domingo, 29 de julho de 2018

Um Grito de Pavor / Carnaval de Almas

Além de filmes de ficção científica, eu sou fã de filmes de terror. Mas não desses de hoje em dia, em que todo mundo morre de formas nojentas e de vez em quando rola um sustão pra gente pular na cadeira, enquanto na maior parte do filme dá sono. Eu gosto daqueles das antigas, nos quais o medo é constante e nem precisa ter sustos ou mortes pra gente ficar aterrorizado. Se for em preto e branco, então, melhor ainda.

Enquanto eu escrevia o post sobre Viagem Fantástica, pensei que seria legal dar um tempo na ficção científica e falar sobre alguns filmes de terror nesse estilo, nem que fosse para apresentá-los a quem não os conhece. Diante disso separei dois dos meus preferidos, que abordarei a partir de agora. Hoje é dia de terror no átomo!

O primeiro filme de hoje é um dos melhores que eu já vi na minha vida, Um Grito de Pavor, produção de 1961 dos Estúdios Hammer. Fundada em 1934 em Londres, Inglaterra, a Hammer é considerada por muitos como a principal produtora de filmes de terror do planeta, com vários superclássicos do gênero em seu extenso catálogo. Sua fama seria construída com séries de filmes envolvendo os monstros clássicos do cinema, com nada menos que nove filmes de Drácula, sete com o Monstro de Frankenstein, quatro com a múmia amaldiçoada e mais um punhado de outros com lobisomens, zumbis, bruxas, vampiros e até mesmo versões de O Médico e o Monstro e O Fantasma da Ópera. Muitos dos filmes do estúdio, em especial os da série Drácula, contavam, no elenco, com o ator Christopher Lee, que seria um dos rostos mais famosos da Hammer. Além de monstros famosos e da presença luxuosa de Lee, os filmes da Hammer fariam sucesso por seu uso magistral do suspense, construído a cada cena, e por roteiros que fugiam do lugar comum estabelecido pelas produções de Hollywood - não era incomum que os filmes da Hammer tivessem reviravoltas, revelações surpreendentes, estrutura não-linear e outros artifícios que são lugar-comum hoje, mas eram grandes inovações em sua época.

Originalmente, a Hammer não seria criada como um estúdio de filmes de horror, produzindo filmes de todos os gêneros entre as décadas de 1930 e 1950. A partir de 1955, ao ver que seus filmes de horror rendiam mais que os demais, ela passaria a se especializar no gênero, lançando seus maiores sucessos entre as décadas de 1950 e 1970. O próprio sucesso da Hammer, infelizmente, contribuiria para sua derrocada, já que muitos outros estúdios queriam imitá-lo, o que levou a uma saturação do mercado - no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, mais de dez filmes de terror estreavam por mês nos cinemas dos Estados Unidos, a maioria deles de qualidade duvidosa, o que fazia com que os realmente bons passassem despercebidos e tivessem bilheteria modesta. Com menos dinheiro em caixa, a produção da Hammer começaria a rarear, com poucos filmes sendo lançados pelo estúdio na segunda metade da década de 1970.

O último filme da Hammer antes de um hiato de décadas seria A Dama Oculta, lançado em 1979, refilmagem de uma produção de Alfred Hitchcock de 1938; depois disso, o estúdio até continuaria existindo, mas não lançaria nenhum novo filme até meados dos anos 1980, quando seus donos decidiriam fechar as portas. Os Estúdios Hammer e todo o seu acervo seriam comprados em 2000 por um consórcio de milionários, que anunciaria novas produções para breve, mas elas jamais começariam. Em 2007, o consórcio decidiria vendê-lo para o holandês Jon de Mol, dono da Endemol, companhia responsável pela criação de vários reality shows, inclusive o Big Brother. Desde 2008, a Hammer vem lançando novos filmes, ao ritmo de mais ou menos um por ano, mas já sem o mesmo sucesso dos áureos tempos - seus novos lançamentos incluem a versão norte-americana de Deixe-me Entrar, com Chloë Grace Moretz, e A Mulher de Preto, com Daniel Radcliffe.

Enquanto estava na crista da onda, porém, a Hammer produziria várias obras-primas, e Um Grito de Pavor é considerado por muitos, inclusive por Christopher Lee, como a maior delas. O filme seria escrito e produzido por Jimmy Sangster, roteirista de três dos maiores sucessos da Hammer, A Maldição de Frankenstein, Drácula e A Múmia; e dirigido por Seth Holt, que, na época, só tinha mais um filme no currículo, Sem Saída, suspense lançado em 1958 pela Ealing Films. Para muitos, um dos maiores trunfos do filme é a sintonia entre Sangster e Holt, que constroem as cenas de suspense com maestria, e fazem com que o final, surpreendente, permaneça oculto dos espectadores até sua revelação, apesar de inúmeras dicas ao longo da história - percebidas quando assistimos uma segunda vez.

No enredo do filme, Penny Appleby (Susan Strasberg) é uma jovem paraplégica que, após anos vivendo longe da família, decide retornar para a casa do pai (Fred Johnson), que desapareceu misteriosamente. Lá, ela é recebida por sua madrasta, Jane (Ann Todd), quase de sua idade, e pelo motorista, Bob (Ronald Lewis), que se interessa romanticamente por ela. Após se instalar, ela decide investigar o desaparecimento do pai, mas acaba se deparando, em vários locais diferentes da casa, com seu cadáver. O problema é que, aparentemente, só Penny vê o cadáver: toda vez que ela chama Jane ou Bob, quando eles chegam ao local onde ela está, o cadáver já não está mais lá, nem há qualquer sinal de que ele já tenha estado lá um dia. Evidentemente, isso faz com que Jane passe a acreditar que Penny está louca, e peça ajuda a um médico amigo da família, o Dr. Gerrard (Christopher Lee). Penny, por sua vez, passa a acreditar que Jane e o Dr. Gerrard mataram seu pai e armaram um complô para enlouquecê-la - pois, assim, Jane ficaria com todo o dinheiro da herança, que, com Penny sã, é dela - e pede ajuda a Bob, que, mesmo desconfiado de sua história, decide ajudá-la em nome do afeição que sente por ela.

Com o título original de Taste of Fear (algo como "o gosto do medo"), Um Grito de Pavor estrearia em Londres em 4 de janeiro de 1961. Nos Estados Unidos, ele receberia o nome de Scream of Fear ("grito de medo"), e estrearia exatamente três meses depois, em 4 de abril. Infelizmente, não há registro de quanto o filme tenha custado, mas, segundo a Hammer, ele rendeu 800 mil dólares na Europa, uma quantia gigante para um filme de terror da época. No Reino Unido e nos Estados Unidos, entretanto, o filme rendeu pouco, e foi considerado um fracasso de público. O filme seria bastante bem recebido pela crítica, por outro lado, e hoje é considerado como um dos melhores filmes da história do cinema.

Christopher Lee sempre bateu nessa tecla, dizendo em várias entrevistas que Um Grito de Pavor foi o melhor filme no qual ele atuou, e o melhor já produzido pela Hammer, inclusive declarando que ele tinha o melhor roteiro, o melhor elenco e o melhor diretor. Curiosamente, a atuação de Lee no filme costuma ser criticada, principalmente porque ele tentou fazer um sotaque francês que não ficou muito bom; de qualquer forma, diferentemente de em outros filmes da Hammer, o papel de Lee em Um Grito de Pavor é pequeno, e seu sotaque estranho em nada influencia na qualidade do filme.

A atuação de Strasberg, por outro lado, costuma ser aclamada, com a atriz, na época com 22 anos, sendo considerada uma das maiores responsáveis pelo clima de terror e pelo fato de o final não ser descoberto até que aconteça. Strasberg, que é filha de Lee Strasberg, professor do famoso Actors Studio de Nova Iorque, e evidentemente não é paraplégica na vida real, estrearia na televisão aos 15, e, ao ser selecionada por Holt para protagonizar seu filme, já tinha uma sólida carreira na TV, no cinema e na Broadway, onde, aos 18 anos, foi indicada a um Tony Awards por O Diário de Anne Frank, que protagonizou. Holt a escolheria após ver sua atuação em Kapò, filme italiano sobre o Holocausto lançado em 1960, que seria indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro - o qual perderia para A Fonte da Donzela, de Ingmar Bergman. Depois de Um Grito de Pavor, ela se dedicaria majoritariamente à televisão, participando de séries como Dr. Kildare, Bonanza e Os Invasores, e apenas eventualmente fazendo algum filme para o cinema, a maior parte deles de terror. Ela decidiria se aposentar em 1996, e faleceria três anos depois, em 1999, aos 60 anos, de câncer de mama.

Uma curiosidade sobre as filmagens de Um Grito de Pavor é que, durante uma cena na qual Penny, Jane e o Dr. Gerrard estão jantando à mesa, Lee viu o ator Gary Cooper no estúdio. Até aí nada de mais, se Holt, posteriormente, não declarasse que a expressão facial de Lee ao ver Cooper se assemelhava à de quem viu um fantasma. Bizarramente, Cooper, que estava no estúdio para gravar A Tortura da Suspeita, que viria a ser seu último filme, morreria de câncer na próstata pouco depois da estreia de Um Grito de Pavor nos cinemas - e, na época em que Lee se assustou com sua presença, sua doença ainda não era de conhecimento público.

Um Grito de Pavor passaria vários anos "intocado", sem quaisquer planos para um remake ou continuação, até que, em maio de 2013, a Sony anunciou ter adquirido os direitos sobre o filme, e que produziria um remake dirigido por Juan Antonio Bayona, do terror O Orfanato e do drama O Impossível. O projeto, por alguma razão, jamais saiu do papel. Eu até prefiro assim.

O segundo filme que veremos hoje é Carnaval de Almas, de 1962, cujo título em português pode ser considerado um erro de tradução: seu título original é Carnival of Souls, e carnival, em inglês, além de ser o nome pelo qual eles se referem ao nosso Carnaval, significa "parque de diversões". Como um parque de diversões faz parte da trama, uma tradução mais correta para o título seria "O Parque de Diversões das Almas" - embora eu confesse que esse não seja lá um título muito bom.

De qualquer forma, a protagonista de Carnaval de Almas é a jovem Mary Henry (Candace Hilligoss), única sobrevivente de um tenebroso acidente de carro, encontrada milagrosamente com vida mas sem qualquer memória do acidente ou de como teria sobrevivido. Pouco depois do acidente, ela consegue um emprego como organista em uma igreja de uma pequena cidade no estado de Utah, e, na estrada, a caminho de lá, passa por um parque de diversões abandonado. De repente, ela vê o reflexo de um estranho homem pálido (Herk Harvey) na janela do passageiro, e se assusta, quase saindo da estrada. Mesmo assim, ela consegue chegar a seu destino, sem conseguir, porém, tirar da cabeça a imagem do parque abandonado.

Mary se hospeda na pensão da Sra. Thomas (Frances Feist), cujo único outro hóspede, John Linden (Sidney Berger), se interessa romanticamente por ela, sem ser correspondido. No dia seguinte, ela volta a ver o estranho homem pálido, e passa por duas experiências assustadoras: primeiro, ela parece ficar invisível e inaudível por alguns minutos, incapaz de se comunicar ou de interagir com qualquer outra pessoa; depois, ao praticar a música que deve tocar no órgão da igreja, ela entra em uma espécie de transe, tocando uma música tenebrosa, classificada pelo reverendo (Art Elisson) como profana. Nesse meio tempo, ela conhece o Dr. Samuels (Stan Levitt), médico que decide ajudá-la, acreditando que ela está passando por um colapso nervoso causado pelo trauma de ter se envolvido no bizarro acidente. Mary, porém, está convencida de que as estranhas experiências pelas quais tem passado estão ligadas ao parque de diversões abandonado, e decide tentar explorá-lo em busca de uma resposta.

Uma característica curiosa de Carnaval de Almas é que ele é um filme 100% independente. Ele seria dirigido, produzido e co-escrito por Herk Harvey, que era produtor e diretor de filmes educacionais e corporativos - tipo os filmes que são exibidos para os empregados recém-contratados de uma empresa, para os visitantes de um ponto turístico, ou nas escolas como complemento para as aulas. Harvey era empregado da Centron Corporation, empresa especializada nesse tipo de filme, e morava e trabalhava na cidade de Lawrence, Kansas. Um dia, ele foi enviado pela Centron para filmar na Califórnia, e decidiu ir e voltar com seu próprio carro; no caminho, enquanto passava pela cidade de Salt Lake, no Utah, ele passou por um parque de diversões abandonado, e teve a ideia para o filme. Segundo Harvey, ao retornar a Lawrence ele entrou em contato com seu amigo roteirista John Clifford, também funcionário da Centron, e lhe perguntou se ele estaria disposto a escrever um filme para o cinema. Harvey e Clifford escreveriam todo o roteiro em três semanas, escrevendo durante seu tempo livre.

Com o roteiro pronto, Harvey começou a passar a sacolinha dentre empresários e comerciantes das cidades de Lawrence e Salt Lake, nas quais o filme seria rodado, para conseguir o dinheiro necessário para sua realização. Pedindo 500 dólares a cada um, ele conseguiria juntar 17 mil dólares, que usaria para começar as gravações, conseguindo mais 13 mil durante as gravações e 3 mil ao seu término, para um orçamento total de 33 mil dólares, baixo até mesmo para a época. Para poder estar presente nas filmagens, Harvey pediria uma licença à Centron, que só concordaria se o tempo máximo dessa licença fosse de três semanas; para poder completar as filmagens nesse tempo, a equipe e o elenco teriam de trabalhar sete dias por semana.

Para cortar custos, Harvey usaria várias técnicas as quais estava acostumado a usar na produção de seus filmes, mas que não eram comuns no cinema. Para filmar as cenas de dentro dos carros em movimento, por exemplo, ele usaria câmeras portáteis a bateria, ao invés de filmar o carro parado e depois acrescentar as cenas em movimento ao fundo, como era padrão em Hollywood na época; essas câmeras portáteis também acabariam sendo usadas em várias outras cenas, para que não houvesse necessidade de instalação de trilhos e gruas. Como precisava de um diretor-assistente familiarizado com as câmeras portáteis - e que não cobrasse caro - Harvey escolheria Reza Badiyi, um jovem imigrante iraniano que até então só havia trabalhado em um filme, Os Delinquentes, de Robert Altman, mas que depois faria uma bem sucedida carreira na televisão, sendo responsável por episódios e por criar as aberturas de séries como Agente 86, Mary Tyler Moore e Hawaii 5-0.

Para evitar gastar com figurantes, em algumas cenas, como uma na qual Mary tenta comprar um vestido, ou quando Linden leva Mary até um bar, Harvey usaria as chamadas "técnicas de guerrilha", simplesmente colocando os atores no ambiente e filmando, sem declarar que estava sendo produzido um filme ou sequer reservar os espaços para as filmagens; transeuntes que tivessem que interagir com os atores, como a vendedora que mostra o vestido a Mary, recebiam 50 dólares da produção para "atuar". Após muito pechinchar, Harvey também conseguiria alugar o parque de diversões abandonado por 50 dólares, mas apenas por um único dia, com todas as cenas que se passavam lá tendo de ser filmadas de uma vez. A cena do acidente, no início do filme, também seria bastante pechinchada: Harvey conseguiria um acordo com o prefeito da cidade de Lecompton, Kansas, na qual a cena seria filmada, que permitiria a filmagem sem nenhum custo, com a condição de que a equipe reparasse quaisquer danos causados durante o acidente; graças a isso, toda a cena custaria apenas 38 dólares.

A atriz mais bem paga do elenco, evidentemente, seria Hilligloss, de 20 anos de idade, descoberta por acaso por Harvey durante uma filmagem em Nova Iorque. Ela havia acabado de passar em um teste para protagonizar outro filme de terror, Psychomania, dirigido por Richard Hilliard e previsto para estrear em 1963, mas gostaria mais do roteiro de Carnaval de Almas, e abriria mão de Psychomania para filmá-lo. Hilligloss receberia dois mil dólares por seu papel, mas, apesar de se tornar relativamente famosa por ele, não conseguiria fazer sua carreira decolar, atuando em apenas mais dois filmes e dois episódios de séries de TV, nunca novamente como protagonista, até decidir se aposentar em 1981. O restante do elenco era composto de atores amadores que receberiam menos de mil dólares cada um, e o próprio Harvey decidiria interpretar o homem misterioso que aparece para Mary. Para conseguir a baixo custo o efeito com o qual o reflexo do homem misterioso aparece no vidro do banco do carona do carro de Mary, Harvey usaria o truque mais simples possível: um espelho.

A trilha sonora ficaria a cargo de Gene Moore, amigo de Harvey, que decidiria compô-la inteiramente em um órgão, para contribuir com o clima sinistro do filme. Moore teria essa ideia após visitar alguns dos locais que seriam usados no filme, como o parque de diversões abandonado, e foi somente após saber da ideia de Moore que Harvey decidiria que Mary seria organista, e incluiria a cena na qual ela toca órgão na igreja - a princípio, ela iria apenas trabalhar na igreja, e o reverendo a consideraria profana quando ela contasse suas estranhas visões. A trilha sonora de Carnaval de Almas seria lançada com um pouco de atraso, em 1988, mas, devido a um status de cult adquirido pelo filme, ainda assim venderia bem.

Carnaval de Almas estrearia em Lawrence em 26 de setembro de 1962, com estreia nacional na semana seguinte. Graças a um erro da Herts-Lion International Corporation, responsável pela distribuição do filme, ele não contaria com um aviso de copyright em seus créditos, o que faria com que, de acordo com as leis dos Estados Unidos na época, ele fosse de domínio público desde seu lançamento. A Herts-Lion perceberia esse erro antes do lançamento internacional e o corrigiria, de forma que, fora dos Estados Unidos, ele não seria considerado de domínio público. Talvez por sorte, até o final da década de 1960 ninguém quis se aproveitar desse fato para exibir o filme nos cinemas sem pagar nada a Harvey, mas, quando do lançamento do filme em home video, muitas cópias seriam lançadas com a alegação de domínio público, o que desagradaria o diretor.

Na época de seu lançamento nacional, Carnaval de Almas seria lançado, por opção da Herts-Lion, em double feature com outro filme, O Mensageiro do Diabo, estrelado por Lon Chaney Jr. e dirigido por Herbert L. Stock - uma double feature significava que um filme era exibido "grudado" no outro, com apenas alguns trailers entre um e outro, ou seja, a pessoa pagava um único ingresso e assistia dois filmes. Essa decisão prejudicaria a bilheteria do filme, que arrecadaria apenas 30 mil dólares nos Estados Unidos, se tornando um fracasso de público. A crítica ignoraria completamente o filme, não escrevendo sequer uma resenha sobre ele na época de seu lançamento.

Outra decisão equivocada da Herts-Lion seria a de editar o filme, sem o consentimento de Harvey, antes do lançamento: a versão final de Harvey, hoje conhecida como "versão do diretor", tinha 84 minutos, mas a versão que efetivamente estreou nos cinemas tinha apenas 78 minutos, tendo sido excluída a cena na qual Mary conversa com um frentista (Dan Palmquist) sobre o parque de diversões abandonado, logo após ver o reflexo do homem misterioso na janela de seu carro, uma na qual o Dr. Samuels conversa sobre Mary com a Sra. Thomas, e com uma cena na qual o reverendo conversa com um carpinteiro sendo bastante editada. A versão do diretor seria exibida pela primeira vez na televisão, pelo canal WOR-TV, de Nova Iorque, que a compraria da Herts-Lion e a exibiria várias vezes à noite durante a década de 1960.

Em meados da década de 1980, o filme seria redescoberto, e uma nova legião de fãs surgiria. Isso motivaria não apenas o já citado lançamento de sua trilha sonora, mas também um relançamento nos cinemas, em vários festivais da Europa e dos Estados Unidos. Em 1989, a versão do diretor seria lançada pela primeira vez nos cinemas dos Estados Unidos, no dia de Halloween; somente então o filme seria avaliado pela crítica, que o receberia bastante positivamente, elogiando sua atmosfera, trilha sonora e a atuação de Hilligloss. Na década de 1990, seria lançada uma versão colorizada, o que contribuiria ainda mais para a popularidade do filme. Hoje, Carnaval de Almas é considerado um dos maiores clássicos dos filmes de horror, e um dos melhores filmes deste estilo de todos os tempos.

O sucesso tardio do filme levaria, na década de 1990, a uma "refilmagem" - entre aspas porque não tem absolutamente nada a ver com o original além do título e do final. Escrito e dirigido por Adam Grossman, o filme é protagonizado por Alex Grant (Bobbie Phillips), que, em 1977, vê um palhaço chamado Louis Seagram (Larry Miller) estuprar e matar sua mãe. Seagram fica 20 anos preso, e, ao sair, passa a perseguir Alex, envolvendo-a em um jogo de gato e rato em um parque de diversões abandonado. Lisa Harrison, a produtora, convidaria Hilligloss e Sydney Berger para fazer participações especiais; Berger aceitaria, mas Hilligloss recusaria. Em uma entrevista da época, a atriz revelaria que, ainda na década de 1960, apresentaria a Harvey uma ideia para uma sequência de Carnaval de Almas, a qual o diretor prometeria realizar mas jamais o faria, e que se ressentia por Harrison ter negociado o remake com Clifford e Harvey, mas não com ela, tendo sido esse o motivo para sua recusa em participar do novo filme.

Harvey faleceria em 1996, e não veria a estreia do remake, o que, provavelmente, ocorreu para melhor: o filme sofreria vários atrasos na produção, e seria rejeitado por sucessivas plateias de testes, todas considerando-o fraco e de roteiro confuso. Harrison chegaria a negociar com Wes Craven, diretor de A Hora do Pesadelo, a inclusão de seu nome no título do filme, mesmo sem ele ter tido absolutamente nada a ver com a produção, para ver se assim ele despertava mais interesse, mas mesmo isso se mostrou ineficaz. Diante de tanta repercussão negativa, a Trimark Pictures, responsável pela distribuição, desistiria de lançá-lo nos cinemas, assim, Wes Craven apresenta Carnaval de Almas seria lançado diretamente em vídeo, em 21 de agosto de 1998, não vendendo quase nada e fracassando junto à crítica. Mais um motivo para eu preferir que o remake de Um Grito de Pavor permaneça engavetado.

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