quinta-feira, 6 de maio de 2010

Tênis de Mesa / Real

Como acontece com todas as pessoas do mundo - pelo menos eu espero - existem algumas coisas que eu sei fazer muito bem, e outras que, não interessa o quanto eu tente, parece que eu nasci sem o órgão apropriado para aquilo. Uma delas é jogar pingue-pongue. Por mais que eu tente, por mais que eu treine, a bolinha nunca vai para o lado que eu quero. E o mais curioso é que meu pai joga excelentemente bem, então minha inaptidão não deve ser hereditária - a menos que eu a tenha herdado da minha mãe, que eu não me lembro de já ter visto jogando. Mas isso já é uma senhora digressão.

Enfim, o lado bom é que, mesmo sendo ruim de doer com uma raquete na mão, esse fato nunca me impediu de apreciar o jogo. Gosto de jogar, gosto de ver outras pessoas jogando, e gosto de assisti-lo na televisão - o que, inclusive, já rendeu uma zoação de uma amiga da minha namorada, inconformada com o fato de eu estar assistindo uma partida. E, essa semana, ao assistir um jogo, tive uma ideia: por que não um post? Assim, hoje é dia de pingue-pongue no átomo! Ou melhor, com respeito: hoje é dia de tênis de mesa no átomo!

Curiosamente, a origem do tênis de mesa não tem nada a ver com o tênis. O jogo surgiu por volta de 1800, na Inglaterra, como entretenimento após o jantar em reuniões de mebros da alta sociedade. Usando uma mesa qualquer, na qual livros eram colocados no meio para dividi-la, os jogadores se divertiam rebatendo um para o outro bolas de golfe com as próprias mãos ou com outros livros, em um passatempo conhecido como wiff-waff. Conforme o jogo se popularizava, começaram a ser comercializados equipamentos próprios para a sua prática, como bolinhas feitas de cortiça e raquetes compostas por uma armação de madeira com couro esticado em seu centro, preso à madeira por tachinhas.

Com a popularização, a adoção pelas classes mais pobres e o surgimento de novos equipamentos, o jogo ganhou, também, outro apelido, ping-pong, motivado pelo som que a bolinha fazia ao bater na raquete e depois na mesa. Vendo uma oportunidade comercial, o fabricante londrino J. Jaques & Son Ltd patenteou o nome pingue-pongue em 1901 para uso em toda a Europa, vendendo seus direitos de uso nos Estados Unidos para a Parker Brothers. Graças a isso, qualquer outro fabricante que quisesse comercializar equipamentos de pingue-pongue teria de pagar royalties a Jacques. Para escapar desse pagamento, os demais fabricantes começaram a criar equipamentos alternativos, que foram comercializados como próprios para o que eles decidiram batizar de "tênis de mesa". Pois é, no início, "pingue-pongue" era o nome oficial do jogo, enquanto "tênis de mesa" era um nome genérico criado por fabricantes de produtos "piratas" - situação curiosamente oposta à de hoje, quando qualquer mesatenista se contorce ao ouvir o esporte que pratica sendo chamado de pingue-pongue, nome que acabou ganhando um significado pejorativo.

Os dois primeiros equipamentos alternativos criados para o tênis de mesa, ambos ainda em 1901, foram também os maiores responsáveis por ele se tornar o que é hoje. Em primeiro lugar, James Gibb, durante uma viagem aos Estados Unidos, viu crianças brincando com bolinhas de plástico, e achou que o jogo ficaria muito mais interessante com elas do que com as tradicionais bolinhas de cortiça. Depois, E. C. Goode decidiu reinventar as raquetes, fazendo-as de madeira sólida, com uma chapa de borracha colada de um dos lados. Essas duas inovações foram responsáveis por um verdadeiro boom do esporte, que teve seu primeiro campeonato mundial disputado já em 1902.

Como sempre, porém, cada jogador adotava regras ligeiramente diferentes - publicadas em centenas de livros sobre o assunto, que virou febre entre os escritores da época - até a codificação, que ocorreu com a fundação da Table Tennis Association, órgão máximo do esporte na Grã-Bretanha, em 1921. Cinco anos depois, as associações de tênis de mesa de nove países se uniram e fundaram a Federação Internacional de Tênis de Mesa (ITTF, na sigla em inglês), até hoje o órgão máximo do esporte no planeta. Hoje, a ITTF conta com 207 membros, dentre eles o Brasil, e o tênis de mesa é considerado o esporte com bola mais praticado do mundo, com mais de 300 milhões de jogadores cadastrados na ITTF ou em suas afiliadas regionais.

A primeira coisa necessária para se jogar tênis de mesa é... bem, uma mesa. Uma mesa oficial possui 2,74 m de comprimento, 1,525 m de largura e 76 cm de altura. É feita de madeira, coberta com uma chapa de compensado, e pintada com um verniz que não ofereça muito atrito. Normalmente, as mesas são pintadas nas cores verde, azul, cinza ou vermelho. A mesa é dividida ao meio por uma rede, feita de material sintético, com 15,25 cm de altura. A rede normalmente é de cor verde ou amarela, com uma faixa branca no topo para melhor visibilidade, e é presa à mesa através de suportes de ferro externos, ou seja, que não diminuem a área "jogável" da superfície, devendo se prolongar 7,6 cm além de cada lado da mesa. Em torneios oficiais, a mesa fica no centro de uma área de jogo de 14 metros de comprimento por 7 de largura, exclusiva para a movimentação dos jogadores, devendo as arquibancadas, a mesa de arbitragem e os equipamentos de transmissão das redes de TV ficar além desses limites.

A bolinha usada no tênis de mesa é feita de plástico celuloide, mesmo material usado para fazer filmes, e é oca, o que faz com que ela pese apenas 2,7 gramas. A bola deve ter 40 mm de diâmetro e quicar a uma altura de 23 cm quando largada de uma altura de 30 cm, o que faz com que ela seja muito rápida. Até o ano 2000, aliás, elas eram ainda mais rápidas, tendo apenas 38 cm de diâmetro e quicando 25 cm; a mudança foi feita pela ITTF sob a alegação de que o jogo ficaria mais disputado e mais atraente para quem assiste pela TV, mas acabou gerando um protesto formal da China, que alegou que a mudança só estava ocorrendo para prejudicar seus jogadores, sabidamente os mais rápidos do planeta - aliás, não tem muito a ver mas vale citar como curiosidade que a velocidade do jogo já foi motivo para que o governo da União Soviética o banisse na década de 1920, sob a alegação de que ele causava problemas de visão aos jogadores. Hoje também são encontradas no mercado bolas de 44 mm, mais lentas, destinadas a jogadores iniciantes e casuais. A bola pode ser de cor branca, amarela, laranja ou azul claro, e a escolha da cor da bola depende da cor da mesa, sempre devendo haver um contraste entre ambas. Bolas de tênis de mesa são classificadas pelo fabricante com de uma a três estrelas, que denotam sua qualidade quanto à durabilidade e velocidade, com as bolas de três estrelas - as únicas utilizadas em torneios oficiais - podendo alcançar até 112,5 km/h. Curiosamente, as bolas utilizadas em torneios oficiais nunca são novas, saídas da caixa; a preferência é para que se use sempre bolas "gastas", usadas previamente em outros jogos ou em treinos, pois há um consenso de que é mais fácil aplicar efeito a elas.

A raquete do tênis de mesa deve ser majoritariamente feita de madeira - 85% de acordo com as regras da ITTF - embora outros materiais, como fibra de carbono e até papel prensado, possam entrar em sua composição. Curiosamente, as regras da ITTF não especificam um tamanho, peso ou mesmo formato oficial para as raquetes, apenas determinando que a lâmina - a parte que vai acertar a bola - seja rígida e plana. A lâmina é coberta com um composto de borracha - que não conta para os 15% que não são de madeira da raquete - colada à madeira com um adesivo especial. Essa borracha pode ser simples ou composta; se for simples, deve ter não mais que 2 mm de espessura, e, se for composta, não mais de 4 mm, já contando com o adesivo em ambos os casos. A borracha simples possui uma única camada, enquanto a composta possui duas camadas com uma espécie de esponja no meio - o que lhe valeu o apelido de "borracha sanduíche". Existem vários tipos de borracha, que aplicam vários tipos diferentes de efeito na bola quando a acertam; por causa disso, as regras da ITTF permitem que cada raquete tenha um tipo diferente de borracha de cada lado, e o jogador vire a raquete durante o jogo para executar as jogadas de sua preferência - é expressamente proibido, porém, que um jogador troque de raquete durante uma partida, a menos que a que ele estivesse usando se quebre acidentalmente. Para facilitar a vida dos adversários, a borracha de um lado da raquete é sempre de cor vermelha, enquanto a do outro é sempre de cor preta. Um jogador pode usar uma raquete com borracha só de um lado se quiser, mas não poderá bater na bola com o lado que não tem borracha, que deverá, mesmo assim, ser pintado de preto. Até 2008 era permitido, ainda, que os jogadores passassem uma espécie de cera sobre a borracha, conhecida como speed glue, proibida a partir do ano seguinte para diminuir a velocidade e o efeito das jogadas.

Uma partida de tênis de mesa é disputada em melhor de cinco ou sete games - na melhor de cinco, o vencedor é o primeiro a ganhar três, enquanto na melhor de sete vence quem ganhar quatro - com a maioria dos torneios adotando o sistema de melhor de cinco para os jogos classificatórios e melhor de sete para as finais. Cada game termina quando um jogador alcança 11 pontos, ou, caso ambos empatem em 10 a 10, quando um deles abrir uma vantagem de dois pontos - 14 a 12, por exemplo. Essas regras também foram introduzidas pela ITTF em 2001, em nome da agilidade e da visibilidade do esporte; até então, cada game durava 21 pontos. Após cada game os jogadores mudam de lado na mesa; caso uma partida chegue ao quinto (em melhor de cinco) ou sétimo (em melhor de sete) game, nele os jogadores trocam mais uma vez de lado assim que um deles fizer 5 pontos.

Cada ponto começa com o serviço ou saque, no qual o jogador deve ter a bola na palma da mão, jogá-la para cima a uma altura de no mínimo 16 cm, e acertá-la jogando-a em direção ao outro lado da rede antes que ela toque a mesa. Esta também foi uma alteração introduzida em 2001 - até então, os jogadores podiam "esconder o saque", cobrindo a bola com as mãos até o último momento e obtendo uma grande vantagem sobre quem ia receber, já que este não tinha como saber para onde a bola iria ser mandada. Ao contrário do tênis e de outros esportes com saque, no tênis de mesa os jogadores se alternam no saque a cada dois pontos - ou seja, um saca duas vezes, depois o outro saca duas, aí o primeiro saca duas e por aí vai - independentemente de quem tenha ganhado o ponto. Se o jogo empatar em 10 a 10, os saques passam a ser verdadeiramente alternados - um jogador saca, depois o outro, depois o um, e assim por diante. Há uma curiosidade na forma de se determinar qual jogador dará o primeiro saque de um game: embora a regra determine que essa escolha pode ser feita por sorteio, o método preferido dos torneios é o "rali pelo saque": um jogador qualquer saca e ambos disputam o ponto normalmente, só que esse ponto não conta para o game, apenas para determinar quem vai começar sacando - no caso, quem ganhou esse "ponto falso".

Se, durante o saque, a bola bater na rede e cair na mesma metade da mesa do jogador que sacou, é ponto para o adversário. Se ela, porém, bater na rede e cair do outro lado, o saque é invalidado, e deve ser repetido. Após o saque, o jogador que está recebendo pode deixar a bola quicar uma vez na mesa antes de rebatê-la para o outro lado. A rebatida deve ser sempre feita com a borracha da raquete, mas, se a bola pegar acidentamente na empunhadura ou na mão do jogador e passar para o outro lado, a jogada é considerada válida. Se um jogador deixar a bola quicar mais de uma vez em seu lado da mesa, não conseguir fazer com que ela quique do outro lado da mesa após rebater, bater duas vezes seguidas na bola, bater na bola com qualquer coisa que não seja a raquete (ou, acidentalmente, sua mão), tocar na mesa ou na rede com a raquete ou com qualquer parte do corpo, ou esconder intencionalmente a bola durante uma jogada, será ponto para o adversário. Também será ponto para o adversário se o jogador não sacar conforme as regras. Um jogador que jogue a bola propositalmente contra o adversário pode ser advertido e até desclassificado; e um jogador que jogue a raquete no oponente ou a quebre de propósito é automaticamente desclassificado. Uma partida de tênis de mesa é oficiada por um árbitro, auxiliado por uma mesa, que confere os pontos aos jogadores e decide questões controversas.

Uma partida de tênis de mesa também pode ser jogada em duplas; a mesa é exatamente a mesma, mas faz uso de uma linha branca traçada em sua metade, ao longo de seu comprimento, não usada no jogo de simples. Essa linha é usada durante o saque, quando o jogador que está sacando, assim como no tênis, deve fazer com que a bolinha quique na metade oposta da mesa em relação à de onde partiu - ou seja, se ele está posicionado na metade direita, deve fazer a bola quicar na metade esquerda do outro lado, e não bem em frente a ele. À exceção dessa regra e à de que os jogadores devem se alternar na devolução das bolas - por exemplo, o jogador A1 saca, o jogador B1 rebate, aí o A2 deve rebater, e então o B2, e aí o A1 de novo e por aí vai - o jogo é idêntico ao de simples. Além das simples e duplas, existe também a modalidade equipes, onde as partidas são disputadas como na Copa Davis do tênis, com quatro jogos de simples e um de duplas a cada confronto, a equipe vencedora de cada jogo ganhando um ponto, e a equipe a somar três pontos primeiro vencendo a partida.

O tênis de mesa é esporte olímpico desde Seul, 1988, sempre com quatro eventos. Até 2004, estes eram as simples e duplas masculinas e femininas, mas a partir de 2008 a ITTF optou por mudar para simples e equipes masculinas e femininas - mais uma vez sob protestos da China. Fora as Olimpíadas, os torneios mais importantes do esporte são o Campeonato Mundial, disputado nas simples masculinas e femininas e nas duplas e equipes masculinas desde 1926, nas duplas femininas desde 1928, e nas equipes femininas desde 1934, inicialmente a intervalos irregulares, atualmente sempre nos anos ímpares; e a Copa do Mundo, disputada anualmente desde 1980 nas simples masculinas e desde 1996 nas simples femininas. Os maiores jogadores são chineses, e, quando há um campeão de outro país, não é raro que seja um chinês naturalizado.

Antes de encerrar esse post, eu gostaria de falar de um outro esporte, do qual eu sinto vontade de falar sempre que faço um post sobre esportes com raquetes: o tênis real. Para quem não sabe, o tênis real é o tênis "original", que deu origem ao jogo de tênis como conhecemos hoje - esse "real" de seu nome, inclusive, não tem nada a ver com realeza, mas o sentido de "verdadeiro", tendo o nome "tênis real" sido cunhado por jornalistas na metade do século XX para diferenciá-lo do "outro" tênis. Jogadores e fãs de tênis real, inclusive, se referem ao seu esporte somente como "tênis", e ao tênis mais famoso como lawn tennis, ou "tênis de gramado".

O tênis real é um esporte incrivelmente curioso, a começar por sua área de jogo. Uma quadra de tênis real tem 34 m de comprimento por 12 m de largura, e é cercada por quatro muros de uns cinco ou seis metros de altura, no topo dos quais há um teto em arco. No sentido da largura, um dos muros tem a porta para entrada na quadra, enquanto o muro oposto - assim como o muro à direita de quem entra - possui uma espécie de "casinha", conhecida como penthouse, que se projeta 2,5 m para dentro da quadra. O teto das penthouses é mais baixo que o teto da quadra, é inclinado e pintado em uma cor diferente do restante dos muros. A principal função das penthouses é abrigar os espectadores do jogo, mas elas também contam com "janelinhas" chamadas winning openings. O muro onde fica a porta de entrada da quadra também tem um telhadinho e conta como uma penthouse, mas não abriga espectadores. Finalmente, a quadra é dividida no meio por uma rede, que é mais baixa no centro (91cm) do que nas pontas (1,52 m).

Pois bem, o objetivo do jogo, assim como em quase todo jogo que usa raquetes, é rebater a bola em direção ao adversário, por sobre a rede, fazendo-a quicar na quadra sem que o oponente a alcance. No tênis real, porém, é permitido que a bola quique no muro lateral, nos muros das penthouses, nos telhadinhos, e até mesmo no teto (embora isso seja raríssimo por sua altura) antes de quicar no chão da quadra adversária. De fato, um saque só é considerado válido se a bola quicar no telhado da penthouse lateral antes de quicar no chão da quadra adversária. Por falar nisso, todos os saques são dados do mesmo lado (o oposto à porta, o que faz com que a penthouse lateral esteja sempre do lado esquerdo de quem saca), com os jogadores trocando de lado toda vez que o saque muda.

A contagem de pontos do tênis real é a mesma do tênis, com o primeiro ponto valendo 15, o segundo 30, o terceiro 40, e então o jogador ganhando um game. Caso os dois jogadores empatem em 40, quem faz o ponto seguinte fica em vantagem, e, com um novo ponto, ganha o game - caso o jogador que não está em vantagem marque o ponto, empata de novo. O primeiro jogador a ganhar 6 games ganha o set - diferentemente do tênis, mesmo que ele termine 6 a 5. As partidas podem ser disputadas em melhor de três sets (vence quem primeiro ganhar dois) ou melhor de cinco, dependendo do torneio.

A forma de se marcar os pontos, porém, é bastante exótica. Algumas situações nas quais é registrado ponto para o adversário até são bem normais - como, por exemplo, se o jogador que está sacando der dois saques seguidos inválidos; se quem está rebatendo não conseguir fazer com que a bola passe da rede; se a bola quicar em mais de um telhado ou muro antes de quicar no lado adversário da quadra; se um jogador acertar a bola duas vezes seguidas com a raquete; se ele acertar a bola com qualquer coisa que não seja sua raquete; ou se um jogador deliberadamente tocar na rede - mas outras duas são incrivelmente curiosas: primeiro, se o jogador acertar a bola dentro de uma winning opening do lado do adversário, ele automaticamente ganha um ponto. Segundo, o jogador que vence uma chase ganha um ponto.

E o que é uma chase? Bem, vocês devem ter reparado que "deixar a bola quicar duas vezes do seu lado da quadra" não está na lista de coisas que dão pontos ao adversário do parágrafo anterior; isso porque, quando um jogador deixa a bola quicar duas vezes do seu lado da quadra, não é ponto, mas chase. A jogada não é interrompida - continua até alguém ganhar o ponto - e, na rodada seguinte, a chase é disputada.

No chão da quadra são marcadas diversas chase lines, 12 do lado de quem saca e 6 do lado de quem recebe. Quando uma chase é disputada, o objetivo do jogador é fazer a bola quicar novamente duas vezes, sendo a segunda mais além da chase line imediatamente posterior ao local onde a bola quicou pela segunda vez na jogada anterior. Caso ele consiga, ganha um ponto. Caso não, o ponto é do adversário.

Curiosamente, a chase é a única forma que existe para que os jogadores se alternem no saque: a cada duas chases, ou sempre que uma chase acontecer quando um dos jogadores estiver com 40 pontos ou vantagem no placar, os jogadores trocam de lado na quadra, e quem estava recebendo passa a sacar. Como as chase lines são diferentes de cada lado da quadra, a chase não pode ser disputada imediatamente após a troca, mas fica registrada para acontecer logo após a troca seguinte. Como só é possível alternar o saque através de chases, em teoria é possível que um jogo inteiro aconteça com um único jogador sacando, e o outro só recebendo.

O tênis real pode ser jogado também em duplas, com as diferenças de que os jogadores de cada dupla se alternam no saque e na recepção (o mesmo jogador tem de devolver as bolas em todos os saques de um mesmo jogador), o parceiro de quem está sacando é proibido de obstruir a visão que o recebedor tem do saque, e caso a bola acerte o parceiro do jogador que a rebateu, é ponto para o adversário. Fora isso, as regras são as mesmas.

O jogo é oficiado por um árbitro, que fica de pé em uma portinha bem em frente à rede, e por um marcador, que assiste o jogo de posição estratégica, normalmente de uma janelinha no muro onde fica a porta de entrada. O marcador tem a responsabilidade de, antes da partida, verificar se a quadra e os equipamentos estão em perfeitas condições, e, durante ela, anotar o placar, chamar a atenção do público quando este estiver atrapalhando os jogadores e auxiliar o árbitro em lances polêmicos.

Além de ter uma quadra curiosa e regras curiosas, o tênis real também usa uma bola e raquetes curiosas. A bola é feita de um núcleo de cortiça, envolto em várias camadas de linha e lã e coberta com uma camada de tecido costurada à mão, o que faz com que ela seja bastante dura, quique pouco e vá em direções pouco esperadas quando acerta um muro ou telhado. A bola deve ter entre 62 e 65 mm de diâmetro, e pesar entre 71 e 78 gramas, sendo sempre amarela ou branca.

Já as raquetes devem ser majoritariamente feitas de madeira, com outros materiais permitidos apenas na empunhadura e nos locais onde as cordas são presas. A cabeça deve ter no máximo 24,1 cm de comprimento por 17,8 cm de largura, e o cabo não pode ter mais de 44 cm. A principal característica das raquetes de tênis real, porém, é que elas são assiméticas, com a cabeça sendo levemente inclinada, para facilitar acertar a bola perto das quinas do chão com os muros.

O tênis real é um dos esportes mais antigos do mundo, e sua origem é incerta. A teoria mais provável é a de que ele teria sido criado por pessoas que o disputavam com as mãos nuas nas ruas da Idade Média - explicando, portanto, por que a quadra tem muros, telhados e casinhas. O fato é que o esporte era extremamente popular, ao ponto de ser mencionado em um estudo conduzido pelo Papa em 1596, no qual se reportou que, só em Paris, havia 250 quadras onde podia ser disputado. O tênis real era o esporte preferido de Henrique VIII, que, segundo a lenda, teria conhecido Ana Bolena enquanto ela assistia uma partida na qual ele jogava.

Com a Era Napoleônica e a decadência das famílias nobres europeias, o jogo foi sendo abandonado aos poucos, até que um súbito novo interesse por ele na Era Vitoriana se encarregou de espalhá-lo entre a população em geral. Graças à invenção do "outro" tênis, porém, o tênis real jamais voltou a ser verdadeiramente popular, sendo, até hoje, um esporte de poucos.

Atualmente, estima-se que só existam 47 quadras próprias para a prática do tênis real no mundo, sendo 27 na Inglaterra, 9 nos Estados Unidos, 8 na Austrália e 3 na França. A responsável por codificar e organizar o esporte é a britânica The Tennis and Rackets Association, que, na falta de uma associação internacional, assume este papel. Poucos torneios são disputados por ano, sendo os mais importantes o Aberto da Austrália, o Aberto dos Estados Unidos, o Aberto da França e o Aberto Britânico, que, por influência do tênis, ganharam o apelido de Grand Slam. E, que eu saiba, não existe nenhum jogador brasileiro de tênis real.

Com o nome de jeu de paume, pelo qual é conhecido nos países de língua francesa, o tênis real fez parte do programa de duas olimpíadas: Paris, 1900, quando foi esporte de demonstração, e Londres, 1908. Em ambas as ocasiões, só foi disputado o torneio de simples masculinas. Para finalizar, vale o registro de que o tênis real possui o campeonato mundial mais antigo do mundo ainda em disputa: a primeira edição de seu campeonato de simples masculinas data nada menos do que de 1740. Diferentemente de outros esportes, porém, o mundial de tênis real não é disputado em intervalos fixos por todos os jogadores qualificados, mas em um sistema de desafios semelhante ao do boxe: a cada ano par, os quatro jogadores melhores colocados no ranking - à exceção do atual campeão - têm o direito de desafiar o atual campeão - caso mais de um queira, são jogados play-offs. Caso o campeão vença, mantém o título, caso perca, ele muda de mãos. O atual campeão é o australiano Robert Fahley, que conquistou o título em 1994, ao ganhar de seu compatriota Wayne Davies, e o defendeu com sucesso em todos os desafios desde então. Os campeonatos mundiais de duplas masculinas (disputado a cada ano ímpar desde 2001) e de simples e duplas femininas (disputados a cada ano ímpar desde 1985) não seguem essa fórmula, sendo torneios no esquema tradicional.

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