sábado, 8 de dezembro de 2007

Hellboy

Há muito tempo que eu não coleciono quadrinhos. A principal razão para isso é que estava se tornando uma atividade muito cara e pouco recompensadora, já que eu não estava mais achando tanta graça assim nas histórias. Mas eu continuo gostando de super-heróis, e procuro me inteirar do que anda acontecendo com eles atualmente, seja pela internet ou lendo "emprestado". E de vez em quando eu ainda compro uma coisa ou outra, embora isto seja a cada dia mais raro. Normalmente eu me limito a publicações da Marvel e da DC, mas ultimamente um herói que não é de nenhuma das duas tem me chamado a atenção: Hellboy, o tema do post de hoje.

Confesso que descobri Hellboy através do filme. Quer dizer, eu já sabia que existia um herói chamado Hellboy, mas nunca tinha lido um quadrinho sequer dele até assistir o filme. Também confesso que uma das razões que me levaram a assistir o filme foi que Selma Blair, uma de minhas atrizes preferidas, estava no elenco. Mas, como disse um amigo meu, foi um filme que eu fui assistir sem esperar nada de mais, e acabei me divertindo muito. E, de certa forma, me tornando fã de Hellboy.

Hellboy, versão quadrinhosHellboy foi criado em 1993 pelo desenhista e roteirista Mike Mignola. Sua primeira história foi publicada na revista San Diego Comic-Con Comics no 2, publicada pela editora Dark Horse; a revista que leva seu nome, Hellboy, foi publicada pela primeira vez em 1994, e ganhou um spin-off, BPRD em 2002. Hellboy foi o primeiro personagem criado por Mignola, que antes disso só havia trabalhado para a Marvel, como colorista do Demolidor e ilustrador de capas de várias edições, e para a DC, onde desenhou capas de várias minisséries. Para criar seu primeiro super-herói, Mignola se inspirou em autores clássicos do terror sobrenatural, como H. P. Lovecraft e Edgar Allan Poe, e no gênio dos quadrinhos Jack Kirby. Como não tinha muita experiência como roteirista, pediu a seu amigo John Byrne que escrevesse a primeira história de Hellboy; a partir da segunda, porém, ele mesmo assumiu, tendo escrito a maior parte das histórias do herói desde então. Mignola também desenhou todas as histórias de Hellboy até este ano, quando Duncan Fegredo assumiu o traço, e ele passou a se concentrar nos cargos de roteirista e ilustrador de capas. As histórias de Hellboy usam vários elementos do folclore russo, irlandês e japonês, e já foram consideradas por muitos como as mais criativas histórias de super-heróis criadas nos últimos anos, tendo ganhado vários prêmios.

Mas quem é Hellboy? Como o nome pode sugerir, ele, na verdade, é um demônio, de nome Anung Un Rama, conjurado para o nosso mundo em 1944 pelo feiticeiro russo Grigory Rasputin, que trabalhava em segredo com os nazistas no chamado Projeto Ragnarok, que traria forças do além para desequilibrar as forças da Segunda Guerra Mundial, dando a vitória aos alemães. Durante o ritual, porém, forças aliadas impediram Rasputin de concluir o processo adequadamente, e o que passou pelo portal foi uma espécie de "demônio neném", de pele vermelha, chifres, pés de bode, rabo com ponta de seta e uma enorme mão de pedra. Indo contra tudo o que o bom senso recomenda, o professor Trevor Bruttenholm, renomado ocultista que acompanhava os militares, decidiu adotá-lo, dando-lhe o nome de Hellboy, que, em inglês, significa "garoto do inferno".

Após este episódio, o governo dos Estados Unidos criou, sob a supervisão do prof. Bruttenholm, o Escritório para Pesquisa e Defesa Paranormal (BPRD na sigla em inglês, de Bureau for Paranormal Research and Defense), um departamento ultra-secreto dedicado a combater ameaças sobrenaturais. Hellboy foi criado pelo professor dentro do BPRD, onde aprendeu ideiais de justiça, honra, lealdade e fraternidade, se tornando o mais valoroso agente do departamento. Ao longo dos anos, novos soldados "não convencionais" se uniram ao BPRD, como o homem-peixe Abe Sapiens, a pirocinética Liz Sherman, o fantasma Johann Kraus e o homúnculo Roger. Atualmente, estes agentes são enviados em missões de campo, enquanto os humanos, como o diretor Thomas Manning e a cientista especialista em folclore Kate Corrigan, permanecem como apoio.

Como Hellboy é um demônio, seu metabolismo é diferente, o que faz com que, mesmo tendo se passado mais de 60 anos de sua chegada, ele ainda seja considerado como um jovem na casa dos 20 e poucos anos. Graças a esta característica, as histórias de Hellboy se situam em um amplo espaço de tempo, desde o final da Segunda Guerra Mundial até os dias atuais. Em 1952, Hellboy foi condecorado pelas Nações Unidas por seus serviços prestados à humanidade com os títulos de "humano honorário" e "maior investigador paranormal do mundo", o que lhe permite andar normalmente pelas ruas e interagir com as pessoas, embora algumas se assustem com sua aparência.

Falando nisso, apesar de ser um demônio, Hellboy não segue o estereótipo de sua raça: ele tem bom coração, está sempre disposto a ajudar, é leal a seus amigos, e talvez seu único defeito seja um mau humor constante, mas que pode até ser considerado simpático - ele, inclusive, de certa forma renega sua condição de demônio, já que serra seus chifres e só deixa dois cotocos, para ter uma aparência menos ameaçadora. O mérito por este bom caratismo é do prof. Bruttenholm, que lhe criou em um ambiente familiar de amor e companheirismo, tanto que Hellboy se refere a ele como "pai". Hellboy é, portanto, a prova de que até mesmo um demônio pode se tornar uma pessoa de bem dependendo de sua criação. Em termos de super-heróis, ele está mais para um herói bonzinho clássico, como o Super-Homem ou o Homem-Aranha, do que para um dos heróis bad boys tão populares hoje em dia.

Como todo super-herói, Hellboy também tem seus poderes. Para começar, ele é muito mais forte e resistente que um ser humano, mas não é indestrutível; sua pele é muito dura e ele possui uma espécie de "fator de cura", que permite que seus ferimentos regenerem mais rapidamente, mas ainda assim ele pode morrer se sofrer dano maciço. Ninguém sabe, porém, quanto de dano seria "maciço", já que em algumas histórias ele parou uma metralhadora após receber uma centena de tiros no peito, teve uma espada atravessada na barriga, levou uma surra de um monstro do tamanho de uma casa, e mesmo assim saiu andando. Além desta força e resistência, Hellboy ainda enxerga melhor e mais longe que um humano, e possui uma capacidade inata para compreender linguagens ancestrais e místicas. O fato de que ele envelhece lentamente também pode ser considerado um poder.

Hellboy, versão filmeAlém destes poderes, Hellboy também conta com vários artefatos fornecidos pelo BPRD, a maioria de caráter religioso ou sobrenatural, como água benta, relíquias sagradas, ferraduras de sete furos e alho. Hellboy também carrega um revólver gigante, especialmente fabricado para ele (e que, no filme, se chama "Samaritano", embora nos quadrinhos não tenha nome), mas não é muito bom de mira, e prefere o combate corpo a corpo. Mas o mais poderoso artefato que Hellboy carrega não foi fornecido pelo BPRD, mas veio com ele de onde quer que ele tenha vindo: sua mão direita, conhecida como "a mão direita da destruição". A boa notícia é que esta mão, assim como o antebraço que a acompanha, é feita de pedra, não sente dor, é invulnerável e indestrutível; a má notícia é que ela trará o apocalipse e destruirá a humanidade. Embora no filme ela faça parte de um conjunto onde ela é a "chave" e uma enorme pedra é a "fechadura", nos quadrinhos jamais foi revelado de que forma exatamente a mão traria o apocalipse, mas é certo que ela não precisa estar presa ao braço de Hellboy para que possa ser usada desta forma; Hellboy sabe disso, e sabe que permanecer vivo e com a mão no lugar é a única forma de evitar que os vilões a usem para este fim maligno. O próprio Rasputin já teria sugerido a Hellboy que sua chegada à Terra fazia parte de seu plano original, e que seu destino seria condenar a humanidade, embora este seja um destino que o herói renega e tenta evitar a qualquer custo.

Após dez anos vivendo aventuras nos quadrinhos, Hellboy chegou ao cinema pelas mãos do diretor Guillermo del Toro (de Blade 2 e do recente O Labirinto do Fauno), provavelmente inspirado pelo sucesso de filmes como os do Homem-Aranha e dos X-Men. Lançado em 2004, Hellboy não fica devendo nada aos filmes de super-heróis mais famosos, embora não seja tão grandioso nem tão badalado. O filme começa mostrando a origem de Hellboy, conjurado acidentalmente para a Terra por Rasputin (Karel Roden) quando este planejava trazer o demônio Ogdru Jahad, supostamente para ajudar os nazistas, mas na verdade para destruir o mundo. O tempo passa e, nos dias atuais, Hellboy (Ron Perlman), após ter sido adotado pelo prof. Bruttenholm (John Hurt), e criado para ser um herói, já é um agente do BPRD (que no filme é ligado ao FBI), executa missões ao lado de Abe Sapiens (Doug Jones) e teve um romance mal-resolvido com Liz Sherman (Selma Blair). Rasputin é então ressucitado pelos nazistas Ilsa Haupstein (Bridget Hodson) e Karl Ruprecht Kroenen (Ladislav Beran), e planeja usar a mão direita de Hellboy para libertar Ogdru Jahad. Cabe a Hellboy impedi-lo, enquanto tentar reatar seu romance com Liz, e aprende a conviver com um novo agente designado para o BPRD, John Myers (Rupert Evans).

O filme foi extremamente bem recebido pelos fãs, apesar de ter algumas diferenças em relação aos quadrinhos - Hellboy, por exemplo, é considerado uma "lenda urbana", e sua existência é acobertada pelo FBI para não gerar pânico na população; além disso, ele é indestrutível, e totalmente invulnerável ao fogo criado por Liz, o que nos quadrinhos não é verdade. O filme também foi bem sucedido junto aos críticos, e indicado para quatro categorias do Saturn Award (uma espécie de Oscar da ficção científica, fantasia e horror, guardadas as devidas proporções), ganhando o de melhor maquiagem (com louvor, já que Hellboy e Abe estão bem realísticos, e Ron Perlman quase irreconhecível).

Tanto sucesso levaria, claro, a uma continuação, que já devia ter saído, mas esbarrou em um pequeno problema: os estúdios Revolution, que produziram o filme e estavam produzindo a seqüência, faliram em agosto de 2006. Após algumas negociações, a Universal decidiu assumir a produção, e as filmagens começaram em junho deste ano. Hellboy 2: The Golden Army tem sua data de estréia prevista para 11 de julho do ano que vem, e trará mais uma vez del Toro na direção, e Perlman, Blair e Jones como os agentes do BPRD, que deverão ganhar a companhia de Johann Kraus (John Alexander, com voz de Thomas Kretschmann). A história do segundo filme terá mais elementos de folclore, e será mais parecida com os quadrinhos, com criaturas místicas lideradas pelo Príncipe Nuada (Luke Goss) invadindo a Terra, e o BPRD tendo que impedi-los.

Enquanto o segundo filme não vem, Hellboy pode ser encontrado em dois filmes de animação, que podem ser encontrados por aqui em DVD ou passando regularmente na HBO. Ambos foram produzidos pela Starz Media's Film Roman, com roteiro de Mignola e Tad Stones, e com Perlman, Jones, Blair e Hurt dublando os mesmos personagens que fizeram no filme.

Hellboy, versão desenhoO primeiro desenho, Hellboy: Sword of Storms (Hellboy: A Espada da Tempestade em DVD, ou Hellboy e sua Espada Samurai na HBO), foi lançado em agosto de 2006. Nele, o prof. Sakai, um estudioso do folclore japonês, decide ler um pergaminho proibido, e é possuído pelos Espíritos do Trovão e do Relâmpago, que planejam libertar seus irmãos, os dragões, para que estes dominem o mundo. Após Sakai atacar um colega, o BPRD é mandado para investigar, e, durante a investigação, Hellboy, ao tocar em uma espada mística, é transportado para uma terra fantástica, cheia de criaturas do folclore japonês. Hellboy precisa escapar desta terra com a espada, para poder deter os Espíritos antes que eles consigam libertar os dragões - alguns, aliás, já começam a acordar, e os pobres Liz e Abe têm que segurá-los enquanto Hellboy não volta.

O segundo desenho, Hellboy: Blood and Iron (Hellboy: Sangue e Ferro em DVD, ou Hellboy e o Espírito do Fantasma na HBO - apenas como comentário, "espírito do fantasma" não faz muito sentido na minha opinião), foi lançado em março de 2007. Desta vez o folclore explorado é o europeu: Hellboy e o BPRD se vêem envolvidos com uma vampira, que já havia sido confrontada e destruída pelo prof. Bruttenholm em 1939, mas que agora está prestes a ser ressucitada por duas harpias que servem à deusa Hecate, que no final decide vir à Terra em pessoa e cair na porrada com Hellboy.

Um terceiro desenho, Hellboy: The Phantom Claw ("a garra fantasma"), está em pré-produção, e deve ser lançado em 2008. Pouco se sabe sobre a história a não ser o fato de que Hellboy irá acompanhado de Kate ao castelo onde ele foi conjurado para a Terra, e lá se deparará com o fantasma de Rasputin. Lobster Johnson, um personagem bastante popular nos quadrinhos, também aparecerá neste desenho, mas ainda não se sabe se Liz e Abe acompanharão Hellboy em sua aventura.

Atualmente, Hellboy é sem dúvida o super-herói mais popular fora do eixo Marvel/DC (posto que na década de 1990 pertencia a outro herói vindo do inferno, Spawn), tanto que ele e seus colegas do BPRD ganharam expansões tanto para o jogo de miniaturas HeroClix quanto para o card game VS, os jogos oficiais de Marvel e DC no momento. Hellboy também ganhou um RPG, compatível com GURPS e publicado pela Steve Jackson Games em 2002, e um jogo de videogame, Hellboy: Asylum Seeker, lançado para PC e Playstation em 2003; um segundo jogo, Hellboy: The Science of Evil, está em desenvolvimento, e deve ser lançado no final deste ano para Playstation 3, Xbox 360 e PSP.

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