domingo, 23 de abril de 2006

Holy Avenger

De vez em quando, eu fico meio sem saber sobre qual assunto vou escrever. Quando isso acontece, eu releio o meu perfil ali da coluna da esquerda. Na maioria das vezes, eu encontro algo do que gosto e sobre o qual ainda não falei. O post de hoje foi feito desta forma. E o assunto é Holy Avenger.

Holy Avenger, para quem não sabe, é a mais bem sucedida revista em quadrinhos nacional não voltada para o público infantil - em outras palavras, tirando a Turma da Mônica. Publicada entre 1999 e 2002 pela Editora Trama (que eventualmente mudou de nome para Talismã), Holy Avenger chegou ao espantoso recorde de 42 (47 se você contar os cinco especiais) edições publicadas. Parece pouco? Pois nenhuma revista em quadrinhos brasileira - Turma da Mônica não conta, novamente frisando - chegou à metade disso.

Lógico que tal longevidade não foi por acaso. Mesmo com um público alvo aparentemente restrito, já que tem traço em estilo mangá, e sua ambientação é medieval-fantástica, normalmente associada ao RPG, Holy Avenger conseguiu unir roteiro criativo, interessante e surpreendente, traço de alta qualidade, papel bom (sem ser "de jornal") e preço baixo (se comparada aos similares estrangeiros), atingindo o público-alvo em cheio, e respingando em muitas outras pessoas que começaram a comprar devido aos comentários dos amigos. Muita gente pode pensar que eventualmente este interesse desapareceu e a revista foi cancelada, mas desde o início já estava previsto que a revista só teria 40 edições, no melhor estilo mangá de que até as coisas boas devem ter um fim.

O Paladino, Sandro, Niele e LisandraOriginalmente, Holy Avenger - que significa "Vingadora Sagrada" em inglês, o nome de uma famosa espada mágica do RPG Dungeons & Dragons - não foi concebida para ser uma história em quadrinhos, mas uma aventura em três partes, escrita por Marcelo Cassaro e publicada nas edições 44, 45 e 46 da revista Dragão Brasil. Nela, os jogadores tinham de se aliar a alguns personagens controlados pelo mestre para frustrar os planos do vilão Mestre Arsenal. A aventura se tornou bastante popular, e Cassaro, que já havia conseguido um relativo sucesso com outras histórias em quadrinhos de sua autoria, como as do Capitão Ninja, começou a imaginar onde poderia reutilizar seus personagens. Em sua edição número 50, a revista Dragão Brasil trouxe de brinde o RPG Tormenta, que nada mais era que a reunião de todos os personagens, lugares e monstros inventados pela revista em um único cenário, que podia ser utilizado pelos jogadores em suas campanhas. Com personagens carismáticos e um cenário praticamente pronto em mãos, Cassaro chamou a desenhista Erica Awano, e ambos começaram a trabalhar na série em quadrinhos de Holy Avenger, um empreendimento altamente arriscado, mas igualmente satisfatório se desse certo.

Mas do que se trata esta tão fabulosa história? Holy Avenger conta a história da druida adolescente Lisandra, criada longe da civilização, na selvagem ilha de Galrasia, dominada por dinossauros e outros monstros que ela considera como amigos. Um dia, Lisandra descobre o corpo do Paladino de Arton, o mais poderoso guerreiro do mundo, em uma espécie de torpor. Através de sonhos enigmáticos e perturbadores, Lisandra descobre que tem de reunir os vinte Rubis da Virtude, jóias mágicas contruídas pelos próprios deuses, e recolocá-los na armadura do Paladino, para que este volte a viver. Confusa em relação aos seus sentimentos, Lisandra imagina que está apaixonada pelo Paladino, e decide viajar até o continente para encontrar as jóias e ajudá-lo.

Após uma grande confusão na cidade de Valkaria, Lisandra acaba conhecendo o ladrão Sandro Galtran, filho do maior ladrão do Reino, e que herdou a fama do pai, apesar de não ter absolutamente talento nenhum para o negócio. Mesmo sem se dar conta disso, Sandro se apaixona por Lisandra, e decide ajudá-la a recuperar os Rubis. Na verdade, Sandro não sabe que existe mais de um Rubi, e, tendo ouvido falar de mais um Rubi da Virtude após ajudar Lisandra a encontrar o primeiro, ele imagina que ela está com um falso, e vai atrás do verdadeiro para entregar a ela. Assim ele fica conhecendo a "arquimaga" elfa Niele, uma menina tresloucada e inconseqüente, que de maga mesmo não tem nada, mas consegue grandes proezas mágicas graças a um artefato que encontrou por acidente, o Olho de Sszzaas.

Enquanto a adorável Niele e seu mais novo amigo tentam chegar a Galrasia para entregar o Rubi "verdadeiro" a Lisandra, esta se reencontra com Tork, o troglodita anão (Nota do Guil: em RPG, um troglodita não é um homem-das-cavernas, mas algo parecido com um homem-lagarto), que a criou em Galrasia, ensinando-a a falar e agir como humana. A princípio, Tork fica irritado com o fato de Lisandra ter saído da ilha, mas decide ajudá-la em sua busca pelos Rubis. Eventualmente, Sandro e Niele descobrem que os Rubis são vinte, e decidem reunir a maior quantidade deles antes de entregá-los à druida.

A partir daí, os quatro heróis viverão uma jornada por todo o continente de Arton, antagonizados pelo Mestre Arsenal, um vilão megalomaníaco que tem por objetivo reunir todos os itens mágicos do mundo; e por Nakapeth, sumo-sacerdote de Sszzaas, deus da traição e da intriga, que foi expulso por seus pares mas possui um plano maligno para voltar ao panteão. Mas Niele, Sandro, Lisandra e Tork também ganharão muitos aliados, como a xamã centaura Odara, o pirata James K e sua irmãzinha Annie, o necromante Vladislav Tpish e sua filha Petra, o simpático esqueleto Tarso, a gladiadora Loriane e o guerreiro Arkam. Existe ainda uma trama paralela, que envolve o Paladino, o bardo Luigi Sortudo, Leon Galtran (o pai de Sandro) e os dragões Beluhga, Rainha dos Dragões Brancos, e Schkar, Rei dos Dragões. Para quem acompanhava a Dragão Brasil, Holy Avenger era quase um manual, com todos os principais personagens e cidades criados pela revista interagindo entre si.

Mas não era necessário ser leitor da Dragão Brasil para se divertir. Do início ao fim, Holy Avenger conseguiu manter um ritmo constante e um roteiro bem amarrado, que sempre deixava os leitores curiosos sobre o que aconteceria na edição seguinte, e reclamando que a revista tinha poucas páginas. Ao longo das 40 edições, Niele e Sandro viajaram no navio de James K; Sandro e Tork se tornaram gladiadores, e depois, acompanhados por Anne, encontraram o lugar onde o Paladino foi criado; Niele e Lisandra visitaram Vectora, o Mercado nas Nuvens, uma cidade que flutua através do continente, sustentada pelo poder de Vectorius, um dos magos mais poderosos do mundo; Niele teve um encontro nada agradável com o Camaleão, um assassino capaz de assumir qualquer aparência; Tork voltou a brigar com Deenar, um elfo-do-mar maligno que havia sido seu inimigo no passado; Lisandra e Petra visitaram a Academia Arcana, a maior escola de magia de Arton, comandada por Talude, o Mestre Máximo da Magia; um flashback mostrou como Leon, Vladislav, Luigi e Lenora, uma elfa-do-mar, acidentalmente se envolveram na criação do Paladino; tudo isso enquanto a paixão de Lisandra pelo Paladino se revelava algo muito mais sombrio. O final da saga, se não foi incrivelmente surpreendente, pelo menos foi à altura, com algumas revelações bombásticas.

O "fim final" ocorreu na edição 40, mas a revista ainda teve duas edições extras, que mostravam Sandro e Lisandra alguns anos depois, casados e com dois filhos gêmeos, Kaio e Karina. Completam a saga cinco edições especiais que mostram, respectivamente, como Sandro foi parar em Valkaria antes de seu encontro com Lisandra; como Niele conseguiu o Rubi da Virtude que estava com ela; o nascimento de Lisandra; como Tork foi inserido na sociedade humana e chegou a Galrasia para educar Lisandra; e uma aventura de Petra e Tarso enquanto a menina procurava por cogumelos na floresta para uma receita. Ainda foram lançados o especial A Arte de Holy Avenger, com ilustrações originais e comentários dos artistas, e um CD onde dubladores profissionais liam a história, interpretando os personagens.

Holy Avenger não fica devendo nada a qualquer mangá ou anime de fantasia medieval - na verdade, é até melhor que muitos deles - e foi um mais do que bem-vindo intervalo no mundo de super-heróis americanos que eram os quadrinhos da época. Infelizmente, como tudo o que é bom, acabou. Cassaro e Awano saíram da Dragão Brasil, e atualmente fazem parte da equipe da Dragonslayer, da Editora Escala. As histórias originais de Holy Avenger andam sendo republicadas sob o nome de Holy Avenger Reloaded, em edições em papel de jornal preto-e-branco com duas histórias cada.

Mas pode ser que venha um "novo" Holy Avenger por aí. Já há alguns anos se comenta que Cassaro estaria trabalhando em um ambicioso projeto: transformar Holy Avenger em um anime, o primeiro 100% nacional. Eu aguardo ansiosamente.

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