domingo, 1 de junho de 2003

Vazio interior

Vocês já sentiram aquela leseira, aquele desânimo, aquela vontade de fazer nada? De repente bate um vazio interior, e a gente olha pra televisão, pros livros, pro jornal, pra estante bagunçada, e não sente vontade de fazer nada. O pior é quando isso vem acompanhado de uma sensação de que aquele "valioso" tempo está sendo desperdiçado, uma angústia por não estar fazendo nada quando algo poderia ser feito.

Estamos tão acostumados com a pressa, com nossos afazeres diários, que quando ficamos sem nenhum deles, em nosso momentos de lazer, somos acometidos desta "culpa", como se pudéssemos estar estudando, arrumando uma estante, sei lá, fazendo algo para aproveitar um tempo que, a princípio, seria para não fazer nada mesmo.

Eu, particularmente, odeio acordar tarde. Agora que estou "de férias" (ou seja, desempregado), não tem nada que me deixe mais irritado do que abrir os olhos e ver no relógio que já está perto do meio-dia. Por alguma razão, durante todo esse dia, eu fico com a sensação de que as horas estão passando mais depressa do que deveriam, de que não vai dar tempo de fazer nada que presta.

A comprovação de que isso é um efeito psicológico vem quando eu tenho uma das raras oportunidades de "fugir para um local bucólico", viajando num feriadão por exemplo. Fora da nossa Cidade Calamitosa eu posso ficar o dia inteiro olhando pro teto, que não sinto nenhuma angústia, a hora não demora a passar, nada. Esquisito.

Sexta-feira eu tive essa sensação de tempo desperdiçado, enquanto assitia TV à tarde. Eu não tinha a menor vontade de assistir o que estava assistindo, mas pensava em milhares de alternativas, e igualmente não tinha a menor vontade de mudar para nenhuma delas. Foi quando eu pensei "oh, não, não estou fazendo nada, preciso fazer algo para não disperdiçar meu tempo", foi que me deu o clique que motivou este post: Por que, dentro de uma semana, não posso ficar umas duas horas fazendo nada que presta? Quem me disse que isso é errado? Quantos que estão trabalhando estafantemente nesse momento não estariam querendo simplesmente sentar e ver televisão?

Estamos vivendo como abelhas. Ou formigas, se você não gostar de abelhas. Inconscientemente, trabalhamos dois terços do nosso tempo (seja em trabalho mesmo, estudo, afazeres domésticos ou o que seja), e achamos que não servimos para mais nada se não estivermos trabalhando. Esse pensamento inconsciente é que nos leva ao "vazio interior" que surge quando não estamos fazendo nada. De tanto sermos condicionados desde pequenos a não sermos vagabundos, desenvolvemos um medo irracional de realmente seguirmos esse caminho. Quaisquer dez minutos improdutivos já bastam para que nosso cérebro ligue o alarme de vagabundagem e nos ponha para arrumar um serviço.

E aí, mesmo que estejamos gostando do programa da TV, começamos a nos sentir culpados porque ver TV é "improdutivo". Não queremos desligar a TV, mas também não queremos ficar ali assistindo impunemente. Se fôssemos autômatos, nessa hora entraríamos em curto.

Se você não sabe do que eu estou falando, e fica sem fazer nada na maior e sem culpa, parabéns. Ou não, já que existe a possibilidade de você ser apenas um vagabundo convicto. De qualquer forma, não acho que isso possa acabar bem. Precisamos de descanso, afinal, mesmo que não queiramos descansar.

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