domingo, 15 de janeiro de 2006

World Heroes

Quando Street Fighter 2 começou a fazer sucesso, obviamente começaram a copiá-lo. Fatal Fury, Mortal Kombat, Samurai Shodown, todo mundo queria enfiar os dentes em um pedaço do bolo. Alguns, como Mortal Kombat, conseguiram, e se tornaram talvez mais populares que o próprio Street Fighter. Outros, como Breakers Revenge, caíram em um poço de obscuridade tão profundo que hoje em dia são poucos os que sabem do que se trata. Mas a maioria ficou em um nível intermediário, não atraindo legiões de fãs, mas sendo lembrados pelos que freqüentavam os fliperamas na década de 90. Dentre estes está um jogo que comeu muito dinheiro meu, mas em compensação me proporcionou muitas horas de diversão: World Heroes, o tema do post de hoje.

O primeiro World Heroes foi lançado em 1992, para arcades e Neo Geo, ganhando mais tarde versões para Super Nintendo e Mega Drive. Produzido pela ADK, uma empresa então nova no ramo (as versões caseiras eram feitas pela Takara), o jogo podia ser definido como um clone descarado de Street Fighter 2, onde oito lutadores, cada um com seus golpes especiais, participavam de um torneio, buscando derrotar o último chefe e se tornar o campeão do mundo. As semelhanças eram tantas que existiam até mesmo dois lutadores rivais com os mesmos golpes, e apenas uma lutadora mulher. Diferentemente de Street Fighter, porém, só havia um chefe - mas esse deve ter sido copiado do Mortal Kombat, pois tinha a habilidade de se transformar por um curto período de tempo em qualquer um dos lutadores do jogo. À história de WH1 podia ser dado um crédito extra pela imaginação: o ano é 3091, e um alienígena veio até o planeta Terra para subjugar a raça humana e dominar a todos. Tendo estudado as armas da Terra durante anos, ele desenvolveu defesas a todas elas, o que torna a tecnologia da época inútil. Para combatê-lo, um cientista decide usar uma máquina do tempo e reunir oito campeões de diferentes eras. Incapazes de agir em conjunto, e não querendo admitir que um deles era superior aos demais, os campeões decidiram se enfrentar mutuamente, até que o vencedor desta peleja teria o direito de confrontar o alienígena em pessoa. Bobo, eu sei, mas jogos de porrada não eram exatamente conhecidos por ter um enredo profundo. Nem Street Fighter tinha uma história coerente, só muito depois de seu lançamento é que resolveram inventar uma razão praquela gente toda se pegar na porrada.

Além da história, WH1 inovou em três outros aspectos: o jogo tinha gráficos mais cartunescos (diferentes dos gráficos "sérios" de todos os jogos do estilo até então); seus lutadores tinham a capacidade de "devolver magia", ou seja, se um oponente tivesse a audácia de disparar um projétil em sua direção, defendendo no tempo certo você mandava o tal projétil de volta na direção dele, causando o mesmo dano, se acertasse, que ele causaria em você (como nota, essa habilidade causaria um terrível estrago em um jogo como King of Fighters); e, por último mas não menos importante, ao iniciar o jogo você poderia escolher entre lutar de forma normal ou em Deathmatches. No modo Deathmatch, cada luta tinha apenas um round, e ambos os lutadores compartilhavam uma única barra de energia, onde um lado aumentava enquanto o outro diminuía, ou seja, quanto mais porrada você aplicava no oponente, mais energia você ganhava. Mas o modo Deathmatch não tinha esse nome só por isso: cada cenário tinha armadilhas, desde bombas e espinhos até cercas eletrificadas e serras, onde você podia jogar seu oponente para causar mais dano. Jogar no modo Deathmatch era muito mais difícil, mas muito mais divertido.

Pois bem, então os lutadores de World Heroes eram personagens históricos, certo? Bem, mais ou menos. Por alguma razão (talvez por evitar problemas com direitos de imagem), os lutadores de World Heroes eram inspirados em personagens históricos, mas eram fictícios per se. Os oito lutadores à disposição do público eram Hanzou, um ninja japonês inspirado em Hattori Hanzo, líder do lendário clã Iga; Fuuma, também ninja, inspirado em Kotaro Fuuma, líder do clã Fuuma, arquirrival do clã Iga; J. Carn, soldado mongol inspirado em Gengis Kahn; Dragon, lutador chinês inspirado em Bruce Lee; Muscle Power, campeão de luta livre norte-americano, inspirado no lutador real Hulk Hogan; Brocken, ciborgue alemão com um visual meio SS; Rasputin, o famoso feiticeiro russo, aqui em uma versão mais miguxinha; e Janne, espadachim francesa inspirada em Joana d'Arc.

O vilão atende pelo nome de Geegus, e, se eu tivesse que arriscar em quem ele foi inspirado, diria que foi no T-1000 de O Exterminador do Futuro 2. Como já foi dito, ele tem a habilidade de se tranformar em qualquer um dos outros oito, mas é um chefe bem menos difícil que Shang Tsung.

Mas eu só joguei WH1 na versão SNES, e depois que já conhecia WH2. Lançado em 1993, primeiro para arcades e Neo Geo, depois para Super Nintendo, World Heroes 2 não era bem uma seqüência, sendo melhor definido como um upgrade do primeiro, já que a história é absolutamente a mesma. Agora haviam dois chefes, porém, e seis lutadores novos se uniram aos já existentes. Os gráficos foram melhorados, foram acrescentadas novas Deathmatches, e as músicas são as melhores que eu já ouvi em um jogo de porrada. Foi jogando WH2 e gastando muito dinheiro até zerá-lo que eu me tornei fã da série. Os quatro lutadores novos de WH2 eram Shura, um kickboxer tailandês, inspirado no lutador real Naikanom Tom; Ryoko, uma judoca japonesa, inspirada na judoca real Ryoko Tani; Captain Kidd, um pirata inspirado no pirata real William Kidd; Erik, o viking, em versão mais rechonchuda; J. Max, jogador de futebol americano inspirado no famoso quarterback Joe Montana; e Mudman, um feiticeiro da Papua Nove Guiné, não inspirado em ninguém famoso, mas talvez o personagem mais cômico do jogo. A Geegus, que foi rebaixado a subchefe, se uniu Dio, o novo último chefe, um alienígena de aparência metálica e cabeluda. Dio não tinha a habilidade de se transformar nos outros, mas tinha golpes bem poderosos, o que o transformava em um último chefe bem difícil.

Em 1994, a ADK decidiu lançar uma nova versão de World Heroes. Embora esta fosse mais diferente de WH2 do que WH2 era de WH1, eles optaram por não chamá-la de WH3, mas de World Heroes 2 Jet. WH2Jet foi lançado primeiro para arcades e Neo Geo, depois ganhou uma inusitada versão para Game Boy. WH2Jet é muito pior do que os jogos anteriores. Para começar, não existem as Deathmatches, o que era praticamente uma marca registrada da série. No lugar, colocaram o estranho modo "Vs. World Heroes", onde você só enfrenta quatro personagens aleatórios em lutas de três rounds, e nem tem final. Ainda por cima, o "jogo normal" se desenvolve em um modo de torneio, onde você enfrenta os oponentes sempre na mesma ordem, sendo os 12 primeiros em lutas de um round, e os cinco últimos em lutas de três rounds. Mas talvez o pior seja que cada personagem não tem mais seu próprio cenário, com as lutas acontecendo em cenários de ordem fixa, ou seja, quem não conseguir ir muito longe no jogo vai ficar vendo sempre os mesmos cenários. WH2Jet traz dois personagens novos, Ryofu, um guerreiro chinês inspirado no lendário guerreiro Lu Bu; e Jack, um punk inglês com uma luva de Freddy Krueger, inspirado no estripador homônimo; e só tem um chefe, um homem enorme chamado Zeus. WH2Jet se passa cronologicamente depois de WH2, e Zeus resolve organizar o torneio para provar que é o lutador mais forte de todos os tempos, derrotando os campeões de diversas eras.

O último jogo da série foi lançado em 1995, World Heroes Perfect, para arcades, Neo Geo e Sega Saturn. O jogo é idêntico a WH2jet, exceto pelo seguinte: são seis botões (três socos e três chutes) ao invés dos quatro usados até então, novos golpes para todos os lutadores, possibilidade de combos (seqüências rápidas de golpes) e uma barra Hero Gauge, que permite fazer especiais enormes e poderosos quando cheia. Não existem Deathmatches, torneio nem Vs.WH, mas os cenários continuam com ordem fixa, desta vez com as lutas se desenrolando através da História. Não há personagens novos, mas existe um personagem secreto, Gokuu, inspirado no mitológico personagem chinês Son Goku; e dois chefes, uma versão mais forte de Dio, chamada Neo Dio, e Zeus.

Não sei o que aconteceu com a ADK, mas lá se vão mais de dez anos sem nem se falar em World Heroes. Alguns personagens estão cotados para aparecer em Neo Geo Battle Colosseum, um enorme crossover entre vários personagens de vários jogos de Neo Geo. Na minha opinião, o jogo nunca conseguiu se popularizar por decisões equivocadas: WH2 era um ótimo jogo, mas tudo o que fizeram depois só fez piorar. Hoje em dia, de qualquer forma, parece que a onda desse tipo de jogo passou, e um World Heroes 3 não faria muito alarde.

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