terça-feira, 28 de outubro de 2008

Escrito por em 28.10.08 com 0 comentários

Selma Blair

Minha lista de atores preferidos no meu perfil ali do lado tem seis nomes. Eu já falei aqui de cinco. Hoje, portanto, vamos fechar a lista falando de quem está faltando, Selma Blair.

Eu não me lembro qual foi o primeiro filme que eu vi com Selma Blair, nem quando comecei a prestar atenção nela, mas lembro que foi porque ela faz uma cara muito engraçada, abrindo a boca com um olhar blasé, uma expressão que às vezes eu acho que só ela consegue fazer. Foi por causa dessa característica curiosa que eu decorei o nome dela, e comecei a identificá-la, meio por acaso, em diversos filmes. O passo seguinte foi tentar assistir a tudo o que ela já tivesse feito - e esse passo deu um pouco de trabalho, já que ela conta com algumas bombas no currículo. Mas mesmo assim eu estava irremediavelmente encantado, e graças a isso eu talvez hoje seja uma das poucas pessoas que se animam a assistir a um filme por que o nome de Selma Blair consta do elenco. Tudo bem que quase nunca no cinema, mas isso não vem ao caso.

Selma Blair Beitner nasceu em 23 de junho de 1972, na cidade de Southfield, Michigan, Estados Unidos. Mais nova de quatro filhas da juíza Molly Ann Beitner, quando criança estudou em um colégio judaico, se mudando para a cidade vizinha de Bloomfield na época do high school. Nesta época, ela não pensava em ser atriz, mas fotógrafa, escolhendo este curso ao se matricular na Kalamazoo College, uma das mais antigas faculdades da área de artes dos Estados Unidos. Na Kalamazoo ela teve sua primeira experiência no teatro, interpretando um personagem secundário na peça The Little Theater of the Green Goose (algo como "o teatrinho do ganso verde"). Entretanto, esta pequena peça ainda não mudaria seu destino; na verdade, ela sequer se formaria pela Kalamazoo, aproveitando uma oportunidade na metade do curso e se transferindo para a maior e mais famosa Universidade do Michigan, onde se formaria bacharel em fotografia em 1994.

Com o diploma na mão e pensando cada vez mais alto, Selma decidiu se mudar para Nova Iorque, onde tentaria arrumar um emprego como fotógrafa e talvez fizesse alguns cursos de especialização. Seus planos mudaram totalmente quando, meio por brincadeira, ela resolveu fazer um teste para o Conservatório Stella Adler, uma das mais famosas escolas de teatro e interpretação dos Estados Unidos. Desnecessário dizer, ela foi aprovada, e ao longo do curso acabou se apaixonando por teatro e interpretação, decidindo investir nesta nova carreira.

Apesar de ser considerada uma das mais versáteis atrizes da turma, Selma não dava muita sorte, não conseguindo nenhum papel expressivo no teatro. Em pouco tempo, porém, sua aparência, pelo contraste da pele e olhos claros com os cabelos escuros, chamou a atenção dos executivos da televisão, e começaram a surgir convites para pequenos papéis em séries. Sua estréia na TV ocorreria menos de um ano após o início de seu curso no Stella Adler, em 1995, fazendo uma pequena participação em um único episódio da série As Aventuras de Pete e Pete, da Nickelodeon. No ano seguinte, ela faria uma participação relâmpago na famosa série Kids in the Hall, e em seguida já faria sua estréia no cinema, em uma aparição ainda mais relâmpago no filme independente The Broccoli Theory.

Talvez esta não fosse a melhor forma de se começar uma carreira, mas, graças à sua beleza, convites para participações choviam para Blair. Apenas no ano de 1997 ela participaria de nada menos que oito produções, sendo um episódio da série Soldier of Fortune, Inc., um filme para a TV, e seis produções para o cinema, incluindo seu primeiro papel de destaque, no independente Strong Island Boys, e participações em Será que Ele É?, onde contracenou com Kevin Kline, e em Pânico 2, como uma colega da personagem Cici (Sarah Michelle Gellar), que sequer aparece na tela, falando com ela pelo telefone.

Aos poucos, porém, Selma começava a mostrar que não era apenas bonita, mas sabia interpretar praticamente todos os tipos de papel. Ato contínuo, ela foi escalada para um papel de destaque na série de comédia Getting Personal, que estrearia na Fox no ano seguinte. Infelizmente, os executivos da Fox não gostaram de sua performance no episódio piloto, e, apesar de aprovarem a série, não a contrataram. A CBS, porém, achou que devia investir na carreira da moça, e a chamou para interpretar uma adolescente alcóolatra na série de drama Promised Land. Antes do fim do ano, Selma ainda faria papéis progressivamente maiores em três filmes para o cinema e um para a TV, até ganhar o papel da protagonista feminina de Brown's Requiem, adaptação para o cinema do primeiro livro do escritor policial James Ellroy.

Em 1999, a carreira de Blair começaria a decolar de vez. Suas performances no ano anterior chamariam a atenção da Warner Bros, que a convidaria para protaginizar a série Zoe, Duncan, Jack & Jane, onde interpretaria a adolescente novaiorquina Zoe Bean nas duas temporadas em que a série foi ao ar; e da Sony, que a chamaria para seu Segundas Intenções. Neste filme, uma adaptação para adolescentes do famoso livro Ligações Perigosas, do francês Choderlos de Laclos, Blair interpretaria a ingênua Cecile Caldwell, que a personagem de Sarah Michelle Gellar planeja transformar em instrumento de vingança contra seu ex-namorado. A cena em que ela e Gellar se beijam acabaria se tornando um ícone do cinema adolescente, sendo imitada e parodiada em diversas futuras produções. Mas, se por um lado, ela serviu para alavancar a carreira de Selma, por outro fez com que ela, durante um bom tempo, se visse presa a comédias românticas e produções voltadas para adolescentes.

Mas ela bem que se esforçava por uns papéis diferentes. No ano 2000, após participar de um episódio do seriado Xena, a Princesa Guerreira, Blair participaria da comédia Louco por Você, estrelada por Freddie Prinze Jr e Julia Stiles, no papel da atriz pornô Cyrus. No ano seguinte ela protagonizaria mais uma produção, Mate-Me Depois, no papel de uma bancária que tem um caso com o chefe casado, e é pega como refém por dois assaltantes que planejam roubar o banco no exato momento em que ela tenta em se matar ao descobrir que a mulher de seu amante está grávida. No mesmo ano, ela faria uma estudante que decide escrever sobre um caso que teve com um dos mais importantes professores de sua faculdade em Histórias Proibidas. Em seguida, ela seria a ex-prostituta Cassie, uma das protagonistas do road movie Fuga Desenfreada.

No mesmo ano de 2001, Selma ganharia o que é considerado o segundo grande papel de sua carreira, o da estudante de direito Vivian Kensington, na comédia Legalmente Loira. Antagonizando a personagem de Reese Witherspoon - com quem já havia trabalhado em Segundas Intenções - Blair teve uma atuação considerada memorável por grande parte dos críticos norte-americanos. Isto lhe rendeu um convite no ano seguinte para um episódio de Friends, e um convite de Cameron Diaz para interpretar Jane, que fecha com as personagens de Cameron e de Christina Applegate o trio de protagonistas da comédia um tanto escatológica Tudo para Ficar com Ele.

2003 seria um ano bem variado para a carreira de Blair, que contracenaria com Richard Dreyfuss e Judy Davis no filme para TV Coast to Coast; faria uma participação no filme de rodeio Dallas 362; e interpretaria uma moça às vésperas do casamento, cujo noivo começa a questionar se é capaz de dar mesmo este grande passo após se envolver com ninguém menos que sua prima (dela, não dele) em Louco por Elas. Curiosamente, além do título deste filme ser quase idêntico ao de Louco por Você (mas só em português, talvez tenha sido jogada de marketing), nele Blair contracena mais uma vez com Julia Stiles, que interpreta a prima maluquinha que se envolve com seu noivo.

O ano de 2004 marcaria uma nova guinada na vida de Selma. No plano pessoal, ela se casaria com o músico Ahmet Zappa, filho de Frank Zappa; no plano profissional, ela começaria mal o ano, protagonizando um piloto de uma série de TV, DeMarco Affairs, sobre duas irmãs que realizam festas de casamento, que jamais foi ao ar. Em seguida, ela participaria do bizarro Clube dos Pervertidos, no papel de uma dançarina com seios super enormes. Felizmente, logo em seguida ela estrearia como Liz Sherman em Hellboy, sua primeira incursão pelo mundo dos efeitos especiais, no papel de uma jovem pirocinética, capaz de criar fogo com a força do pensamento, e que tem um caso amoroso com o personagem-título, interpretado por Ron Perlman. Blair fecharia o ano em um papel pequeno mas bem falado em Em Boa Companhia, como a noiva da Topher Grace.

Em 2005, Selma continuaria intercalando grandes produções com outras não tão cotadas assim. Ela começaria o ano protagonizando o curta The Big Empty, depois faria par com Christian Slater no thriller político Contrato de Risco, interpretaria a esposa de um professor acusado de assédio sexual por três alunas na comédia de humor negro Garotas Malvadas, e terminaria como uma radialista mãe solteira que transmite seu programa de um farol no terror A Névoa. Já considerada pela imprensa especializada norte-americana como uma das mais talentosas atrizes de sua geração, Blair começava a surpreender também pela facilidade com que transitava pelos diferentes gêneros cinematográficos, fazendo jus à fama de atriz versátil que adquirira no Stella Adler.

Como se já não bastasse esta versatilidade toda, Selma ainda estrearia como dubladora no ano de 2006, graças ao projeto Hellboy Animated, que a princípio seria uma série de desenhos animados nos quais os personagens seriam dublados pelos mesmos atores que os interpretaram no filme. Até hoje, só dois episódios foram produzidos, e Selma dublou Liz Sherman em ambos. Tirando isso, 2006 não foi um ano muito produtivo; ela fez participações em dois filmes lançados direto em DVD, The Alibi e The Night of the White Pants, onde interpreta uma esposa cansada do marido que o expulsa de casa só de cuecas. Aliás, no final de 2006 ela quase faria isso na vida real: após dois anos de casamento, Selma e Zappa se divorciaram, segundo ela, devido a "diferenças irreconciliáveis".

Selma começaria o ano de 2007 protagonizando um filme independente lançado para o iTunes, Purple Violets, no qual ela interpretava uma escritora promissora cuja carreira não decolava por causa do casamento. No mesmo ano ela participaria do romance Banquete do Amor, protagonizado por Morgan Freeman. Mais para o final do ano, ela interpretaria uma vítima de estupro envolvida com crimes escabrosos na produção britânica Matemática da Morte.

E assim chegamos a 2008, ano que Blair começou contracenando com Antonio Banderas na comédia romântica Mais do que Você Imagina, e participou de mais um filme independente, The Poker House. Neste ano, mais uma vez Hellboy rendeu bons frutos à atriz, que emprestou sua voz a Liz Sherman no game Hellboy: The Science of Evil, e a interpretou pela segunda vez, desta vez com uma participação maior e mais importante em Hellboy 2: O Exército Dourado.

No momento, Selma está filmando uma nova série. Quase dez anos depois, ela retorna como protagonista de uma produção televisiva, desta vez na NBC, interpretando Kim Day-Fattibene, uma jovem de vinte e poucos anos que se veste como adolescente, come compulsivamente, é obcecada por celebridades, e decide voltar a morar com a mãe, Kath, após se separar do marido. A série, chamada Kath & Kim, é uma refilmagem de uma série australiana de mesmo nome, e é centrada nas diferenças entre uma mãe divorciada que quer viver sua vida e arrumar um namorado e essa filha um tanto maluquinha que ela foi arrumar. Curiosamente, a atriz Molly Shannon, que interpreta Kath, é apenas oito anos mais velha que Blair, mas como é um fato universalmente aceito que Selma aparenta bem menos idade que tem (faça as contas, ela já está com 36), ninguém viu problema em escalar esta dupla de protagonistas.

Talvez por dedicar grande parte de sua carreira a produções independentes - por razões pessoais, quem sabe? - Selma Blair não costuma ter voltados para si muitos dos holofotes que seguem as celebridades nos Estados Unidos. Mesmo assim, ela é uma atriz bonita e talentosa, na qual vale a pena prestar atenção. Nem que seja para ver a cara engraçada que ela faz quando abre a boca com um olhar blasé.
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terça-feira, 21 de outubro de 2008

Escrito por em 21.10.08 com 0 comentários

Gary Oldman

Eu nunca me interessei por ler Harry Potter. Depois de ver os filmes até achei tudo bem legal, mas nunca me animei para pegar um dos livros. Na verdade, eu nunca tinha me animado para assistir aos filmes também. Somente depois que O Prisioneiro de Azkaban tinha estreado nos cinemas é que eu resolvi alugar os outros dois para ver qual era a desse tal Harry Potter. E um dos motivos que me levaram a fazê-lo foi a presença de Gary Oldman no elenco.

Oldman é mais um dos meus atores favoritos, em uma lista que não é assim tão grande, mas é muito bem freqüentada. O primeiro filme que eu vi com ele foi Drácula de Bram Stoker, e confesso que, se fosse depender deste, ele acabaria sendo apenas mais um na multidão. Pouco tempo depois, felizmente, eu assisti a um filmaço, O Profissional, no qual Oldman, muito bem acompanhado por Jean Reno e Natalie Portman, dá um show. Daí em diante eu comecei a prestar mais atenção em suas interpretações, e não tive como deixar de incluí-lo em minha lista.

Gary Leonard Oldman nasceu em Londres, Inglaterra, em 21 de março de 1958, filho de uma dona-de-casa de origem irlandesa e de um ex-marinheiro que ganhava a vida como soldador, que se conheceram no País de Gales durante a Segunda Guerra Mundial. Quando tinha sete anos, seu pai, um alcóolatra que batia na esposa, decidiu sair de casa para viver com uma mulher mais jovem, o que fez com que Gary fosse criado apenas pela mãe e por duas irmãs bem mais velhas que ele. Muitas vezes, para fugir da triste realidade, Gary se refugiava em mundos de fantasia criados por sua imaginação, onde interpretava personagens que viviam incríveis aventuras.

Desde pequeno, Oldman se interssou por música, especialmente canto e piano. Escola, porém, não era para ele, que detestava regras, e ouvia freqüentemente de seus professores que não seria nada na vida. Aos 15 anos, ele deixou de estudar para trabalhar como vendedor em uma loja de esportes. Mais ou menos nesta época, veio a epifania que mudaria sua vida.

Um dia, Gary estava assistindo TV, quando se deparou com uma sessão dupla de filmes estrelados por Malcolm McDowell, If... e Muito Tarde para o Amanhã. Para Oldman, McDowell estava expressando seus próprios sentimentos de perda, raiva, alienação e impotência, mas transformando-os em algo positivo. Neste dia, ele decidiu que queria ser ator.

Começar na carreira, porém, era mais difícil do que ele imaginava. Oldman se inscreveu no curso de interpretação do Greenwich Young People's Theatre, onde não se adaptou. Encorajado por um professor, ele tentou entrar na Academia Real de Artes Dramáticas, mas foi rejeitado após um teste. Ao invés de desistir, ele treinou ainda mais, e acabou conseguindo uma bolsa no Rose Bruford College of Speech and Drama, na cidade de Kent, onde se formou em artes teatrais em 1979. Com o diploma embaixo do braço, ele saiu em busca de seu primeiro papel, que seria do gato Puss na peça Dick Whittington And His Wonderful Cat, encenada no Teatro Real de York em 1980. Mesmo enquanto a peça estava em cartaz, Oldman seguiu buscando novos papéis, e só em 1980 chegou a atuar em cinco peças de quatro teatros diferentes. Ele adorava interpretar o dia inteiro, viver no ambiente do teatro, e chamava a atenção dos colegas pela forma como se entregava aos papéis, não importando quais fossem. Mesmo assim, ele não abria mão de estudar diferentes gêneros teatrais, para que pudesse interpretar papéis cada vez mais variados.

Em 1983, Oldman já era um ator teatral de sucesso, o que lhe rendeu um convite para um papel de destaque no cinema. Mas ele, que já havia feito uma pequena participação em um filme feito para a TV no ano anterior, preferiu recusar e seguir em frente com mais peças, ganhando papéis de destaque em obras respeitadas como Entertaining Mr. Sloane, de Joe Orton, e Saved, de Edward Bond. Em uma das apresentações desta última peça, o diretor artístico do famosíssimo Royal Court Theatre estava na platéia, e ficou tão impressionado com a atuação de Oldman que o convidou para protagonizar em seu teatro outra peça de Bond, The Pope's Wedding. Este papel lhe garantiria um lugar entre os maiores atores de teatro da Inglaterra, e lhe renderia um convite para trabalhar com a Royal Shakespeare Company.

Em 1984 e 1985, Oldman participou de três filmes feitos para a TV, todos no papel de jovens desajustados. Estas interpretações, bem como seu incrível desempenho no teatro, lhe renderam um convite para o papel de Sid Vicious, líder da banda The Sex Pistols, no filme Sid and Nancy, de 1986. Para melhor interpretar o papel, Oldman perdeu mais de dez quilos, e passou alguns dias com a mãe de Sid, tentando descobrir tudo o que podia sobre o comportamento de seu personagem. A interpretação de Oldman foi elogiada pelos principais críticos da Europa, pelo ex-vocalista dos Sex Pistols, John Lydon, e entrou para a lista das 100 melhores interpretações de todos os tempos da Premiere Magazine, na posição 62.

Em 1987, Oldman receberia mais um convite para representar um personagem real no cinema, desta vez um que ele não poderia recusar: o dramaturgo Joe Orton, em O Amor não tem Sexo. Com mais uma atuação arrebatadora, Oldman começava a se tornar também uma estrela do cinema, mas não abandonou o teatro, onde continuou atuando. Naquele mesmo ano, seu grande amigo Alfred Molina, com quem contracenou em O Amor não tem Sexo e na peça Serious Money, o apresentaria àquela que viria a ser sua primeira esposa, Lesley Manville. Oldman e Manville se casariam em 1988, e teriam um filho, batizado Alfred em homenagem a Molina, mas a carreira de Oldman acabaria sendo um fardo para o casal. Cada vez mais solicitado para filmes, e sem querer abandonar o teatro, ele quase não tinha tempo para a família, o que acabou os levando à separação em 1990.

Antes da separação, porém, Oldman começaria sua carreira internacional. Em 1988, graças a mais uma atuação memorável no filme Passatempo Mortal, onde contracenava com Christopher Lloyd e Theresa Russell, ele receberia um convite para interpretar um advogado de Boston encarregado de defender um garoto rico acusado de homicídio, interpretado por Kevin Bacon, em Inocente ou Culpado, que estrearia naquele mesmo ano. Oldman chamaria mais uma vez a atenção dos críticos, desta vez por conseguir interpretar imitando o sotaque da Nova Inglaterra, algo considerado difícil para atores ingleses, que na época não conseguiam bons papéis por causa de seu sotaque britânico. O caminho de Oldman para a fama na América seria de certa forma aberto pela revista The Face, que o incluiria no chamado brit pack, um grupo de jovens atores britânicos talentosos que começavam suas carreiras em Hollywood, e que incluía, dentre outros, Daniel Day-Lewis e Tim Roth. De todos, porém, Gary era o único que estava ocupado demais com peças e filmagens na época da publicação da matéria para conseguir um tempo para responder a uma entrevista.

Se dedicando cada vez mais ao cinema, Oldman decidiria intercalar produções caras de Hollywood e pequenas produções britânicas, para não se afastar de suas origens. Ele começaria 1990 com Sobrevivente da Prisão, onde interpeetava um veterano da Guerra da Coréia enviado para uma prisão para mentalmente insanos após provocar um tiroteio com policiais para ser morto e deixar o seguro para sua esposa; em seguida, na Inglaterra, ele faria Rosencrantz e Guilderstern estão Mortos, onde ele e Tim Roth interpretavam os personagens-título, dois coadjuvantes de Hamlet buscando descobrir seu lugar no enredo da peça; de volta aos Estados Unidos, ele contracenaria com Sean Penn em Um Tiro de Misericórdia, no papel de um traficante do submundo novaiorquino. O excesso de trabalho, como já foi dito, levaria Oldman a se separar de Manville, mas a fila não demorou a andar: durante as filmagens de Um Tiro de Misericórdia, ele conheceria Uma Thurman, 12 anos mais jovem. Oldman e Thurman se apaixonaram praticamente à primeira vista; ela arrumou uma pequena participação para ele no filme em que estava atuando, Henry e June, e, no final daquele mesmo ano, eles se casariam. Este segundo casório, porém, não teria vida mais longa que o primeiro, com Oldman e Thurman se separando após apenas dois anos de união.

Cada vez mais longe do teatro e de sua Inglaterra natal, Oldman começaria 1991 no papel de Lee Harvey Oswald, suposto assassino do presidente Kennedy, em JFK, de Oliver Stone. No ano seguinte, ele faria o papel que o levaria definitivamente ao estrelato, o do vampiro mais famoso do mundo em Drácula de Bram Stoker, de Francis Ford Coppola. Interpretando Drácula como um guerreiro medieval, um ancião decrépito, um jovem sedutor, e em várias formas monstruosas, Oldman ganhou o respeito da comunidade cinematográfica, a fama de não querer se misturar a seus colegas de elenco, e ficou marcado como um ótimo ator para interpretar vilões.

Assim, no ano de 1993 ele roubaria a cena mais uma vez no papel de um traficante em Amor à Queima Roupa, um papel bem pequeno em um filme que contava com Christopher Walken, Dennis Hopper, Brad Pitt, Christian Slater e Patricia Arquette, mas cuja interpretação mais comentada foi a dele. Em seguida, ele faria um poicial corrupto e infiel, que se envolve mais com a máfia do que gostaria, em O Sangue de Romeu. Mais um policial corrupto e mais uma atuação memorável estariam reservados para ele no início de 1994 em O Profissional, do francês Luc Besson. Oldman parecia fadado a interpretar psicóticos e desajustados quando surgiu um convite para um papel bastante improvável: o de Ludwig van Beethoven em Minha Amada Imortal.

Mais uma vez, Oldman se entregou ao papel de forma jamais vista, e muitos consideram um verdadeiro absurdo que nem ele nem o filme tenham sequer sido indicados ao Oscar. Durante as filmagens, Oldman também começou um relacionamento com a atriz Isabella Rossellini, seis anos mais velha que ele, mas os dois nunca se casaram, vivendo juntos durante dois anos. Amigos do casal diziam que um dos motivos da separação foi que Gary bebia muito - de fato, ele já havia sido preso por dirigir alcoolizado em 1992. Após se separar de Rossellini, Oldman se conscientizou de que poderia ter o mesmo destino do pai, e passou a freqüentar reuniões do AA. Em uma delas, acabou conhecendo sua terceira esposa, a ex-modelo Donya Fiorentino, com quem teve dois filhos, Gulliver Flynn e Charles John. Este seria seu casamento mais duradouro, com a cerimônia ocorrendo em fevereiro de 1997 e o divórcio em 2001.

Mas voltando ao cinema, em 1995 Oldman contracenaria mais uma vez com Kevin Bacon e Christian Slater, interpetando um carcereiro em Assassinato em Primeiro Grau. Em seguida, ele faria seu primeiro blockbuster, A Letra Escarlate, onde seu talento foi para alguns subaproveitado em nome da promoção da protagonista Demi Moore. No ano seguinte, Gary decidiria estrear como roteirista e diretor com Nil by Mouth, um filme quase auto-biográfico ambientado nos subúrbios de Londres, onde Ray Winstone interpreta um marido alcóolatra que espanca a mulher, incapaz de deixá-lo porque ainda o ama. Oldman começara a escrever o roteiro antes de seu relacionamento com Rossellini, mas jamais tinha tido o tempo e o dinheiro para realizá-lo. O primeiro ele conseguiu recusando alguns papéis, o segundo veio de seu grande amigo Luc Besson, que lhe emprestou 4,5 milhões de dólares - ainda assim, Oldman teve que pagar 1,4 milhões do próprio bolso para pode concluir a pós-produção.

Em agradecimento a Besson, Oldman, embora ainda envolvido com a pós-produção de seu filme, aceitou interpretar mais um vilão deslocado e megalomaníaco, desta vez o traficante de armas Jean-Baptiste Emanuel Zorg do filme O Quinto Elemento, produção de Besson com Bruce Willis e Milla Jovovich, considerado o mais caro filme feito fora de Hollywood até então. Enquanto Nil by Mouth era finalizado, Oldman voava para os Estados Unidos para mais um papel, o de um terrorista russo que seqüestra o avião presidencial norte-americano em Força Aére Um, de Wolfgang Petersen, onde contracenou com Harrison Ford. No ano seguinte, motivado mais pelo dinheiro, do qual estava precisando, do que pelo papel, Oldman interpretaria o Dr. Smith na adaptação cinematográfica de Perdidos no Espaço. Desanimado com o rumo de sua carreira, por não ter gostado de seus últimos papéis, Oldman decidiu fazer uma pausa de um ano, só interrompida para interpretar Pôncio Pilatos em um filme sobre a vida de Jesus Cristo feito para a TV.

Oldman retornaria aos cinemas, agora mais seletivo, em 2000, interpretando um deputado de valores duvidosos em A Conspiração. Mas mais impressionante ainda seria seu papel em Hannibal, de 2001: um pedófilo convencido pelo Hannibal Lecter de Anthony Hopkins a cortar fora a pele de seu próprio rosto, o que o deixou sem pálpebras ou lábios, e agora planeja usar a personagem de Julianne Moore como isca para atrair o canibal e esquartejá-lo. O velho Gary estava de volta.

Fugindo dos blockbusters, Oldman acabaria atuando em quatro filmes que sairiam direto em DVD, sem jamais estrear em uma tela de cinema, as comédias Dois Picaretas e um Bebê (2001) e Viagem sem Destino (2002), o policial Pecados do Passado, e o drama Na Ponta dos Pés (ambos de 2003), sendo que neste último ele interpreta um anão. Infelizmente, estas produções pagavam pouco, e seu processo de divórcio com Fiorentino acabou se arrastando por quase um ano e consumindo muito dinheiro, pois ela pediu uma gorda pensão e o acusou de beber, usar drogas, contratar prostitutas e espancar a ela e as crianças; tudo felizmente desmentido no final. Cheio de dívidas, Oldman teve mais uma vez de aceitar se sujeitar aos blockbusters, mas prometeu a si mesmo só se envolver com uma produção na qual acreditasse, recusando dublar o General Grievous em Star Wars Episódio III: A Vingança dos Sith, bem como o papel de um presidiário, que acabaria com Burt Reynolds, no filme Golpe Baixo, de Adam Sandler.

O primeiro blockbuster a realmente agradar Oldman foi Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, de 2004, onde foi a ele oferecido interpretar o padrinho de Potter, Sirius Black, aparentemente mais um psicopata responsável por uma série de assassinatos, que escapa da cadeia para matar Harry, mas que na verdade é inocente, e foi preso injustamente. Mais confortável financeiramente, Oldman decidiu participar de mais uma pequena produção, Dead Fish, onde interpretava um assassino profissional. Pouco antes disso, ele iniciou um relacionamento com a atriz Alisa Marshall, que durou três anos.

Em 2005, Gary faria dois blockbusters, interpretando Sirius Black mais uma vez em Harry Potter e o Cálice de Fogo, e o Tenente James Gordon em Batman Begins. No ano seguinte seria a vez de mais um projeto mais pessoal, Bosque de Sombras. Em 2007 ele faria seu terceiro Harry Potter, Harry Potter e a Ordem da Fênix, e em 2008 voltaria ao Batman, desta vez com Gordon já promovido a Comissãrio em O Cavaleiro das Trevas. Atualmente, Oldman está envolvido em quatro projetos, todos programados para chegar aos cinemas em 2009: uma nova versão de Um Conto de Natal (aquele dos fantasmas do Natal Passado, Natal Presente e Natal Futuro), o suspense sobrenatural The Unborn, o policial Rain Fall, e a animação Planet 51, onde dublará um alienígena.

Mesmo já tendo ganhado importantes prêmios como o BAFTA e o Saturn, Oldman jamais sequer foi indicado ao Oscar. Tudo bem, todos sabemos que muitas vezes estas premiações têm mais a ver com a opinião pessoal dos jurados do que com a real qualidade do trabalho julgado. Com ou sem Oscar, é inegável que Oldman é um dos mais talentosos atores de sua geração - ou até, quem sabe, de todos os tempos.
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terça-feira, 14 de outubro de 2008

Escrito por em 14.10.08 com 0 comentários

Corfebol

Já que semana passada eu falei sobre punhobol, hoje eu vou aproveitar para falar de um outro esporte também bastante praticado no Brasil sem que a maioria da população o conheça, embora nele nosso país não seja tão bem sucedido internacionalmente. Este esporte é o corfebol, que também pode ser encontrado por aí com a grafia korfebol.



Por mais estranha que esta frase vá soar, eu descobri o corfebol através das Olimpíadas. A história é meio comprida, mas a versão resumida é a seguinte: um dia eu estava curioso para saber quais teriam sido os esportes de demonstração das Olimpíadas anteriores a 1992, a última a tê-los, e também a única da qual eu sabia quais tinham sido. Procurando na internet, acabei encontrando um site do Comitê Olímpico Britânico, que por um acaso listava todos eles desde 1912, o primeiro ano em que uma Olimpíada teve esportes de demonstração. A lista contava com alguns nomes esquisitos, como glima, kaatsen, pesapällo e, evidentemente, "korfball". Como não adiantava muito saber os nomes sem saber como eram estes esportes, me pus a procurar sobre eles, e, ao chegar no tal korfball, acabei descobrindo que ele era praticado no Brasil, ora vejam só. A partir daí, passei a acompanhar as notícias e os torneios deste esporte bastante interessante, mais uma vítima da falta de espaço na programação de nossos canais esportivos. Mas hoje, com este post, pretendo fazer a minha parte e ajudar na divulgação.

O corfebol foi inventado em 1902 pelo professor de educação física Nico Broekhuysen, que, ao viajar para a cidade de Nääs, Suécia, conheceu um esporte local chamado ringboll, cujas regras determinavam que, para pontuar, os atletas deveriam fazer uma bola tocar um anel preso ao alto de um poste de 3 metros de altura. Ao retornar para Amsterdã, Broekhuysen decidiu utilizar este esporte em suas aulas, mas antes fez algumas modificações nas regras, principalmente por tê-las achado muito complicadas para transmitir aos estudantes sem gastar muitas aulas. Broekhuysen também substituiu o anel por uma cesta - em holandês, korf, palavra de onde o esporte tira seu nome - pela qual a bola deveria passar por dentro, ao invés de simplesmente tocar.

O corfebol deve ser o único esporte coletivo oficialmente misto do mundo. Cada time é composto de oito jogadores, sendo obrigatoriamente quatro homens e quatro mulheres. Cada time também tem quatro reservas - normalmente dois homes e duas mulheres - e até quatro substituições podem ser feitas por cada time em cada partida, sendo que jogadores já substituídos não podem voltar ao jogo, exceto no caso especial de um jogador se contundir e ficar impossibilitado de continuar jogando. Um time deve sempre ter em quadra quatro homens e quatro mulheres, o que significa que homens só podem substituir homens e mulheres só podem substituir mulheres.

O corfebol é jogado em uma quadra de 40 por 20 metros, dividida no meio por uma linha cheia. Além desta linha, as duas únicas marcações na quadra são as áreas onde ficam as cestas, uma de cada lado. Cada área é formada por dois semicírculos de 2,5 m de raio, ligados por um retângulo de 2,5 m de largura e 5 m de comprimento - ou seja, no total a área tem 5 m de largura e 7,5 m de comprimento. Cada área é posicionada a 4 metros do final da quadra, e a 7,5 m de cada lateral. A cesta fica no alto de um poste a 6,5 metros do final da quadra, e bem no centro da área; na outra ponta da área, a 2,5 m da cesta, fica uma marca utilizada na cobrança de pênaltis. O poste no qual está a cesta é feito de alumínio e, em competições oficiais, tem 3,5 m de altura, podendo ser mais baixo em partidas entre jogadores mais jovens ou iniciantes. Todos os pontos têm de ser "de chuá", pois a cesta, ao contrário da do basquete, não tem qualquer espécie de tabela. As cestas são feitas de plástico ou outro material sintético, têm 25 cm de altura e raio de 44 cm, três da borda e 41 da abertura por onde a bola deve passar, sendo que o ponto só será válido se a bola passar de cima para baixo. A bola é sempre de duas cores - normalmente branca com bolinhas pretas - tem entre 68 e 75 cm de circunferência, e peso máximo de 475 gramas. A bola é inflada, e sua pressão deve ser suficiente para quicar entre 1,1 e 1,3 m quando cair de uma altura de 1,8 m.

Uma partida de corfebol dura dois tempos de 30 minutos cada, sendo que o relógio só pára em caso de substituição ou se um dos técnicos pedir tempo - cada equipe tem direito a dois pedidos de tempo em cada metade do jogo, e cada tempo dura um minuto. Tempos e substituições só podem ser pedidos quando a bola não estiver em jogo. Cada partida é oficiada por um árbitro central, que corre junto à bola e cuida para que todas as regras sejam respeitadas; um árbitro auxiliar, que carrega uma bandeira e fica sempre na metade do campo onde o árbitro central não está, para marcar faltas e irregularidades fora do lance de bola; um oficial que controla o tempo de jogo, sendo responsável também por informar ao árbitro central sobre as substituições e pedidos de tempo; e um oficial que cuida do placar.

No início de cada partida, quatro jogadores de cada time - sempre dois homens e duas mulheres - se posicionarão do lado da quadra onde fica sua própria cesta - esta será sua zona de defesa - enquanto os outros quatro se posicionarão do lado que tem a cesta do oponente, onde eles tentarão jogar a bola para fazer pontos - esta será sua zona de ataque. Após um sorteio que definirá qual time começará jogando, um dos jogadores de ataque deste time, posicionado o mais próximo possível do centro do campo, passará a bola para um de seus companheiros, sendo que a bola deve viajar pelo menos 2,5 m sem ser tocada por nenhum oponente. Os jogadores passam a bola uns para os outros com as mãos, e jamais podem atravessar o meio do campo: os quatro jogadores de defesa devem sempre ficar na zona de defesa, e os quatro de ataque sempre na zona de ataque. A cada dois pontos convertidos pelo mesmo time (ou duas cestas, já que cada cesta vale um ponto), os jogadores de defesa e ataque trocam de posição: quem estava defendendo passará a atacar, e quem estava atacando passará a defender. Após o intervalo os times trocam de lado na quadra, mas não de função, ou seja, quem era jogador de ataque no final do primeiro tempo continuará sendo de ataque no início do segundo.

Os jogadores de defesa possuem a função de tirar a bola dos oponentes e passá-la para seus companheiros de ataque, pois apenas os jogadores de ataque podem tentar fazer pontos - mesmo que um jogador de defesa tresloucado jogue a bola na direção da cesta e a acerte, o ponto não valerá. Jogadores de ataque também não podem arremessar a bola na direção da cesta se estiverem marcados, isto é, se houver um jogador de defesa do time oponente à distância de um braço deles, devendo obrigatoriamente passar a bola para um jogador desmarcado. Como homens e mulheres jogam juntos, a regra determina que homens só podem marcar homens, e mulheres só podem marcar mulheres, mas nem precisava, já que é expressamente proibido qualquer contato físico entre dois jogadores. Isso mesmo, não vale encostar, empurrar, trombar, bater na bola quando ela estiver nas mãos do oponente, tentar arrancar a bola das mãos do oponente, ou qualquer outro movimento que faça com que dois jogadores se toquem ou ambos toquem a bola simultaneamente.

Neste momento, vocês devem estar se perguntando: se os jogadores carregam a bola com as mãos, e é expressamente proibido tirar a bola das mãos do oponente, como o time que está defendendo vai evitar que o que está atacando faça suas cestas? Bem, aí entra uma característica muito curiosa do corfebol: é absolutamente proibido andar com a bola nas mãos. Nem um passinho. Nem se quicá-la. Nem se jogar para cima, andar e pegar de novo. O máximo que o jogador que tem a bola pode fazer é manter o pé de apoio no chão e tirar o outro para girar. O jogador que tem a bola também pode pular para arremessar na direção da cesta, mas, se não arremessar a bola, deverá cair no mesmo lugar de onde pulou. Se o jogador receber a bola enquanto estava parado, basta que ele permaneça parado; se recebê-la enquanto estava em movimento, deverá parar imediatamente; e se recebê-la enquanto estava no ar, depois que tocar o chão deverá ficar naquela posição, até que não tenha mais a bola. Um jogador no ar ou em movimento pode receber a bola e passá-la para um companheiro imediatamente, sem que precise parar para isso, mas deverá fazê-lo entre o momento em que seus dois pés saem do chão e o que um dos pés o toca de volta. Graças a esta regra, quem tem a posse de bola não vai conseguir levá-la até próximo da cesta, e, como o poste é muito alto, arremessar de longe quase nunca é uma boa opção, de onde se conclui que o corfebol é um esporte onde o trabalho de equipe é fundamental. E, respondendo à pergunta do início deste parágrafo, o momento de roubar a bola é quando ela estiver sendo passada de um jogador para outro.

As regras do corfebol prevêem três tipos de infrações, as leves, as graves, e as gravíssimas. As infrações leves são punidas com um "reinício" - um jogador do time que não cometeu a falta recebe a bola no local onde a falta foi cometida, e deve passá-la para um companheiro, sendo que nenhum oponente poderá tocá-la até que ela tenha viajado pelo menos 2,5 metros. Infrações leves incluem tocar a bola com as pernas ou pés, tocar na bola sem que seus dois pés estejam tocando o chão, tirar o pé de apoio do chão enquanto estiver com a posse de bola, cair em local distante do que estava quando pulou tendo a posse de bola, passar a bola para si mesmo (jogá-la, correr e pegá-la de novo), entregar a bola nas mãos de um companheiro ao invés de jogá-la para ele, retardar o jogo intencionalmente, e pisar fora de sua zona. Também é infração leve se um atacante socar a bola, tentar tirar uma bola que estiver na posse de um defensor oponente batendo nela ou agarrando-a e puxando-a, bloquear um passe feito por um oponente para outro sem intenção de roubar a bola, bloquear um passe feito por um oponente do sexo oposto, bloquear um passe para um oponente que já está sendo marcado por um de seus companheiros, arremessar em direção à cesta enquanto estiver sendo marcado, segurar no poste da cesta enquanto estiver correndo ou no ar, atrapalhar um reinício, free pass (veja adiante) ou pênalti, demorar mais de 25 segundos para arremessar a bola na direção da cesta, arremessar após usar o companheiro de ataque para atrapalhar um defensor que o estava marcando, ou agir de forma potencialmente perigosa ao defensor que o estiver marcando. Finalmente, é infração leve se um defensor arremessar a bola na direção da cesta, ou se qualquer jogador arremessar direto para a cesta quando deveria fazer um reinício ou free pass - neste caso, o reinício é cobrado de debaixo da cesta onde o time que não cometeu a falta faz pontos, e não do local onde a falta ocorreu. Se a bola sair de quadra, não será considerado infração, mas o time que não colocou a bola para fora também terá direito a um reinício, do local onde a bola saiu. Se dois oponentes agarrarem a bola de forma que não se saiba quem tinha o controle dela primeiro, o árbitro poderá jogar a bola para o alto, ficando a bola com quem conseguir pegá-la primeiro.

As infrações graves são punidas com o free pass, que é basicamente a mesma coisa de um reinício, mas todos os jogadores têm de ficar a no mínimo 2,5 m de distância do jogador que está cobrando o free pass até que ele mova um braço ou uma perna. O free pass não pode ser cobrado da área entre a marca do pênalti e a cesta, e todos os jogadores do mesmo time do que está cobrando o free pass, além de ficar a 2,5 m dele, têm de ficar a 2,5 m uns dos outros. Será considerada infração grave se um defensor chutar ou socar a bola, tentar tirar uma bola que estiver na posse de um atacante oponente batendo nela ou agarrando-a e puxando-a, bloquear um passe feito por um oponente para outro sem intenção de roubar a bola, bloquear um passe feito por um oponente do sexo oposto, bloquear um passe para um oponente que já está sendo marcado por um de seus companheiros, segurar no poste da cesta enquanto estiver correndo ou no ar, ou atrapalhar um reinício ou free pass.

Finalmente, as infrações gravíssimas são punidas com um pênalti. Um pênalti só pode ser cobrado por um jogador de ataque, que se posicionará dentro da área, atrás da marca do pênalti, e, quando autorizado, arremessará a bola na direção da cesta. Todos os jogadores que não estiverem cobrando o pênalti devem ficar a pelo menos 2,5 m de distância do cobrador. Será considerada infração gravíssima sempre que um defensor impedir uma chance clara de ponto do oponente, se utilizar de repetidas faltas para impedir que o outro time pontue, atrapalhar um pênalti, ou mover o poste enquanto a bola estiver no ar, para evitar que ela passe por dentro da cesta.

A principal competição internacional do corfebol, como não poderia deixar de ser, é o Campeonato Mundial, disputado a cada quatro anos desde 1987, mas que também teve edições em 1984 e 1978. Em todas as oito edições, a final foi disputada entre Holanda e Bélgica, e a Holanda ganhou todas, menos a de 1991, disputada, não por acaso, na Bélgica. O corfebol também faz parte dos World Games desde 1985, e lá o domínio holandês é absoluto: todas as seis edições foram vencidas pela Holanda, sempre derrotando a Bélgica na final. A Federação Internacional de Corfebol (IKF) é filiada ao Comitê Olímpico Internacional, e tem pretensões de tornar o corfebol esporte olímpico no futuro; no passado, como já se disse, ele foi esporte de demonstração, e em duas ocasiões, nas Olimpíadas de 1920, disputadas em Antuérpia, Bélgica, e nas de 1928, disputadas em Amsterdã, Holanda. Em ambas as ocasiões, apenas dois times do país anfitrião disputaram um único jogo, levando talvez o termo "esporte de demonstração" a um extremo.

O domínio holandês e belga nas quadras do corfebol até tem uma explicação: após sua criação, o esporte ficou durante muito tempo restrito à sua Holanda natal e à vizinha Bélgica, cujas associações de corfebol decidiram se unir em 1924 e criar o International Korfball Bureau, que em 1933 mudaria de nome para Federação Internacional de Corfebol. Somente após a Segunda Guerra Mundial, graças aos esforços da IKF, o esporte começaria a se espalhar pela Europa, chegando à Grã-Bretanha, Alemanha, França, Dinamarca, Irlanda, Suécia e até mesmo à Rússia. Através de imigrantes, chegou também aos Estados Unidos, África do Sul, Austrália, Nova Zelândia, Índia e Taiwan, onde é especialmente popular. Hoje, a IKF conta com 54 membros, dentre eles o Brasil, membro desde 2003.

O desenvolvimento do corfebol em nosso país se deve ao professor Marcello Soares, que, ao conhecer o esporte enquanto ainda era estudante de educação física, entrou em contato com a IKF, e hoje atua como seu maior divulgador no Brasil, através de seminários, cursos e da busca de parcerias para fortalecer o corfebol nacional, sempre tentando realizar mais e mais jogos em clubes e universidades, principalmente no Rio de Janeiro. O professor Marcello é considerado pela IKF como o representante oficial do corfebol na América do Sul, e atualmente luta pelo que considera seu maior sonho após a aceitação do Brasil como membro da IKF: classificar o país para o Mundial de 2011, que será realizado na China. Não é tarefa fácil, pois existe apenas uma vaga para as Américas, e, para tomá-la, precisamos derrotar os Estados Unidos.

Eu desejo toda a sorte do mundo ao professor Marcello e a todos os praticantes do corfebol no país, e estendo neste post o pedido que fiz semana passada, para que algum canal esportivo aproveite que ano que vem tem World Games e resolva transmitir alguns joguinhos de corfebol. Mal não ia fazer.
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terça-feira, 7 de outubro de 2008

Escrito por em 7.10.08 com 1 comentário

Punhobol

Outro dia, a Cris, minha namorada, reclamou que o Globo Esporte deveria se chamar Globo Futebol. Eu não tiro a razão dela. Por mais que eu goste de futebol, de vez em quando eu fico chateado com essa cultura esportiva monocromática de nosso país, onde o futebol é o único esporte ao qual as pessoas dedicam atenção. Alguns outros, como o vôlei, ainda recebem um certo destaque durante alguns campeonatos internacionais, mas a grande verdade é que a maioria dos esportes no Brasil fica restrita aos canais por assinatura, e só recebe um destaque um pouco maior na época das Olimpíadas - quando aí todo mundo passa a entender de todos os esportes, cobra medalhas, critica falhas, e não entende por que o Brasil não é uma potência olímpica.

Por mais que este quadro pareça ruim, acreditem, ele poderia ser pior. Existe um esporte no qual o Brasil é bicampeão mundial, considerado uma potência, temido pelos adversários, respeitado mundo afora - e eu aposto que uns 70% da população por aqui jamais ouviu falar. Um esporte que teve seu último Campeonato Mundial no ano passado, mas nenhum canal, nem por assinatura, transmitiu um joguinho sequer, nem com o Brasil sendo um dos favoritos. E, mesmo com o Brasil terminando na segunda colocação, nenhum jornal de grande circulação dedicou nem uma notinha ao feito. Este esporte se chama punhobol.

Verdade seja dita, eu conheci o punhobol através do Fantástico, que fez uma materiazinha curtinha sobre ele quando o Brasil foi campeão mundial de 2003. Na época eu até cheguei a procurar alguma coisa na internet sobre ele, mas depois me desinteressei. Só quando eu comecei a pesquisar sobre os World Games, e descobri que o punhobol fazia parte do programa é que eu decidi me aprofundar mais, lendo as regras e assistindo a alguns vídeos no Youtube. Na época do Mundial de 2007 eu até esperei em vão que algum canal transmitisse, mas acabei foi acompanhando os resultados pela internet. Pouco depois, pensei em fazer um post sobre punhobol, mas esta idéia foi sendo adiada, adiada... até hoje, quando finalmente meu público saberá o que é esse tal de punhobol!

Como já está virando clichê em meus posts esportivos, o punhobol é um dos esportes mais antigos do mundo, e ninguém tem muita certeza de quando ele teria sido inventado. Alguns dizem que o primeiro registro sobre o jogo data do longínquo ano de 240, em um texto escrito pelo Imperador Gordiano III de Roma; outros alegam que o italiano Antonio Scaiono teria registrado suas regras em 1555, e que o famoso escritor alemão Goethe o teria descrito em um de seus diários de viagem à Itália em 1786.

Seja como for, o fato é que apenas em 1870 o punhobol chegaria à Alemanha, considerada seu país de origem, levado por Georg Weber, que em 1894 escreveria junto com Heinrich Schnell a primeira versão das regras do esporte como é conhecido hoje - e que seria batizado por eles como faustball, já que "punho", em alemão, é faust. Estas primeiras regras ainda traziam muitas diferenças - por exemplo, o jogo possuía uma duração pré-estabelecida após a qual o time com mais pontos ganhava, ao invés de ser disputado em melhor de três ou cinco sets, como hoje - mas, mesmo assim, são consideradas a primeira codificação das regras do punhobol. Uma tradição, porém, permaneceu: como no final do século XIX quadras cobertas eram raras na Alemanha, o esporte era jogado ao ar livre, em um campo gramado, superfície na qual é praticado até hoje.

Apesar das regras só terem sido codificadas em 1894, a primeira partida de punhobol em solo alemão ocorreu em 1885, em um festival de ginástica na cidade de Dresden - curiosamente, nesta época o punhobol não era considerado um esporte separado, mas uma modalidade da Federação Alemã de Ginástica. O primeiro torneio entre clubes foi disputado em 1913, na cidade de Leipzig, com o LLB Frankfurt se sagrando campeão ao vencer o MTV München na final por 114 a 101. O primeiro torneio feminino seria disputado em 1921, com o Hamburger Turnerschaft vencendo o TV Krefeld por 91 a 90 na final. Em 1922, as regras sofreriam uma grande alteração, que deixaria o jogo mais veloz, mais emocionante taticamente, e mais parecido com o atual. E, em 1927, o esporte finalmente passaria a ser considerado uma disciplina separada.

Desde o início do século XX, o punhobol começaria a se espalhar pelos países vizinhos à Alemanha, e também para a América do Sul, trazido pelos imigrantes que vinham para cá trabalhar nas zonas rurais. Após a Segunda Guerra Mundial, o esporte chegaria também aos Estados Unidos e Japão, onde ficaria conhecido como fistball. Em 1960, foi fundada a Associação Internacional de punhobol (IFA, da sigla em alemão), que hoje conta com 35 países membros, dentre eles, como já foi dito, o Brasil.

Embora exista uma versão "indoor", o punhobol é tradicionalmente jogado ao ar livre, em um campo gramado, de 50 metros de comprimento por 20 de largura. Este campo é dividido bem no meio por uma linha cheia, e, a 3 metros desta linha, de cada lado do campo, fica a linha de saque. Sobre a linha que divide o campo, presa a postes e a 2 metros de altura (homens) ou 1,90 m (mulheres), fica uma fita de 6 cm de largura, listrada de vermelho e branco. A bola, de cor branca, é feita de couro sintético, tem no máximo 68 cm de circunferência, 380 gramas de peso, e é inflada a uma pressão de 0,75 bar, sendo, portanto, muito mais parecida com uma bola de futebol que com uma de vôlei.

Um time de punhobol é composto de cinco jogadores, mais três reservas, com as substituições sendo ilimitadas e podendo ser feitas a qualquer momento em que a bola não esteja em jogo, mas apenas pela equipe que estiver sacando. Diferentemente do que acontece no vôlei, os jogadores não "rodam" após fazer um ponto, sendo cada jogador especialista em sua função, e ocupando uma posição pré-determinada no campo do início ao final da partida. Teoricamente, um time de punhobol pode ser arrumado de qualquer forma, mas existem três formações mais usuais: a formação em W, com três jogadores próximos à linha de saque e dois próximos ao fundo da quadra, estes posicionados de forma a cobrir os "buracos" entre os três da frente; a formação em U, com dois próximos à linha de saque e três no fundo, mas os quatro da frente próximos às laterais do campo, deixando um buraco na frente do jogador do meio da linha de trás; e a formação em V, com dois jogadores próximos à linha de saque e dos lados do campo, dois mais atrás e mais próximos do meio, e um sozinho no fundo e bem no meio do campo. Se você teve dificuldade em visualizar minhas explicações, não tem problema: basta imaginar que, olhando o campo de cima, a arrumação dos jogadores forma as letras que dão nome a cada formação - e que não foram escolhidas por acaso, evidentemente.

O objetivo do punhobol é bastante simples: os jogadores devem usar suas mãos para impulsionar a bola para o outro lado da fita, passando por cima desta, e fazendo com que ela quique no lado do campo adversário sem que os oponentes consigam devolvê-la. Todos os toques na bola devem ser feitos com a mão fechada, e é dessa característica que o esporte tira seu nome. Outra característica peculiar do punhobol é que cada jogador tem direito a deixar a bola quicar no seu lado do campo uma vez antes de tocar nela, mais ou menos como acontece no tênis, só sendo registrado o ponto se a bola quicar duas vezes seguidas. Se a bola quicar dentro do campo adversário e for para fora, será ponto, mas se quicar pela primeira vez já fora do campo, será ponto para o oponente. Para efeitos de "dentro" e "fora" do campo, as linhas contam como campo, sendo que se apenas um pedacinho mínimo da bola acertar uma linha, ainda assim será considerada "dentro".

Uma partida de punhobol começa com um saque, também aplicado após cada ponto. O jogador que irá sacar se posiciona imediatamente atrás da linha de saque (no máximo um metro atrás), joga a bola para cima com uma das mãos, e, com a outra, faz um movimento circular, atingindo-a com a mão fechada e jogando-a por cima da fita. O saque pode ser feito "por baixo" - com a mão do sacador passando por baixo de sua linha da cintura - ou "por cima" - com a mão descrevendo o movimento circular por cima da linha da cabeça - embora o saque por cima seja mais usual, por ser mais difícil de defender. Tanto a mão que joga a bola para o alto quanto a que atingirá a bola no saque devem ficar visíveis para os jogadores de defesa em todos os momentos durante o saque - em outras palavras, não é permitido "enganar" os oponentes no saque, como é comum, por exemplo, no tênis de mesa. O jogador que está sacando pode pular durante o saque, mas, se o fizer, deverá tocar o chão antes que a bola toque o campo adversário, ou será ponto para o oponente. Também será ponto para o oponente se durante o saque a bola passar por baixo da fita ou tocar nela - aliás, a bola não pode tocar na fita em nenhum momento do jogo, sendo ponto para o oponente toda vez que isso ocorrer.

Uma vez que a bola tenha sido sacada, um dos jogadores do time oponente poderá tentar defendê-la. Como já foi dito, este jogador pode deixar a bola quicar uma vez antes de tocar nela, e, quando o fizer - sempre com a mão fechada, não podendo tocar na bola com nenhuma outra parte do corpo - não precisa jogá-la imediatamente para o outro lado, podendo passá-la para um companheiro. Este companheiro também não precisa bater na bola imediatamente, podendo deixá-la quicar dentro do campo antes de executar sua ação - evidentemente, se a bola for quicar fora do campo após ser tocada, qualquer jogador pode bater nela sem deixá-la quicar primeiro, ou será ponto para o oponente. Este segundo jogador a tocar na bola normalmente será o levantador, que preparará o ataque do time. Existem dois tipos de levantamento, o direto, no qual ele bate na bola para que ela suba o mais alto possível e então algum atacante bata direto nela para o outro lado da fita; e o indireto, no qual a intenção do levantador é fazer a bola quicar na frente do atacante, para que ele então a jogue para o outro lado. O levantamento direto é muito mais utilizado, por ser mais rápido e mais imprevisível.

Após o levantamento, caberá ao atacante jogar a bola para o outro lado da fita, de preferência de forma que os oponentes não consigam devolvê-la, marcando o ponto. A forma mais comum de atacar é com o atacante pulando e batendo na bola fazendo um movimento circular de cima para baixo, com a mão passando por sobre a linha da cabeça - ou seja, "cortando" - mas, se perceber que há um espaço adequado na quadra adversária, o atacante poderá bater na bola com mais jeito do que força, até mesmo sem pular. Se pular, o atacante poderá passar por baixo da fita como conseqüência de seu impulso sem problemas, mas deverá voltar para o seu próprio campo o mais rápido possível. Desnecessário dizer, nenhum jogador pode tocar com qualquer parte de seu corpo na fita, ou será ponto para o adversário. Como no vôlei, apenas três jogadores de cada time podem tocar na bola sucessivamente, devendo o terceiro obrigatoriamente passá-la para o outro lado, e nenhum jogador pode tocar na bola duas vezes seguidas. Como já foi dito, os jogadores de punhobol são especializados e ocupam posições pré-determinadas, então, para facilitar a vida do time, os atacantes costumam ficar próximos à fita, e os defensores próximos ao fundo do campo, com o levantador, na frente ou atrás, ficando na posição mais próxima ao centro do campo.

Uma partida de punhobol é arbitrada por um árbitro central e dois auxiliares. O árbitro central fica posicionado próximo a um dos postes que sustentam a fita, mas, diferentemente do árbitro do vôlei, fica de pé no chão, não em uma cadeira alta. O árbitro central tem total poder de decisão sobre o jogo, dizendo se as bolas foram dentro ou fora, se as jogadas foram válidas, e podendo até mesmo ignorar as instruções dos auxiliares, embora isso seja raro. Os auxiliares se posicionam nos cantos do campo, no lado oposto ao que está o juiz, e trazem em suas mãos bandeirinhas, sendo sua principal função marcar bolas fora. Os auxiliares não ficam parados, podendo correr seguindo as linhas do campo para visualizar melhor a bola - o que está mais próximo ao time atacando corre no sentido do comprimento do campo, enquanto o do time defendendo corre no sentido da largura. O árbitro central também pode correr para visualizar melhor uma jogada, mas isso é raro. Enquanto correm, os árbitros devem manter uma distância suficiente tanto para visualizar as jogadas quanto para não atrapalhar o jogo.

Um jogo de punhobol é dividido em sets, podendo ser jogado em melhor de três ou cinco sets - normalmente, em partidas internacionais, a final é em melhor de cinco sets, enquanto os demais jogos são em melhor de três. Para aqueles que não são familiarizados com este linguajar, uma partida em melhor de três sets termina quando um dos times ganha dois sets (vencendo por 2 a 0 ou 2 a 1), enquanto uma em melhor de cinco só termina quando um dos times ganha três sets (vencendo por 3 a 0, 3 a 1 ou 3 a 2). Um time ganha um set quando faz 20 pontos, mas apenas se tiver pelo menos dois pontos de vantagem sobre o adversário, senão o set continua até que esta vantagem seja alcançada - ou seja, se o set empatar em 19 a 19, ganha quem fizer 21; se empatar 20 a 20, ganha quem fizer 22, e assim sucessivamente, até um placar máximo de 25 a 24. Esta regra vale inclusive para o último (terceiro ou quinto) set, conhecido informalmente como tie break ("desempate"). As equipes trocam de lado do campo no início de cada saque, e também quando a primeira delas atingir 10 pontos no tie break.

O punhobol também pode ser jogado "indoor", ou seja, em uma quadra, modalidade criada para que o esporte pudesse ser jogado no inverno, quando campos gramados são meio difíceis de se encontrar na Alemanha. As regras do punhobol indoor são as mesmas do jogo original, exceto pelo tamanho da quadra (40 por 20 metros, o tamanho de uma quadra de handebol) e pelo fato de que qualquer bola que atinja uma parede é considerada como se tivesse quicado fora - mas bater no teto é permitido. O punhobol indoor normalmente só é jogado por clubes, sem grandes torneios entre nações. Recentemente, outra variação do jogo começou a surgir: conhecida como Kleinfeldfaustball ("punhobol de campo pequeno" em alemão), ela não é regulada pela IFA, nem tem regras fixas, com cada torneio adotando as regras que quiser, embora os princípios básicos do punhobol - bater sempre com a mão fechada e permitir um quique da bola - sejam mantidos. As versões mais populares do Kleinfeldfaustball são jogadas em quadras de vôlei (de 18 por 9 metros), entre duplas, trios ou quartetos, sendo que, na versão em quartetos, a cada cinco pontos marcados pelo time os jogadores se movem uma posição no sentido horário, para que todos joguem em todas as posições.



A principal competição do punhobol é o Campeonato Mundial, disputado a cada quatro anos. O masculino é disputado desde 1968 (em algumas ocasiões o intervalo foi de dois ou três anos, atualmente o campeonato é sempre no ano anterior ao das Olimpíadas), e tem como únicos vencedores a Alemanha (que ganhou os nove primeiro títulos), o Brasil (campeão em 1999 e 2003) e a Áustria (campeã em 2007). O Brasil é tão forte neste esporte que jamais deixou de chegar às semifinais, só ficando fora do pódio em 1968 e em 1995, quando foi quarto lugar, tendo quatro terceiros lugares (1979, 1986, 1990 e 1992) e quatro vice-campeonatos (1972, 1976, 1982 e 2007). O Mundial feminino é mais jovenzinho, sendo disputado a cada quatro anos desde 1994, com a Alemanha ganhando três títulos e a Suíça um (em 2002); o Brasil foi terceiro lugar em 1994 e 1998, e vice-campeão em 2002 e 2006. O Brasil já foi sede de ambas as versões do Campeonato: do masculino em 1976 (Novo Hamburgo) e 2003 (Porto Alegre), e do feminino em 2002 (Curitiba).

Por enquanto, o punhobol não tem pretensão de se tornar esporte olímpico - a IFA sequer é filiada ao Comitê Olímpico Internacional - mas o esporte faz parte dos World Games, apenas na versão masculina, desde sua segunda edição, em 1985. De lá pra cá, a Alemanha ganhou quatro ouros e a Áustria dois, e o Brasil ficou com um bronze (em 1997) e três pratas (1989, 2001 e 2005). Eu não sei em que colocação o Brasil ficou em 1985 e 1993, mas, pelo restrospecto, deve ter sido em quarto.

Aliás, com os World Games acontece uma coisa muito semelhante à que ocorre com o punhobol: o Brasil disputa o torneio com chances de medalhas, mas ninguém parece saber ou se importar. Eu fico na torcida para que algum diretor de programação de algum canal esportivo leia este meu post e decida incluir uns joguinhos de punhobol na grade. Mal não ia fazer.
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