domingo, 4 de junho de 2006

Escrito por em 4.6.06 com 0 comentários

Fórmula 1 (I)

Semana passada, enquanto eu escrevia sobre Indianápolis, percebi uma coisa curiosa: apesar de adorar Fórmula 1, nunca escrevi aqui sobre ela, exceto por um post meio genérico e meio sonolento há uns três anos. Como eu estou sempre procurando por assunto mesmo, achei que seria uma boa fazer uma série de posts sobre a história da categoria. Hoje vamos ter o primeiro. Os demais virão com o tempo, intercalados com mais posts sobre outros assuntos, como eu estou fazendo com os das Olimpíadas. Apertem os cintos!

1950-1959


O primeiro Campeonato Mundial de Fórmula 1 foi disputado em 1950, mas a história da categoria começa bem antes disso. Na verdade, as corridas de automóvel surgiram praticamente junto com os automóveis, tendo a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) sido fundada em 20 de junho de 1904. No início, porém, não existiam campeonatos, mas sim diversas provas "soltas", onde equipes inscreviam seus pilotos e lutavam por prêmios de acordo com sua classificação, como as 24 Horas de Le Mans e o Grand Prix de Paris, na França; o Troféu do Império Britânico, na Ilha de Man; a Coppa Acerbo, na Itália; e as 500 Milhas de Indianápolis, nos EUA. Nesta época, a palavra "Fórmula" já era usada pela FIA, não para denominar um campeonato, mas sim um conjunto de regras que os carros deveriam seguir. Assim, se um campeonato era disputado "pelas regras da Fórmula 2", os interessados em disputá-la deveriam construir seus carros de acordo com um manual da FIA chamado Fórmula 2.

A idéia de organizar um campeonato começou a florescer pouco antes da Segunda Guerra Mundial, quando as corridas européias, conhecidas como Grandes Prêmios, estavam no auge de sua popularidade. A idéia da FIA era atribuir pontos aos pilotos que as disputassem, oferecendo um prêmio especial ao piloto que somasse mais pontos no final do ano. A eclosão da Guerra, porém, levou ao cancelamento dos Grandes Prêmios durante sua duração, e ao adiamento da idéia. Somente em 1946 a FIA decidiu tentar colocar sua idéia em prática, definindo as regras de como os pontos seriam atribuídos. Como os Grandes Prêmios utilizavam fórmulas diferentes entre si, a FIA decidiu unificá-las, sob o nome de Fórmula A, mas como desde o início já estava acertado que o campeonato seria o evento mais importante da FIA, ele acabou sendo apelidado de Fórmula 1. Com o passar do tempo, o campeonato acabou sendo conhecido mais pelo apelido que pelo nome, que acabou sendo oficialmente mudado.

A primeira corrida realizada sob as regras da recém-criada Fórmula 1 foi o Grande Prêmio de Valentino, realizado em 1o de setembro de 1946 em Turim, Itália, e vencido pelo italiano Achille Varzi, pilotando um Alfa Romeo. Esta corrida ainda não valeu pontos para um campeonato, servindo mais como um teste. Após vários outros testes e reuniões da FIA, ficou acertado que somente equipes e pilotos inscritos para o campeonato, que começaria de fato em 1950, poderiam receber pontos. Uns vinte Grandes Prêmios eram disputados anualmente na Europa, mas a FIA selecionou apenas os seis mais famosos para seu primeiro Campeonato Mundial de Fórmula 1: Inglaterra, em Silverstone; Mônaco, nas ruas de Monte Carlo; Suíça, em Bremgarten; Bélgica, na estrada entre as cidades de Spa e Francorchamps; França, em Reims; e Itália, em Monza. A eles se somaram as 500 Milhas de Indianápolis, nos EUA, para um total de sete provas. Muitos pilotos que não estavam inscritos no campeonato de Fórmula 1 também disputaram estas provas, e muitos pilotos da Fórmula 1 disputaram provas que não eram do campeonato, de olho em seus prêmios.

Stirling Moss persegue Juan Manuel FangioAo todo, 18 equipes participaram do campeonato de 1950, inscrevendo mais de 50 pilotos, embora somente 22 tenham pontuado. Indianápolis foi um caso a parte: embora fizesse parte do campeonato, nenhum piloto inscrito a disputou, e a corrida não seguiu as regras da Fórmula 1. Nas demais corridas, os cinco primeiros pilotos a cruzar a linha de chegada ganhavam pontos, e os três piores de seus sete resultados eram descartados na soma final. Uma regra curiosa permitia que uma equipe começasse a corrida com um piloto e o substituísse, terminando-a com outro, o que fazia com que os pontos fossem divididos meio-a-meio pelos pilotos, independente de quem dirigisse mais voltas. Havia ainda um ponto extra para quem fizesse a volta mais rápida de cada corrida. No início, todos os carros de Fórmula 1 deveriam usar motores aspirados de 4 litros e meio, o que deu uma grande vantagem às equipes italianas, Alfa Romeo, Maseratti e Ferrari, que já estavam acostumadas com este tipo de motor. O primeiro campeonato, em 1950, foi vencido por Nino Farina, um italiano a bordo de um Alfa Romeo. Outros dois pilotos dirigindo Alfa Romeos, o argentino Juan Manuel Fangio e o italiano Luigi Fagioli, terminaram o campeonato na segunda e terceira posições. Na verdade, os Alfa Romeos ganharam todas as provas do campeonato à exceção de Indianápolis, e aparentemente iriam dominar a categoria.

Mas Enzo Ferrari, o fundador da equipe de mesmo nome, havia trabalhado para a Alfa Romeo, e estudando seu motor chegou a um novo, que colocou em seus carros vermelhos. O início da temporada de 1951 ainda viu um amplo domínio da Alfa Romeo, mas da metade para o fim os Ferrari começaram a incomodar, vencendo três corridas. Para a temporada de 1951, o regulamento continuou o mesmo, mas o GP de Mônaco foi substituído pelo da Alemanha, em Nürburgring, e o GP da Espanha, em Pedralbas, foi incluído, além de só se considerarem os quatro melhores resultados de cada piloto nas oito provas. O campeonato foi vencido por Juan Manuel Fangio, da Alfa Romeo, com seis pontos de vantagem sobre o italiano Alberto Ascari, da Ferrari. 1951 também marcou a estréia do primeiro brasileiro na Fórmula 1, Chico Landi, que correu o GP da Itália pela Ferrari. Landi ainda correria dois GPs em 1952, dois em 1953 e um em 1956, todos pela Maserati. Seu melhor resultado foi o 4o lugar no GP da Argentina de 1956.

A temporada de 1952 começaria com uma incrível surpresa: mesmo sendo uma equipe tão forte, a Alfa Romeo usava material considerado ultrapassado, com seus motores e equipamentos tendo sido construídos antes da Guerra, e um orçamento muito curto para poder desenvolvê-los. Sendo uma companhia estatal, a direção da Alfa pediu ao governo italiano que aumentasse seu orçamento para a temporada de 1952, o que foi negado. Diante da negativa, a equipe decidiu se retirar da Fórmula 1. Isto fez com que uma eventual disputa entre Alfa Romeo e Ferrari jamais acontecesse, com que a equipe do Cavalinho Rampante se tornasse o novo time invencível da Fórmula 1, e ainda colocou a FIA em uma sinuca de bico: ao divulgar as regras da Fórmula 1 para 1950, a FIA determinou que elas seriam revistas em 1954, visando aumentar a competitividade. O temor da Federação era de que, sem nenhuma equipe ter um motor capaz de bater os Ferrari, e não querendo gastar dinheiro para projetar um que seria forçosamente aposentado dali a dois anos, quando as regras fossem revistas, as demais equipes desistissem de disputar o campeonato, se concentrando nos GPs avulsos. Para tentar remediar isto, a FIA tomou uma decisão, no mínimo, estranha: o campeonato de Fórmula 1 de 1952 e 1953 seria disputado de acordo com as regras da Fórmula 2, com as quais as equipes já estavam acostumadas. Isto fez com que as equipes não desistissem do campeonato, mas, na prática, de nada adiantou, pois a Ferrari venceria todas as corridas menos Indianápolis, como a Alfa Romeo havia feito em 1950. Alberto Ascari, que seria o campeão naquele ano, venceu seis das oito provas. No calendário, o GP da França passou para entre Rouen e Les-Essarts, e o GP da Holanda, em Zandvoort, substituiu o da Espanha. Curiosamente, como o campeonato de Fórmula 1 estava sendo disputado pelas regras da Fórmula 2, a única prova da qual um carro de Fórmula 1 poderia participar eram as 500 Milhas de Indianápolis, que tinham suas próprias regras. Como tinha um carro pronto, Enzo Ferrari decidiu inscrever Alberto Ascari, o único piloto de Fórmula 1 a disputar a prova enquanto ela fazia parte do calendário. Ascari não foi bem na prova, abandonando após 40 voltas. 1952 também foi o ano de estréia do brasileiro Gino Bianco, que disputou os quatro últimos GPs da temporada pela Maserati, e teve como melhor resultado o 18o lugar no GP da Inglaterra.

A temporada de 1953 não teve muitas novidades além da inclusão do GP da Argentina, em Buenos Aires, e da volta do GP da França para Reims. Mais uma vez a Ferrari dominou, vencendo sete das nove provas, e fazendo de Alberto Ascari o primeiro bicampeão da Fórmula 1. Em 1954, porém, tudo mudou radicalmente, com o campeonato voltando a ser disputado sob as regras da Fórmula 1, após a revisão da FIA. Os motores passaram a ser atmosféricos de 2 litros e meio, mais acessíveis às equipes em geral. Mais equipes se juntaram às que disputavam o campeonato, como a italiana Lancia e a alemã Mercedes, que fizeram questão de contratar os dois melhores pilotos da época, Ascari e Fangio, respectivamente. A Mercedes trouxe para a Fórmula 1 todas as inovações tecnológicas possíveis, como válvulas desmodrômicas e injetores de combustível, o que possibilitou a Fangio andar acima dos 200 Km/h pela primeira vez na categoria, no GP da França. Fangio, aliás, venceu suas duas primeiras corridas na temporada correndo pela Maserati, e depois foi para a Flecha de Prata, onde venceu mais quatro, se tornando ele também bicampeão, 17 pontos à frente de seu compatriota José Froilán González, da Ferrari. O calendário continuou com nove provas, mas o GP da Espanha voltou para seu lugar, tirando o da Holanda.

O calendário de 1955 seria bem mais reduzido, com a saída dos GPs da Espanha, Alemanha, França e Suíça, a volta dos GPs de Mônaco e da Holanda, e a transferência do GP da Inglaterra para Aintree. Fangio deu outro passeio, vencendo quatro das sete provas e se tornando o primeiro tricampeão da Fórmula 1. Seu parceiro de equipe, Stirling Moss, considerado um dos maiores pilotos ingleses da história, venceria em casa, para um total de cinco vitórias da Marcedes em sete provas. Após a temporada de 1955, a Mercedes também se retiraria da Fórmula 1, para a qual só voltaria após 40 anos. A desculpa oficial foi a de que eles já haviam provado sua superioridade, mas na verdade esta decisão foi motivada por um violento acidente nas 24 Horas de Le Mans, onde um Mercedes matou 83 pessoas, e que cancelou todos os GPs restantes de 1955. No mesmo ano, Mônaco também viu um acidente espetacular, quando Alberto Ascari caiu no mar com seu Lancia após não conseguir fazer uma curva. Ele foi retirado aparentemente sem nenhum ferimento, mas morreu quatro dias depois, quando testava um carro esporte em Monza, o que fez com que muitos fãs acreditassem que ele tinha sofrido algum dano interno não notado pela medicina da época. Após o acidente de Ascari, a Lancia também saiu da Fórmula 1, passando toda a sua pesquisa e tecnologia para a Ferrari. Tragédias à parte, a temporada de 1955 viu a estréia de mais um brasileiro, Hernando da Silva Ramos, que correu três GPs em 1955 e três em 1956, todos pela Gordini, alcançando seu melhor resultado, um 5o lugar, no GP de Mônaco de 1956.

A temporada de 1956 viu a volta dos GPs da França e da Alemanha, o retorno do GP da Inglaterra a Silverstone, e a saída do GP da Holanda. Sem Mercedes, Fangio foi para a Ferrari, e Moss para a Maserati. Os dois ex-parceiros de equipe fizeram um duelo emocionante pelo título, que ficou com Fangio, o primeiro tetracampeão da categoria, por apenas dois pontos. Fangio e Moss venceram duas corridas cada, com mais duas vencidas pelo inglês Peter Collins e uma pelo italiano Luigi Musso, ambos da Ferrari. No total, a Ferrari "ajudada" pela Lancia ganhou cinco das oito provas e, descontando Indianápolis, Moss foi o único vencedor que não pilotava um carro vermelho.

Fangio trocaria de equipe mais uma vez em 1957, voltando para a Maserati, e travando mais um duelo espetacular com Moss, agora na Vanwall. Fangio teve quatro vitórias e Moss três. De fato, a única corrida que um dos dois não venceu foi Indianápolis. Fangio faria história se tornando pentacampeão, um fato que não seria igualado pelos próximos 45 anos. 1957 foi a primeira temporada de Fórmula 1 com duas corridas em um mesmo país, a Itália, com o GP da Itália e o GP de Pescara. As usuais modificações no calendário ainda incluíram novos retornos do GP da Inglaterra para Aintree e do GP da França para Rouen-Les-Essarts, e a saída do GP da Bélgica, substituído pelo de Pescara.

Após seu quinto título, Fangio, então com 46 anos, decidiu se aposentar. Mesmo sem ele, a temporada de 1958 foi cheia de emoções, principalmente devido a algumas modificações feitas pela FIA. O campeonato pela primeira vez teve 11 provas, o que o deixou bem mais disputado, e pela primeira vez chegou à África, com a inclusão do GP do Marrocos, em Ain-Diab. Além disso, fez sua estréia o GP de Portugal, em Boavista; retornaram os GPs da Bélgica e da Holanda; o GPs da Inglaterra e da França voltaram para Silverstone e Reims; e o GP de Pescara saiu do calendário. A disputa pelo título ficou entre os ingleses Moss, da Vanwall (que fez sua primeira corrida na temporada pela Cooper), e Mike Hawthorn, da Ferrari. Hawthorn só venceu uma prova contra quatro de Moss, mas graças a seus resultados nas demais provas, se tornou o primeiro inglês campeão da Fórmula 1. A Vanwall venceu seis das onze provas, três com Moss e três com o inglês Tony Brooks, conquistando o recém-inaugurado Campeonato de Construtores, que soma os pontos conquistados pelas equipes, e não pelos pilotos. A maior novidade de 1958 talvez tenha sido a estréia da primeira mulher na categoria, a italiana Maria Teresa de Filippis. Ela disputou quatro GPs neste ano pela Maserati, e o GP de Mônaco de 1959 pela Porsche. Seu melhor resultado foi um 10o lugar no GP da Bélgica de 1958.

1959 viu mais mudanças no calendário, com o GP de Portugal passando para Lisboa, o da Inglaterra voltando para Aintree, o da Alemanha indo para Charlottenburg, a saída dos GPs da Argentina e da Bélgica, e a entrada de uma segunda corrida nos EUA, o GP dos EUA, em Sebring. Mais um brasileiro estreou na categoria, Fritz d'Orey, que correu três GPs pela Maserati, chegando em 10o no GP da França e abandonando os outros dois. Mas 1959 ainda troxe uma grande novidade, uma nova tendência à Fórmula 1: o motor dos Cooper era bem menor que os dos demais carros, e localizado na parte traseira, e não na frente, como se usava até então. Foi com estes carros que, em 1958, Moss ganhou o GP da Argentina e o francês Maurice Trintignant o GP de Mônaco. Na época, ninguém deu muita bola, mas quando o australiano Jack Brabham se tornou o piloto a ser batido em 1959, as demais equipes começaram a ver que um motor traseiro poderia ter alguma vantagem. A Cooper ganharia cinco das nove provas de 1959, duas com Brabham, duas com Moss, e uma com o neozelandês Bruce McLaren, se tornando a campeã de construtores de 1959, e fazendo de Brabham o campeão de pilotos. Depois disso, outras equipes inglesas, como a Lotus e a BRM, também passaram a adotar motores traseiros semelhantes ao da Cooper. A maior resistência ao modelo vinha da Ferrari, pois, nas palavras de Enzo Ferrari, "os cavalos puxam o carro, e não empurram".

Lentamente, a Fórmula 1 começava a entrar em uma nova era. Mas isso é assunto para o próximo post da série. Hora de um pit stop.

Série Fórmula 1

1950-1959

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