sábado, 15 de setembro de 2007

Cutey Honey

Há uns dois meses, fiz aqui um post sobre Zillion. Na ocasião, revelei que desejava escrever um post sobre algum anime, e, na ausência de anime recentes sobre os quais eu quisesse falar, decidi recorrer aos mais antigos. Acabei optando por Zillion devido a este ter aparecido na capa da revista Dragonslayer, por estar completando 20 anos desde sua primeira exibição no Japão, mas confesso que Zillion não foi a primeira opção que me veio à mente quando decidi escrever sobre um anime antigo. A primeira opção foi Cutey Honey, que ficou devidamente guardada esperando uma ocasião propícia. E esta ocasião chegou.

Que eu saiba, Cutey Honey (também conhecido nos Estados Unidos como Cutie Honey, embora ambos signifiquem a mesma coisa, algo como "Honey fofinha", com o detalhe pitoresco de que honey, que significa "mel", também é um adjetivo semelhante a "meiga") nunca foi exibido no Brasil; eu mesmo só tomei conhecimento de sua existência graças a um amigo que conseguiu umas fitas de vídeo da segunda encarnação da série, com som original em japonês e legendas em inglês. Desconheço onde ele arrumou essas fitas, mas lembro-me que, na época em que assisti, quando tinha uns 16 anos, achei divertidíssimo; hoje já não acho tão bom assim, mas digamos que o desenho adquiriu um certo valor nostálgico.

Cutey HoneyE não só para mim: Cutey Honey é considerada uma espécie de precursora das heroínas mágicas japonesas, aquelas que normalmente mudam de roupa para ganhar novos poderes, algo como a Angel, que procurava a Flor das Sete Cores (alguém aí se lembra disso?), e, se não chega a ser um dos anime mais populares do Japão, é, com certeza, um dos mais conhecidos. Criada no agora longínqüo ano de 1973 por Go Nagai, Honey foi inspirada em dois antigos heróis de tokusatsu, Nanairo Kamen, de 1959, o primeiro super-herói da Toei (dos Sentai), um detetive capaz de assumir sete diferentes personalidades, cada uma com um poder; e Rainbowman (no qual Megaman também é inspirado), de 1972, o primeiro Henshin Hero (heróis que "se transformam", como Kamen Rider) da Toho (de Godzilla), que tinha o poder de se transformar em sete outros super-heróis diferentes (algo meio parecido com Ben 10 - este post está cheio de referências...). Curiosamente, tanto Nanairo Kamen quanto Rainbowman foram inventados pelo mesmo homem, Kohan Kawauchi.

Pois bem, inspirada nestes dois super-heróis, Cutey Honey fez sua estréia na edição 41 do mangá Shonen Champion, que trazia diferentes histórias de diferentes heróis a cada edição. Seu poder, evidentemente, era o de assumir múltiplos disfarces, mudando de roupa e de aparência, e ganhando diferentes habilidades - ao se vestir de motoqueira, por exemplo, Honey ganha a habilidade de dirigir motos com extrema maestria, ao se vestir de soldado adquire uma mira fantástica, com roupa de trapezista ela consegue dar saltos acrobáticos impressionantes, e assim por diante. Honey só voltava à sua "verdadeira identidade" no final da batalha, quando se revelava ao vilão antes de derrotá-lo.

Esta primeira história de Cutey Honey fez tanto sucesso que, menos de uma semana após seu lançamento, a heroína ganhou uma versão em anime. Produzida pela Toei e chamada simplesmente de Cutey Honey, a série estreou no Japão em 13 de outubro de 1973, e ficou no ar na TV Asahi até 30 de março de 1974, com um total de 25 episódios. O número baixo pode dar a entender que a série não fez muito sucesso, mas na verdade Cutey Honey foi considerado um dos anime mais bem sucedidos da década de 70.

Mas quem afinal é Cutey Honey? Nascida Honey Kisaragi, ela aparentemente é apenas uma adolescente japonesa comum - apesar de extremamente bonita - que estuda em uma escola católica só para moças. Um dia, o pai de Honey é brutalmente assassinado pela organização criminosa Panther Claw, que passa também a perseguir Honey, que logo descobre o motivo: Honey, na verdade, não é uma garota comum, mas sim uma andróide, criada por seu pai com a tecnologia do Sistema de Fixação do Elemento Ar (ou algo parecido), cobiçada pela Panther Claw. É esta tecnologia que permite que Honey, ao gritar "Honey Flash!", ative seus poderes, se transformando na guerreira Cutey Honey. Com o mesmo grito, Cutey Honey pode assumir diferentes personalidades, cada uma com um poder importante para que ela supere a encrenca na qual está metida.

Após dominar seus poderes, Honey passa a combater a Panther Claw, liderada pela feiticeira Panther Zora, que planeja se apoderar do Sistema para dominar o mundo. Quando não está combatendo a Panther Claw como Cutey Honey, Honey Kisaragi vive uma vida adolescente normal e, acompanhada de sua melhor amiga Natchan, se mete em muitas confusões em sua escola, graças ao comportamento anárquico das duas. Cada episódio oferece, portanto, duas temáticas distintas: Cutey Honey vive incríveis aventuras cheias de ação, enquanto Honey Kisaragi oferece o contraponto cômico, se metendo em confusões adolescentes.

Mas a principal característica de Cutey Honey é que ele é um anime, digamos, um tanto safadinho. Não chega a ser um hentai, porque não mostra genitálias nem tem cenas de sexo, mas ainda assim é altamente desaconselhável para menores. Toda vez que Honey se transforma, por exemplo, ela fica totalmente pelada durante a troca de roupa, com direito a closes no bumbum e nos seios. Muitas das vilãs também são bastante "desinibidas", as coleguinhas do colégio de Honey gostam de usar saias mais curtas do que deveriam, e existe até mesmo uma professora subentendidamente lésbica, e aparentemente atraída por Honey. E, por incrível que pareça, o mangá era mais pesado ainda, com violência extrema (que foi bastante amenizada no anime), cenas lésbicas bem mais explícitas e piadas bem mais constrangedoras.

Apesar de todas estas características, Cutey Honey teve apelo não somente entre os meninos, mas também entre as meninas, talvez por ter sido uma heroína "à frente de seu tempo", de personalidade forte, e totalmente independente dos homens, adorando sacanear vilões e provocar colegas de colégio. Talvez ela tenha sido considerada visionária até demais, já que, depois do anime, ela fez apenas mais uma aparição na Shonen Champion (foram quatro, no total), e depois foi para a geladeira, de onde só saiu após 20 anos.

E Honey saiu da geladeira diretamente para um novo anime, desta vez para uma série OVA (Only Video Available, "disponível somente em vídeo", ou seja, produzido para ser lançado diretamente em vídeo ou DVD, sem passar antes no cinema ou na TV). Lançado em 1994, New Cutey Honey trouxe 8 novos episódios, sendo que os quatro primeiros formavam uma história completa, enquanto os quatro últimos não tinham relação entre si, e eram uma espécie de homenagem a criações anteriores de Go Nagai.

New Cutey Honey se passa vários anos (embora ninguém saiba ao certo quantos) após a série original. Honey Kisaragi, já adulta, trabalha como secretária para o prefeito de Cosplay City. Um dia, a cidade é atacada pelo vilão Dolmeck, e Honey revela sua verdadeira identidade, jurando destruí-lo e restaurar a paz. Dolmeck é auxiliado por Black Maiden, uma menininha pré-adolescente presa em um imenso corpo robótico, e Peeping Spider, uma mistura de humano e aranha. Honey também ganha curiosos aliados na forma da família Hayami, composta por Danbei, um vovô ciborgue tarado e resmungão, seu filho Akakabu, a mulher gostosona de Akakabu, Daiko, e o filho de Akakabu e neto de Danbei, Chokkei, um adolescente tímido que acaba se apaixonando por Honey. No episódio 4, Dolmeck é derrotado, mas não sem que antes Honey descubra um terrível segredo. Depois disso, em cada um dos quatro últimos epiódios um vilão ou vilã ameaça a cidade, e Honey e a família Hayami têm de derrotá-los.

New Cutey Honey não foi exatamente um sucesso (na verdade, foi considerado muito inferior ao original), mas pelo menos lançou a semente para uma nova produção: Cutey Honey Flash (ou Cutey Honey F), uma nova série que foi ao ar na TV Asahi de 25 de fevereiro de 1997 a 31 de janeiro de 1998, com 39 episódios. Desta vez a série era um shoujo, ou seja, um anime direcionado às meninas, como Sailor Moon, por exemplo. Aliás, a série ocupou justamente o lugar de Sailor Moon na grade da Asahi, quando a série saiu do ar depois de 200 episódios exibidos ao longo de seis anos; muitos dos animadores e dubladores de Sailor Moon também trabalharam em Cutey Honey F, o que fez com que o estilo da série também ficasse parecido.

Sendo direcionado às meninas, Cutey Honey F não poderia ser tão "liberal" quanto suas antecessoras, então algumas modificações tiveram de ser feitas. Honey Kisaragi voltou a ser uma adolescente, e agora já não fica explicitamente pelada ao se transformar. Todas as situações sexuais e homossexuais sumiram, e a violência não é muito diferente da que vemos em outros anime por aí. A história, porém, é quase a mesma: em seu décimo-sexto aniversário, Honey Kisaragi está indo visitar seu pai, um dos maiores cientistas do Japão, quando ele é seqüestrado (e não morto) pela organização criminosa Panther Claw, liderada por Panther Zora, uma feiticeira maligna de outra dimensão, que planeja invadir a nossa e dominar o mundo. Pouco após o seqüestro de seu pai, Honey recebe uma visita de um estranho homem que se identifica apenas como "Príncipe do Crepúsculo", e lhe presenteia com um dos inventos de seu pai: uma gargantilha que, quando ativada, permite que Honey assuma diferentes formas com diferentes habilidades, sendo a mais poderosa (e mais freqüentemente utilizada) a da espadachim Cutey Honey. Curiosamente, qualquer forma assumida por Honey também tem um nome que termina com Honey, como Nurse Honey (enfermeira), Hurricane Honey (motociclista), Stage Honey (cantora), Scoop Honey (fotógrafa) e muitas outras.

Assim, Honey passa a utilizar seus novos poderes para lutar contra Panther Zora e salvar seu pai, e ao longo do processo ganha diversos aliados: além do Príncipe, que surge de vez em quando para lhe dar conselhos e dicas de batalha, Honey pode contar com a ajuda do intrépido detetive Seiji Hayami, que teve seus pais mortos pela Panther Claw e agora quer fazer justiça e colocar Panther Zora atrás das grades; Natchan, sua melhor amiga e colega de colégio; e Danbei, o vovozinho meio cabeça oca que dirige o colégio. No episódio 14 surge a enigmática Seira Hazuki, que alega ser meio-irmã de Honey, e possui uma liga idêntica à gargantilha de Honey, que permite que ela se transforme na guerreira Misty Honey (mas não em nenhuma outra forma). Misty é a clássica "gêmea malvada", sendo inimiga de Honey e tentando destruí-la, mas sem ser aliada de Panther Claw, e até mesmo enfrentando os vilões de vez em quando.

Honey KisaragiApesar de não ter feito tanto sucesso quanto a série original (e de alguns fãs mais puristas terem torcido o nariz), Cutey Honey F foi bastante bem sucedida, e até ganhou um mangá, publicado entre maio de 1997 e abril de 1998. Depois deste mangá, Cutey Honey ficaria mais um tempinho na geladeira, até estrear em um novo tipo de produção: um filme em live action, ou seja, com atores de carne e osso!

Produzido pela Gainax (de Evangelion), o filme, chamado simplesmente de Cutey Honey, foi lançado nos cinemas em 2004, e trazia a modelo Eriko Sato no papel de Honey Kisaragi/Cutey Honey. A história é mais semelhante à do anime original (mas sem os elementos "adultos"): Honey é uma andróide, inventada pelo Dr. Kisaragi à imagem e semelhança de sua filha, morta em um acidente. Pouco depois de criá-la, o Dr. Kisaragi é seqüestrado pela organização criminosa Panther Claw, que usa a tecnologia inventada por ele para criar um poderoso exército, com o qual planeja dominar o Japão. Antes de botar seu plano em prática, porém, a Panther Claw precisa do sistema de transformação de Honey (rebatizado para Imaginary Induction System, "Sistema de Indução Imaginária", ou I-System, um trocadilho com a palavra ai, "amor" em japonês), que garantiria vida eterna à sua líder, Sister Jill (Eisuke Sakai - nas outras séries, Sister Jill era a braço-direito de Panther Zora, não a chefe da organização), que já passou da hora de morrer, e se mantém viva sacrificando jovens garotas. Para frustrar os planos das criminosas, Honey contará com a ajuda do jornalista Seiji Hayami (Jun Murakami) e da policial Natsuko "Natchan" Aki (Mikako Ichikawa). Go Nagai também faz uma participação de alguns segundos.

Simultaneamente com o lançamento do filme, a Gainax lançou um novo anime em OVA, em três episódios, chamado Re: Cutey Honey. Este novo OVA contava exatamente a história do filme, mas com mais detalhes e mais personagens. Re: Cutey Honey foi bastante criticado, principalmente por ter um traço muito simples, semelhante ao da série original, mas bastante diferente dos anime mais recentes.

A mais recente encarnação de Cutey Honey ainda não entrou no ar: trata-se de uma série em live action, chamada Cutey Honey: The Live, que estreará dia 2 de outubro na TV Tokyo. O papel de Honey caberá à modelo Mikie Hara, e a história provavelmente será a mesma de sempre, envolvendo o assasinato do pai de Honey e a Panther Claw. Aparentemente, ninguém quer fugir muito disso para manter a tradição.

Uma característica curiosa a respeito de Cutey Honey é que sua música de abertura é a mesma em todas as suas encarnações, sendo que em cada uma foi interpretada por uma cantora ou banda diferente. A música é bastante popular no Japão, mesmo entre pessoas que nunca assistiram Cutey Honey, e várias bandas pop já a gravaram em seus álbuns.

Cutey Honey não chega a ser uma obra-prima, mas é tão curioso que merece uma olhada - principalmente o filme, incrivelmente bem feito para uma produção do gênero, e Cutey Honey F, se você é fã de Sailor Moon. E a musiquinha realmente gruda na cabeça.

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