domingo, 28 de novembro de 2004

The Cranberries

Na minha adolescência, com exceção dos Smiths, eu só gostava de bandas cujas vocalistas eram mulheres. Afinal, se eu iria passar uma hora ouvindo alguém cantar no meu ouvido, que fosse uma mulher. Com o tempo, esta predileção filógina foi cedendo (apenas no campo musical, notem bem) conforme eu descobria bandas como Cake ou Weezer, ou redescobria outras como Depeche Mode. Mas Tori Amos, Shirley Manson, Nina Persson e Dolores O'Riordan cantaram bastante em meus ouvidos. Não pessoalmente, infelizmente.

Dessa gente toda eu já falei aqui, menos de uma: Dolores O'Riordan, ou melhor, os Cranberries, banda liderada por ela. Eu acho que descobri os Cranberries quando quase todo mundo o fez, por ocasião do lançamento do clip de Linger na Mtv. Na época, o clip até ganhou um selo de "banda nova". Só não me peçam para lembrar em que ano foi, embora a mini-biografia que segue aqui embaixo poderá responder esta pergunta.

Os Cranberries foram uma banda que precisou de três momentos para que eu me tornasse fã. Com Linger, ganharam minha atenção. Com Ode to my Family, ganharam minha admiração. Com Zombie, ganharam meu respeito. E foi o suficiente para entrarem para a minha lista. Uma das minhas mais recentes frustações foi não ter conseguido comprar o Stars, a coletânea que vem com um DVD, por dois motivos: o primeiro foi que eu não achei, o segundo foi que, quando achei, estava além das minhas posses. Pena, mas não faz tanto mal assim, já que eu já tenho quase todas as músicas em outros CDs (como diria um amigo meu, "também, eu não queria mesmo").

A história dos Cranberries começou em 1990, na cidade de Limerick, Irlanda, quando os irmãos Noel (guitarra) e Mike (baixo) Hogan se uniram ao baterista Faergall Lawler e ao vocalista Niall para fundar a banda The Cranberry Saw Us ("o cranberry nos viu"). Cranberry é uma fruta silvestre própria do hemisfério norte, inexistente e pouco conhecida no Brasil, mas conhecida em Portugal como arando. A efêmera banda nunca conseguiu nenhum feito expressivo, até que Niall decidiu deixá-la. Os demais integrantes decidiram colocar um anúncio no jornal, pedindo por uma vocalista do sexo feminino. Dolores O'Riordan, filha de uma família católica tradicional rural irlandesa, que cantava desde os quatro anos na escola e na igreja, atendeu ao anúncio levando a música Linger, de sua composição, para a banda avaliar. Foi contratada na hora.

Após a chegada de O'Riordan, a banda decidiu gravar uma fita demo, e mudar seu nome para The Cranberry's. A fita foi levada até a gravadora Xeric, do produtor Pearse Gilmore. Gilmore decidiu produzir uma fita com tiragem limitada (300 cópias), contendo as músicas Linger e Dreams. As 300 cópias foram rapidamente vendidas, o que chamou a atenção das grandes gravadoras do Reino Unido. Gilmore então decidiu se tornar agente da banda, que a esta altura já se chamava The Cranberries, e negociava um contrato com a Island Records, mesma gravadora do U2.

Por influência de Gilmore, que também queria ser o produtor da banda, seu primeiro EP, Uncertain, foi gravado pela Xeric, e distribuído pela Island. O EP foi um fracasso total de público e crítica, o que levou a um desentendimento entre a banda e o agente/produtor. Há tempos, a Island já estava pensando em fazer um contrato para a gravação e lançamento de seis álbums, mas Gilmore negava, querendo ser o responsável pelo descobrimento da banda. Com tanta tensão, a banda quase se separou, mas acabou foi se desligando de Gilmore, assinando com a Island, e contratando Geoff Travis, da Rough Trade Records (a gravadora dos Smiths) para ser seu novo agente, e Stephen Street, ex-produtor dos Smiths, para ser seu novo produtor.

O primeiro álbum dos Cranberries, Everybody Else is Doing It, So Why Can't We? foi lançado em março de 1993, seguido pelo single de Dreams e, mais tarde, pelo de Linger, ambas as músicas agora refinadas, e parte deste primeiro álbum. Nem o álbum nem os singles venderam bem na Irlanda ou Reino Unido, mas mesmo assim a Island decidiu levar os Cranberries para os EUA, para abrir shows do The The e do Suede. Estes shows de abertura foram incrivelmente bem sucedidos, e o álbum começou a vender bem, alcançando o oitavo lugar nas paradas. Tal sucesso fez com que Linger fosse tocado à exaustão nas rádios e na Mtv. Fazendo o caminho inverso, a música começou a fazer sucesso no Reino Unido, onde as vendas do álbum e dos singles foram alavancadas. Em junho de 1994, EEIDISWCW (minha tentativa de abreviatura) já era o álbum mais vendido da Grã-Bretanha.

A imprensa fazia questão de colocar O'Riordan como a figura principal da banda, tendência esta que acabava sendo refletida nos clips. Em outubro de 2004, com o lançamento de No Need to Argue, segundo álbum da banda, e a superexposição de O'Riordan, não somente pelos novos clips, mas também por seu casamento superbadalado, começaram rumores de que a banda se separaria, e a cantora se lançaria em carreira solo. Tais boatos nunca se confirmaram, e No Need to Argue vendeu ainda mais que seu antecessor, estreando já no sexto lugar das paradas americanas. Ode to my Family, a primeira música de trabalho do novo álbum, trouxe a fama mundial aos Cranberries, enquanto Zombie, uma música pesada e depressiva, condenando os ataques do IRA na Irlanda do Norte, chegou ao primeiro lugar das paradas norte-americana e britânica, mostrando outra faceta da banda, a de protesto.

O próximo álbum só seria lançado no início de 1996, após bem-sucedidas turnês. To the Faithful Departed buscava colocar o resto da banda em evidência, desviando um pouco o foco da superexposta O'Riordan. A banda também optou por falar mais de temas sociais, como drogas em Salvation ou a guerra em Bosnia. Antes deste álbum, os Cranberries também decidiram mudar de produtor, agora trabalhando com Bruce Fairbarn, ex-produtor do Aerosmith. Mesmo tendo estreado em sexto lugar nas paradas americanas, as vendas de To the Faithful Departed logo caíram, e nenhuma de suas músicas de trabalho conseguiu repetir o desempenho de suas antecessoras. Apesar disso, a banda parecia satisfeita com seu novo estilo, mais preocupado com questões sociais e políticas.

Tal estilo seria mantido no álbum seguinte, Bury the Hatchet, lançado apenas em 1999. Desta vez, músicas mais sérias como Animal Instinct se mesclavam a canções leves e animadas como Just my Imagination, resultando no perfeito casamento entre os estilos anteriores da banda. Foi um álbum bem sucedido comercialmente, e muito exaltado pela crítica.

O último lançamento inédito dos Cranberries saiu em 2001, Wake Up and Smell the Coffee. Novamente com Stephen Street, e com O'Riordan em uma nova fase, a banda decidiu retomar o caminho mais leve, fazendo deste um álbum mais semelhante ao primeiro. Infelizmente, este não vendeu tanto quanto os demais, e passou quase apagado, com suas músicas de trabalho, This is the Day e Every Morning tocando pouco nas rádios se comparadas a outros sucessos da banda.

Em 2002, para comemorar dez anos de estrada, os Cranberries lançaram Stars, uma coletânea com duas faixas inéditas, e em duas versões, sendo que uma delas acompanhava um DVD. Atualmente, os Cranberries estão trabalhando em seu próximo lançamento, sobre o qual pouco se sabe, mas deverá estar nas lojas no ano que vem. Rumores sobre a banda acabar para que Dolores O'Riordan se lance solo continuam aparecendo, mas jamais se confirmam. Se a banda optará por seguir uma trilha leve, ou voltará para o caminho do protesto nestes tempos tão turbulentos, é uma questão que só o próximo lançamento poderá responder.

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