domingo, 26 de março de 2006

Nigel Mansell

Como quase todo brasileiro fã de Fórmula-1, eu também sou fã de Ayrton Senna. Quando eu comecei a acompanhar F-1, no agora longínqüo ano de 1985, Senna corria naquela famosa Lotus preta. Aos sete anos de idade, tive a felicidade de ver Senna vencer aquela corrida em Estoril, justamente a segunda que eu vi na vida. Desde então, passei a torcer pelo piloto até o dia de sua morte. Depois que Senna se foi, continuei assistindo corridas, mas hoje não torço mais para ninguém. Acho muito legal quando o Rubinho vence, e espero que ele seja campeão pela Honda, mas não é a mesma coisa.

Se eu tivesse de escolher um piloto favorito, porém, acho que não diria o nome de Senna. Senna foi um piloto excepcional, talvez o maior de todos os tempos, um verdadeiro orgulho para sua pátria. Mas confesso que havia outro piloto que eu adorava ver correr. Não chegava a torcer por sua vitória, mas adorava vê-lo na pista. Contraditoriamente, também adorava quando Senna ganhava dele. Este homem era Nigel Mansell, o Leão da F-1.

Eu odiava todos os rivais de Senna, a começar por Alain Prost, por quem eu sempre torcia para quebrar alguma coisa no carro. Prost ganhou os dois primeiros campeonatos que eu acompanhei, os de 1985 e 1986, e ainda teve aquele título contraditório em 1989, quando Senna foi desclassificado por cortar uma chicane por fora no Japão. Também não ia muito com a cara de Nelson Piquet, o primeiro brasileiro que vi campeão, em 1987. Eu achava Piquet meio marrento. Hoje, este ódio passou, e admiro tanto Prost quanto Piquet pelos grandes pilotos que foram, maiores do que muitos dos que correm hoje.

Mansell, por outro lado, apesar de ter sido um grande rival de Senna, nunca foi alvo de meu ódio. Eu gostava de vê-lo correr, talvez porque ele fosse um showman: Mansell parecia querer correr sempre mais rápido que o carro permitia - poupar equipamento não era com ele - o que proporcionava tanto grandes ultrapassagens - muitas delas na última volta - quanto acidentes bizarros. Certa vez ele saiu dos boxes antes dos mecânicos terminarem de aparafusar um dos pneus, o que fez com que a roda caísse alguns metros mais à frente. Em outra ele arrancou com o carro ainda suspenso pelo macaco. Teve uma em que ele saiu dos boxes tão alucinado que foi em linha reta e bateu no muro logo em frente - e o pior é que essa depois foi imitada pelo Gerhard Berger, alguns anos mais tarde. E talvez a mais impressionante mansellice tenha acontecido no Canadá, em 1991, quando ele liderava a corrida e deixou o carro morrer a poucos metros do fim, enquanto acenava para a torcida, perdendo a vitória para Piquet (em Dallas, 1984, a gasolina de Mansell acabou a poucos metros do fim, e ele tentou empurrar o carro até a linha de chegada, mas desmaiou sem conseguir. Esta, porém, eu não vi ao vivo, só em VT). Mansell ainda se envolveu em dezenas de acidentes "comuns", a maioria durante ultrapassagens, e muitos deles em treinos. Mesmo quando não estava disputando, o Leão parecia ter predisposição ao espetáculo: em 1992, após completar a corrida, deu uma "carona" para Senna, que foi até os boxes sentado no tanque de combustível; e após uma corrida na Áustria em um ano que não me lembro, enquanto era levado por um carro aberto e acenava para os fãs, Mansell deu com a testa em um viaduto.

Aparentemente, Mansell tinha esta disposição pelas "barbeiragens" desde que começou a correr. Nascido na pequena cidade de Uptown-on-Severn, Inglaterra, em 8 de agosto de 1953, Nigel Ernest James Mansell era de família pobre, que não tinha como bancar seu sonho de entrar para o automobilismo. Mansell adiou este sonho o quanto pôde, e se formou em engenharia aeroespacial. Enquanto estudava, Mansell competia no kart, e em 1977 conseguiu chegar à Fórmula Ford britânica. Naquele mesmo ano ele seria campeão, embora um acidente sério tivesse quebrado seu pescoço. O médico que o atendeu disse que ele escapou de ficar tetraplégico por milagre, devia ficar internado por seis meses, e jamais correr novamente. Dizendo às enfermeiras que iria ao banheiro, Mansell fugiu do hospital e voltou a correr, mesmo correndo o risco de piorar sua condição e ficar o resto da vida dependendo de uma cadeira de rodas.

Para financiar sua carreira na Fórmula Ford, Mansell teve de vender todos os seus bens pessoais, e, devido à falta de tempo, se demitir de seu emprego. Já um homem casado, ele e sua esposa Rosanne tiveram de vender a própria casa para que o piloto pudesse competir na Fórmula-3, em 1979. Mais uma vez Mansell se envolveria em um acidente grave, quebrando três vértebras e sobrevivendo por pura sorte. Esta sorte ainda rendeu ao piloto um convite para testar pela Lotus, uma das principais equipes da Fórmula-1 da época. Mansell impressionou o dono da Lotus, Colin Chapman, que o contratou como piloto de testes para 1980. Mansell era tão rápido nos testes que Chapman decidiu dar a ele uma chance no GP da Áustria daquele ano. Um vazamento de combustível causou queimaduras de primeiro e segundo graus em suas nádegas, mas ainda assim Mansell correu muito bem, e foi contratado como piloto para a temporada de 1981.

Mansell correu pela Lotus de 1981 a 1984, mas o carro não era muito bom, e seu mehor resultado foi o terceiro lugar, alcançado cinco vezes. Ao final da temporada de 1984, a Lotus estava interessada em contratar Senna, que corria pela Toleman, e Mansell deixou a equipe para correr pela Williams a partir de 1985.

Na Williams, Mansell começou a correr com seu famoso carro número 5 (com um 5 enorme e vermelho), e foi parceiro de Keke Rosberg (1985), Nelson Piquet (1986-1987) e Riccardo Patrese (1988). Em 1985, imediatamente após conseguir um segundo lugar na Bélgica, Mansell conseguiu sua primeira vitória, e esta não poderia ter vindo em lugar melhor: Brands Hatch, na Inglaterra. Uma nova vitória na corrida seguinte, na África do Sul, e Mansell estava consolidado como um dos novos astros da F-1. Em 1986 ele conseguiu cinco vitórias, e na última corrida do ano, na Austrália, iria conseguir mais uma, mas um pneu seu explodiu a 19 voltas do fim. Mansell foi vice-campeão neste ano, e começou uma inimizade com Piquet, que chegou a chamar seu próprio companheiro de equipe de "cabeça-dura mal-educado". Mansell não deu muita atenção, e continuou correndo para mais seis vitórias em 1987. Para provocar Piquet, após vencê-lo em Silverstone, Inglaterra, vindo do fundo do grid, Mansell parou o carro na pista e beijou o chão no ponto onde a ultrapassagem sobre o parceiro/rival ocorrera. Mansell foi vice-campeão mais uma vez, após um sério acidente na qualificação para a corrida do Japão, no qual sofreu uma concussão na coluna e não pôde participar da prova. Em 1988, Piquet saiu da Williams, assim como o motor turbo, proibido pelo regulamento. Esta seria, porém, a pior temporada de Mansell na equipe, onde, devido a acidentes e doença, ele só conseguiria completar duas das 14 provas, tendo como melhor resultado um segundo lugar na Inglaterra.

Em 1989, Mansell atendeu a um convite de Enzo Ferrari, e trocou a Williams pela equipe vermelha do Cavalinho Rampante, onde seria parceiro de Gerhard Berger (1989) e Alain Prost (1990), e receberia o apelido de Leão, devido à forma agressiva de pilotagem. Logo em sua primeira corrida pela Ferrari, Mansell conseguiu a vitória no GP do Brasil, no Rio de Janeiro. O carro da Ferrari, porém, não era confiável, e Mansell abandonou sete corridas devido a quebras, sendo desclassificado em mais duas. Ele ainda conseguiria uma segunda vitória na Hungria. A temporada de 1990 não seria muito diferente, com sete abandonos e apenas uma vitória, em Portugal. A inconfiabilidade do carro e a incompatibilidade com Prost levaram Mansell a deixar a Ferrari. Ele recebeu então um convite pessoal de Frank Williams, que lhe prometeu concentrar todos os esforços da equipe para fazê-lo campeão.

A segunda temporada de Mansell na Williams durou mais dois anos (1991 e 1992), nos quais ele foi novamente parceiro de Riccardo Patrese. A Williams tinha um dos melhores carros da época, o que permitiu que ele fosse mais uma vez vice-campeão em 1991, com cinco vitórias. E 1992 seria ainda melhor: a Williams havia conseguido criar um supercarro, com a mais moderna tecnologia. Este carro trouxe o primeiro e único título mundial da carreira de Mansell, após nove vitórias - sendo cinco delas nas cinco primeiras corridas do campeonato - e 14 pole positions. Mas a mais memorável corrida deste ano foi a de Mônaco, onde o Leão perdeu para Ayrton Senna, que se manteve à sua frente de forma quase sobrenatural por várias voltas. Esgotado pelo calor intenso e pela luta com Senna, Mansell teve de ser amparado no pódio, para não cair.

Em 1993, já tendo sido campeão da F-1, Mansell decidiu arejar a carreira, e mudar de categoria para a Fórmula-Indy. Um dos motivos que o levaram a isso foi a insistência da fábrica francesa Renault, que fornecia os motores da Williams na época, em contratar seu desafeto Alain Prost. Mansell correu na F-Indy pela equipe Newman-Haas, e se tornou o primeiro piloto a conseguir uma pole position e uma vitória em sua corrida de estréia, em Surfer's Paradise, Austrália, e ainda conseguiria a pole position das 500 Milhas de Indianápolis, que terminou em terceiro. No total, ele obteve cinco vitórias, e se tornou campeão também da F-Indy. Como o campeonato de F-1 ainda não tinha acabado na ocasião, Mansell se tornou o único piloto da história a deter o título de campeão da F-1 e da F-Indy ao mesmo tempo.

Em 1994, ainda na F-Indy, Mansell começou a se irritar com a equipe e com os repórteres americanos, principalmente devido ao carro, pouco confiável, e à falta de bons resultados. O Leão acabou abandonando o campeonato antes do final, e foi convidado por Frank Williams a prencher a vaga de Senna, que havia morrido competindo pela Williams em maio daquele ano. Mansell então substituiu David Coulthard como parceiro de Damon Hill nas últimas quatro corridas do ano. Duas delas ele abandonou, mas conseguiu a vitória na Austrália, a última prova. Mansell iria abandonar as pistas ao final daquele ano, mas decidiu aceitar um novo desafio e correr pela McLaren em 1995. O carro era muito difícil de se guiar, porém, e ele acabou abandonando a equipe após duas corridas, que resultaram em um décimo lugar e um abandono.

Mansell teve um total de 31 vitórias, o quarto melhor número, atrás de Michael Schumacher, Alain Prost e Ayrton Senna. O mais impressionante, porém, é que ele teve um total de 32 abandonos por acidente, ou seja, se dirigisse com mais cautela, talvez tivesse vencido mais. Mas aí não teria sido tão divertido. Ele ainda tentou competir na Categoria Turismo Britânica em 1998, mas seu carro era pouco competitivo. Ainda assim, uma das maiores corridas da história da categoria teve sua participação: em Donnington Park, sob forte chuva, o Leão saiu da última posição e chegou a liderar várias voltas, terminando a corrida em quinto lugar.

Hoje, Mansell é um dos mais adorados desportistas do Reino Unido, tendo ganho o prêmio de Personalidade Esportiva do Ano da BBC duas vezes (1986 e 1992), um feito que apenas ele, Damon Hill e o boxeador Henry Cooper conseguiram. Seu nome entrou para o hall da Fama do Automobilismo em 2005. Hoje, Mansell vive com sua esposa Rosanne na Ilha de Man, uma Dependência da Coroa Britânica, e, aos 52 anos, se prepara para um novo desafio: competir na recém criada categoria Grand Prix Masters, onde estreou com vitória na África do Sul, seguido de Emerson Fittipaldi e Riccardo Patrese, dia 13 de novembro do ano passado. A próxima corrida está prevista para o dia 29 de abril deste ano, no Qatar.

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