terça-feira, 4 de agosto de 2009

Os Goonies

Semana passada, eu fiz um post que começava com uma constatação implícita de que o computador está dominando o cinema. Podem reparar: de cada dez filmes lançados por ano, uns seis ou sete têm pelo menos uma cena gerada em computação gráfica - e, dos que sobram, só um ou dois não têm tratamento de imagem digital. Não que eu ache isso particularmente ruim, mas com certeza gera alguns efeitos colaterais. A morte dos filmes infantis, por exemplo.

Se você não acredita que os filmes infantis estão morrendo, aceite um desafio: diga o nome de dez filmes infantis rodados nos últimos cinco anos. Não valem filmes feitos para adolescentes ou pré-adolescentes que, por algum motivo bizarro, fazem sucesso entre as crianças (como High School Musical), não valem filmes nacionais (já que o uso do computador nunca foi exatamente uma constante no cinema nacional) e, evidentemente, não valem desenhos, só filmes com atores de carne e osso. É uma tarefa difícil ou não é?

Um dos fatores que levam a essa situação é que, atualmente, é muito fácil, rápido e barato fazer um desenho animado. O resultado final, em termos tanto de gráficos quanto de enredo, nem precisa ser lá essas coisas, as chances dele passar no cinema só porque é um desenho animado feito de computação gráfica continuam sendo grandes. E, se qualquer um pode fazer um desenho porco e amealhar uns trocados, por que os grandes estúdios não fariam um desenho bem produzido, bem trabalhado, com gráficos, enredo e elenco (de dubladores) de primeira, para ganhar milhões? E, se eles podem fazer isso, por que gastar muito mais tempo e dinheiro para fazer um filme? Pois é.

Quando eu era criança, porém, nem mesmo os grandes estúdios podiam sair fazendo desenhos para o cinema em massa. Fazer um desenho envolvia milhares de profissionais, caras folhas de acetato, anos de planejamento, e acabava saindo mais caro, demorado e trabalhoso do que fazer um filme. Felizmente para nós, o resultado se reverteu em muitos filmes infantis bons. Coisas como A História sem Fim, ET: O Extraterrestre, Labirinto: A Magia do Tempo, O Voo do Navegador, Willow na Terra da Magia, Caravana da Coragem, Querida, Encolhi as Crianças e Os Goonies. Até que, de cabeça, eu consegui fazer uma boa lista. E o último nome não está em negrito por acaso. Como a Cyndi Lauper atesta, Os Goonies são o tema de hoje no átomo.



Lançado no hoje longínquo ano de 1985, Os Goonies foi planejado por um time de respeito: produzido por Steven Spielberg, escrito por Chris Columbus e dirigido por Richard Donner. Agora me digam, quando é que um filme infantil de hoje iria reunir uma trinca desse naipe? Filmado quase todo em uma única cidade (Astoria, no Oregon, exceto por algumas cenas de estúdio) ao longo de curtos cinco meses e consumindo quase vinte milhões de dólares, o filme acabou sendo um enorme sucesso, rendendo mais de 60 milhões só nos Estados Unidos, e ficando atrás apenas de Rambo 2 como filme de final de semana de estreia mais rentável de 1985. Atraídos pelo nome de Spielberg no poster, milhares de crianças, jovens e adultos foram aos cinemas, e acabaram transformando Os Goonies em um cult - até hoje ele é lembrado com carinho pelo que foram jovens em sua época.

Ambientado na própria Astoria onde foi filmado, o filme começa com a família Walsh forçadamente de mudança, pois a vizinhança onde moram (as Goon Docks, ou "docas dos goons"; "goon" é uma palavra usada para designar homens fortes mas pouco inteligentes, contratados para seviços braçais, e graças ao cinema associada a capangas de bandidos que só servem para derrubar portas e meter a porrada nos outros, mas que também era coloquialmente usada para estivadores, daí o nome) pertence ao Astoria Contry Club, e será demolida para a ampliação do mesmo. Enquanto arruma as coisas para a mudança, o pequeno Michael Walsh, conhecido como Mikey (Sean Astin, o Sam Gamgee de O Senhor dos Anéis) encontra, dentre alguns itens que seu pai, curador de um museu local, levou para casa, um antigo mapa do tesouro, junto a um artefato misterioso e a um recorte de jornal que falava sobre a possibilidade do navio do famoso pirata Willie Caolho ter naufragado justamente na costa de Astoria. Vendo no tesouro a solução para todos os seus problemas, já que poderiam usá-lo para comprar o terreno e evitar a mudança, Mikey convence seus amigos, que se auto-denominam os Goonies (porque moram nas Goon Docks) a seguir o mapa.

Além de Mikey, os Goonies são Clark Devereaux, conhecido como Bocão (Corey Feldman, que devia estar em nove de cada dez filmes feitos para crianças e adolescentes na década de 1980), conhecido por falar o tempo todo, e na maioria do tempo coisas que não deve; o criativo Richard Wang, conhecido como Dado (Ke Huy Quan, de Indiana Jones e o Templo da Perdição), fã de James Bond, e que inventa diversos apetrechos, como uma luva de boxe que salta de seu casaco para socar agressores ou jatos de óleo que espirram de seus tênis, para lutar contra bandidos e malfeitores; e o gordinho Lawrence Cohen, conhecido evidentemente como Gordo (Jeff Cohen), meio medroso, meio exagerado, meio desastrado, e que adora comida. Ao longo de sua busca eles acabam arrastando também para a aventura o irmão mais velho de Mikey, Brandon (Josh Brolin), que gosta de exercícios físicos, é superprotetor com o irmão, e de início totalmente contra a ideia de ir atrás do tesouro; a ruiva Andy Carmichael (Kerri Green), por quem Brandon á apaixonado, uma estereotípica líder de torcida popular que namora o capitão do time da escola, e não fica nem um pouco satisfeita em ter de se meter em uma caverna; e a intelectual Stef Steinbrenner (Martha Plimpton), amiga de Andy que acaba servindo de rival e casal para Bocão.

Mesmo levando-os a se envolver em armadilhas mortais enquanto procuram o navio que guarda o tesouro, Willie Caolho e seus piratas - até porque já estão mortos - não são os maiores antagonistas dos Goonies. Enquanto seguem o mapa, eles acidentalmente entram no caminho dos irmãos Fratelli (cujo nome também é uma piada, já que fratelli significa "irmãos" em italiano), uma família de criminosos que se esconde próximo à cidade após libertar um deles da prisão. Liderados por sua mãe (Anne Ramsey), os irmãos Francis (Joe Pantoliano) e Jake (Robert Davi) também decidem ir atrás do tesouro, seguindo as crianças para roubá-lo delas. Mas os Goonies também terão dentre os Fratelli um aliado inesperado: Sloth (John Matuszak), o caçula dos três irmãos, um gigante deformado de muita força e pouca inteligência, que acaba se afeiçoando a Gordo e se voltando contra sua própria família. Sloth acabou se tornando um dos personagens mais icônicos do filme, e é geralmente aquele do qual as pessoas primeiro se lembram quando perguntadas.

O roteiro original de Os Goonies tinha nada menos que 120 páginas de aventuras, incluindo uma luta contra um polvo gigante. Evidentemente, muitas cenas tiveram de ser cortadas no processo, incluindo a do polvo, que acabou se tornando uma espécie de piada interna entre o elenco. Outro elemento lendário do filme é o navio de Willie Caolho, o Inferno: construído em tamanho natural, e até capaz de navegar, ele foi mantido em segredo até a cena na qual os Goonies o encontram, para que a expressão de surpresa no rosto dos atores fosse a mais espontânea possível. Infelizmente, após a conclusão das filmagens, eles não tiveram o que fazer com o navio - ninguém se interessou em comprá-lo, e, como era muito grande, não tinham onde guardá-lo - que teve de ser destruído.

Apesar de ter sido um filme de grande sucesso, Os Goonies recebeu críticas variadas, algumas elogiando, outras falando mal, sendo que a principal desculpa era a de que o filme agradaria às crianças, mas não aos adultos. Como que para provar que os críticos estavam errados, nos anos que sucederam seu lançamento o filme se tornou cult, sendo hoje um dos filmes mais conhecidos dos anos 1980. Durante anos, os atores que interpretaram os Goonies ficaram marcados por seus papéis, e alguns deles até tentaram usar essa fama a seu favor - quando Jeff Cohen se candidatou a presidente estudantil na Universidade da Califórnia em Berkeley, em 1995, seu slogan era "Gordo para presidente". Apesar de todo esse sucesso, porém, o filme jamais rendeu uma continuação. A não ser no mundo dos videogames, onde a Konami lançou dois títulos da série The Goonies: o primeiro, lançado em 1986 para MSX e NES, segue mais ou menos a mesma história do filme, mas no segundo, The Goonies II, lançado em 1987 para NES, os irmãos Fratelli sequestram todos os Goonies menos Mikey, que tem de salvá-los, assim como a uma sereia chamada Annie, em um labirinto de cavernas e prédios abandonados.

Rumores de um Goonies 2 para os cinemas, porém, persistem até hoje - em 1987, inclusive, havia quem dissesse que a história do segundo game era, na verdade, um roteiro de um segundo filme, que acabou não sendo utilizado. Pouco após o lançamento do filme esses rumores eram mais fortes, mas, conforme os atores iam envelhecendo, eles foram perdendo força, até que, eventualmente, se parou de falar em um segundo filme.

Até o lançamento do DVD, em 2001. Na época, os sete atores que interpretavam os Goonies foram reunidos para gravar um extra no qual eles assistiriam ao filme acompanhados de Donner, e fazendo comentários sobre as cenas. Ver os Goonies mais velhos e reunidos não somente disparou entre os fãs uma nova onda de boatos sobre uma sequência, mas também fez com que os próprios atores começassem a pensar no assunto. Sean Astin chegou a declarar em uma entrevista que a sequência era uma certeza, principalmente devido à excelente vendagem do DVD. A vontade dos fãs e do elenco esbarraria, porém, na vontade da Warner Bros: detentora dos direitos do primeiro filme, ela jamais se animou a fazer um segundo, principalmente tanto tempo depois, quando já não era possível que fosse um filme infantil, e não haviam garantias de que um filme de aventura com sete marmanjos de trinta e poucos anos teria boa bilheteria.

Em 2007, os rumores voltaram mais uma vez com força total, mas em outra direção: ao invés de um filme, a continuação de Os Goonies seria lançada na forma de uma minissérie em quadrinhos, publicada pela DC (que, não por acaso, pertence à Warner). Vários dos detalhes divulgados na época, pórém, enfureceram os fãs: em primeiro lugar, a história seria ambientada na época atual, mas apenas cinco anos após o final do filme, e não vinte como na realidade. Em segundo lugar, os Goonies estariam entre o final do colégio e a faculdade, e já não seriam mais um grupo de amigos. O enredo envolveria justamente sua reunião, quando Gordo descobrisse que Sloth desapareceu no mesmo dia em que os Fratelli saíram da prisão, e conclamasse os demais para salvá-lo de um possível sequestro. Além disso tudo, a arte, que mostrava os Goonies bonitões e fortões, como super-heróis, também não agradou, o que acabou levando a um engavetamento do projeto.

Sem querer desistir, a Warner começou então a trabalhar no projeto de um desenho animado, que seria exibido no Cartoon Network (que também pertence à Warner). Com um traço mais cômico, e ambientado imediatamente após os eventos do filme, o desenho mostraria os Goonies ainda crianças, vivendo incríveis aventuras em Astoria e nas regiões próximas, sempre envolvendo artefatos levados do museu para a casa de Mikey por seu pai. Mas a produção do desenho acabou esbarrando em um problema jurídico: como os personagens teriam a aparência dos atores do filme, eles teriam de receber direitos de imagem (foi para evitar isso, por exemplo, que os personagens do desenho dos Caça-Fantasmas eram tão diferentes dos atores do filme). Chateados por não terem recebido direitos conexos das vendas do DVD - que vendeu muito, diga-se de passagem - os atores se uniram e decidiram não liberar suas aparências a menos que recebessem um valor que considerassem justo. Só que, depois que a primeira proposta da Warner foi recusada, o estúdio considerou que eles estavam querendo enriquecer às suas custas, e nem fez a segunda, engavetando o desenho também.

Mas nem tudo está perdido para aqueles que desejam ver material inédito dos Goonies. O desenho ainda pode sair do papel, basta que a Warner e o elenco se acertem quanto ao pagamento dos direitos. Donner e Spielberg já manifestaram interesse em uma sequência, mesmo que fosse com novas crianças, e os atores originais apenas fazendo participações especiais, e atualmente estão em busca de um roteiro. E, no ano passado, a sequência parece ter tomado mais uma nova e inesperada direção, quando Donner recebeu uma proposta de John Breglio para transformar Os Goonies em um musical para a Broadway.

Seja como for, ano que vem o filme faz 25 anos (pois é, estou ficando velho), e é provável que a Warner não deixe a data passar em branco. Vocês sabem que eu, a princípio, sou contra todo tipo de sequência que só sirva para piorar a imagem do original, mas confesso que acompanho essa história com certa curiosidade. Afinal, o fato do elenco original estar unido em torno da causa pode significar que, se houver uma sequência, seja em filme ou em desenho, ela será de qualidade. Vamos aguardar para ver.

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