quinta-feira, 24 de junho de 2010

A Pantera Cor-de-Rosa

Eu acho muito engraçada a rejeição que as novas gerações parecem ter aos clássicos, principalmente a filmes. Uma colega minha, por exemplo, me contou que seus alunos praticamente se recusaram a assistir Edward Mãos de Tesoura durante uma aula, alegando que o filme era "muito velho". Bem, Edward Mãos de Tesoura pode não ser exatamente um clássico, ou nem tão velho assim, mas eu acho que esse exemplo ilustra bem o que eu quero dizer. Imaginem se, por exemplo, fosse O Mágico de Oz? Provavelmente eles teriam medo do DVD virar pó enquanto assistiam.

Eu, felizmente, jamais tive esse tipo de rejeição. Jamais deixei de me interessar por alguma coisa só porque ela foi feita antes de eu nascer. Melhor pra mim, já que minha infância e adolescência foram repletas de bons livros, filmes e músicas lançados ou antes de eu nascer ou quando eu era pequeno demais para compreender sua dimensão.

Enfim, essa encheção de linguiça toda é para dizer que o tema de hoje é a série de filmes que começou com A Pantera Cor-de-Rosa, não o do Steve Martin, mas o original, lá da década de 60 - uns 15 anos antes de eu nascer, mas ainda assim alguns dos filmes mais engraçados que eu já vi na vida. Na verdade, o motivo que me levou a escrever esse post nem foi a constatação da rejeição dos jovens aos clássicos, mas simplesmente ter visto um pedaço de A Pantera Cor-de-Rosa 2 no Telecine. Só que isso não dá uma introdução tão legal quanto a reflexão filosófica que eu acabei de fazer.

Escrito por Blake Edwards e Maurice Richlin e dirigido por Edwards, o primeiro filme da série, A Pantera Cor-de-Rosa (The Pink Panther), foi lançado em 1963. A "pantera" do título é, na verdade, um enorme diamante - o maior do mundo, para ser mais exato - que tem tom arroseado e uma falha em seu interior, que, vista contra a luz, se parece um uma pantera saltando - daí seu apelido. O diamante pertencia ao xá de um fictício país do Oriente Médio conhecido como Lugash, que o deu de presente à sua filha, a Princesa Dala (Claudia Cardinale), em sua infância. Quando Dala se torna adulta, rebeldes tomam o poder em Lugash, e alegam que o diamante é propriedade do povo. Para não ter de entregá-lo, a Princesa o leva consigo a uma viagem a Cortina d'Ampezzo, um resort de esqui nos alpes italianos.

O enredo do filme envolve um famoso ladrão, conhecido apenas como "o Fantasma", especialista por roubar peças extremamente protegidas, deixando em seu lugar apenas uma luva com uma letra P (de Phantom, "fantasma" em inglês) bordada. Poucos desconfiam, porém, que o Fantasma, na verdade, é o aristocrata inglês Sir Charles Lytton (David Niven), que, disposto a roubar o diamante, também se hospeda em Cortina d'Ampezzo e tenta seduzir a Princesa. No caminho do Fantasma estarão dois antagonistas: seu próprio sobrinho, George Lytton (Robert Wagner, do Casal 20), um playboy norte-americano que vai ao encontro do tio após contrair inúmeras dívidas, e acaba descobrindo acidentalmente que ele é o Fantasma; e o destemido inspetor Jacques Clouseau da Sûreté (a polícia civil francesa), que investiga os crimes do Fantasma há anos, e pensa que finalmente tem uma chance para capturá-lo. Felizmente para o Fantasma, Clouseau (Peter Sellers) é pouco esperto, muito atrapalhado, e ainda tem uma séria desvantagem doméstica: sua própria esposa, Simone Clouseau (Capucine), é amante do Fantasma, e o ajuda em seus crimes, enquanto tenta desviar a atenção do marido para que este jamais solucione os casos.

A Pantera Cor-de-Rosa foi um enorme sucesso, rendendo mais de 10 milhões de dólares de bilheteria, marca impressionante para um filme de comédia na década de 1960. Sua trilha sonora, criada por Henry Mancini, foi elogiada até por críticos de jazz, e a música principal, que tocava toda vez que o Fantasma estava prestes a cometer um crime, é hoje uma das mais conhecidas melodias de todos os tempos.

Embora muitos desconheçam esse fato, Clouseau não é o protagonista do filme, mas seu contraponto cômico (aquilo que os americanos chamam de comic relief), tanto que ele aparece pouco se comparado com Sir Lytton, o verdadeiro protagonista. Seu jeito atrapalhado, porém, fez tanto sucesso - de fato, Clouseau foi o principal motivo para o enorme sucesso do filme - que ele acabaria se tornando a estrela principal e mudando os planos de Edwards, que inicialmente pensava em fazer uma série de filmes sobre o Fantasma.

Outro personagem que fez um inesperado sucesso foi uma certa Pantera Cor-de-Rosa de desenho animado, criada pela empresa DePatie-Freleng para a abertura do filme - na época era comum que os filmes tivessem aberturas, onde eram exibidos todos os seus créditos, com apenas um "The End" aparecendo no final, algo que começou a cair em desuso a partir de Star Wars, que deixou todos os créditos para o final. Percebendo que a Pantera tinha potencial para concorrer com desenhos como o do Pica-Pau e o do Pernalonga, a United Artists, que havia lançado o filme nos cinemas, encomendou uma série animada à empresa, que, curiosamente, era dirigida por dois ex-executivos da Warner Bros, David H. DePatie e Friz Freleng. O episódio de estreia da Pantera Cor-de-Rosa chegou a ganhar um Oscar de Melhor Curta Animado de 1964, e ela estrela desenhos até hoje, com variados graus de sucesso. Mas isso já é outra história.

Voltando a Closeau, seu inesperado sucesso fez com que Edwards decidisse aproveitá-lo em outro filme, dissociado do Fantasma e da Pantera Cor-de-Rosa. Coincidentemente, na época, Edwards e William Peter Blatty (que, no futuro, criaria o filme O Exorcista) trabalhavam em uma adaptação para o cinema de uma peça de teatro de Harry Kurnitz, que por sua vez era adaptação de uma peça francesa de Marcel Achard, chamada L'Idiote, na qual um policial atrapalhado tenta solucionar um assassinato. Edwards e Blatty concluíram que esse seria um ótimo roteiro para um filme com Clouseau como protagonista, e o resultado foi Um Tiro no Escuro (A Shot in the Dark), lançado em 1964, menos de seis meses após o primeiro filme, e considerado por muitos (eu, inclusive) a mais engraçada das aventuras de Clouseau.

Tudo começa com um assassinato na mansão do milionário Benjamin Ballon (George Sanders), do qual a principal suspeita é a empregada Maria Gambrelli (Elke Sommer). Acidentalmente, o atrapalhado Clouseau é designado para o caso, e, apesar de todas as provas apontarem para Gambrelli, ele se convence de sua inocência - em parte por se apaixonar por ela - e dedica todas as suas forças a provar que a moça é inocente. Um Tiro no Escuro foi o primeiro filme a mostrar personagens que se tornariam recorrentes na série, como o Comissário Charles Dreyfus (Herbert Lom), superior direto de Clouseau, levado à loucura pelas trapalhadas do inspetor; seu assistente François (André Maronne); e Cato Fong (Burt Kwouk), empregado de Clouseau que tem ordens para atacá-lo de surpresa sempre que tiver a oportunidade, para deixar os reflexos do inspetor sempre apurados. Também foi para esse filme que Sellers criou o característico e exagerado sotaque de Clouseau, que leva aqueles que falam com ele a nem sempre entender o que ele quer dizer. O ator Graham Stark, grande amigo de Sellers, também teve aqui sua primeira participação especial na série, no papel de Hercule, assistente de Clouseau. Finalmente, é curioso notar que Um Tiro no Escuro é completamente dissociado de A Pantera Cor-de-Rosa - Clouseau, por exemplo, é solteiro - o que nos leva à conclusão de que ele ou é ambientado antes ou simplesmente ignora os fatos do filme anterior. Mais uma vez, a DePatie-Freleng fez uma abertura animada para o filme, com mais uma trilha sonora de Mancini que se tornaria famosa, mas sem a presença da Pantera Cor-de-Rosa, já que o diamante não aparece no filme.

Infelizmente, durante as filmagens, Sellers e Edwards tiveram muitas brigas, e, após a conclusão do filme, ambos juraram jamais trabalhar um com o outro novamente. Após quatro anos, eles acabaram fazendo as pazes, e a United Artists decidiu convidá-los para um novo filme de Clouseau. Edwards, porém, tinha outros planos, e queria que Sellers protagonizasse seu Um Convidado Bem Trapalhão, o que levou Edwards, Sellers e Mancini, que faria a trilha sonora, a recusar o convite. A United Artists não se deu por vencida, porém, e decidiu lançar um novo filme mesmo sem nenhum dos três, com Bud Yorkin na direção e Alan Arkin no papel de Clouseau.

Lançado em 1968 com o título de Inspetor Clouseau (Inspector Clouseau em inglês), o filme mostra Clouseau trabalhando em conjunto com a Scotland Yard, tentando expor um agente duplo enquanto a organização tenta solucionar uma série de assaltos a banco por toda a Europa. O filme não fez muito sucesso, e hoje muitos nem o reconhecem como parte da série, mas tem duas curiosidades dignas de nota: primeiro, seu roteiro foi escrito por Frank e Tom Waldman, que mais tarde trabalhariam com Edwards nos roteiros dos filmes subsequentes de Clouseau; segundo, em um determinado momento do filme, os vilões capturam Clouseau, fazem uma máscara de seu rosto e a usam para cometer crimes e colocar a culpa no inspetor; em todas as cenas onde um "falso Clouseau" aparece, ele também é interpretado por Arkin, que durante a pós-produção foi dublado pelo ator que interpretava o personagem disfarçado.

Edwards, Sellers e Mancini só voltariam a trabalhar juntos em um filme de Clouseau mais de dez anos depois de Um Tiro no Escuro, mas não por vontade da United Artists. Em 1975, ela cedeu os direitos dos personagens para um estúdio independente, a ITC Entertainment, para que esta produzisse uma série de TV com Clouseau e Dreyfus. Durante a pré-produção, porém, a ITC desistiu da série, e entrou em contato com Edwards sobre a possibilidade de ser rodado um novo filme. Assim, naquele mesmo ano, seria lançado O Retorno da Pantera Cor-de-Rosa (Return of the Pink Panther), dirigido por Edwards e com roteiro de Edwards e Frank Waldman. Mancini mais uma vez faria a trilha sonora, mas desta vez a abertura ficaria a cargo de Richard Williams (que bem mais tarde se tornaria conhecido por Uma Cilada para Roger Rabbit), já que a DePatie-Frelang estava ocupada com a série animada da Pantera. Curiosamente, o fato do filme ter sido produzido pela ITC fez com que, hoje, os direitos de distribuição em DVD pertençam à Universal, e não à MGM, atual detentora dos direitos dos filmes da United Artists.

O Retorno da Pantera Cor-de-Rosa não tem esse título à toa; apesar de atuar como uma continuação de Um Tiro no Escuro, trazendo de volta os personagens Dreyfus (rebaixado a inspetor-chefe após os eventos do filme anterior), François e Cato, o filme também tem o retorno do diamante Pantera Cor-de-Rosa e de Sir Charles Lytton, que, infelizmente, não pôde ser interpretado por David Niven, à época envolvido nas filmagens de Paper Tiger. Para seu lugar, os produtores convidaram Christopher Plummer, que, mais jovem, pôde interpetar um Fantasma mais galante, atlético e intrépido. Mais uma vez ignorando os eventos do primeiro filme, os produtores deram uma esposa a Lytton, Lady Claudine (Catherine Schell), que acaba se tornando o principal foco da investigação de Clouseau. E Graham Stark faz sua segunda participação na série, no papel do trambiqueiro Pepi.

O filme começa quando o diamante Pantera Cor-de-Rosa é roubado do museu de Lugash, aparentemente pelo Fantasma, já que sua característica luva bordada é encontrada no local do crime. Clouseau, um verdadeiro especialista no que concerne o ladrão, é chamado pelas autoridades locais para liderar as investigações. Enquanto isso, Sir Lytton, que desta vez é inocente, não gosta nada de ver seu nome associado ao crime, e viaja para Lugash para tentar descobrir quem seria o verdadeiro culpado. Sem saber onde Lytton se encontra, Clouseau decide seguir Lady Claudine até um resort de esqui nos alpes suíços, onde usará de seus magníficos disfarces para se aproximar dela e fazê-la confessar o crime do marido.

O Retorno da Pantera Cor-de-Rosa foi o mais bem sucedido comercialmente de todos os filmes da série, o que levou a United Artists a encomendar uma sequência mais do que rapidamente. Na verdade, fazer uma não foi muito difícil: como Edwards e Waldman basearam seu roteiro em um dos dois roteiros escritos por eles para episódios da cancelada série de TV, bastou adaptar o outro - o que levou ao curioso efeito colateral de O Retorno da Pantera Cor-de-Rosa ser o único filme da série com uma continuação direta.

Lançado em 1976, A Nova Transa da Pantera Cor-de-Rosa (The Pink Panther Strikes Again; "a Pantera Cor-de-Rosa ataca novamente", o que hoje até parece ser um título melhor, embora "a nova transa", em 1976, fosse uma expressão de uso corrente e sem duplo sentido), começa com Dreyfus prestes a receber alta do hospício onde havia sido internado no final do último filme. Mas uma visita de Clouseau, promovido a inspetor-chefe, faz com que ele tenha uma recaída, e tenha de continuar internado. Sem ver outra solução, Dreyfus decide fugir do hospício e tramar um plano diabólico, onde recruta os maiores criminosos da França para sequestrar um importante cientista e obrigá-lo a construir um canhão capaz de varrer cidades inteiras do mapa - o qual usará, a menos que Clouseau seja morto. As principais nações do mundo, então, enviam seus maiores assassinos para matar o inspetor, que precisará de toda a sua astúcia e toda a sua sorte para escapar. Apesar do título, o filme não traz o diamante nem Sir Lytton, mas traz de volta, além de Clouseau e Dreyfus, François e Cato. Mancini mais uma vez compôs a trilha sonora, e Williams mais uma vez ficou a cargo da abertura, que prestou homenagens a clássicos do cinema como King Kong, Dançando na Chuva e A Noviça Rebelde.

Sellers já estava com a saúde muito debilitada durante as filmagens, o que fez com que, em várias cenas, ele tivesse de ser substituído por um dublê. A United Artists também achou a primeira versão do filme muito longa, e pediu que Edwards o reduzisse de 124 para 103 minutos antes do lançamento nos cinemas. O filme conta com várias participações especiais, como Omar Sharif no papel do assassino enviado pelo Egito para matar Clouseau; Tom Jones interpretando a canção Come to Me, que seria indicada ao Oscar; e Julie Andrews dublando o cantor transformista Ainsley Jarvis (Michael Robbins). Stark também faz sua recorrente aparição, como um velhinho alemão dono de um hotel onde Clouseau se hospeda.

A Nova Transa da Pantera Cor-de-Rosa também teve uma boa bilheteria, mas foi criticado por se parecer mais com um filme de 007 do que com uma típica aventura de Clouseau. Por conta disso, Edwards decidiu ignorar seus eventos ao filmar A Vingança da Pantera Cor-de-Rosa (Revenge of the Pink Panther), também com roteiro dele e de Frank Waldman, acompanhados de Ron Clark. Lançado em 1978, o filme mostrava Clouseau no encalço de uma organização criminosa liderada pelo insuspeito milionário francês Philippe Douvier (Robert Webber), que, para chamar a atenção de seus parceiros norte-americanos, decide matar o inspetor-chefe. Dado como morto, Clouseau segue com Cato e Simone Legree (Dyan Cannon), ex-amante de Douvier, para Hong Kong, onde tentará desmascarar o milionário e prendê-lo. Paralelamente a isso, Dreyfus, que teve alta do hospício, descobre que Clouseau não está morto, e segue para prender o bandido antes que o inspetor atrapalhado se torne um herói novamente.

Mancini mais uma vez assina a trilha sonora, a DePatie-Frelang voltou para fazer a abertura, e mais uma vez Stark faz uma participação, desta vez como o maquiador Auguste Bolas, responsável pelos incríveis disfarces de Clouseau. Outras curiosidades do filme incluem a participação da atriz Sue Lloyd no papel de Claude Russo, homem que se veste de mulher para cometer crimes - ideia que Edwards desenvolveria em seu filme Victor ou Victoria?, no qual Julie Andrews interpreta uma mulher que finge ser um homem que se veste de mulher - e a introdução do veículo "oficial" de Clouseau, o "Marimbondo de Prata", que Edwards tinha intenção de transformar em uma piada recorrente da série.

Infelizmente, entretanto, em 1980, Peter Sellers faleceria, vítima de um ataque cardíaco. Por alguma razão, porém, Edwards imaginou que a série poderia seguir sem ele - e sem Clouseau. Para isso, ele preparou uma espécie de homenagem, o filme A Trilha da Pantera Cor-de-Rosa (Trail of the Pink Panther), lançado em 1982, com roteiro de Blake e Geoffrey Edwards e Frank e Tom Waldman, trilha sonora de Mancini, abertura produzida pela Marvel Productions, e dedicado a Sellers, "o primeiro e único inspetor Clouseau".

No filme, o diamante Pantera Cor-de-Rosa é roubado do museu de Lugash mais uma vez, e Clouseau, novmente, é chamado para solucionar o crime, indo atrás do suspeito de sempre, Sir Charles Lytton, o Fantasma. Durante a investigação, Clouseau desaparece misteriosamente, e uma repórter, Marie Jouvet (Joanna Lumley), é escalada para investigar seu desaparecimento. Todas as imagens de Clouseau são cenas que Sellers havia filmado para A Nova Transa da Pantera Cor-de-Rosa e A Vingança da Pantera Cor-de-Rosa mas não foram aproveitadas na versão final do filme. Dreyfus, François e Cato participam do filme, assim como Graham Stark, repetindo o papel de Hercule, e, pela primeira vez desde o filme original, David Niven, Capucine e Robert Wagner aparecem como Lytton, Simone e George, entrevistados por Jouvet durante sua investigação. Como Niven estava muito doente na época, com a voz muito fraca, ele teve de ser dublado pelo imitador Rich Little. Jouvet também entrevista o chefão da máfia Bruno Langlois (Robert Loggia), principal suspeito de ser o responsável pelo desaparecimento de Clouseau; e o pai de Clouseau, interpretado por Richard Mulligan. Curiosamente, A Trilha da Pantera Cor-de-Rosa também mostra, em flashback, cenas da infância e juventude de Clouseau (nas quais ele é interpretado por Lucca Mezzofanti e Daniel Peacock, respectivamente).

Como foi dito, Edwards pretendia fazer de A Trilha da Pantera Cor-de-Rosa uma homenagem a Sellers e o ato final de Clouseau, para que nenhum outro ator o interpretasse. Infelizmente, Lynne Frederick, a viúva de Sellers, não entendeu assim, e processou a United Artists por violar a memória de seu marido. Os fãs também não gostaram muito do uso de cenas de filmes antigos, o que fez com que o filme fosse um imenso fracasso de bilheteria.

A série só não foi encerrada ali mesmo porque, paralelemente a ele, Edwards rodou outro filme, A Maldição da Pantera Cor-de-Rosa (Curse of the Pink Panther), que seria lançado em 1983. Nele, Dreyfus recebe ordens de conduzir uma investigação para descobrir o paradeiro de Clouseau, e de utilizar o moderno computador da Interpol para selecionar o melhor detetive do mundo para trabalhar no caso. Como Dreyfus não deseja que Clouseau retorne, ele sabota o computador para que este lhe dê o pior detetive do mundo, que vem a ser o policial novaiorquino Clifton Sleigh (Ted Wass). Sleigh, que é tão atrapalhado quanto Clouseau, começa uma investigação que o levará a Sir Lytton, a Langlois, e à misteriosa Condessa Chandra (Joanna Lumley, que interpretou Jouvet no filme anterior), todos suspeitos de terem roubado o diamante e matado Clouseau. O inspetor, porém, está bem vivo, apenas se apaixonou pela Condessa, largou a vida de policial e passou por uma cirurgia plástica para que não fosse reconhecido por seus antigos inimigos - o que é descoberto no final do filme, quando Roger Moore faz uma ponta no papel de Clouseau. Que tipo de cirurgia plástica transforma Peter Sellers em Roger Moore, vocês não me perguntem.

Com roteiro de Blake e Geoffrey Edwards, trilha sonora de Mancini e abertura da Marvel Productions, A Maldição da Pantera Cor-de-Rosa foi mais um enorme fracasso de bilheteria, o que enterrou as pretensões de Edwards de continuar a série com Sleigh no lugar de Clouseau. Curiosamente, após seu lançamento em DVD o filme se tornou uma espécie de cult, principalmente devido à participação de Moore e por ter sido o último filme de Niven, que faleceria pouco depois das filmagens. Falando nisso, além de Lytton, Dreyfus e Langlois, os personagens François, Cato, Simone e George também participam do filme, e Stark faz uma participação como um garçom. Também vale citar, como curiosidade, que Ted Wass foi praticamente imposto pela United Artists para o papel de Sleigh: a primeira escolha de Edwards havia sido Dudley Moore, que não quis se comprometer com uma série após seu sucesso em Arthur, o Milionário; Edwards, então, pensou em Rowan Atkinson (o Mr. Bean), mas o estúdio vetou porque ele, na época, não era conhecido fora da Grã-Bretanha, e "sugeriu" Wass, que havia atuado na série de TV Soap.

Com o fracasso de A Maldição da Pantera Cor-de-Rosa, Edwards ficou mais dez anos sem rodar um novo filme da série, até que, em 1993, a United Artists o convidou para relançá-la com O Filho da Pantera Cor-de-Rosa (Son of the Pink Panther). Depois de considerar Kevin Kline, Rowan Atkinson, Gérard Depardieu e Tim Curry para o papel de sucessor de Clouseau, a United Artists decidiu investir em Roberto Benigni (que mais tarde ganharia dois Oscars com A Vida é Bela), que na época era um comediante em ascensão na Itália, buscando lugar no mercado norte-americano. O filme teve roteiro de Blake Edwards e Steve e Madeline Sunshine, abertura criada pela Kroyer Films, e foi o último a ter trilha sonora assinada por Mancini, que faleceria no ano seguinte.

No enredo, a Princesa Yasmin (Debrah Farentino), de Lugash, é sequestrada, e, devido às boas relações entre a França e Lugash, Dreyfus é incumbido do caso. Durante a investigação, ele acaba conhecendo o atrapalhado policial Jacques Gambrelli (Roberto Benigni), destacado para auxiliá-lo. Para horror de Dreyfus, ele descobre que Gambrelli é nada menos que o filho de Clouseau com Maria Gambrelli, a suspeita do assassinato de Um Tiro no Escuro (e nesse novo filme interpretada por Claudia Cardinale, que, curiosamente, interpretou a Princesa de Lugash no primeiro da série). Após receber carta branca para a investigação, Gambrelli, que parece ter herdado todas as características do pai, parte para salvar a Princesa, que aparentemente está nas mãos do misterioso Hans (Robert Davi). Além de Dreyfus, os eternos François e Cato também participam do filme, e Stark volta ao papel de Auguste Bolas.

O filme foi mais um gigantesco fracasso de bilheteria. Chegando à conclusão de que, sem Sellers, não dava mesmo, a United Artists desistiu da nova série com Benigni. O Filho da Pantera Cor-de-Rosa também foi o último filme de Edwards, que ainda está vivo, mas nunca mais filmou nada.

A série sofreria uma nova reviravolta em 2004, quando a Sony comprou a MGM, detentora dos direitos sobre os filmes da United Artists desde 1981. Com a compra, a própria Sony passou a ser detentora dos direitos sobre os personagens da série, e decidiu relançá-la - desta vez, porém, não com uma continuação, mas com um reboot, recontando a história do início.

Lançado em 2006, dirigido por Shawn Levy, e com roteiro de Len Blum e Steve Martin, A Pantera Cor-de-Rosa (The Pink Panther) trazia Martin no papel de Clouseau - um Clouseau mais velho que o de Sellers, tão atrapalhado quanto, mas não tão incompetente. No filme, a missão de Clouseau é descobrir quem teria roubado o diamante Pantera Cor-de-Rosa, que pertencia ao famoso técnico de futebol Yves Gluant (Jason Statham). Clouseau não foi designado para o caso por suas habilidades, mas como parte de um plano do inspetor chefe Charles Dreyfus (Kevin Kline), que, sabendo que o inspetor se atrapalhará e não conseguirá solucionar o caso tão cedo, pretende conduzir uma investigação paralela, descobrir ele mesmo o paradeiro da joia, e ganhar uma Medalha de Honra pelo feito. Para desespero de Dreyfus, evidentemente, a incrível sorte de Clouseau fará com que nem tudo saia como planejado. Dreyfus é o único dos personagens coadjuvantes da série que aparece nesse novo filme, que traz ainda Jean Reno como o policial Gilbert Ponton, designado por Dreyfus para vigiar Clouseau; Clive Owen como o agente secreto britânico Nigel Boswell, uma paródia de James Bond; Emily Mortimer como Nicole Durant, a secretária de Clouseau; e Beyoncé Knowles como Xania, namorada de Gluant.

O filme foi massacrado pela crítica, mas acabou sendo um grande sucesso de público, se tornando, de longe, o filme de maior bilheteria da série, com mais de 182 milhões de dólares de renda. Curiosamente, o filme sofreu uma edição rigorosa, que custou à Sony 5 milhões de dólares extras. Isso porque sua primeira versão possuía diálogos de duplo sentido e cenas que fariam com que ele fosse classificado como inapropriado para crianças, enquanto a Sony desejava que fosse uma comédia para toda a família.

O sucesso do filme levou a uma continuação, A Pantera Cor-de-Rosa 2 (The Pink Panther 2), lançado em 2009, dirigido por Harald Zwart, com roteiro de Scott Neustadter, Michael H. Weber e Steve Martin. Desta vez, Clouseau é convocado para fazer parte de uma equipe internacional de detetives, reunida para tentar prender o notório ladrão Tornado, que voltou a cometer crimes após uma década de inatividade. Dentre os demais detetives que fazem parte da equipe estão Andy Garcia como Vicenzo Brancaleone, Alfred Molina como Randall Pepperidge, Yuki Matsuzaki como Kenji Mazuto, e a estrela de Bollywood Aishwarya Rai como Sonia Solandres. Reno e Mortimer repetem seus papéis, mas Kline foi substituído no papel de Dreyfus por John Cleese. Lily Tomlin participa como uma professora de boas maneiras, e Jeremy Irons e Geoffrey Palmer fazem participações especiais.

Assim como o filme anterior, A Pantera Cor-de-Rosa 2 foi massacrado pela crítica, mas fez algum sucesso junto ao público - não tanto quanto o anterior, mas fez. É bastante provável que ele ganhe uma sequência, A Pantera Cor-de-Rosa 3, mas, por enquanto, tudo o que há sobre um terceiro filme são boatos - inclusive, de que Martin seria substituído no papel de Clouseau. Eu até gosto dos filmes de Martin - o segundo é engraçado como poucos hoje em dia - mas, na minha opinião, o melhor talvez fosse chegar à conclusão de que Sellers é insubstituível, e deixar o diamante cor-de-rosa descansar em paz em seu museu em Lugash.

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