quinta-feira, 4 de março de 2010

Beowulf

Uma das coisas que eu mais gosto aqui no átomo - e acredito que muitos de vocês também - é dessa historinha que abre os posts. Eu poderia simplesmente tascar um título e sair escrevendo sobre o assunto, mas acho que explicar o porquê dele ter sido escolhido confere um toque pessoal ao texto, além de permitir que eu fale um pouco sobre a minha vida.

Algumas vezes, porém, escrever essa historinha é meio complicado. Hoje, por exemplo, eu vou fazer um post sobre Beowulf. Beowulf não tem nenhuma ligação particular com a minha vida, e não tenho por ele nenhuma preferência que justificasse ficar explicando sua escolha. A historinha de hoje, portanto, pode ser resumida a uma frase: outro dia, eu estava assistindo ao filme A Lenda de Beowulf, e imaginei que Beowulf daria um bom tema de post do átomo, por causa de uma peculiaridade interessante:

Beowulf é considerado, simplesmente, a obra literária mais antiga da Inglaterra. Notem bem, ele não é considerado a obra mais antiga da língua inglesa, mas da própria Inglaterra, já que é tão antigo que pertence a uma época na qual o inglês como conhecemos hoje ainda nem existia, tendo sido escrito em uma língua morta hoje conhecida como old english, e que, apesar do nome, tinha muito pouco a ver com o inglês moderno. E tem mais: Beowulf é tão antigo, mas tão antigo, que ninguém nem sabe ao certo de quando é. Estima-se que o único manuscrito conhecido do texto foi escrito no século XI, mas a história pode ser bem mais antiga que isso, tendo se originado no século VIII e sido passada por via oral ou registrada em outros manuscritos que não sobreviveram.

O manuscrito que chegou até nós - e existe até hoje, guardado na Biblioteca Britânica - foi presenteado ao acadêmico Laurence Nowell pelo Barão de Burgley em 1563. Não se sabe como o Barão teria conseguido o texto. Mais tarde, Nowell venderia o manuscrito ao bibliotecário Sir Robert Cotton, que o incluiria em sua coleção particular. Por causa disso, o manuscrito é hoje conhecido por três nomes: Nowell Codex, por ter pertencido a Nowell, que inclusive escreveu seu nome na primeira página; Cotton Vitellius A. xv, nome com o qual foi catalogado na biblioteca de Sir Cotton; e, evidentemente, Beowulf Manuscript.

Curiosamente, Beowulf não é o único texto contido no manuscrito, que também contém a biografia de São Cristóvão, um documento sobre as terras do oriente intitulado Maravilhas do Leste, e uma tradução para o old english da Carta de Alexandre a Aristóteles. Desde que foi passado a Nowell, o manuscrito também acompanha outro volume, que contém uma tradução dos Solilóquios de Santo Agostinho, uma tradução do Evangelho apócrifo de Pilates, o conto Salomão e Saturno e um fragmento da biografia de São Quintino. Muito provavelmente, os dois volumes não foram escritos juntos, mas apenas reunidos no século XVII.

Como já foi dito, esse manuscrito que foi de Nowell e depois de Cotton é a única cópia conhecida do texto de Beowulf - mas não dos que o acompanham, curiosamente. Suspeita-se que existissem mais que se perderam no tempo, principalmente porque o texto de Beowulf foi escrito por dois escribas, com caligrafias totalmente diferentes, que muito provavelmente o estavam copiando de outra fonte. Também por ser o único exemplar do texto, Beowulf permaneceu virtualmente desconhecido até o islandês Grímur Jónsson Thorkelin, membro de uma comissão de pesquisa sobre a história da Dinamarca, decidir transcrevê-lo e traduzi-lo em 1786. Thorkelin teve uma tarefa ingrata, pois o manuscrito original havia sido danificado por um incêndio que destruiu parte da biblioteca de Cotton em 1731; embora o manuscrito em si evidentemente não tenha sido destruído pelo fogo, suas margens ficaram irreparavelmente queimadas, se perdendo muitas das últimas letras de cada linha, e seu papel ficou extremamente ressecado, o que fazia com que se quebrasse se não fosse manuseado com cuidado. Ainda assim, Thorkelin conseguiu transcrever a maior parte do texto, e publicou sua tradução de Beowulf em 1815.

Thorkelin produziu duas cópias da transcrição, uma feita por ele mesmo e uma por um assistente que apenas copiava, por não saber old english. Como o manuscrito original se deteriora a cada dia, as transcrições de Thorkelin, hoje, são consideradas as melhores fontes que existem para os estudiosos de Beowulf, principalmente porque estima-se que Thorkelin e seu assistente tenham conseguido recuperar 2.000 letras que se perderam para sempre com a deterioração das páginas - embora alguns ponham à prova a veracidade dessas letras, alegando que Thorkelin pode muito bem tê-las inventado.

Depois da publicação da tradução de Thorkelin, houve uma onda de interesse pela preservação do manuscrito original, do qual até então ninguém tinha querido saber. As tentativas de restauração, porém, se mostraram mais maléficas do que benéficas, já que em muitos casos deterioraram ainda mais as páginas, ou cobriram letras que até então estavam em estado perfeito, com fitas que supostamente ajudariam a evitar a decomposição das margens. Recentemente, um projeto liderado pelo professor Kevin Kiernan, da Universidade de Kentucky, tem tentado digitalizar o manuscrito original, utilizando uma moderna técnica de iluminação por fibras óticas para revelar durante o escaneamento letras cobertas ou queimadas. Se for bem sucedido, o projeto de Kiernan poderá finalmente preservar o Beowulf original para sempre.

Além de um projeto de restauração, Kiernan também possui algumas ideias revolucionárias sobre as origens do texto. Ele foi o primeiro, em 1996, a propor que Beowulf tivesse sido escrito pelos dois escribas, que seriam seus autores, no próprio século XI, e não sido passado por via oral desde o século VIII e apenas registrado pelos escribas como a maioria dos estudiosos alegava. Apesar de ter sido escrito na Inglaterra, Beowulf é ambientado na Dinamarca - por isso o interesse da Coroa Dinamaquesa da transcrição e tradução feita por Thorkelin - o que levava os estudiosos a acreditar que ele não poderia ter sido criado depois do século IX, quando a Inglaterra travou uma sangrenta guerra contra os Vikings. Segundo eles, o povo inglês jamais criaria um épico heroico estrelado por seus piores inimigos. Kiernan rebate essa teoria dizendo que, pelo mesmo argumento, tal história não teria sido passada oralmente através de três séculos até ser registrada. Segundo Kiernan - e alguns outros estudiosos que defendem seu posicionamento - a lenda de Beowulf poderia até existir desde o século VIII, mas o Beowulf registrado no manuscrito é uma obra nova, de autoria de dois autores cujos nomes se perderam no tempo.

Ok, mas do que se trata o texto? Bom, para começar, Beowulf é um poema. Um poema gigantesco, de 3.182 versos, divididos em 43 capítulos. Embora não haja uma marcação clara, o poema também é dividido em duas partes - que não coincidem com os trabalhos dos dois escribas, o que poderia significar que cada um escreveu uma delas. A primeira parte trata da juventude de Beowulf, a segunda, de sua velhice.

A história começa quando Hrothgar, Rei da Dinamarca, decide construir um enorme salão, chamado Heorot, onde comemorará com seu povo suas vitórias. Mas o monstro Grendel, revoltado por não poder tomar parte nas comemorações, decide atacar Heorot durante a noite, matando e devorando os que estiverem dormindo lá dentro. Após sucessivos ataques de Grendel, o Rei, sem saber o que fazer, manda cerrar as portas do salão, e o povo da Dinamarca passa a viver com medo dos ataques do monstro.

Felizmente, Beowulf, herói dos Gautas, povo que habitava o sul da Suécia na época em que a história é ambientada, toma conhecimento dos ataques de Grendel, e, com a permissão de seu Rei, parte para ajudar Hrothgar. Beowulf planeja dormir com seus homens em Heorot, e derrotar Grendel quando este atacá-los. Durante o ataque, Grendel devora um dos homens de Beowulf, que decide enfrentá-lo desarmado, pois o monstro não tem armas, e ele deseja uma luta justa. A luta de Beowulf e Grendel quase faz o salão desabar, e os demais homens de Beowulf decidem ajudá-lo. Espadas forjadas pelos homens são incapazes de perfurar a pele do monstro, mas, com a distração, Beowulf arranca o braço de Grendel, ferindo-o mortalmente. Grendel, então, retorna ao seu covil no pântano para morrer.

Mas os problemas de Beowulf e Hrothgar não acabam com a morte do monstro: na noite seguinte, enquanto os dinamarqueses comemoram, a mãe de Grendel, um demônio da água, ataca Heorot e mata Aeschere, o mais valoroso guerreiro do reino. Quando ela vai embora, Beowulf, Hrothgar e o guerreiro Unferth a seguem até seu covil, no meio de um lago. Unferth dá a Beowulf sua espada, Hrunting, e o herói mergulha para enfrentar o demônio. Beowulf e a mãe de Grendel lutam por várias horas, ele incapaz de feri-la pois a espada não penetra sua pele, ela incapaz de feri-lo pois seus ataques não conseguem vencer a armadura que ele veste.

Eventualmente, a luta leva os dois para uma caverna sub-aquática, onde estão o corpo de Grendel e o tesouro de sua mãe. Em meio ao tesouro, Beowulf encontra uma espada forjada pelos gigantes, que poderia penetrar a pele do demônio, mas que nenhum homem conseguiria levantar. Em um esforço supremo, Beowulf ergue a espada e decapita a mãe de Grendel, encerrando a luta. Antes de deixar a caverna, Beowulf também corta a cabeça de Grendel, que leva como troféu de volta para Heorot, onde há uma grande celebração. No dia seguinte, Beowulf se despede de Hrothgar, e volta para seu reino levando como presente a espada Naegling, que estava na família do Rei há várias gerações.

O tempo passa, e Beowulf se torna Rei dos Gautas. Um dia, um escravo, perambulando pelas terras de Earnaness, encontra um cálice de ouro, e o leva para o castelo. Sem que ele soubesse, o cálice pertencia ao tesouro do dragão Sua, que, enfurecido, ataca o reino em vingança. Beowulf, já com mais de sessenta anos, decide partir com seus homens para derrotar o dragão, mas, depois que este o fere mortalmente, todos fogem, menos o jovem Wiglaf. Com a ajuda de Wiglaf, Beowulf mata o dragão, mas acaba também morrendo em decorrência dos ferimentos da batalha. Beowulf então é enterrado em uma colina, para que todos os marinheiros que chegarem a seu reino possam ver seu túmulo.

Além de existir no formato poema, Beowulf também ganhou três adaptações para o cinema. A primeira, de 1999, foi batizada no Brasil como Beowulf - O Guerreiro das Sombras, e trazia Christopher Lambert no papel do herói. Infelizmente, o filme tinha muito pouco em comum com o poema além do nome dos personagens.

Dirigido por Graham Baker, Beowulf - O Guerreiro das Sombras era ambientado em uma espécie de futuro feudal pós-apocalíptico, no qual um castelo de aspecto meio industrial é aterrorizado por um demônio chamado Grendel (Vincent Hammond). Beowulf, um guerreiro errante, se voluntaria para matar o monstro, e é recebido pelo lorde do castelo, Hrothgar (Oliver Cotton) e sua filha Kyra (Rhona Mitra). Após duas lutas, Beowulf arranca o braço de Grendel, e há uma grande celebração, pois todos acreditam que o monstro está morto, durante a qual Kyra revela estar apaixonada por Beowulf, e ele mesmo revela que é filho de uma humana com Baal, o deus das trevas.

A comemoração dura pouco, já que a mãe de Grendel (a playmate Layla Harvest Roberts), enfurecida, ataca o castelo, em companhia de seu filho agora maneta. Em uma empolgante luta, Beowulf mata os dois, mas destrói o castelo, que rui em chamas. Ele e Kyra são os únicos sobreviventes, e cavalgam em direção ao horizonte. Se Beowulf enfrentará um dragão depois de velho, só ela sabe. Desnecessário dizer, essa adaptação não foi lá muito bem recebida, e atrasos nas suas filmagens ainda impossibilitaram que Lambert repetisse o papel de Raiden em Mortal Kombat: A Aniquilação - o que, na verdade, deve ter sido uma coisa boa.

A segunda adaptação de Beowulf foi lançada em 2005, e, embora tenha tomado menos liberdades, não foi muito mais fiel ao original que sua antecessora. A Lenda de Grendel, dirigido pela islandesa Sturla Gunnarsson, pelo menos é ambientado na época certa. Mas, como vocês devem ter percebido pelo nome, ele é mais centrado em Grendel, interpretado por Ingvar Sigurthsson, que em no próprio Beowulf, interpretado por Gerard Butler.

Grendel, aliás, tem um pai e um filho nesse filme, e busca vingança contra os dinamarqueses por estes terem matado seu pai quando ele era criança. Beowulf decide enfrentar o monstro depois que fica sabendo de seu ataque ao salão do Rei Hrothgar (Stellan Skarsgaard), onde vinte homens foram mortos. Mas Grendel não está muito a fim de lutar contra Bewoulf, segundo a feiticeira Selma (Sarah Polley), porque este não lhe fez mal nenhum.

Beowulf, porém, não respeita as intenções do monstro, e parte para caçá-lo. Ele e seus homens encontram seu covil, e um dos homens destrói a cabeça mumificada do pai de Grendel, que ele mantinha como relíquia. Agora com um motivo, Grendel ataca Beowulf e seus homens, mas mata somente o dessecrador. Ao fugir, Beowulf o prende em uma armadilha, e ele perde o braço ao tentar se soltar, morrendo por falta de sangue.

Depois da comemoração de sempre, na qual Beowulf e Selma se mostram apaixonados, há o ataque da mãe de Grendel (Elva Ósk Ólafsdóttir). Beowulf a segue até sua caverna sub-aquática, e a mata com uma espada encontrada em meio a seu tesouro. Após a luta, ele decide dar um enterro digno a Grendel, observado pelo filho que o demônio teve com Selma, e retornar para sua terra, deixando os complicados problemas dos dinamarqueses para trás. E talvez enfrentar um dragão, que também não aparece neste filme. A Lenda de Grendel também não foi lá um sucesso, mas, curiosamente, seu making of, intitulado A Ira dos Deuses ganhou diversos prêmios do cinema europeu.

A melhor e mais fiel adaptação é a mais recente, lançada em 2007. A Lenda de Beowulf, dirigido por Robert Zemeckis, com roteiro de Neil Gailman e Roger Avary, não é exatamente um filme, mas uma animação, que se utiliza de modernas técnicas de captura de movimentos para tornar os personagens os mais realísticos possível. Além disso, todos os personagens foram desenhados para ter a imagem e semelhança dos atores que os interpretam. O elenco inclui Ray Winstone como Beowulf, Anthony Hopkins como o Rei Hrothgar, Robin Wright Penn como a Rainha Wealtheow, John Malkovich como Unferth, Brendan Gleeson como Wiglaf, Crispin Glover como Grendel, e Angelina Jolie como a mãe de Grendel.

Apesar de ser bastante fiel ao poema, essa adaptação também possui algumas diferenças cruciais. As mais leves são que Unferth é uma espécie de padre, que tenta espalhar a palavra de Jesus Cristo entre os dinamarqueses pagãos; Beowulf demonstra interesse amoroso por Wealtheow, esposa de Hrothgar; Wiglaf é mais ou menos da mesma idade que Beowulf, e o acompanha desde o início; Grendel ataca Heorot porque tem uma audição superdesenvolvida, e a música lhe causa fortes dores de cabeça; e Beowulf recebe, como prêmio por ter matado Grendel, uma trompa de ouro em formato de dragão. Uma alteração mais pesada é o fato de que Hrothgar se suicida após Beowulf retornar da luta com a mãe de Grendel, deixando todo o reino, incluindo Wealtheow, para Beowulf, que se torna Rei dos Dinamarqueses, e não dos Gautas. Mas a alteração mais violenta é a de que a mãe de Grendel não é um demônio horrendo, mas a Angelina Jolie. No filme, Grendel é filho dela com Hrothgar, que esconde esse segredo de todos; quando Beowulf vai matá-la, ela o seduz, e também faz um filho com ele - que cresce para se tornar o dragão da segunda metade da história. Todas essas alterações, apesar de estranhas, são compreensíveis, e foram feitas para tornar a história mais coesa e mais ao estilo de um filme de fantasia. Na verdade, elas até funcionam muito bem, e só desagradaram mesmo aos poucos fãs do texto original.

A Lenda de Beowulf foi um filme extremamente caro, com orçamento de 150 milhões de dólares, mas não fez feio nas bilheterias, rendendo por volta de 200 milhões. Mas seu maior mérito é apresentar de forma decente uma das mais importantes histórias da Inglaterra para as novas gerações.

3 enfiaram o nariz:

Guil disse...

Ok, se alguém estranhou o "novo" layout do átomo, espero que venha aqui ler esse comentário, porque vou explicar.

Troquei meu monitor por um widescreen, e, sinceramente, achei que o átomo ficou muito feio todo esticado. Assim, fiz um "fix width" para que ele continue com a aparência que tinha antes (pelo menos para mim) e que eu acho mais normal.

Então, se você já tinha um monitor widescreen e está estranhando, se serve como consolo, até agora você estava vendo o átomo "errado", e a partir de hoje estará vendo o certo :)

E se você não tem um monitor widescreen, e por alguma razão o átomo ficou esquisito, desculpe, não foi minha intenção. Mas tenho de deixar o blog de um jeito que eu mesmo consiga ler.

Abraços a todos!

8:08 PM
Rod Ran disse...

Se serve de tranquilizante, a maioria dos sites faz isso com o layout. Só alguns procuram utilizar todo o espaço da tela mas correm o risco de cansar ou espantar o visitante com toneladas de informação textual.

Também pensei em fazer o mesmo no meu blog, mas queria que ele continuasse redimensionável nas janelas menores. Só que é difícil pacas fazer isso... :/

4:38 PM
Vinny disse...

Gui, você esqueceu de mencionar a ligação de Tolkien com Beowulf: foi por causa dele que toda uma geração de estudiosos se interessou novamente pelo poema, do qual Tolkien era grande estudioso, inclusive com um livro publicado - The Monsters and the Critics.

7:51 PM

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