quinta-feira, 3 de julho de 2003

Tori Amos (I)


É claro que, ao iniciar os posts que falam sobre as coisas que eu gosto, o primeiro deles teria de ser sobre Tori Amos. Existem poucas coisas no mundo das quais eu goste mais do que de suas músicas.

Descobri Tori Amos em 1992, meio sem querer. Foi lendo uma reportagem no Segundo Caderno do jornal O Globo, que anunciava o lançamento no Brasil de seu segundo álbum, "Little Earthquakes". A reportagem era até meio bocó (acreditem se quiser, a coisa mais importante sobre Tori que o repórter dizia era que ela era sósia da Andy MacDowell!), mas contava alguma coisa sobre seu estilo musical. Duas coisas particularmente me chamavam a atenção: A primeira era que Tori é pianista, e o piano é um instrumento que muito me agrada, principalmente se combinado com guitarra e bateria. A segunda era um trecho de música, daquele tipo em destaue, em um quadrinho maior. Era exatamente o trecho de "Silent All These Years" que está abrindo este post. Sejamos francos, para quem entendeu o contexto da frase, é uma paulada na orelha. Fiquei muito curioso para saber como seria aquilo cantado, e adquiri uma fita cassete em dezembro do mesmo ano, na Mesbla. Foi amor à primeira ouvida. Antes da Tori Amos, somente os Smiths tinham conseguido a proeza de gravar um álbum do qual eu gostasse de todas as músicas. Além desse recorde, Tori também foi responsável pelo primeiro CD que eu comprei na vida (seu terceiro álbum, "Under the Pink"), pelo primeiro Single que eu comprei na vida ("Cronflake Girl") e pelo primeiro CD que eu comprei pela internet (o quarto álbum, "Boys for Pele").

Pois bem, vamos parar de falar de mim e falar um pouquinho dela. Nascida Myra Ellen Amos no dia 22 de agosto de 1963, em Newton, Carolina do Norte, filha de um pastor metodista e de uma dona de casa, filha mais nova de três irmãos, Tori passou sua infância em um subúrbio de Maryland, para onde sua família se mudou quando ela tinha um ano de idade. Desde muito pequena ela já demonstrava um enorme interesse pelo piano, e compôs sua primeira música aos quatro anos de idade. Aos seis anos, começou a estudar piano clássico no Peabody Institute, na John Hopkins University, em Baltimore, tendo se tornado a aluna mais jovem a ser admitida no Instituto. Apesar de seu grande talento, Tori acabou expulsa do Instituto, pois não gostava de tocar músicas clássicas nas audições, preferindo versões para o piano de músicas de John Lennon e dos Doors.

Aos treze anos, enquanto estudava, ela começou a tocar jazz ao piano em bares de Baltimore e Wasington DC, e gravou seu primeiro demo, "Baltimore" (uma de minhas músicas preferidas, devo ressaltar). Ao concluir seus estudos, em 1981, foi eleita "estudante com mais chances de ser bem-sucedida" por seus colegas de classe (pois é... depois tem gente que não gosta quando eu falo que os EUA são um lugar estranho...). Neste mesmo ano, ela decidiu se mudar para a Costa Oeste, para seguir seu sonho de se tornar uma cantora famosa. Foi lá que, ao fazer um teste, um dos avaliadores falou que ela "tinha cara de Tori, e não de Ellen", criando, então, seu nome artístico. Ela foi contratada para fazer parte de uma banda punk-anos-80 chamada "Y Kant Tori Read", que lançou um álbum homônimo (considerado o "primeiro álbum" de Tori por muitos fãs, como eu). O som se parece meio com Bangles, Alphaville, enfim, essas coisas que chegaram a fazer um relativo sucesso na época. Não é de todo ruim, mas não era o que ela queria fazer da vida.

A banda teve vida curta, mas, felizmente, o talento de Tori chamou a atenção de um dos vice-presidentes da gravadora inglesa Atlantic. Ao conseguir um demo de músicas-solo de Tori, ele ficou impressionado não somente com seu talento como pianista e cantora, mas também como compositora. Seu estilo de escrever canções era exatamente o que ele estava procurando. Convidada a gravar um álbum solo, Tori viajou para Londres, onde gravou seu primeiro álbum solo, "Little Earthquakes", aclamado pela crítica e pelo público, tanto que ganhou um disco de platina duplo.

Grande parte da força de "Little Earthquakes" vem das letras maduras, pessoais e introspectivas (algumas chegam a ser sem pé nem cabeça, mas isso é mais uma virtude que um defeito). Seu próximo álbum, "Under the Pink", lançado em 1994, manteve este estilo, e foi novamente um megasucesso. Seu quarto álbum, "Boys for Pele", de 1996 (para mim, o melhor de todos) é um pouco mais pesado, com letras mais tristes e reflexivas, talvez refeltindo o momento que Tori vivia, pois havia acabado de se separar de seu namorado e produtor, Eric Rosse.

Tori ainda lançou mais quatro álbuns até hoje: "From the Choirgirl Hotel", de 1998; "To Venus and Back", de 1999; "Strange Little Girls", de 2000, este somente de regravações, como "Enjoy the Silence" do Depeche Mode e "New Age" de Lou Reed; e o mais recente, "Scarlet's Walk", de 2002. Apesar de todos os seus álbuns seguirem o estilo que a consagrou, cada um é único, com sua propria identidade. Ou seja, apesar de todos seguirem o "padrão Tori de qualidade" você não encontrará dois álbuns parecidos um com o outro. A música de Tori está em constante mutação e aperfeiçoamento.

Outra coisa interessante sobre a carreira de Tori Amos é o excessivo número de Singles que ela lança. Não conheço nenhuma outra cantora que lance tantos singles por ano quanto ela. Vai gostar de inventar música assim lá na casa do chapéu. E a melhor parte é que todos eles são bons! Das minhas dez músicas preferidas, cinco devem ter saído de Singles. Alguns contém até mesmo raridades, como uma versão para "Smells Like a Teen Spirit" do Nirvana.

Apesar dos fãs sempre pedirem para que ela relançasse o "Y Kant Tori Read", existe uma cláusula em seu contrato que proíbe a Atlantic de relançar este álbum, pois Tori não vai com a cara dele.

Quem conhece a história da vida de Tori sabe que ela já passou por muitos perrengues (quem não conhece, refletindo sobre as letras de algumas de suas músicas, pode acabar descobrindo). Ela já foi até estuprada, fato narrado na triste músicas "Me and a Gun", a preferida de 9 entre 10 fãs (não a minha; pra dizer a verdade, não entra nem no meu top ten). Para evitar que outras mulheres sejam vítimas deste crime horrendo e repugnante, Tori fundou a RAINN, Rape, Abuse and Incest National Network, uma fundação que ampara vítimas de estupro, abuso sexual e incesto. Parte de toda a renda que Tori consegue com seus CDs e concertos ela destina ao RAINN.

Apesar de uma vida aparentemente de tristezas, hoje Tori é uma pessoa feliz, está muito bem casada, e tem uma filhinha de três aninhos. Uma prova de que não importam quão grandes sejam as provações, se perseguirmos nossos sonhos seremos recompensados.

Para terminar este post colossal, deixo os endereços do A Dent in Tori Amos' Universe, o site onde me informo das últimas novidades sobre a vida e a carreira de Tori, e também do site oficial, que não é lá essas coisas, mas serve pra quem quiser dar uma bisbilhotadinha.

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