domingo, 19 de fevereiro de 2006

Escrito por em 19.2.06 com 8 comentários

He-Man

Eu adoro desenhos dos anos 80. Podem alegar que eles eram mal feitos, violentos, que eu só gosto deles por memória afetiva, eu não me importo. O que eu sei é que, quando eu vejo um Du, Dudu e Edu da vida, tenho saudade até dos Popples. Mas a melhor coisa dos anos 80 eram os desenhos de aventura. Hoje em dia, temos poucos deles e a maioria é de licenças, como os Jovens Titãs, ou teen demais, como Martin Mystery. Nos anos 80, tínhamos tantos desenhos de aventura que dava para fazer um canal só deles. O meu preferido era o dos Transformers. O segundo, o do He-Man. Que como o negrito atesta, é o tema do post de hoje.

He-Man e Gato GuerreiroA carreira de He-Man começou há exatos 25 anos, em 1981, quando a fabricante de brinquedos Mattel decidiu lançar uma linha de brinquedos do Conan, para aproveitar o sucesso do filme estrelado por Arnold Schwarzenegger. Após uma pesquisa de mercado, porém, a fábrica chegou à conclusão de que Conan estava muito associado a sexo e violência, principalmente devido à revista em quadrinhos A Espada Selvagem de Conan, uma referência muito mais forte ao bárbaro que o filme do cinema. Como a maioria dos brinquedos já estava em pré-produção, a Mattel optou por apenas mudar umas coisinhas aqui e ali, e transformou a série em uma nova, com personagens totalmente inéditos, à qual deu o nome de He-Man e os Mestres do Universo. Curiosamente, o nome "Mestres do Universo" se referia aos vilões, mas como isso nunca foi explicado em lugar nenhum, os fãs assumiram que os tais Mestres do Universo eram os aliados de He-Man, e acabou que o nome ficou para os heróis mesmo. Também curiosamente, devido a esta origem meio conturbada, He-Man não tem um criador oficial. O designer Roger Sweet, responsável pela linha de brinquedos durante toda sua produção, alega ter sido ele o inventor dos personagens, mas a Mattel, detentora dos direitos, não o reconhece ou credita como tal. O próprio nome He-Man (algo como "Ele-Homem") não tem uma origem muito clara, embora o boato mais famoso seja de que o herói se chamaria He-Ro ("He-Rói"), e foi mudado para He-Man de última hora para combinar com outros super-heróis como Superman e Batman.

He-Man em quadrinhosPois bem, lançar uma linha de brinquedos totalmente nova era um pouco arriscado, já que as crianças não saberiam do que se tratava, e poderiam não ter interesse em comprar. Para diminuir este risco, a Mattel firmou um contrato com a DC Comics, que produziu revistas em quadrinhos de He-Man, que acompanhariam os personagens da linha. Nestes quadrinhos, a história de He-Man era um pouco diferente daquela do desenho: o mundo de Etérnia - que então não era um planeta, mas apenas um "mundo", como a Terra-Média de Tolkien ou a Era Hiboriana de Conan - havia acabado de passar por uma grande guerra, que devastara todas as suas civilizações. Aproveitando o caos e o processo de reconstrução, um demônio de outra dimensão, chamado Esqueleto, invadiu Etérnia, e planeja reunir as duas metades da Espada do Poder, o que o permitiria entrar no Castelo de Grayskull, a maior fonte de poder e sabedoria de Etérnia, e dominar todo o mundo. Para impedir Esqueleto, a Feiticeira, guardiã do Castelo de Grayskull, pede a ajuda de He-Man, um bárbaro errante, e em troca lhe confere armas mágicas e força sobre-humana. A missão de He-Man, então, passa a ser a de impedir Esqueleto de obter a tal Espada do Poder a qualquer custo.

A série de brinquedos vendeu bem, e foi garantida uma segunda série em 1982. Os quadrinhos desta segunda série revelaram que Etérnia era na verdade um reino, governado pelo Rei Randor e pela Rainha Marlena. Na terceira série de brinquedos, em 1983, ficou determinado que He-Man possuía uma identidade secreta, a de Príncipe Adam, filho dos governantes de Etérnia.

Com o sucesso dos brinquedos, a DC Comics decidiu produzir uma série regular em quadrinhos, a partir de 1982. O sucesso dos quadrinhos, por conseguinte, levou à produção de uma série animada, pelos estúdios Filmation, que durou duas temporadas e teve 130 episódios. O desenho de He-Man foi um grande sucesso, apesar de contar com sérias restrições orçamentárias: apenas cinco dubladores faziam as vozes de todos os personagens (Linda Gary, por exemplo, fazia a voz de todas as personagens femininas), e a animação era considerada pobre e precária em comparação com outros desenhos da época. Ainda assim, He-Man foi um divisor de águas ao enfrentar as Associações de Pais da época e colocar como personagem principal um bárbaro seminu que resolve seus problemas na base da porrada (embora, para não criar ainda mais problemas, He-Man nunca mate ninguém com sua espada), e também por ter sido a primeira série animada a ter uma linha de brinquedos à venda simultaneamente. Este último fato gerou muitos protestos no Reino Unido, onde uma lei proibiu a veiculação de comerciais dos brinquedos de He-Man durante o desenho, para que as crianças não fossem "influenciadas". Para contrabalançar o uso de violência e o consumismo causado pelos brinquedos, a Filmation decidiu, ao final de cada episódio, colocar um pequeno segmento tipo "moral da história", onde os heróis mostravam às crianças o que era certo ou errado, e quais as conseqüências dos atos de quem fazia o mal.

He-Man no desenho originalA história do desenho é diferente da dos quadrinhos originais, mas bastante parecida com a dos quadrinhos da DC. Nele, um misterioso feiticeiro de nome Esqueleto reúne um bando de vilões e decide que irá invadir o Castelo de Grayskull, o que lhe dará poder infinito e possibilitará que ele domine Etérnia. O Castelo é protegido pela Feiticeira, um ser místico de poder infinito, mas que só pode utilizá-lo dentro dos muros do castelo, e só consegue sair dele se estiver transformada em falcão. Para impedir que o Esqueleto consiga dominar o mundo, a Feiticeira confere poderes mágicos ao Príncipe Adam, filho dos governantes de Etérnia, ativados por sua Espada do Poder: ao erguê-la e dizer as palavras mágicas ("Pelos poderes de Grayskull!"), ele se transforma em He-Man, o homem mais forte do Universo. A identidade de He-Man é secreta e, além da Feiticeira, apenas três outros personagens a conhecem: o Mentor, comandante do exército de Etérnia, inventor e consertador de aparelhos de alta tecnologia, e treinador de combate de Adam (curiosidade: o brinquedo de Mentor não tem bigode, ele ganhou um bigode no desenho para parecer mais velho); Gorpo, um poderoso feiticeiro do mundo de Trolla, cujos poderes não funcionam muito bem em Etérnia, e acabou sendo adotado como bobo-da-corte; e Pacato, uma espécie de tigre falante e medroso, que atua como companheiro e animal de estimação de Adam, e que o Poder de Grayskull transforma no Gato Guerreiro, valoroso companheiro e montaria de He-Man.

Sendo o homem mais poderoso do Universo, He-man possui uma força incomparável, capaz até de levantar o próprio Castelo de Grayskull (sim, ele fez isso em um episódio). Ele pode causar terremotos socando o chão, vendavais com seu sopro, nunca se cansa, e dificilmente se deixa abater por coisas simples como descargas elétrica, raios mágicos, lava ou sopro de dragão. Aliás, sua Espada do Poder pode defletir qualquer coisa que esteja vindo em sua direção - até sopro de dragão. He-Man é muito ágil, pode pular incrivelmente longe, correr incrivelmente rápido, e girar sua espada tão rapidamente que cria ciclones com ela. Apesar de tanto poder, He-Man prefere derrotar seus oponentes através da inteligência ou usando suas próprias maldades contra eles, ao invés de espancando-os até a morte. He-Man tem um bom coração, e sempre ajudará aos que precisam, mesmo que isso cause a fuga dos vilões.

Sendo um desenho inspirado em uma linha de brinquedos, He-Man tem muitos aliados e uma quantidade ainda maior de inimigos. Entre seus aliados se destacam Teela, filha de Mentor, e a melhor guerreira do exército de Etérnia (e, na verdade, filha também da Feiticeira, embora somente Mentor saiba disso); Aríete, uma espécie de anão com uma armadura especial que transforma suas pernas em molas e sua cabeça em um poderoso aríete (e que, curiosamente, nos quadrinhos originais era um vilão, embora no desenho seja o herói mais atuante depois de He-Man, Mentor e Teela); Multifaces, um ciborgue que pode mudar sua face para a de um robô, se tornando mais inteligente porém mais fraco, ou para um monstro, se tornando mais forte e mais estúpido; Stratos, da raça do reino de Avion, capaz de voar e lançar raios pelas mãos; Abelhão, um homem-abelha da raça dos Andrenides; Mekanek, que tem um pescoço robótico que pode se esticar a qualquer distância, e atua como uma espécie de batedor; o Homem-Musgo, capaz de controlar plantas telepaticamente; Fisto, que possui um enorme punho de ferro, e só não é mais forte que He-Man; Roboto, um robô guerreiro; Ciclone, que pode gerar tufões girando sua cintura ou braços; e Zodak, uma espécie de policial espacial que toma conta do quadrante de Etérnia (que também era vilão nos quadrinhos originais, mas mudou de lado no desenho).

Esqueleto no desenho originalO principal oponente de He-Man é o Esqueleto, um feiticeiro aparentemente invulnerável, e capaz de fazer vários efeitos mágicos com seu cetro. O poder de Esqueleto, porém, não era tão vasto quanto o da Feiticeira, e para suprir suas deficiências ele recrutou um bando de vilões. Os mais notáveis eram a feiticeira Maligna, com toda uma gama de feitiçarias muito úteis aos propósitos do mal, e também a mais inteligente dos vilões; o Homem-Fera, capaz de controlar qualquer animal selvagem; Triclope, que tinha três olhos, cada um com um tipo de visão, e era especialista em alta tecnologia (e que, em contrapartida, nos quadrinhos originais era um dos heróis, mas foi feito vilão no desenho porque os produtores o achavam muito parecido com He-Man); Mandíbula, um ciborgue especialista em armas, com um braço mecânico que podia substituir por diferentes tipos de armamentos, e uma boca mecânica capaz de mastigar qualquer coisa; Aquático, um ser submarino capaz de respirar sob a água e controlar a vida marinha; Lagartauro, uma criatura reptiliana de cauda superforte; Multi-Garras, uma espécie de homem-caranguejo; Kobra Khan, um homem-cobra capaz de cuspir gás sonífero; Mal-em-Dobro, um vilão de duas cabeças que nem sempre concordam entre si; Spikor, cujo corpo é coberto de espinhos; Webstor, que tem poderes de aranha, como escalar paredes e lançar teias; e Lança-Língua, um homem-lagarto que usa sua língua como chicote; além de outros menos cotados, como o homem-morcego Batros, o homem de gelo Gelão, o homem-dragão Garras Aduncas (?) e o superforte Violento. Esqueleto ainda tinha seu próprio tigre de estimação, Panthor. A base dos vilões era a Montanha da Serpente, uma antiga construção no Hemisfério Negro de Etérnia.

Muita coisa do desenho de He-Man era claramente inspirada em Conan, como a própria Montanha da Serpente. Um fato curioso é que Etérnia aparentemente é um mundo de tecnologia avançada, mas ainda assim a magia é muito presente, e grande parte do mundo permanece inexplorada. No desenho, Etérnia é claramente um outro planeta, e provavelmente as histórias se passam em nosso futuro, já que a Rainha Marlena veio da Terra em uma nave espacial que caiu lá por acidente. Outra curiosidade é que o desenho não se preocupa muito com questões importantes como por que a Feiticeira escolheu Adam para ser He-Man, de onde veio o Esqueleto, ou o que tem dentro do Castelo de Grayskull. Mas talvez a maior curiosidade do desenho seja que dentre seus roteiristas estavam J. Michael Straczynski, que viria a ser criador de Babylon 5; e Paul Dini, que se tornaria produtor do desenho do Batman da década de 90.

O desenho de He-Man foi cancelado em 1985, mas os quadrinhos continuaram a ser publicados até 1987. Muitos fatos novos foram revelados nestes novos quadrinhos, como o fato de Esqueleto ter tido um mestre, Hordak, que foi derrotado e banido de Etérnia; a Montanha da Serpente ter sido construída sobre um antigo local de culto do Povo-Serpente, uma raça que tentou dominar Etérnia há muitos anos; e até mesmo a possibilidade do Esqueleto vir a ser Keldor, o irmão mais novo do Rei Randor, desaparecido em combate. A maior parte dos segredos de Etérnia seria revelada na minissérie em três partes The Power of Grayskull, onde He-Man foi transportado para antes da Guerra que devastou o planeta. Infelizmente, só a primeira parte desta minissérie foi lançada antes do cancelamento, então continuou tudo na mesma. A última série de brinquedos de He-Man foi lançada em 1988, quando o herói entrou em um longo hiato.

He-Man no desenho novoPor enquanto eu vou pular este hiato e ir direto a 2002, quando o Cartoon Network decidiu fazer uma nova série de He-Man. Diferentemente das demais "atualizações" de desenhos dos anos 80 (como os das Tartarugas Ninja ou o dos Transformers), este eu até achei muito bom. Os produtores quiseram fazer o desenho o "mais oficial" possível, então, apesar de mudar bastante coisa, mantiveram-no extremamente fiel aos quadrinhos e ao desenho original, aproveitando para preencher alguns buracos. Nesta nova série, o Esqueleto é Keldor, um feiticeiro renegado (que não é irmão de Randor), que se transforma em Esqueleto após sofrer um acidente; o Príncipe Adam e Teela são adolescentes e rivais; Adam não é simplesmente um He-Man menos moreno, o que torna menos provável que alguém descubra sua identidade, e foi escolhido para ser He-Man por uma profecia dos Anciãos, antigos governantes de Etérnia; Pacato não fala; Aríete não é um anão, mas um homem grande e gordo; Kobra Khan não é aliado de Esqueleto, mas sim um espião do Povo-Serpente, e cospe ácido ao invés de sonífero; e os poderes de Gorpo pararam de funcionar satisfatoriamente porque ele perdeu sua varinha. E dentro do Castelo de Grayskull está armazenada a energia dos Anciãos, e é por isso que Esqueleto quer invadi-lo, já que esta energia elevaria seu poder a um nível inimaginável.

O desenho de 2002 tem uma continuidade bem amarrada, e a maioria dos heróis vai se unindo a He-Man após ele ajudá-los com algum problema pessoal. Além disso, muitos episódios contam fatos do passado de Etérnia, como a derrota de Hordak e a criação do Hemisfério Negro. O desenho teve duas temporadas, a primeira com 26 episódios e a segunda com 13, sendo que na segunda os vilões principais eram o Povo-Serpente. O desenho parou de ser produzido em 2003, e não há previsão de que retorne. Acompanhando o desenho, duas novas séries de brinquedos da Mattel foram lançadas, uma em 2002 e uma em 2003. Um fato curioso é que, por razões de marketing envolvendo os brinquedos, a versão brasileira do desenho manteve os nomes de todos os personagens, exceto da Feiticeira, em inglês. A Image Comics também lançou uma nova série em quadrinhos inspirada no novo desenho, cancelada em 2004.

He-Man também teve dois spin-offs. O primeiro, de 1985, foi o desenho da She-Ra. She-Ra, na verdade, era a Princesa Adora, irmã gêmea do Príncipe Adam, que vivia no Planeta Etéria, vizinho de Etérnia. Após Hordak ser derrotado em Etérnia, ele foi banido para Etéria, onde reuniu alguns vilões e dominou o lugar. Adora faz parte de uma Resistência, que tenta livrar o mundo do governo do vilão. Para auxiliá-la, a Feiticeira lhe deu poderes mágicos semelhantes aos de He-Man. O desenho de She-Ra era claramente direcionado às meninas, sendo mais infantil, colorido e miguxinho que o de He-Man. Evidentemente, She-Ra também tinha uma linha de brinquedos relacionada ao desenho. O desenho teve duas temporadas, em 1985 e 1986, e um total de 93 episódios, sendo que alguns deles tiveram a participação especial de He-Man.

As Novas Aventuras de He-ManO segundo spin-off de He-Man estreou em 1989, e foi ainda mais bizarro. Produzido pela DIC, As Novas Aventuras de He-Man colocaram o herói no planeta Primus, governado pelo Mestre Sebrian, e sob perigo de ser invadido pelo Carrasco e seus Mutantes. Apesar de teoricamente ser uma continuação do desenho original, a história se passa milhares de anos no futuro. He-Man foi levado até lá porque o Esqueleto também viajou para o futuro e se uniu ao Carrasco. Após chegar a Primus, He-Man se une aos Guardiães da Galáxia, e passa a combater os vilões. A qualidade do desenho era melhor que a do original, mas era cômico demais, praticamente todo passado no espaço, e com elementos de ficção científica, ao invés de magia e fantasia, e os únicos personagens do desenho original eram He-Man, a Feiticeira e Esqueleto, e assim mesmo com visuais bem diferentes dos originais. A série teve três temporadas e três linhas de brinquedos, entre 1989 e 1991, e foi relativamente bem-sucedido, embora os fãs do original torcessem um pouco o nariz.

E, já que estamos falando em bizarrices, He-Man teve um filme, Mestres do Universo, lançado em 1987, com Dolph Lundgreen no papel principal. Mas, se vocês não se importam, eu vou me abster de comentar.
Ler mais

domingo, 12 de fevereiro de 2006

Escrito por em 12.2.06 com 0 comentários

Tetris

De todos os fenômenos sociais, talvez o mais intrigante seja o sucesso, já que não existe uma fórmula para alcançá-lo. Por mais que se lancem blockbusters, sempre haverá um pequeno filme independente que renderá milhões na bilheteria. Por mais que as rádios toquem as músicas "da moda", sempre vai aparecer uma desconhecida que vai grudar na cabeça das pessoas e virar um fenômeno. Por mais que os desenvolvedores de games gastem bilhões em pesquisa para inovações, sempre vai acabar surgindo um bem mais simples que vai arrebatar milhares de gamemaníacos. E aí sempre vai ter aquele que pensou "mas é tão simples, como eu não pensei nisso antes?".

Um bom exemplo deste último caso é o jogo Tetris. Tetris não tem gráficos de ultimíssima geração, cut scenes cinematográficas, vozes digitalizadas, sangue, sexo, violência, nem ocupa quatro CDs. Ainda assim, é praticamente impossível encontrar um indivíduo que não conheça Tetris, já que é um dos jogos mais vendidos do mundo, e com certeza o mais copiado. Bem, talvez não se você considerar que todos os jogos de luta são cópia de Street Fighter, ou que todos os de ação em primeira pessoa são cópia de Doom. Mesmo assim, devem existir umas seis milhões de versões de Tetris, sendo que umas mil delas vêm no mesmo Brick Game vendido em camelôs.

A história de Tetris é talvez tão simples quanto a mecânica do jogo: O ano era 1985, e seu criador, Alexei Pazhitnov, trabalhava na Academia de Ciências de Moscou, à época na União Soviética. Pazhitnov gostava muito de um passatempo de jornal não muito popular no Brasil, mas bastante difundido por lá, chamado Pentominó, um jogo simples, mas que exige muito raciocínio: É apresentado um diagrama quadriculado, e um determinado número de peças, compostas de cinco quadrados cada (daí o nome Pentominó, já que pente, em grego, significa "cinco"). O objetivo é encaixar todos os Pentominós apresentados dentro do diagrama proposto, sem sobrar nenhum quadrado em branco, nem nenhuma "perninha para fora".

Pazhitnov pensou em criar um jogo de Pentominós para computadores, mas depois acabou desenvolvendo esta idéia, e chegou à conclusão que seria muito mais desafiador se os Pentominós caíssem do alto da tela e fossem se agrupando no fundo, e o jogador tivesse como girá-los para que se encaixassem. Quanto mais peças se encaixassem perfeitamente, mais pontos o jogador faria. Só havia um problema nesta brilhante idéia: O número de Pentominós diferentes - 18, se você contar que alguns deles podem ser "espelhados" - era muito grande, o que resultava em um algoritmo enorme e complicadíssimo. Pazhitnov decidiu, então, não utilizar Pentominós, mas sim Tetrominós, seus "primos" compostos de apenas quatro blocos cada (pois tetra significa "quatro"). Como o número de Tetrominós era de apenas 7, o jogo se tornou possível. Em "homenagem" às pecinhas, Pazhitnov escolheu o nome Tetris para sua criação. Tivesse ele usado os Pentominós, talvez o jogo se chamasse Pentis.

Aqui eu gostaria de abrir um parêntese para um dado curioso: Pentominós e Tetrominós fazem parte de um grupo de elementos utilizados em quebra-cabeças e jogos chamados Poliominós, do qual também faz parte... o Dominó. Que tem esse nome porque é composto de dois blocos. Quanto mais blocos o Poliominó tiver, maior será o número de peças diferentes. Assim, só existe um tipo de Dominó (se você não considerar os pontinhos pintados neles, óbvio), mas três de Trominós, sete Tetrominós, 18 Pentominós, 52 Hexominós, 162 Heptominós, 553 Octominós, e por aí vai.

Mas voltando ao que interessa, Tetris estava criado, e recebeu sua primeira versão comercial ainda em 1985, adaptada para o PC por Vadim Gerasimov. A mecânica do jogo é bastante simples: Do alto da tela "caem", em ordem aleatória, sete tipos diferentes de blocos, apelidados de I, T, O, L, J, S e Z, de acordo com suas formas. Na verdade, apenas cinco deles são "diferentes", já que L é um "espelho" de J, e S é um espelho de Z. Cada bloco, além de um formato, tem uma cor diferente, para facilitar a visualização. Estas cores mudam de acordo com a versão, mas na original eram vermelho, cinza, ciano, amarelo, magenta, azul e verde, respectivamente. O jogador só tem quatro teclas à sua disposição: Duas delas movem as peças para a esquerda e para a direita, uma que acelera a queda das peças, e uma que gira as peças no sentido horário.

Uma vez que a peça alcance a parte de baixo da tela, ela fica lá. O objetivo é encaixar as peças umas nas outras, para que elas formem linhas horizontais completas, sem nenhum "buraco". Cada vez que uma linha destas é completada, ela some da tela, fazendo com que todas as peças acima dela "caiam" um nível, e o jogador ganhe um determinado número de pontos. É possível formar duas, três, ou até quatro linhas de cada vez, que valem muito mais pontos. No Tetris original, quando as peças caem após uma linha sumir, elas não se encaixam em eventuais buracos da linha de baixo, o que causa uma incongruência gravitacional. Em algumas versões, peças das linhas de cima preenchem buracos das de baixo quando uma linha some, possibilitando "reações em cadeia", que valem muitos pontos.

Uma partida de Tetris acaba quando alguma peça alcança o topo da tela, de onde as peças caem. Para um jogador experiente, isto pode demorar horas, e teoricamente seria até possível ficar jogando para sempre. Para impedir isso, a cada determinado número de linhas removidas, a velocidade da queda das peças aumenta, o que torna mais difícil encontrar um lugar apropriado para encaixá-las.

Ao contrário do que muita gente pensa, Tetris não é um jogo de domínio público. Por outro lado, Pazhitnov também não ficou biliardário com sua criação. Isto porque, desde sua criação, o jogo esteve envolvido em várias pendengas judiciais. Depois que Gerasimov adaptou o jogo para PC, ele se espalhou pela Rússia e por alguns outros países da URSS, se tornou uma verdadeira febre, e acabou chegando à Hungria, onde foi "descoberto" pela softhouse britânica Andromeda. A Andromeda tentou comprar os direitos do jogo de Pazhitnov, mas, devido a um prazo contratual, vendeu-os à americana Spectrum Holobyte antes mesmo de comprá-los. A Spectrum lançou o jogo nos EUA em 1986, onde vendeu milhões, e se tornou um sucesso instantâneo. Como não conseguiu os direitos de Pazhitnov, a Andromeda acabou comprando-os dos húngaros que estavam distribuindo o jogo na Hungria - que não tinham capacidade para vendê-los - e registrou o jogo em 1987.

O jogo agora estava vendendo que nem água nos EUA e Europa, e Pazhitnov ainda não havia visto um centavo. Então o governo soviético, em 1988, fundou a empresa Elektronorgtechnica (ou Elorg), que tentaria reaver os direitos do jogo, e devolvê-los a seu criador. Mesmo após a criação da Elorg, a Andromeda continuava vendendo e distribuindo os direitos como bem entendia. Em 1989, um total de seis softhouses diferentes já desenvolviam o jogo para diferentes computadores e consoles. Para não ficar só lutando contra elas, a Elorg decidiu criar uma versão do jogo para arcades, e licenciou a mesma para a Atari. Além disso, a Elorg deu permissão à Nintendo para adaptar o jogo para NES e Game Boy. Finalmente Pazhitnov começaria a ver algum dinheirinho entrando.

A softhouse Tengen, porém, ignorando qualquer direito autoral, criou sua própria versão do jogo, a qual chamou picaretamente de TETЯIS (e essa letra Я nem tem som de R, mas de "ya"). A Nintendo acabou processando a Tengen, e em 1993 a justiça dos EUA determinou que TETЯIS fosse tirado do mercado. Ainda assim algum estrago foi causado por esta história, já que até hoje muita gente pensa que a grafia correta do nome do jogo original é TETЯIS.

Apesar das versões da Nintendo terem vendido mais de três milhões de cópias, Pazhitnov ganhou pouco dinheiro, já que os direitos foram licenciados à Nintendo pela Elorg, que por sua vez os repassava a Pazhitnov. Cansado desta situação, em 1996 ele e um amigo americano, Henk Rogers, fundaram a Tetris Company LLC. Eles conseguiram o registro do nome "Tetris", e desde então lutam para impedir que "clones" do jogo sejam lançados por outra softhouse que não a Blue Planet, também de propriedade dos dois. O principal obstáculo a isso é que, segundo as leis dos EUA, games não são passíveis de copyright, apenas de patente. Em outras palavras, ninguém pode fazer um jogo idêntico ao Tetris, mas um parecido não pode ser proibido pela Tetris Company LLC.

Aparentemente, o sucesso não pode ser previsto. Mas alguém ganhar milhões em cima de uma idéia sua enquanto você não vê um centavo é quase certo.
Ler mais

domingo, 5 de fevereiro de 2006

Escrito por em 5.2.06 com 0 comentários

King Kong

Todo mundo conhece o King Kong. Mesmo antes da refilmagem dirigida por Peter Jackson, era quase impossível encontrar uma pessoa que não soubesse, pelo menos, que ele é um gorila gigante. É claro que eu, praticamente desde que me entendo por gente, também já conhecia o personagem, mas o primeiro filme que vi com ele foi King Kong vs. Godzilla, que passou em algum canal quando eu tinha uns dez anos, já na época em que eu era fã do Godzilla. Desde então, fiquei com vontade de conhecer o King Kong "original". Uns dois anos depois, consegui assistir à refilmagem de 1976, que passou na Sessão da Tarde, mas o original mesmo eu só consegui assistir aos dezesseis anos. Ou quase, já que a cópia que tinha na locadora era colorizada por computador. Seja como for, foi depois de assistir a esta versão que eu me tornei fã também do macaco gigante e, desde então, de seus sete filmes "oficiais", eu consegui ver seis.

Enfim, como vocês devem ter adivinhado, o post de hoje é sobre King Kong. Eu ia fazer esse post logo depois de ter assistido ao King Kong mais recente no cinema, mas deu preguiça, depois eu esqueci, e só lembrei agora, quando procurava um assunto para essa semana. Mas não faz mal, antes tarde do que nunca.

O King Kong original é da idade da minha avó: foi lançado em 1933, pelos falecidos estúdios RKO, dirigido por Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, filmado em preto-e-branco (até porque não existia Technicolor), e com monstros em stop-motion, aquele método de animação que exige anos de filmagem para cada dois segundos de filme, movendo bonequinhos e filmando-os em diferentes posições quadro-a-quadro. Além de ser um ótimo filme de ação, King Kong é uma pérola do stop-motion, com uma animação surpreendente para um filme tão antigo. A história também é bem desenvolvida para um filme de monstros da década de 30, e envolve o cineasta Carl Denham (Robert Armstrong), especialista em filmar animais em cenários exóticos, partindo para uma empreitada ambiciosa: filmar na Ilha da Caveira, um local ainda não descoberto pelo homem, do qual tomou conhecimento graças a um mapa que chegou às suas mãos através de um marinheiro que encontrou a ilha por acidente. Impressionado pelo relato do marinheiro de que na ilha havia um monstro gigantesco, Denham decidiu fazer do local o cenário para seu mais recente filme. Para isso, porém, ele precisa de uma atriz, mas nenhuma aceita partir em uma viagem de navio a um local longínqüo, então ele recruta uma moça pobre, de nome Ann Darrow (Fay Wray), que está desempregada devido à Grande Depressão.

Durante a viagem (na qual apenas quem sabe que o destino é a Ilha da Caveira são Denham e o Capitão do navio), Ann e o imediato, Jack Driscoll (Bruce Cabot), acabam se desentendendo - principalmente pela superstição dele de que levar mulheres em viagens marítimas dá azar - e por fim se apaixonando. Ao chegar à ilha, a tripulação descobre que ela é habitada por uma tribo selvagem, que oferece sacrifícios humanos a alguma espécie de monstro contido atrás de uma muralha gigantesca. Os nativos decidem fazer de Ann o sacrifício, e ela é levada por Kong, o gorila gigante que os nativos cultuam como se fosse um deus. A tripulação então domina os nativos e atravessa a muralha atrás de Ann, enfrentando um estegossauro, um apatossauro, e até mesmo o próprio Kong.

Enquanto a operação resgate está em andamento, Kong, que nunca havia visto uma loira, se afeiçoa a Ann, e decide ficar amigo dela ao invés de matá-la. Ele até mesmo a salva de um tiranossauro, de um pterodáctilo e de uma cobra gigante. Enquanto Kong luta com a cobra gigante, Driscoll consegue salvar Ann, sendo perseguido pelo gorila. Denham então tem a brilhante idéia de capturar o monstro e levá-lo para Nova Iorque, fazendo fortuna com sua exibição.

Em Nova Iorque, porém, as coisas não saem conforme o esperado: enquanto Kong está em exibição, Ann e Driscoll anunciam seu noivado. Kong acha que os flashes das câmeras dos jornalistas são disparos de armas de fogo que matarão Ann, e se livra de suas correntes, deixando um rastro de destruição e morte pelas ruas da cidade. Ann e Driscoll fogem, mas por fim o gorila consegue capturar a mulher, e a leva aos berros para o topo do Empire State Building, onde é atacado e derrubado por biplanos, encontrando a morte após uma queda de centenas de metros.

Como vocês podem ver, uma obra prima, que bateu recordes de público e só não ganhou o Oscar de Melhores Efeitos Especiais porque este ainda não existia. Além de um enorme sucesso, King Kong se tornou um ícone: mesmo quem nunca viu o filme conhece pelo menos uma das cenas principais, mais notadamente a luta de Kong contra os biplanos no alto Empire State. King Kong também é um dos mais parodiados e citados filmes de todos os tempos, ganhando referências em outros filmes, programas de TV, videogames, quadrinhos e desenhos animados.

O sucesso de King Kong à época de seu lançamento levou a RKO a produzir uma continuação quase instantânea, chamada O Filho de Kong, o único que eu nunca consegui assistir, também lançado em 1933, dirigido por Ernest B. Schoedsack. Cheio de dívidas por ter sido processado pela Prefeitura de Nova Iorque por causa da destruição causada por Kong, Denham (novamente interpretado por Robert Armstrong) embarca no primeiro navio que encontra. Após um motim, Denham e alguns amigos são levados até a Ilha da Caveira e abandonados lá. Enquanto tentam sobreviver, eles descobrem que Kong possuía um filho, que além de tudo é albino. Juntos, os humanos e o filho de Kong vivem incríveis aventuras. Ou seja, diante do original, era quase um filme infantil, e teve uma recepção bem pobre, apesar de hoje em dia já ter alguns fãs.

Na década de 60, os estúdios Toho, responsáveis pelos filmes de Godzilla, compraram os direitos de Kong, e lançaram o terceiro filme do macaco, King Kong vs. Godzilla (que, por uma estranha coincidência, também era o terceiro filme de Godzilla), de 1962, dirigido por Ishiro Honda. Na verdade, este filme seria produzido por um estúdio americano, e Kong enfrentaria uma versão gigante do Monstro de Frankenstein. Graças aos Céus, quando a Toho se interessou e comprou o roteiro, substituiu Frank pelo lagartão. Este não é o único fato curioso sobre este filme: por exemplo, Godzilla tem sessenta metros de altura, e Kong apenas sete metros e meio, mas no filme eles parecem ter a mesma altura. Além disso, este foi o primeiro filme tanto de Kong quanto de Godzilla a ser filmado em cores, e Kong desta vez era um ator vestido com uma fantasia, não um boneco em stop-motion.

A história é a seguinte: um grupo farmacêutico, tomando conhecimento da Ilha da Caveira, vai até lá e captura Kong para servir de garoto-propaganda de sua marca no Japão. Enquanto Kong está por lá, Godzilla, que havia sido aprisionado no gelo no final de seu segundo filme, se liberta e ruma para destruir Tóquio. Nada mais normal, então, do que os dois monstros se enfrentarem em uma batalha épica. O tom do filme é satírico, quase comédia, em uma profunda crítica ao capitalismo desenfreado e à invasão de marcas estrangeiras no Japão.

Embora muita gente ache que Kong representa os EUA, e Godzilla o Japão, pode-se dizer que é justamente o contrário, pois, devido a seus poderes radioativos, em seus primeiros filmes Godzilla representava justamente os EUA, que atacaram o Japão com bombas nucleares durante a Segunda Guerra. Godzilla é, inclusive, o vilão do filme, e a população torce para que Kong vença e o expulse de lá.

Mas a maior curiosidade sobre este filme vem do fato de que, para ser lançado nos EUA, ele teve de ser muito editado, praticamente acabando com o tom satírico, e sendo transformado em um filme sério. Isto levou à crença de que existem duas versões, sendo que na japonesa o Godzilla "vence", e Kong "vence" na americana. Na verdade, o final de ambas é idêntico: ambos os monstros entram no mar, e Kong sai nadando para a Ilha da Caveira, enquanto Godzilla desaparece. Como ele sempre nada submerso, porém, não se pode afirmar que ele também não tenha saído nadando para algum lugar.

King Kong vs. Godzilla teve uma bilheteria gigantesca, ficou anos em cartaz, e é até hoje o filme de Godzilla de maior público na História. Isso levou a Toho a lançar uma continuação em 1967, King Kong 2 (cujo título original é King Kong Contra-Ataca, lançado nos EUA como King Kong Escapa), novamente dirigido por Ishiro Honda, desta vez em co-produção com os estúdios americanos Rankin/Bass. Neste filme, um cientista louco de nome Dr. Who (Eisei Amamoto) cria um Kong mecânico, chamado Mechanikong, para poder cavar no Pólo Norte atrás de um elemento altamente radioativo chamado Elemento X. O robô não consegue executar sua tarefa, então o cientista tem a brilhante idéia de ir até a Ilha da Caveira e hipnotizar o Kong verdadeiro para que ele faça o serviço. Após algum tempo, Kong escapa e ruma para Tóquio, então Dr. Who manda Mechanikong seqüestrar a Tenente Susan Watson (Linda Miller), por quem Kong se apaixona, para atraí-lo para uma armadilha. No final do filme, Mechanikong escala a Tokyo Tower com Susan na mão, e luta contra Kong. Como se isso já não fosse o bastante, um dinossauro chamado Gorosaurus também resolve se enfiar na briga. O filme é tão trash que chega a ser engraçadíssimo.

King Kong voltaria a solo americano na década de 70, quando o produtor Dino de Laurentiis decidiu fazer uma refilmagem. "Releitura", porém, seria um termo mais correto, já que esta versão pouco tem a ver com a original, sendo inclusive ambientado na década de 70, e não na década de 30. Lançado em 1976, produzido pela Paramount, e dirigido por John Guillermin, o filme começa quando um executivo da firma Petrox Oil, Fred Wilson (Charles Grodin), descobre a Ilha da Caveira através de leituras infravermelhas feitas por satélite, que acusam uma grande quantidade de petróleo em seu subsolo. Ele então monta uma expedição para ir até lá com um navio petroleiro, que é invadido pelo paleontólogo especializado em primatas Jack Prescott (Jeff Bridges), que planeja interromper a expedição devido a um relato de um explorador que mencionou o rugido de uma grande fera ao desembarcar na tal ilha. Durante a viagem, eles encontram a náufraga Dwan (Jessica Lange), uma atriz que estava a bordo de um iate que explodiu, matando a todos menos ela. Dwan e Prescott, como era de se esperar, acabam se apaixonando.

Ao chegar na ilha, Wilson descobre que ela não tem petróleo, mas sim uma tribo se selvagens que cultua uma espécie de deus que vive do outro lado de uma gigantesca muralha. Os nativos decidem oferecer Dwan em sacrifício para este deus, que se revela ser Kong, um gorila gigante. Kong pega Dwan e entra na mata, enquanto Prescott, acompanhado de alguns funcionários da Petrox, vai atrás para resgatá-la. Enquanto Wilson planeja capturar Kong para ganhar dinheiro já que não descobriu petróleo, Kong acaba se apaixonando por Dwan, a única a tratá-lo com carinho em muitos anos. Enquanto Kong luta contra uma cobra gigante, Prescott resgata Dwan, e foge com Kong em seu encalço. Ao chegar na praia, Kong é capturado pelos funcionários da Petrox, e levado para Nova Iorque.

Enquanto é exibido em uma praça como uma aberração, Kong se enfurece com os jornalistas, e se livra de sua cela, deixando o usual rastro de destruição e morte pela cidade. Prescott e Dwan fogem, mas Kong vai atrás e seqüestra a moça, escalando uma das torres do World Trade Center. Após ser atacado por lança-chamas, Kong salta para a outra torre, onde é metralhado por helicópteros. Dwan ainda tenta salvá-lo, mas Kong cai para a morte.

Embora claramente inferior ao original, este filme dá para o gasto. Kong, em algumas cenas, é "interpretado" por Rick Baker, o famoso técnico de efeitos especiais. Em outras, como quando aparece só o rosto ou só o braço, é um animatronic. Na época do lançamento, foi um grande sucesso, e recebeu muitas críticas favoráveis, ganhando uma "versão estendida" em 1982.

Mas talvez o mais curioso sobre a versão de 1976 é que ela tem uma continuação, produzida pela mesma equipe, e lançada dez anos depois, em 1986. King Kong 2 (cujo título original é King Kong Vive) começa exatamente de onde o outro parou, com cientistas pegando o corpo de Kong e colocando-o em coma induzido para que ele não morra. Após dez anos, porém, Kong precisa urgentemente de uma transfusão de sangue, ou morrerá. Milagrosamente, é encontrada uma gorila gigante fêmea em uma floresta tropical, e, com seu sangue e um coração mecânico, Kong vive novamente. Infelizmente, ele escapa do complexo médico, destruindo tudo em seu caminho, e tentando procriar com a gorila fêmea. Com razão, este é considerado o pior de todos os filmes de Kong, e talvez a única coisa boa nele é que era estrelado por Linda Hamilton, que dois anos antes tinha interpretado a Sarah Connor do Exterminador do Futuro.

A mais recente versão de King Kong é a do ano passado, do diretor Peter Jackson, que conseguiu realizá-la graças ao prestígio que obteve após a trilogia do Senhor dos Anéis. Tendo assistido ao King Kong original aos nove anos de idade, Jackson sempre sonhou em fazer sua própria versão do filme. Talvez por isso, essa versão é extremamente fiel à original, tendo apenas mudado uma coisinha ou outra, e acrescentado alguns novos personagens. Talvez o mais curioso seja que ela tem 187 minutos de exibição, enquanto a original tem apenas 100 minutos.

Produzido pela Universal Pictures, o filme é ambientado na década de 30, e a história é essencialmente a mesma, com algumas modificações, como Carl Denham (Jack Black) não saber que Kong existe antes de chegar à ilha, e decidir capturar Kong apenas depois que seu maravilhoso filme é arruinado; Jack Driscoll (Adrien Brody) é um famoso escritor e dramaturgo, e não o imediato do navio; e Ann Darrow (Naomi Watts) é uma atriz talentosa, que fica desempregada porque seu teatro fecha, e conquista Kong com truques teatrais, e não por sua beleza. Ann, inclusive, também se afeiçoa a Kong nesta versão, chegando a tentar salvar sua vida no final do filme. Fora isso, o filme tem seqüências de ação mais longas, um melhor desenvolvimento dos personagens secundários, como a tripulação do navio e a equipe de filmagem, e a infame cena em que a equipe de resgate é atacada por insetos gigantes, que fazia parte do filme original mas foi cortada antes do lançamento. Todas as cenas clássicas estão presentes, como a luta de Kong contra um tiranossauro, e o final onde ele enfrenta biplanos no alto do Empire State Building. Muitos dos diálogos do filme, como o final, também são idênticos, e outros são "homenagens" ao filme original. Kong desta vez é totalmente criado em computador, modelado sobre os movimentos do ator Andy Serkis, que estudou o comportamento dos gorilas em Ruanda para se preparar para o papel.

Talvez a maior prova de que King Kong seja um ótimo filme seja justamente a quantidade de versões e refilmagens que já foram feitas até hoje. Mesmo sendo o vilão do filme de 1933, Kong se tornou tão popular que na versão de 2005 ele é o herói. Maior sucesso para um gorila gigante, não há.
Ler mais