem diz que Ammi "jamais foi o mesmo" após olhar para trás ao fugir da fazenda de Gardner, o que é uma referência clara à passagem sobre Sodoma e Gomorra; e tanto Ammi quanto Nahum são personagens bíblicos - o primeiro, filho de Ló com uma de suas irmãs, o segundo, um dos profetas menores do Antigo Testamento, enviado por Deus para predizer a destruição de Nínive.

Ele (He) - Escrito em meados de 1925 e publicado na revista Weird Tales de setembro de 1926, este conto, ambientado em Nova Iorque, reflete um período triste e conturbado da vida de Lovecraft.

Em maio de 1921, a mãe de Lovecraft, que já era órfão de pai desde os três anos, faleceria vítima de complicações de uma cirurgia na vesícula biliar. Mesmo em luto, o escritor viajaria para um congresso de jornalistas amadores em Boston, em 4 de julho daquele ano, no qual conheceria Sonia Haft Greene, dona de uma loja de chapéus em Nova Iorque, de família russa e judaica e sete anos mais velha que ele, mas que compartilhava muitas de suas visões sobre o mundo e a sociedade. Lovecraft se apaixonou intensamente por Sonia, e, mesmo sob protestos de suas tias, suas únicas parentes vivas, se casou em 1924, e foi morar com ela na cidade da Estátua da Liberdade.

Logo, porém, Lovecraft se arrependeria amargamente. Ele jamais se adaptou à cidade, que considerava opressiva e excessivamente focada no dinheiro e comércio. Para piorar a situação, pouco depois do casamento a loja de Sonia faliria e ela teria sérios problemas de saúde, que a obrigariam a se internar para tratamento. Isso faria com que Lovecraft tivesse de declinar o convite para ser editor de uma revista, pois o cargo exigia que ele se mudasse para Chicago. Ele ainda tentou encontrar um emprego em Nova Iorque, mas ninguém quis contratar um homem de 34 anos sem nenhuma experiência. Em 1925, Sonia conseguiu um emprego em Cleveland, mas Lovecraft preferiu não ir com ela, se mudando para um apartamento de solteiro em uma área do Brooklyn conhecida como Red Hook. Nessa época Lovecraft produziu alguns de seus contos mais nostálgicos e depressivos.

Ele não chega a ser um desses contos, mas deixa bem claros os sentimentos de Lovecraft em relação à cidade, principalmente em seu primeiro parágrafo. Lovecraft escreveria a história inspirado por um passeio noturno que fez ao Centro Antigo de Nova Iorque, culminando com uma viagem de balsa até Elizabeth, Nova Jérsei, onde chegou às 7 da manhã. Segundo ele, ao chegar, ele se dirigiu ao Scott Park, comprou um lápis e um bloco de anotações, sentou-se em um banquinho e escreveu tudo de uma vez só.

O narrador, que mais uma vez não tem nome, assim como Lovecraft, se mudou da Nova Inglaterra para Nova Iorque, mas se arrependeu amargamente. Um dia, durante um passeio pelo Centro Antigo, ele conhece um estranho homem, que lhe oferece revelar segredos da cidade. Guiando o narrador por becos e portões desconhecidos, ele o leva até uma antiga mansão, na qual revela que, através de um pacto com feiticeiros das antigas tribos indígenas, o administrador da mansão havia conseguido acesso a um ritual místico capaz de revelar o passado e o futuro. E mostra ao narrador visões da cidade que ele jamais imaginou e que jamais esquecerá...

O Ministro Maligno (The Evil Clergyman) - Curiosamente, essa história não era originalmente um conto, mas um fragmento de uma carta enviada por Lovecraft em 1933 a seu amigo Bernard Austin Dwyer, na qual ele contava com detalhes um sonho que tivera. Após a morte de Lovecraft, Dwyer deu uma arrumada, e a história foi publicada na forma de conto na edição de abril de 1939 da Weird Tales.

Um narrador mais uma vez sem nome está investigando o sótão de uma casa cujo dono supostamente morreu de forma violenta. Ele é aconselhado a não permanecer no sótão após o cair da noite, nem tocar um estranho objeto sobre a mesa - conselhos que ele, evidentemente, ignora. Enquanto faz o que não deve, o narrador percebe a presença de vários homens vestidos como clérigos anglicanos, liderados por um bispo, que confrontam um outro homem, de aparência sinistra, a quem o narrador também não havia percebido, mas que queima os livros da estante presente no sótão. Graças à desobediência do narrador, esse encontro mudará sua vida para sempre.

É curioso registrar que Lovecraft tirava muitas das ideias de seus contos de seus sonhos, mas, como esse conto segue uma linha sobrenatural "tradicional", há uma grande curiosidade no meio acadêmico sobre como ele teria desenvolvido a história se não tivesse falecido antes de aproveitá-la.

Os Ratos nas Paredes (The Rats in the Walls) - Um dos mais famosos contos de Lovecraft, foi escrito em meados de 1923 e publicado na Weird Tales de março de 1924. A Weird Tales, porém, não havia sido a primeira escolha de Lovecraft, que inicialmente enviou a história à revista Argosy All-Story Weekly. Seu editor, J.C. Henneberger, a rejeitou, considerando-a horrível demais para seu público. Já o editor da Weird Tales, Farnsworth Wright, a adorou, e escreveu a Lovecraft elogiando-a e dizendo que fora a melhor que sua revista jamais recebera.

O protagonista da história é conhecido somente como Delapore, e se muda da cidade de Bolton, Massachusetts, para Anchester, Inglaterra, tomando posse de um casarão medieval, chamado Exham Priory, que pertencera à sua família, então conhecida como de la Poer. Apartentemente, os de la Poer apresentavam algum tipo de comportamento que fazia com que eles fossem odiados e temidos pela população local, e Exham Priory visto como um local maldito. Um dia, Walter de la Poer assassinou toda a família e fugiu para os Estados Unidos, onde mudou de nome, constituiu uma nova família e apagou para sempre o passado. O próprio protagonista, aliás, só vem a tomar conhecimento de Exham Priory através de seu filho, que servira na Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial, decidindo mudar-se para lá e recuperar o local após esse mesmo filho ter falecido.

Aparentemente, tudo corre bem durante a reforma, com Exham Priory voltando a ser uma mansão luxuosa. Aos poucos, porém, Delapore e seus gatos de estimação começam a ouvir estranhos sons dentro das paredes à noite, como se centenas de ratos estivessem caminhando em direção ao porão. Nenhum dos criados ou convidados de Delapore parece ouvir os sons, e, por mais que procurem, não encontram explicação para o fenômeno. Um dia, ao examinar o porão, Delapore e seu vizinho Edward Norrys encontram uma passagem bloqueada para um outro nível, inferior ao que eles imaginavam ser o último. Animados com a possiblidade de uma importante descoberta arqueológica, já que a casa havia sido construída sobre um antigo templo romano, eles viajam a Londres e retornam com uma equipe de renomados cientistas, ávidos por descobertas. O que eles descobrirão, como de costume, é um segredo terrível que Delapore jamais poderia imaginar.

Lovecraft uma vez declarou que sua inspiração para escrever esse conto teria sido bastante simples: um dia, enquanto dormia, seu papel de parede começou a estalar, e ele, até descobrir de onde vinha o barulho, formulou as conjecturas mais terríveis. Especula-se que o nome Delapore, originalmente de la Poer, seria uma homenagem ao escritor preferido de Lovecraft, Edgar Allan Poe. Também é interessante notar que foi esse conto o responsável pela volumosa troca de correspondências que resultaria na grande amizade entre Lovecraft e Robert E. Howard, criador do bárbaro Conan: Howard escreveu uma carta à Weird Tales em 1930 elogiando o conto, mas reclamando do fato de Lovecraft ter usado expressões em celta ao invés de galês, o que seria mais apropriado devido à localização de Exham Priory. Essa carta foi encaminhada a Lovecraft, que a respondeu diretamente ao autor, dando início, assim, à troca.

A Rua (The Street) - Este curioso conto é a história de uma rua de alguma cidade da Nova Inglaterra, desde seu começo na época colonial, passando pela Revolução Industrial, pela Primeira Guerra Mundial, pelo Outubro Vermelho e culminando com um estranho acontecimento. Em uma carta, Lovecraft atribui a inspiração para escrevê-lo à greve da polícia de Boston em 1919, quando ele achou muito perturbador ver a cidade patrulhada pelo exército ao invés de pelos familiares policiais locais.

A Rua foi escrito logo após a greve de 1919, e publicado pela primeira vez na edição de dezembro de 1920 do jornal The Wolverine, dedicado a contos de escritores amadores. O conto se destaca do restante da obra de Lovecraft por falhar como história de horror, não envolvendo o leitor nem criando um senso crescente de expectativa como era de se esperar. Muitos também criticam a presença de elementos considerados xenófobos, como a descrição dos imigrantes russos que vêm morar na rua do título após a Revolução Vermelha. Mas, se há um mérito nesse conto, é o de mostrar que Lovecraft também podia errar a mão.

O Horror de Dunwich (The Dunwich Horror) - Escrita em 1928 e publicada na edição de abril de 1929 da Weird Tales, esta história possui duas diferenças em relação às demais escritas por Lovecraft: primeiro, o narrador é externo, e não em primeira pessoa como de costume; segundo, há uma luta clara entre o "bem" e o "mal", com vitória dos heróis no final. Esses desvios de padrão, segundo os estudiosos de sua obra, têm uma explicação simples: O Horror de Dunwich seria uma homenagem de Lovecraft a um de seus autores preferidos, Arthur Machen. Diversos elementos, desde o nome da cidade onde a história se desenrola, passando por dados fundamentais da trama até características dos personagens, podem ser diretamente relacionados às obras de Machen. Ainda assim, Lovecraft construiu tão bem sua homenagem que não somente encontrou espaço para referências a obras de outros autores, como Algernon Blackwood e Anthony M. Rud, como também conseguiu dar a ela a cara que os leitores esperam quando lêem uma obra lovecraftiana.

Dunwich é uma pequena cidade no norte de Massachusetts, que ninguém gosta muito de visitar devido a uma sensação de inquietude que ronda o lugar, aumentada pelo formato perturbadoramente simétrico das montanhas que a rodeiam. Nessa cidade, vivem diversas famílias tradicionais e decadentes, descendentes de colonos de Salém, como os Whateley, cujo patriarca, o Velho Whateley, é suspeito de feitiçaria por possuir uma biblioteca cheia de tomos estranhos e passar noites no alto das montanhas onde construiu altares profanos. O fato de sua filha Lavinia ser albina e parcialmente deformada também não ajuda muito a popularidade da família.

Um dia, sem que ninguém sequer soubesse que ela estivesse grávida ou quem fosse o pai, Lavinia dá a luz a um estranho menino, Wilbur Whateley. Para espanto de todos, Wilbur cresce muito mais rápido que um ser humano normal, aprendendo a andar aos sete meses, a falar aos onze, entrando na puberdade aos três e já sendo um homem formado aos cinco. Mais que isso, todos os cachorros da cidade parecem odiar Wilbur, atacando-o sem motivo, e, desde seu nascimento, ele e o Velho Whateley se vêem envolvidos em algum esquema sinistro, que envolve diversas remodelações da casa, o desaparecimento do gado da cidade, e visitas noturnas de Wilbur e Lavinia aos altares profanos.

A coisa se complica quando o Velho Whateley morre de velhice, deixando instruções para que Wilbur seguisse as fórmulas e encantamentos de um dos livros da família - nada menos que o Necronomicon, o registro de tudo o que é profano no mundo. A cópia dos Whateley, porém, é incompleta, e com ela Wilbur não pode dar prosseguimento ao qie estava tramando com seu avô, seja lá o que fosse. Wilbur, então, viaja até a Miskatonic University, em Arkham, para tentar pegar emprestado a edição completa do Necronomicon que a famosa universidade tem em sua biblioteca. Desconfiado, porém, o professor Henry Armitage, responsável pela biblioteca da universidade, não permite que Wilbur saia do local levando o livro, nem mesmo que o copie. Wilbur, então, tenta roubar o livro - o que representa o primeiro passo para que um horror inimaginável e sem precedentes se abata sobre a pequena Dunwich.

Além das histórias de Machen, a inspiração para o conto teria vindo de uma viagem que Lovecraft fez ao interior de Massacusetts - de fato, um trecho de uma carta enviada por Lovecraft à escritora Zealia Bishop contando sobre a viagem é praticamente idêntico ao trecho do conto onde a cidade de Dunwich é descrita. Alguns argumentam ainda que Wilbur Whateley seria uma espécie de personagem autobiográfico, com elementos como o fato de ter sido criado pelo avô, com uma mãe louca, educado através de uma biblioteca e se sentindo um estranho entre sua própria gente encontrando correspondência na própria infância e juventude de Lovecraft.

Lovecraft se orgulhava muito de ter escrito O Horror de Dunwich, e chegou a declarar que a história era tão sinistra que Farnsworth Wright não se atreveria a publicá-la. O editor da Weird Tales, porém, não somente se atreveu como, satisfeito com a história, pagou a Lovecraft a maior remuneração que ele recebeu por qualquer um de seus contos.

A Sombra Fora do Tempo (The Shadow Out of Time) - Escrita entre 1934 e 1935 e publicada na edição de junho de 1936 da revista Astounding Stories, A Sombra Fora do Tempo não é um conto, mas uma novela - obra mais extensa que um conto, mas mais curta que um romance, normalmente com uma única trama, sem tramas paralelas. Foi uma das últimas histórias escritas por Lovecraft, e é uma das melhores - e a minha preferida, por falar nisso. Assim como A Cor que Caiu do Céu, A Sombra Fora do Tempo possui diversos elementos de ficção científica - tanto que é frequentemente enquadrada como tal - mas tem mais espaço para os elementos tradicionais da literatura lovecraftiana, como as raças ancestrais que povoaram nosso planeta sem nosso conhecimento, e a noção de que a descoberta desse conhecimento é por demais terrível para a mente humana, que, incapaz de processá-lo, sucumbe à loucura. Seu clímax - que acontece na última linha! - é considerado o melhor de todas as histórias de Lovecraft, e um dos melhores de toda a literatura de horror.

A história é narrada por Nathaniel Wingate Peaslee, através de uma carta deixada a seu filho. Professor de economia política na Miskatonic University, durante um período de cinco anos Peaslee sofreu de uma espécie de esquizofrenia, após a qual teve uma profunda amnésia, que o impedia de se lembrar de quaisquer fatos do período. Além disso, após a amnésia, Peaslee passou a experimentar sonhos fantásticos, onde se via no que parecia ser outro planeta, habitando um corpo que não era o seu. Curioso quanto ao que teria se passado durante os anos dos quais não apresentava lembrança, Peaslee se pôs a indagar sobre o período às pessoas que conviveram com ele na época, e a refazer seus próprios passos para descobrir o que teria feito enquanto esquizofrênico. Ele acaba descobrindo que passou a maior parte do tempo em bibliotecas dos Estados Unidos e Europa, lendo incessantemente, como se quisesse absorver a maior quantidade de conhecimento possível em pouco tempo.

Revisitando uma dessas bibliotecas, Peaslee também descobre que alguns dos livros que consultou - dentre eles o Necronomicon - fazem estranhas referências à descoberta de uma raça que teria habitado nosso planeta antes do surgimento da humanidade. Conhecida como Grande Raça de Yith, era composta de criaturas que podiam transferir suas mentes a outros corpos através do tempo e do espaço, habitando o corpo de um hospedeiro, enquanto a mente deste ficava em seu corpo em sua cidade pré-histórica, aguardando o retorno da mente original. Essas criaturas usariam este poder para viajar no tempo, recolhendo a maior quantidade de informação possível sobre todas as eras, pois, graças à sua capacidade, sabiam que um dia seriam extintas, e desejavam criar a mais completa biblioteca sobre a história da Terra antes de partir. Conforme os sonhos se tornam mais e mais reais, Peaslee se vê diante de um dilema: seriam os sonhos relacionados às leituras que fez durante sua esquizofrenia, ou teria sido o período sem lembranças resultado de uma troca de mentes com um dos seres alienígenas?

A principal influência de Lovecraft para escrever esta história teria sido o filme Berkeley Square, de 1933, dirigido por Frank Lloyd e adaptado de peça homônima de John Balderston. No filme, um homem do século XX é transportado ao século XVIII, onde é confundido com um de seus antepassados. Lovecraft gostou tanto do filme que o assistiu quatro vezes, e, após identificar algumas inconsistências na forma como o filme retratava as viagens no tempo, se pôs a trabalhar em uma história na qual elas fossem o mote.

Mais uma vez são apontados elementos autobiográficos na história, pois pode-se traçar um paralelo entre os anos nos quais Peaslee passou esquizofrênico e o período no qual Lovecraft, adolescente, teve um colapso nervoso que o obrigou a sair da escola e se afastar do convívio social. Durante este período, inclusive, Lovecraft sofria de tiques nervosos, principalmente em sua face, que encontram correspondente na narrativa quando Peaslee, já com a mente da criatura, demonstra dificuldade para controlar os músculos de sua própria face - já que a mente da criatura ainda está se adaptando ao novo corpo. Outros argumentam que a experiência de Peaslee pode ter correspondente não nas experiências de Lovecraft, mas de seu pai, Winfield Scott Lovecraft - havendo inclusive, uma semelhança entre os nomes Winfield e Wingate - que também passou por um período de cinco anos de alegada loucura, durante os quais apresentou comportamento mais excêntrico que o normal.

É interessante registrar que Lovecraft faz uma homenagem ao seu grande amigo Robert E. Howard na forma do personagem Crom-Ya, "um líder cimério de 15.000 a.C.", que também tem sua mente trocada de lugar com uma das criaturas de Yith - Conan, o mais famoso personagem de Howard, nasceu na Ciméria, e venera o deus Crom. Esta não é a única referência à obra de Howard, já que um dos livros que Peaslee consulta durante seu período de esquizofrenia é o fictício Unaussprechlichen Kulten, criado pelo escritor para o conto The Children of the Night, de 1931. Em uma macabra coincidência, Howard cometeria suicídio em junho de 1936, mesmo mês da publicação de The Shadow Out of Time.

6 enfiaram o nariz:

wKad disse...

Guil-san, parei de ler o post por que fiquei com vontade de ler as obras de Lovecraft, e preferi começar às cegas!

Obrigado o/

9:25 AM
David disse...

Também fiquei com vontade, me pareceu interessante.
Abraço,

10:11 PM
Guil disse...

Oba, estou arrebanhando mais fãs! :)

10:14 PM
Juliano Bonato disse...

Podia avisar que havia spoilers no texto não??? Fiquei curiosos pra ler A Cor Que Caiu Do Ceu, mas agora já sei do que se trata, e não vai ter a mesma graça...

3:41 PM
Guil disse...

Podia. Mas você também podia ter parado de ler quando percebeu que eu iria contar detalhes da história.

Pessoalmente, eu acho que um aviso "atenção, há spoilers nesse texto" é uma coisa meio boba para um post desse tipo, porque é óbvio que um spoiler ou outro vai ter. E, aliás, embora eu possa até concordar que tenha contado mais do que deveria no resumo de A Cor que Caiu do Céu (concordo que nos dos outros contos eu revelei bem menos), eu acho que esse resumo nem pode ser considerado um spoiler. Spoiler seria se eu contasse como a mulher do Naum morreu, ou, pior ainda, o final da história.

Além disso, "saber do que se trata" e "perder a graça", na minha opinião, às vezes são duas coisas bem diferentes. Você sabe que o meteoro vai contaminar e matar tudo, mas não sabe como.

Afinal, todo mundo sabia que Peter Parker ia ser mordido por uma aranha radioativa, que o tio Ben ia morrer, e que ele iria se tornar um super-herói perseguido por J.J. Jameson e lutar contra o Duende Verde. E mesmo assim ninguém argumentou que o filme do Homem-Aranha não teve graça.

4:12 PM
Juliano Bonato disse...
Este comentário foi removido pelo autor.

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