segunda-feira, 2 de abril de 2018

Contato

Eu juro que estou tentando dar um tempo nos posts sobre cinema, mas não estou conseguindo: quando escrevi o post duplo sobre Perdido em Marte e Interestelar, citei outro filme do qual gosto muito, e sobre o qual até já deveria ter falado por aqui: Contato. Para fechar a trinca, portanto, hoje é dia de Contato no átomo!


Lançado em 1997, Contato é baseado em um livro escrito por um dos meus ídolos, o astrônomo Carl Sagan. Só que, curiosamente, Sagan não decidiu escrever o livro primeiro para que ele fosse adaptado depois: ele teria a ideia de escrever um roteiro para um filme que mostrasse o primeiro contato entre a humanidade e uma civilização alienígena em 1979, mesmo ano em que Lynda Obst, uma de suas melhores amigas, ligada à indústria do entretenimento, seria contratada para ser uma das principais executivas do estúdio Casablanca Films. Obst ofereceria a ideia de Sagan ao produtor Peter Guber, dono da Casablanca, que a aprovaria. Ao receber a notícia, Sagan e Ann Druyan, produtora e roteirista com a qual ele viria a se casar em 1981, escreveriam um roteiro preliminar de cem páginas, que seria entregue a Guber no final de 1980.

O roteiro inicial de Sagan e Druyan era focado na representação ficcional de como deveria ser um primeiro contato entre nossa espécie a uma espécie inteligente alienígena, com uma dicotomia entre a ciência e a religião como metáfora para a busca para a própria humanidade refletida na busca por vida extraterrestre. Sua protagonista era a Dra. Eleanor "Ellie" Arroway (nome que Sagan criaria unindo o prenome de um dos maiores ídolos de Druyan, Eleanor Roosevelt, com um sobrenome inspirado no de um de seus maiores ídolos, o escritor e filósofo Voltaire, cujo nome verdadeiro era François-Marie Arouet), inspirada em uma cientista real, a Dra. Jill Tarter, chefe do Projeto Fênix do Instituto SETI, organização sem fins lucrativos cuja missão é explorar, compreender e explicar a origem da vida no universo, aplicando esse conhecimento na inspiração e melhoria da qualidade de vida das gerações futuras - sendo o Projeto Fênix justamente a parte que procurava por vida alienígena através da análise de sinais de rádio vindos do espaço. O contraponto de Ellie, Palmer Joss, era um ex-seminarista que desistiria de se tornar padre, passando a ser um consultor espiritual de sucesso, após uma experiência pessoal na qual acreditou ter se comunicado com Deus. Enquanto escreviam o roteiro, Sagan e Druyan teriam como consultores a Dra. Tarter, que lhes ofereceria um panorama das carreiras das cientistas mulheres entre os anos 1950 e 1970, para que o filme pudesse retratar a vida de uma cientista feminina com realismo, e o físico Kip Thorne, que daria ideias como sobre se comportaria, no mundo real, um buraco de minhoca - um "portal" no espaço, capaz de fazer uma espaçonave cobrir grandes distâncias em pouco tempo.

Guber, entretanto, não achou que o roteiro original de Sagan e Druyan teria qualidades comerciais, e contratou um painel de roteiristas para reescrevê-lo, que deram ideias para novos personagens, um deles um guarda florestal que decide se tornar astronauta, o outro um filho adolescente da Dra. Arroway, com a qual ela não teria um bom relacionamento, pois assim, segundo Guber, o filme mostraria um contraste entre uma mulher que procura vida lá fora, mas não consegue se conectar com a vida aqui dentro. Sagan e Druyan foram inflexíveis quanto a rejeitar essas mudanças, que acabariam não sendo incorporadas. Também houve um grande debate entre os roteiristas sobre se a Dra. Arroway deveria ou não engravidar no final do filme, para que ficasse no ar se seu filho era ou não de um dos alienígenas.

Em 1982, Após chegar a uma versão do roteiro que considerava satisfatória, Guber a ofereceu à Warner Bros. O estúdio do Pernalonga comprou o roteiro, mas, por razões não divulgadas, não começava sua produção. Seria então que Sagan receberia da editora Simon & Schuster uma proposta de dois milhões de dólares - a maior soma paga até então para um livro que ainda não havia sido escrito - para transformar seu roteiro original em um livro. Ele faria algumas pequenas mudanças estilísticas - já que ler um livro e ver um filme são coisas bem diferentes - e entregaria o manuscrito à editora no início de 1985. Contato, o livro, seria lançado em setembro daquele ano, alcançando a sétima posição na lista dos mais vendidos nos Estados Unidos.

Em 1989, Guber se tornaria o presidente da Sony Pictures Entertainment, e tentaria comprar os direitos de Contato da Warner, que recusaria a oferta. Pouco tempo depois, Obst seria contratada para ser executiva na Warner, e decidiria finalmente começar a produção do projeto. Ela contrataria o roteirista James V. Hart (de Drácula de Bram Stoker) e o diretor Roland Joffé (de A Missão), que quase começariam as filmagens em 1991, antes de Joffé decidir se desligar do projeto por não gostar do roteiro de Hart. Obst, então, contrataria o novato Michael Goldenberg, sem nenhum filme ainda no currículo, para fazer modificações no roteiro de Hart. Goldenberg aparentemente não teria nenhuma pressa, pois só entregaria sua versão do roteiro em 1993.

O roteiro de Hart e Goldenberg, porém, animaria os demais executivos da Warner, que moveriam o filme para o topo da lista de prioridades do estúdio, entrando em negociações com Robert Zemeckis (de De Volta para o Futuro) para dirigi-lo. Zemeckis não aceitaria por não concordar com o final previsto nessa versão do roteiro, no qual uma nave alienígena viria à Terra em um show de luzes - segundo ele, o roteiro era "perfeito até faltar uma página e meia para o final, quando tudo foi posto a perder". A Warner, então, contrataria o diretor George Miller (de Mad Max), e, finalmente, começaria a produção, em dezembro de 1993.

Miller convidaria Jodie Foster para o papel da Dra. Arroway, Ralph Fiennes para interpretar Palmer Joss, e Linda Hunt para o papel da Presidente dos Estados Unidos. Na visão de Miller, entretanto, os alienígenas deveriam chegar com um show de lasers ao redor da Terra, e usar um buraco de minhoca para transportar todo o planeta para o centro da galáxia, decisões que não foram bem vistas pelos executivos da Warner. Ele também pediria para Goldenberg fazer mais alterações no roteiro, para transformar o Papa em um dos personagens centrais da história. A ideia da Warner era lançar o filme no Natal de 1996, mas Miller causaria tantos atrasos e pediria tantas mudanças que acabaria demitido. Zemeckis, então, aceitaria ser o diretor, desde que tivesse total controle artístico, privilégios na hora de fazer o corte final do filme, e que o final do filme fosse o mais próximo possível do final do livro. Ele também dispensaria Fiennes e Hunt, convidaria Matthew McConaughey (que, para aceitar, abriria mão de um dos papéis principais de O Chacal, que ficaria com Richard Gere) para o papel de Joss, e decidiria usar imagens reais de Bill Clinton, Presidente dos Estados Unidos na época, para conferir maior veracidade à trama. Com tudo pronto, as filmagens finalmente começariam, em setembro de 1996.

Tantos atrasos fariam com que Sagan, infelizmente, não conseguisse acompanhar as filmagens. Apesar de ter sido diagnosticado com síndrome mielodisplásica, doença congênita que leva a uma produção insuficiente de células sanguíneas, levando a anemia e fazendo com que o paciente precise de múltiplas transfusões de sangue, no final da década de 1980, ele continuaria ligado à produção do filme, e, em 1994, daria uma palestra sobre a história da astronomia para o elenco e equipe principal do filme. Quando as filmagens começaram, ele já estava bastante debilitado pela doença, e não viajou para acompanhá-las; em dezembro de 1996, ele teria uma forte pneumonia que acabaria encerrando sua vida, no dia 20 de dezembro, aos 62 anos. A Warner o homenagearia colocando sua foto dentre os pertences pessoais da Dra. Arroway, e encerrando o filme com a dedicatória for Carl.

As filmagens externas de Contato seriam bastante complexas, pois transcorreriam em dois locais onde realmente ocorre a busca por vida alienígena, o observatório de Arecibo, em Porto Rico, e o Very Large Array (VLA), um conjunto de enormes antenas parabólicas no interior do estado do Novo México, Estados Unidos; para que as filmagens dessem certo, a equipe teve de negociar com o VLA o controle das antenas, para que pudessem virá-las para as posições necessárias de acordo com o enredo, na primeira e única vez até hoje em que as antenas puderam ser controladas sem que fosse por interesse científico. No total, as externas consumiram aproximadamente dois meses de filmagens, com as cenas de estúdio, gravadas em Los Angeles, consumindo outros cinco; uma breve pausa nas filmagens ocorreu quando se soube do falecimento de Sagan, como uma espécie de luto da equipe, sendo retomadas logo após o Natal.

Além da equipe de filmagem, o filme contou com uma grande equipe de consultores, que incluía cientistas do Instituto SETI, professores do Instituto de Tecnologia da Califórnia, técnicos do VLA, e até mesmo um ex-membro do staff presidencial da Casa Branca, que prestou consultoria sobre protocolos do governo, tudo para que os eventos mostrados no filme fossem o mais verossímeis possível. Vários repórteres e apresentadores do canal CNN também aparecem no filme, como se o canal estivesse noticiando seus eventos, incluindo dois de seus programas de maior audiência, o Larry King Live e o Crossfire - na edição montada para esse último, Druyan, em uma participação especial, participa de um debate com um personagem interpretado por Rob Lowe. Pouco tempo depois da estreia do filme, a CNN emitiria um comunicado no qual se dizia arrependida de ter permitido a participação de seus jornalistas no filme, pois isso poderia ter passado a impressão de que a Time Warner, dona tanto da Warner Bros. quanto da CNN, havia manipulado a equipe do canal de notícias a seu favor.

Além dos jornalistas da CNN, por decisão de Zemeckis, também seriam usadas imagens reais de Bill Clinton, então Presidente dos Estados Unidos, o que gerou mais polêmica: em uma das cenas em que Clinton aparece, ele está dando um pronunciamento sobre a descoberta do contato alienígena; para essa cena, os produtores usaram um pronunciamento de Clinton sobre um artigo publicado em 1996 na revista Science, segundo o qual cientistas acreditavam que um meteorito encontrado na Antártida em 1984 podia conter indícios de fósseis microscópicos de bactérias marcianas - fora de contexto, as palavras de Clinton de fato poderiam estar se referindo tanto à descoberta relatada no artigo quanto à descoberta de que alienígenas estavam tentando se comunicar conosco; segundo Zemeckis, desde o início ele achou que o pronunciamento se encaixaria como uma luva no filme, mas, quando ouviu o Presidente dizer a frase "vamos continuar ouvindo com atenção ao que eles querem dizer", quase não acreditou. Além disso, em outra cena, após um projeto dos cientistas do filme resultar em falha, o Presidente dos Estados Unidos é entrevistado sobre o ocorrido, e é usada uma entrevista de 1994 na qual Clinton fala sobre Saddam Hussein, então Presidente do Iraque - novamente, fora de contexto, a frase de Clinton se encaixa perfeitamente na situação. Após a estreia do filme, a Warner receberia uma carta da Casa Branca, que não fazia qualquer exigência ou demanda, mas se dizia preocupada com o uso não-autorizado da imagem e das palavras do Presidente fora de contexto, pois, além de causar confusão quanto o que realmente foi dito pelo Presidente, poderiam dar a interpretação de que ele concorda com o uso de sua imagem em um produto comercial, ou até mesmo que ele teria atuado no filme, o que não é considerado ético; a Warner nada sofreu, mas, desde então, estúdios têm evitado repetir o que foi feito, ou pelo menos submetido as cenas nas quais o Presidente ou suas declarações aparecem para serem autorizadas previamente pela Casa Branca.

A Casa Branca não tomaria nenhuma medida coercitiva, mas Contato seria alvo de processos por dois diretores: Miller, que processaria a Warner por quebra de contrato, e Francis Ford Coppola, que alegaria que o filme e o livro eram derivados de um roteiro que ele e Sagan haviam escrito em 1975 para um especial de TV jamais produzido, e, portanto, ele tinha direito a participação nos lucros de ambos. A justiça negaria ambos os pedidos, o de Miller por não ver quebra de contrato na atitude da Warner, o de Coppola por considerar estranho que ele tenha demorado tanto para reivindicar seus direitos, já que o livro havia sido publicado em 1985 - de fato, Coppola só entraria na justiça em 28 de dezembro de 1996, uma semana após a morte de Sagan - o que, na visão do juiz responsável pelo caso, caracterizava má-fé. Coppola recorreria, mas a Corte de Apelações da Califórnia, em 2000, manteria a decisão da primeira instância.

Contato teria efeitos especiais tão avançados para a época que precisaria fazer uso de nada menos que oito empresas de efeitos especiais, incluindo a Sony Pictures Imageworks, a Industrial Light & Magic de George Lucas, a Weta Digital de Peter Jackson, e a Pixar, que licenciou o uso de seu software Renderman. A sequência de abertura, de pouco mais de três minutos, foi a sequência mais longa feita em computação digital para qualquer filme na história do cinema até então, e só seria superada sete anos depois, pela sequência de abertura de O Dia Depois de Amanhã. A cena na qual Ellie, criança (interpretada por Jena Malone, hoje uma atriz de sucesso, na época com 12 anos), corre para pegar os remédios do pai no espelho do banheiro entraria para a história do cinema como uma das mais impressionantes - a princípio, parece que Ellie está correndo atrás da câmera, mas, na verdade, o que estamos vendo é seu reflexo. Para obter esse efeito, seriam usadas, na verdade, três câmeras, com as três filmagens sendo mescladas na pós-produção com a ajuda de efeitos de computação. Os planos enviados pelos alienígenas para a construção de uma máquina de função desconhecida seriam criados por Ken Ralston, colaborador de longa data de Zemeckis, e a aparência da máquina ficaria a cargo do artista conceitual Steve Burg, que se basearia em uma máquina do tempo que havia criado para O Exterminador do Futuro 2, mas que acabaria não sendo usada. Para reproduzir com maior realismo as cenas da construção da máquina, a equipe de produção seria autorizada a visitar áreas normalmente proibidas a visitantes do Kennedy Space Center, em Merrit Island, próximo ao Cabo Canaveral, durante o lançamento de um ônibus espacial. A máquina possuía uma parte "real", que levou quatro meses para ser construída, com apenas os elementos móveis sendo criados por computação.

Contato estrearia em 11 de julho de 1997. Com orçamento de 90 milhões de dólares, um absurdo para a época, renderia 100 milhões de dólares nos Estados Unidos e 170 no mundo todo, sendo considerado um sucesso moderado; salvo algumas exceções, a crítica o receberia muito bem, considerando-o um dos melhores filmes de ficção científica já realizados. O filme seria indicado para apenas um Oscar, o de Melhor Edição de Som, que perderia para Titanic; Jodie Foster também seria indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme de Drama, mas perderia par Judi Dench. Pelo menos, Contato ganharia o Hugo Award, o maior prêmio da ficção científica, de Melhor Apresentação Dramática, reservado a filmes, programas de TV e peças de teatro (sendo o Hugo um prêmio cujas principais categorias dizem respeito à literatura de ficção científica).

Ah, sim, falta falar da história: a Dra. Ellie Arroway (Jodie Foster) trabalha para o governo analisando transmissões de rádio vindas do espaço em busca de provas de que há vida inteligente alienígena. Enquanto está trabalhando no observatório de Arecibo, em Porto Rico, ela conhece Palmer Joss (Matthew McConaughey), que está escrevendo um livro sobre espiritualidade. Apesar de antagônicos, ambos se tornam amigos, e se reencontrarão várias vezes ao longo de suas vidas.

Quando o chefe do projeto de Ellie, o Dr. David Drumlin (Tom Skerritt), decide encerrar o financiamento a seu trabalho, para aplicar o dinheiro em projetos que ele considere realmente importantes para a sociedade, ela recorre a um financiamento particular, através das indústrias de S.R. Hadden (John Hurt), bilionário visionário que tem um câncer em fase avançada. Com os equipamentos de Hadden, ela consegue receber uma mensagem vinda da região da estrela Vega, na constelação de Lira. Ao ser decodificada, a mensagem se revela como sendo instruções para a construção de uma estranha máquina, que pode ser um dispositivo de comunicação, uma cabine de teletransporte, ou até mesmo uma arma para destruir nosso planeta. Ellie terá de colocar muitas de suas convicções à prova após essa descoberta.

Completam o elenco William Fichtner como Kent Clark, cientista cego que trabalha com Ellie; James Woods como Michael Kitz, chefe do Serviço Secreto; e Angela Bassett como Rachel Constantine, chefe de gabinete do Presidente dos Estados Unidos; além de David Morse como o pai de Ellie, que aparece em flashbacks de sua infância.

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