terça-feira, 7 de outubro de 2008

Punhobol

Outro dia, a Cris, minha namorada, reclamou que o Globo Esporte deveria se chamar Globo Futebol. Eu não tiro a razão dela. Por mais que eu goste de futebol, de vez em quando eu fico chateado com essa cultura esportiva monocromática de nosso país, onde o futebol é o único esporte ao qual as pessoas dedicam atenção. Alguns outros, como o vôlei, ainda recebem um certo destaque durante alguns campeonatos internacionais, mas a grande verdade é que a maioria dos esportes no Brasil fica restrita aos canais por assinatura, e só recebe um destaque um pouco maior na época das Olimpíadas - quando aí todo mundo passa a entender de todos os esportes, cobra medalhas, critica falhas, e não entende por que o Brasil não é uma potência olímpica.

Por mais que este quadro pareça ruim, acreditem, ele poderia ser pior. Existe um esporte no qual o Brasil é bicampeão mundial, considerado uma potência, temido pelos adversários, respeitado mundo afora - e eu aposto que uns 70% da população por aqui jamais ouviu falar. Um esporte que teve seu último Campeonato Mundial no ano passado, mas nenhum canal, nem por assinatura, transmitiu um joguinho sequer, nem com o Brasil sendo um dos favoritos. E, mesmo com o Brasil terminando na segunda colocação, nenhum jornal de grande circulação dedicou nem uma notinha ao feito. Este esporte se chama punhobol.

Verdade seja dita, eu conheci o punhobol através do Fantástico, que fez uma materiazinha curtinha sobre ele quando o Brasil foi campeão mundial de 2003. Na época eu até cheguei a procurar alguma coisa na internet sobre ele, mas depois me desinteressei. Só quando eu comecei a pesquisar sobre os World Games, e descobri que o punhobol fazia parte do programa é que eu decidi me aprofundar mais, lendo as regras e assistindo a alguns vídeos no Youtube. Na época do Mundial de 2007 eu até esperei em vão que algum canal transmitisse, mas acabei foi acompanhando os resultados pela internet. Pouco depois, pensei em fazer um post sobre punhobol, mas esta idéia foi sendo adiada, adiada... até hoje, quando finalmente meu público saberá o que é esse tal de punhobol!

Como já está virando clichê em meus posts esportivos, o punhobol é um dos esportes mais antigos do mundo, e ninguém tem muita certeza de quando ele teria sido inventado. Alguns dizem que o primeiro registro sobre o jogo data do longínquo ano de 240, em um texto escrito pelo Imperador Gordiano III de Roma; outros alegam que o italiano Antonio Scaiono teria registrado suas regras em 1555, e que o famoso escritor alemão Goethe o teria descrito em um de seus diários de viagem à Itália em 1786.

Seja como for, o fato é que apenas em 1870 o punhobol chegaria à Alemanha, considerada seu país de origem, levado por Georg Weber, que em 1894 escreveria junto com Heinrich Schnell a primeira versão das regras do esporte como é conhecido hoje - e que seria batizado por eles como faustball, já que "punho", em alemão, é faust. Estas primeiras regras ainda traziam muitas diferenças - por exemplo, o jogo possuía uma duração pré-estabelecida após a qual o time com mais pontos ganhava, ao invés de ser disputado em melhor de três ou cinco sets, como hoje - mas, mesmo assim, são consideradas a primeira codificação das regras do punhobol. Uma tradição, porém, permaneceu: como no final do século XIX quadras cobertas eram raras na Alemanha, o esporte era jogado ao ar livre, em um campo gramado, superfície na qual é praticado até hoje.

Apesar das regras só terem sido codificadas em 1894, a primeira partida de punhobol em solo alemão ocorreu em 1885, em um festival de ginástica na cidade de Dresden - curiosamente, nesta época o punhobol não era considerado um esporte separado, mas uma modalidade da Federação Alemã de Ginástica. O primeiro torneio entre clubes foi disputado em 1913, na cidade de Leipzig, com o LLB Frankfurt se sagrando campeão ao vencer o MTV München na final por 114 a 101. O primeiro torneio feminino seria disputado em 1921, com o Hamburger Turnerschaft vencendo o TV Krefeld por 91 a 90 na final. Em 1922, as regras sofreriam uma grande alteração, que deixaria o jogo mais veloz, mais emocionante taticamente, e mais parecido com o atual. E, em 1927, o esporte finalmente passaria a ser considerado uma disciplina separada.

Desde o início do século XX, o punhobol começaria a se espalhar pelos países vizinhos à Alemanha, e também para a América do Sul, trazido pelos imigrantes que vinham para cá trabalhar nas zonas rurais. Após a Segunda Guerra Mundial, o esporte chegaria também aos Estados Unidos e Japão, onde ficaria conhecido como fistball. Em 1960, foi fundada a Associação Internacional de punhobol (IFA, da sigla em alemão), que hoje conta com 35 países membros, dentre eles, como já foi dito, o Brasil.

Embora exista uma versão "indoor", o punhobol é tradicionalmente jogado ao ar livre, em um campo gramado, de 50 metros de comprimento por 20 de largura. Este campo é dividido bem no meio por uma linha cheia, e, a 3 metros desta linha, de cada lado do campo, fica a linha de saque. Sobre a linha que divide o campo, presa a postes e a 2 metros de altura (homens) ou 1,90 m (mulheres), fica uma fita de 6 cm de largura, listrada de vermelho e branco. A bola, de cor branca, é feita de couro sintético, tem no máximo 68 cm de circunferência, 380 gramas de peso, e é inflada a uma pressão de 0,75 bar, sendo, portanto, muito mais parecida com uma bola de futebol que com uma de vôlei.

Um time de punhobol é composto de cinco jogadores, mais três reservas, com as substituições sendo ilimitadas e podendo ser feitas a qualquer momento em que a bola não esteja em jogo, mas apenas pela equipe que estiver sacando. Diferentemente do que acontece no vôlei, os jogadores não "rodam" após fazer um ponto, sendo cada jogador especialista em sua função, e ocupando uma posição pré-determinada no campo do início ao final da partida. Teoricamente, um time de punhobol pode ser arrumado de qualquer forma, mas existem três formações mais usuais: a formação em W, com três jogadores próximos à linha de saque e dois próximos ao fundo da quadra, estes posicionados de forma a cobrir os "buracos" entre os três da frente; a formação em U, com dois próximos à linha de saque e três no fundo, mas os quatro da frente próximos às laterais do campo, deixando um buraco na frente do jogador do meio da linha de trás; e a formação em V, com dois jogadores próximos à linha de saque e dos lados do campo, dois mais atrás e mais próximos do meio, e um sozinho no fundo e bem no meio do campo. Se você teve dificuldade em visualizar minhas explicações, não tem problema: basta imaginar que, olhando o campo de cima, a arrumação dos jogadores forma as letras que dão nome a cada formação - e que não foram escolhidas por acaso, evidentemente.

O objetivo do punhobol é bastante simples: os jogadores devem usar suas mãos para impulsionar a bola para o outro lado da fita, passando por cima desta, e fazendo com que ela quique no lado do campo adversário sem que os oponentes consigam devolvê-la. Todos os toques na bola devem ser feitos com a mão fechada, e é dessa característica que o esporte tira seu nome. Outra característica peculiar do punhobol é que cada jogador tem direito a deixar a bola quicar no seu lado do campo uma vez antes de tocar nela, mais ou menos como acontece no tênis, só sendo registrado o ponto se a bola quicar duas vezes seguidas. Se a bola quicar dentro do campo adversário e for para fora, será ponto, mas se quicar pela primeira vez já fora do campo, será ponto para o oponente. Para efeitos de "dentro" e "fora" do campo, as linhas contam como campo, sendo que se apenas um pedacinho mínimo da bola acertar uma linha, ainda assim será considerada "dentro".

Uma partida de punhobol começa com um saque, também aplicado após cada ponto. O jogador que irá sacar se posiciona imediatamente atrás da linha de saque (no máximo um metro atrás), joga a bola para cima com uma das mãos, e, com a outra, faz um movimento circular, atingindo-a com a mão fechada e jogando-a por cima da fita. O saque pode ser feito "por baixo" - com a mão do sacador passando por baixo de sua linha da cintura - ou "por cima" - com a mão descrevendo o movimento circular por cima da linha da cabeça - embora o saque por cima seja mais usual, por ser mais difícil de defender. Tanto a mão que joga a bola para o alto quanto a que atingirá a bola no saque devem ficar visíveis para os jogadores de defesa em todos os momentos durante o saque - em outras palavras, não é permitido "enganar" os oponentes no saque, como é comum, por exemplo, no tênis de mesa. O jogador que está sacando pode pular durante o saque, mas, se o fizer, deverá tocar o chão antes que a bola toque o campo adversário, ou será ponto para o oponente. Também será ponto para o oponente se durante o saque a bola passar por baixo da fita ou tocar nela - aliás, a bola não pode tocar na fita em nenhum momento do jogo, sendo ponto para o oponente toda vez que isso ocorrer.

Uma vez que a bola tenha sido sacada, um dos jogadores do time oponente poderá tentar defendê-la. Como já foi dito, este jogador pode deixar a bola quicar uma vez antes de tocar nela, e, quando o fizer - sempre com a mão fechada, não podendo tocar na bola com nenhuma outra parte do corpo - não precisa jogá-la imediatamente para o outro lado, podendo passá-la para um companheiro. Este companheiro também não precisa bater na bola imediatamente, podendo deixá-la quicar dentro do campo antes de executar sua ação - evidentemente, se a bola for quicar fora do campo após ser tocada, qualquer jogador pode bater nela sem deixá-la quicar primeiro, ou será ponto para o oponente. Este segundo jogador a tocar na bola normalmente será o levantador, que preparará o ataque do time. Existem dois tipos de levantamento, o direto, no qual ele bate na bola para que ela suba o mais alto possível e então algum atacante bata direto nela para o outro lado da fita; e o indireto, no qual a intenção do levantador é fazer a bola quicar na frente do atacante, para que ele então a jogue para o outro lado. O levantamento direto é muito mais utilizado, por ser mais rápido e mais imprevisível.

Após o levantamento, caberá ao atacante jogar a bola para o outro lado da fita, de preferência de forma que os oponentes não consigam devolvê-la, marcando o ponto. A forma mais comum de atacar é com o atacante pulando e batendo na bola fazendo um movimento circular de cima para baixo, com a mão passando por sobre a linha da cabeça - ou seja, "cortando" - mas, se perceber que há um espaço adequado na quadra adversária, o atacante poderá bater na bola com mais jeito do que força, até mesmo sem pular. Se pular, o atacante poderá passar por baixo da fita como conseqüência de seu impulso sem problemas, mas deverá voltar para o seu próprio campo o mais rápido possível. Desnecessário dizer, nenhum jogador pode tocar com qualquer parte de seu corpo na fita, ou será ponto para o adversário. Como no vôlei, apenas três jogadores de cada time podem tocar na bola sucessivamente, devendo o terceiro obrigatoriamente passá-la para o outro lado, e nenhum jogador pode tocar na bola duas vezes seguidas. Como já foi dito, os jogadores de punhobol são especializados e ocupam posições pré-determinadas, então, para facilitar a vida do time, os atacantes costumam ficar próximos à fita, e os defensores próximos ao fundo do campo, com o levantador, na frente ou atrás, ficando na posição mais próxima ao centro do campo.

Uma partida de punhobol é arbitrada por um árbitro central e dois auxiliares. O árbitro central fica posicionado próximo a um dos postes que sustentam a fita, mas, diferentemente do árbitro do vôlei, fica de pé no chão, não em uma cadeira alta. O árbitro central tem total poder de decisão sobre o jogo, dizendo se as bolas foram dentro ou fora, se as jogadas foram válidas, e podendo até mesmo ignorar as instruções dos auxiliares, embora isso seja raro. Os auxiliares se posicionam nos cantos do campo, no lado oposto ao que está o juiz, e trazem em suas mãos bandeirinhas, sendo sua principal função marcar bolas fora. Os auxiliares não ficam parados, podendo correr seguindo as linhas do campo para visualizar melhor a bola - o que está mais próximo ao time atacando corre no sentido do comprimento do campo, enquanto o do time defendendo corre no sentido da largura. O árbitro central também pode correr para visualizar melhor uma jogada, mas isso é raro. Enquanto correm, os árbitros devem manter uma distância suficiente tanto para visualizar as jogadas quanto para não atrapalhar o jogo.

Um jogo de punhobol é dividido em sets, podendo ser jogado em melhor de três ou cinco sets - normalmente, em partidas internacionais, a final é em melhor de cinco sets, enquanto os demais jogos são em melhor de três. Para aqueles que não são familiarizados com este linguajar, uma partida em melhor de três sets termina quando um dos times ganha dois sets (vencendo por 2 a 0 ou 2 a 1), enquanto uma em melhor de cinco só termina quando um dos times ganha três sets (vencendo por 3 a 0, 3 a 1 ou 3 a 2). Um time ganha um set quando faz 20 pontos, mas apenas se tiver pelo menos dois pontos de vantagem sobre o adversário, senão o set continua até que esta vantagem seja alcançada - ou seja, se o set empatar em 19 a 19, ganha quem fizer 21; se empatar 20 a 20, ganha quem fizer 22, e assim sucessivamente, até um placar máximo de 25 a 24. Esta regra vale inclusive para o último (terceiro ou quinto) set, conhecido informalmente como tie break ("desempate"). As equipes trocam de lado do campo no início de cada saque, e também quando a primeira delas atingir 10 pontos no tie break.

O punhobol também pode ser jogado "indoor", ou seja, em uma quadra, modalidade criada para que o esporte pudesse ser jogado no inverno, quando campos gramados são meio difíceis de se encontrar na Alemanha. As regras do punhobol indoor são as mesmas do jogo original, exceto pelo tamanho da quadra (40 por 20 metros, o tamanho de uma quadra de handebol) e pelo fato de que qualquer bola que eventualmente atinja uma parede é considerada como se tivesse quicado fora - mas bater no teto é permitido. O punhobol indoor normalmente só é jogado por clubes, sem grandes torneios entre nações. Recentemente, outra variação do jogo começou a surgir: conhecida como Kleinfeldfaustball ("punhobol de campo pequeno" em alemão), ela não é regulada pela IFA, nem tem regras fixas, com cada torneio adotando as regras que quiser, embora os princípios básicos do punhobol - bater sempre com a mão fechada e permitir um quique da bola - sejam mantidos. As versões mais populares do Kleinfeldfaustball são jogadas em quadras de vôlei (de 18 por 9 metros), entre duplas, trios ou quartetos, sendo que, na versão em quartetos, a cada cinco pontos marcados pelo time os jogadores se movem uma posição no sentido horário, para que todos joguem em todas as posições.



A principal competição do punhobol é o Campeonato Mundial, disputado a cada quatro anos. O masculino é disputado desde 1968 (em algumas ocasiões o intervalo foi de dois ou três anos, atualmente o campeonato é sempre no ano anterior ao das Olimpíadas), e tem como únicos vencedores a Alemanha (que ganhou os nove primeiro títulos), o Brasil (campeão em 1999 e 2003) e a Áustria (campeã em 2007). O Brasil é tão forte neste esporte que jamais deixou de chegar às semifinais, só ficando fora do pódio em 1968 e em 1995, quando foi quarto lugar, tendo quatro terceiros lugares (1979, 1986, 1990 e 1992) e quatro vice-campeonatos (1972, 1976, 1982 e 2007). O Mundial feminino é mais jovenzinho, sendo disputado a cada quatro anos desde 1994, com a Alemanha ganhando três títulos e a Suíça um (em 2002); o Brasil foi terceiro lugar em 1994 e 1998, e vice-campeão em 2002 e 2006. O Brasil já foi sede de ambas as versões do Campeonato: do masculino em 1976 (Novo Hamburgo) e 2003 (Porto Alegre), e do feminino em 2002 (Curitiba).

Por enquanto, o punhobol não tem pretensão de se tornar esporte olímpico - a IFA sequer é filiada ao Comitê Olímpico Internacional - mas o esporte faz parte dos World Games, apenas na versão masculina, desde sua segunda edição, em 1985. De lá pra cá, a Alemanha ganhou quatro ouros e a Áustria dois, e o Brasil ficou com um bronze (em 1997) e três pratas (1989, 2001 e 2005). Eu não sei em que colocação o Brasil ficou em 1985 e 1993, mas, pelo restrospecto, deve ter sido em quarto.

Aliás, com os World Games acontece uma coisa muito semelhante à que ocorre com o punhobol: o Brasil disputa o torneio com chances de medalhas, mas ninguém parece saber ou se importar. Eu fico na torcida para que algum diretor de programação de algum canal esportivo leia este meu post e decida incluir uns joguinhos de punhobol na grade. Mal não ia fazer.

1 enfiaram o nariz:

Anônimo disse...

eu concordo com você! eu amo punhobol, e acho que deveria ser mais divulgado esse esporte que não é tão diviulgado como deveria ser ! bjs bjs Jamile

2:02 PM

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