domingo, 22 de julho de 2018

Breakers

Eu gosto bastante de falar sobre jogos de porrada aqui no átomo. O problema é que eu acho que minhas opções estão se esgotando, já que eu já falei de quase todos os antigos que eu gostava. Existe um, entretanto, sobre o qual eu de vez em quando penso em falar e desisto. Hoje, eu resolvi não desistir e começar a escrever, para ver no que ia dar. Deu até um post razoável. Hoje, portanto, é dia de Breakers no átomo.

Eu nunca vi Breakers em nenhum fliperama, nem nunca o joguei no Neo Geo que existia na locadora perto aqui de casa, na qual podíamos pagar um determinado valor para jogar durante um certo tempo. Para falar a verdade, eu nem sabia que esse jogo existia até ser apresentado por um amigo aos emuladores. Basicamente, no ano de 1997 eu fui acometido por uma febre de emuladores, e baixei todos os que consegui, assim como todos os jogos. Depois essa febre foi minguando e hoje eu já nem os tenho no meu HD, mas, enquanto eu estava empolgado, acabei até descobrindo uns jogos bem divertidos. Um deles foi Breakers.

Breakers foi lançado em 17 de dezembro de 1996 para arcades e Neo Geo, por uma empresa chamada Visco, responsável por alguns outros jogos mais ou menos desconhecidos do console, como Andro Dunos e Super Drift Out. O intuito da Visco, evidentemente, era faturar alguns trocados numa época em que qualquer jogo de luta devorava várias fichas (ou moedas, no caso dos Estados Unidos) de jogadores ávidos por novidades; algumas das características do jogo, contudo, fariam com que ele fosse um dos mais divertidos lançados para o Neo Geo por uma empresa que não fosse a SNK.

Breakers usa o esquema tradicional para os botões do Neo Geo: dois socos e dois chutes, sendo um forte e um fraco de cada. Os personagens são bastante individualizados, com os golpes normais sendo diferentes para cada um - uma "voadora", ou seja, um chute após um pulo, tem aparência diferente e acerta o oponente de forma diferente para cada um deles, por exemplo. Também são individualizados os movimento de corrida e de fuga: pressionando o direcional duas vezes rapidamente para a frente, o personagem corre na direção do inimigo, e pressionando-o rapidamente duas vezes para trás, ele foge rapidamente do alcance do inimigo, sendo que cada personagem faz isso de forma diferente - alguns rolam no chão, outros dão uns pulinhos etc. Cada personagem também possui um determinado número de golpes especiais, realizados através de movimentos do direcional seguidos dos botões de soco e chute, sendo que qualquer golpe normal pode ser "cancelado" no meio do caminho para que um especial seja usado, pegando o oponente de surpresa. Os personagens também possuem combos, com alguns golpes podendo ser "emendados" em outros de forma que o oponente não consiga defender; Breakers tem até mesmo os infames juggle combos, combos nos quais um golpe joga o oponente para cima e os demais o acertam antes de ele voltar ao chão, algo bastante comum em jogos de porrada hoje em dia, mas ainda raro em 1996. Finalmente, uma característica curiosa do jogo é que há um comando para que o personagem se levante mais rápido quando ele é derrubado por um golpe do oponente, que, se usado corretamente, pode até permitir um contra-ataque com um combo antes que o oponente perceba o que está acontecendo.

Breakers também possui a hoje onipresente barra de super, na parte inferior da tela, e que conta com quatro níveis, 0, 1, 2 e Maximum. A barra enche cada vez que o personagem atinge um oponente com qualquer tipo de golpe, exceto um super, toda vez que ele usa um especial, mesmo que não acerte o oponente, e em duas situações bizarras: a primeira é quando você provoca o oponente, o que pode ser feito através de uma combinação de botões uma vez a cada seis segundos; a segunda é quando você usa alguns tipos de ataque contra um oponente que está bloqueando. Esses tipos de ataque variam de acordo com cada personagem, ou seja, nem todos ganham barra de super quando um chute é bloqueado, por exemplo. Uma vez que a barra de super alcance o nível Maximum, todos os golpes daquele personagem passam a causar mais dano durante 6 segundos, quando a barra voltará para o nível 2. Enquanto a barra tiver pelo menos um nível diferente de 0, o personagem poderá usar seus supers, que são especiais que causam mais dano. Um especial "comum" pode ser cancelado e virar um super, pegando um oponente de surpresa, da mesma forma que um golpe normal pode ser cancelado e virar um especial.

A rigor, uma luta é em melhor de três rounds, ou seja, quem vencer dois rounds primeiro ganha a luta. Em Breakers, entretanto, é curiosamente comum um round acabar sem vencedor porque ambos os personagens ficaram sem energia ao mesmo tempo; nesse caso, uma luta pode durar até cinco rounds, sendo que o jogador não ganha nenhum ponto de bônus caso vença a luta no quinto round - e, caso no quinto round ambos fiquem sem nenhuma energia ao mesmo tempo, a vitória é sempre dada ao computador, ou, caso seja uma luta entre dois jogadores, o jogo termina automaticamente. Um dos motivos pelos quais é comum ambos ficarem sem energia ao mesmo tempo é que o jogo possui um "ajuste de dano automático", que visa fazer com que os jogadores variem seus golpes e se utilizem das características do jogo, ao invés de sair batendo a esmo ou emendando um combo no outro; basicamente, um personagem que use poucos combos ou muitos deles seguidos passa a causar cada vez menos dano, enquanto um que pega o oponente de surpresa pode causar muito mais dano com um único golpe do que se usasse o mesmo golpe como parte de um combo.

A história de Breakers é o padrão para um jogo de porrada: existe um torneio de luta, no caso chamado The Fighting Instinct Tournament, ou FIST, e lutadores do mundo inteiro se inscrevem nele por diversos motivos. Sem que ninguém saiba, porém, o organizador do torneio possui motivos escusos: seu corpo foi dominado por um antigo espírito, que planeja absorver a força vital dos concorrentes para aumentar seu poder. Ao todo, Breakers conta com oito personagens à disposição do jogador, e mais um último chefe, que na versão Neo Geo pode ser selecionado através de um truque.

O personagem principal de Breakers é, como era de se esperar, um clone do Ryu de Street Fighter II. Seu nome é Sho Kamui, e ele é um jovem artista marcial japonês que decide se inscrever no torneio para treinar suas habilidades. O rival de Sho é Lee Dao-Long, lutador sul-coreano que pratica uma arte marcial secreta conhecida como "Punho Vazio", e também está no torneio para treinar suas habilidades. A mocinha da vez é Tia Langray, nascida em Taiwan, cujos golpes, talvez não por acaso, sejam quase todos baseados em chutes. O "Blanka da vez" também é uma mulher, a brasileira Rila Estansia, criada no meio da Floresta Amazônica, que tem uma certa aparência animalesca e ataca com garras e mordidas. Dois personagens parecem não entender que não se deve usar armas em um torneio de artes marciais: Pielle Montario é um nobre italiano que luta usando uma espada de esgrima capaz de disparar rajadas elétricas, e Shiek Maherl é um príncipe árabe que luta usando uma cimitarra e pode conjurar o poder dos ventos para inflar como um balão. Já Condor Heads é um índio norte-americano cujos golpes consistem em agarrões e arremessos. Finalmente, Alsion III é um morto-vivo egípcio capaz de esticar seus membros a grandes distâncias, e que tem alguns golpes que envenenam o oponente, fazendo-o perder energia ao longo da luta.

Uma coisa curiosa em Breakers é que, antes de enfrentar o último chefe, o jogador deve enfrentar todos os oito personagens, incluindo o personagem que escolheu. Até aí nada de mais, já que isso acontece em vários outros jogos; a parte curiosa é que, em Breakers, quando você enfrenta o próprio personagem que está usando, na verdade você está enfrentando um "outro personagem", que tem um nome e uma história completamente diferentes do seu - e que, a rigor, também está participando do torneio, embora nenhuma explicação seja dada sobre o porquê de os demais personagens não terem de enfrentá-lo. Em termos de jogo, esse "outro personagem" é igualzinho ao seu, com os mesmos golpes, apenas com um nome e um esquema de cores diferentes.

Os oito "clones", com o nome do personagem que os enfrenta entre parênteses, são Jin Sawamura (Sho), lutador de caratê japonês e antigo mestre de Sho e Dao-Long; Wang Liu-Khai (Dao-Long), lutador sul-coreano cuja namorada o largou, e que decidiu se inscrever no torneio para usar o dinheiro do prêmio para realizar seu sonho de se tornar um dublador; Shelly Tarlar (Tia), kickboxer norte-americana apaixonada pelo irmão de Tia; Virgo Sandra (Rila), peruana criada na floresta por uma cobra gigante, que a ensinou a usar os poderes da floresta; George (Pielle), nobre esgrimista francês que uma vez foi assaltado durante uma viagem à Itália, desenvolvendo um ódio mortal de italianos desde então; Javar (Maherl), açougueiro espanhol que usa seu cutelo como arma durante as lutas; Red Gigars (Condor), índio norte-americano que possui um ancestral em comum com Condor e pretende derrotá-lo em combate para se tornar o novo Chefe da tribo; e Atoum (Alsion), descendente de Alsion que é fanático por tudo o que remete ao Antigo Egito, ao ponto de se vestir de múmia e aprender a esquecida arte marcial egípcia do "Pharaoh Taijutsu". Se vocês me perguntarem, eu acho essas histórias dos clones muito toscas, mas tão divertidas que acho que o jogo seria até mais interessante se eles fossem os personagens principais.

O último chefe de Breakers é Huang Bai-Hu, que, aparentemente, é o maior artista marcial do planeta e organizador do torneio FIST, que recompensará qualquer um capaz de derrotá-lo com um gordo prêmio em dinheiro. Na verdade, porém, trata-se de um espírito maligno que assassinou o verdadeiro Huang e dominou seu corpo, e que suga a essência vital dos lutadores que derrota, ficando mais forte a cada vitória.

Em 3 de julho de 1998, Breakers ganharia uma nova versão, chamada Breakers Revenge. Não se trata de uma continuação porque o jogo é exatamente o mesmo, apenas com algumas alterações aqui e ali em nome do equilíbrio entre os lutadores e da melhor jogabilidade, além de algumas mudanças estéticas como a remoção ou inclusão de alguns elementos nos cenários e uma nova aparência para as barras de energia. A maior novidade de Breakers Revenge é um novo personagem, elevando o total disponível ao jogador para nove: Saizo Tobikageno, um ninja japonês com o poder de controlar o fogo e os animais, que quer vingança contra Huang por este ter exterminado seu clã. Assim como os demais, Saizo tem um clone, enfrentado quando o jogador está jogando com ele: Yukikage, um adolescente japonês fanático por ninjitsu.

Breakers ficaria famoso por ser um dos jogos mais obscuros do Neo Geo, graças a uma estratégia de lançamento bizarra da Visco: o primeiro Breakers seria lançado para arcades no Japão, Estados Unidos e Europa, mas para Neo Geo apenas no Japão, ou seja, não seriam vendidos cartuchos de Neo Geo de Breakers fora da Terra do Sol Nascente. Já Breakers Revenge seria oficialmente lançado apenas para Arcades, e apenas no Japão - embora, como todo cartucho de Neo Geo é basicamente uma placa de arcade dentro de um cartucho, seja possível jogar a versão Neo Geo nos emuladores, e os emuladores também revelam que havia planos de lançar Breakers Revenge fora do Japão, já que nas configurações da placa é possível mudar o idioma do jogo de japonês para inglês.

Essa exclusividade toda faria com que Breakers e Breakers Revenge jamais se popularizassem; no Japão, entretanto, o jogo ganharia um certo status de cult, com jogadores fiéis até hoje - de fato, em torneios de arcade vintage, ainda são disputadas competições de Breakers Revenge, enquanto outros títulos da mesma época sequer são cogitados para fazer parte do evento.

Para terminar, vale citar que Breakers possui uma história de desenvolvimento curiosa. O jogo foi anunciado pela Visco pela primeira vez em 1993, com o nome original japonês de Tenrin no Syo Shikago (algo como "o livro celestial da luta contra a morte"); após ser escolhido o nome Crystal Legacy para o mercado norte-americano, o nome japonês seria alterado para Tenrin no Syo Crystal Legacy.

Crystal Legacy seria anunciado com grande alarde, e ganharia matérias em três revistas japonesas especializadas em games: ainda em 1993, ele estamparia a capa da primeiríssima edição tanto da Game Hisshou Guide quanto da Game Center Tenkoku, e, em 1994, ele seria abordado em uma grande matéria da Super Gamers, que, inclusive, trazia informações como os nomes dos personagens, alguns golpes e muitas fotos das telas do jogo. De acordo com o apresentado pela Super Gamers, as principais diferenças entre Crystal Legacy e Breakers eram que a barra de super só tinha um nível, todos os personagens tinham o mesmo comando para seu único super (que consistia em apertar os quatro botões ao mesmo tempo) e que os nomes de oito dos sete personagens (a exceção sendo Alsion) eram diferentes, com Sho se chamando Takeshi Kamui, Dao-Long sendo Park Tong-Shin, Pielle Montario tendo algumas letras invertidas e se chamando Pierre Montalio (o que, na minha opinião, faz mais sentido), Shiek Maherl sendo Sahl Mahal, Huang sendo russo e se chamando Rostov, e Tia, Rila e Condor tendo os nomes de seus clones Shelly Tarlar, Virgo Sandra e Red Gigars.

Crystal Legacy seria testado em um fliperama dentro de uma estação de trem japonesa em Tóquio durante o mês de junho de 1994, e apresentado em uma feira de games japonesa dois meses depois. Antes do final de 1994, porém, o jogo seria misteriosamente engavetado pela Visco. Sem maiores explicações, ele seria totalmente reformulado, para ser lançado como Breakers dois anos depois.

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