domingo, 23 de março de 2003

Insegurança (II)

Na última quinta-feira, fiz um post sobre a insegurança, que pode ser lido bem aqui debaixo desse por quem ainda não o fez. Graças ao advento do feedback, Penny Lane fez um comentário interessante - uma coisa que, inclusive, eu ia incluir no meu post original, mas depois eu acabei esquecendo - e, ao ler tal comentário, senti vontade de voltar ao assunto (na verdade eu ia fazer um comentário respondendo ao comentário dela, mas estava ficando grande demais). Portanto, primeiro reproduzirei um pedacinho do comentário que ela fez, depois discutirei um pouco mais este assunto:

"(...) acho que esse lance de insegurança não é uma novidade da nossa geração. Sempre existiu quem fumasse para agradar os outros (aliás, acho que uma conquista da nossa geração é poder dizer "não" ao cigarro sem se sentir mal); quem desse pro namorado sem querer, só para dar prova de amor; quem se jogasse na frente do trem porque os amigos o fizeram.
Enfim, desde sempre houve gente sem conteúdo e disposta a tudo para se encaixar".

Eu concordo que este não seja um problema exclusivo de nossa geração. O que mais me impressiona, no entanto, é que, quanto mais o tempo passa, maior a insegurança das pessoas aumenta, mais os grupos se fecham, quando, devido à facilidade de acesso à informação, à maior liberdade concedida aos filhos pelos pais, e a uma série de outros fatores, deveria ocorrer o contrário - ou seja, eventos que deveriam contribuir para o bem, por alguma influência nefasta, contribuem para o mal.

Os meios de comunicação deveriam contribuir para a libertação das massas - se não diretamente, devido aos ditames do capitalismo selvagem, pelo menos indiretamente, através da disseminação de informações. No último fim de semana, Penny Lane, Débbby e o Andarilho estavam conversando sobre um assunto que eu não sei bem qual era, porque só ouvi um pedaço, e acabaram tocando neste assunto: como é possível que, hoje em dia, com todas as informações sobre os males do cigarro que as pessoas têm, os jovens ainda comecem a fumar?

Realmente é uma coisa estranha: continuamos tendo fumantes apesar de toda a informação sobre os males do cigarro, ainda temos adolescentes grávidas apesar de todas as campanhas pelo uso da camisinha, ainda temos madeireiros apesar da conscientização ecológica. Alguma coisa acontece no meio do caminho que dita novos padrões de comportamento diferentes dos que seriam esperados pelo bom-senso. É certo que hoje em dia é mais fácil dizer não a um cigarro ou a um namorado tarado do que há 30 anos atrás, mas, por algum motivo, as pessoas simplesmente não querem fazer isso.

Um amigo meu uma vez disse que "talvez liberdade demais tenha estragado a população". É um pensamento meio drástico, mas pode ser adaptado. Acho que a palavra mais adquada não seria "liberdade", mas sim "liberação". Em termos históricos, no século XX a humanidade teve uma liberação muito, muito rápida. Em um espaço de 100 anos as pessoas foram mais liberadas do que nos 500 anos anteriores - basta comparar a sociedade de 1800 com a de 1900 e a de 1920 com a de 1970: na metade do tempo, o dobro do avanço.

Devido a este avanço em fast-forward, a sociedade se embolou, e, ao invés de tornar as pessoas mais livres, tornaram-nas mais escravas, só que de padrões diferentes. Em 1850 os jovens eram escravos de suas famílias, hoje o são de seus "amigos", pois vivem segundo padrões de comportamento ditados, se comparados talvez mais rígidos que os familiares, apesar de menos evidentes.

Como eu já disse antes, infelizmente não tenho uma solução para isso, meu papel é apenas comentar sobre o problema, mas gostaria de ter a esperança de que, um dia, as pessoas consigam ser indivíduos, e não robozinhos remotamente controlados por uma entidade sem rosto chamada "sociedade".

Eu li uma vez no jornal (não lembro quando nem onde) uma entrevista de um sociólogo (que eu também não lembro quem era - que beleza!) falando sobre a moda. Ele dizia que, antigamente, as pessoas começavam a usar algum tipo de roupa, e aí os outros achavam legal, começavam a usar também, e isso virava a moda. Hoje em dia, um estilista chega na televisão em meados de novembro e diz: "a moda para a próxima temporada outono-inverno será o casaco de couro". Em março do ano seguinte, todas as lojas começam a vender casacos de couro, e todo mundo só quer usar casacos de couro.

Sei não, mas alguma coisa está errada...

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