segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Barbapapa

Uma das primeiras lembranças da minha vida é a do desenho do Barbapapa. Lembrança essa que, curiosamente, não é compartilhada por outras pessoas da minha idade que eu conheço. Se não fosse algumas fotos minhas de criança vestindo um macacãozinho com a figura dos Barbapapas, talvez eu achasse que alucinei o desenho, pois somente quando inventaram o Orkut eu encontrei mais gente que se lembrava dele. Na ocasião, eu até fiz um post sobre os Barbapapas para o BLOGuil, e, nada surpreendentemente, a totalidade dos comentários era sobre não se lembrar deles.

Pois bem, essa semana, conversando com a minha sogra (que também não se lembra do desenho, aliás), por alguma razão que eu já não lembro qual é, os Barbapapas entraram na conversa, e eu achei que seria uma boa ideia falar deles aqui, até porque o BLOGuil em sua forma original não existe mais, e ninguém pode dizer por quanto tempo o arremedo de blog que está em seu lugar ainda ficará lá. Assim, hoje é dia de Barbapapa no átomo!


Os Barbapapas não fizeram sua estreia no desenho, e sim em um livro, publicado originalmente na França, na década de 1970. Como tantas outras obras infantis europeias, esse livro daria origem a uma série, publicada até hoje - e que, por sua vez, daria origem não somente ao desenho que passava quando eu era criança, mas também a muitos outros, além de bonecos, histórias em quadrinhos, discos e outros tipos de merchandising associado. Embora sejam praticamente desconhecidos hoje no Brasil, os Barbapapas ainda são muito populares na Europa, especialmente na França e na Bélgica.

E tudo isso surgiria por acaso: um dia, em maio de 1970, a arquiteta francesa Annette Tison, caminhava pelo famoso Jardin du Luxembourg, no centro de Paris, em companhia de seu marido, o ilustrador norte-americano Talus Taylor. Taylor, que residia na França há pouco tempo, e ainda não entendia bem o francês, achou curioso uma criança pequena pedindo aos pais algo que ele entendeu como "ba baa baa ba", e comentou o fato com Annette, que lhe explicou que, na verdade, a criança estava pedindo barbe à papa - que, literalmente, significa "barba do papai", mas, em francês, também é o nome do algodão doce. Taylor ficou maravilhado com a descoberta e, à noite, enquanto jantavam em um restaurante, começou a rabiscar esboços em um guardanapo, criando um personagem arredondado e rosado. Quando Annette lhe perguntou o que era aquilo, ele respondeu que era um novo personagem, chamado Barbapapa.

Taylor realmente criaria Barbapapa inspirado no algodão doce: ele é cor de rosa, levemente amorfo, com o corpo arredondado e dois braços, mas sem pernas, e tem a habilidade de mudar de forma livremente, podendo se transformar em qualquer objeto - mas sempre mantendo sua cor rosada e seus grandes e redondos olhos brancos. Junto com Annette, ele então criaria a primeira história do personagem, que vem de um mundo mágico, habitado apenas por Barbapapas, e, trazido ao nosso mundo contra sua vontade - na verdade, sem nem saber como - luta para compreender a sociedade humana e se encaixar nela.

O primeiro livro de Barbapapa, chamado simplesmente Barbapapa, seria publicado em dezembro de 1970, mas não sem algumas dificuldades: Taylor e Annette o ofereceriam a diversas editoras, mas o mercado editorial infantil francês estava passando por uma crise na época, e todos eles, achando o personagem interessante, mas com medo de não ter o retorno esperado, o recusariam. Taylor, então, recorreria a um antigo amigo, Frank Fehmers, empresário que desejava se tornar editor. Fehmers não somente aceitaria financiar Barbapapa, como também conseguiria acordos para que ele fosse publicado simultaneamente na França, pela editora L'École de Loisirs, na Grã-Bretanha, pela Ernest Benn Company, e nos Estados Unidos, pela Henry Z. Walck Co.

Em seu primeiro livro, Barbapapa (também chamado de Barbapapai em algumas traduções para o português) é o único de sua espécie, e, após chegar ao nosso mundo, faz amizade com duas crianças, Cindy e Frank (Claudine e François na versão original francesa), indo morar com eles em sua casa. Mas, em seu segundo livro, A Viagem de Barbapapa (Le Voyage de Barbapapa), ele encontra um outro membro de sua raça, especificamente uma fêmea, chamada Barbamama (ou Barbamamãe, em algumas traduções para o português), de cor preta e formato levemente diferente do seu, se parecendo com um pino de boliche com flores no alto da cabeça, mas com os mesmos poderes de assumir qualquer forma.

Barbapapa e Barbamama se casam e têm sete filhos, sendo quatro meninos (arredondados como o pai) e três meninas (em formato de pino de boliche com flores na cabeça como a mãe), cada um de uma cor diferente. A primeira aventura da família completa ocorreria no terceiro livro, A Mansão de Barbapapa (La Maison de Barbapapa, na verdade "a casa de Barbapapa"; o único livro com um título oficial em português e traduzem errado), publicado em 1972, no qual Barbapapa compra uma fazenda vizinha à casa de Cindy e Frank, e nela constrói uma mansão para morar com sua família - sendo arquiteta, Annette adorava criar casas para os livros, fazendo desenhos bastante detalhados não somente da mansão, mas também da casa de Cindy e Frank.

Além de uma cor diferente, cada um dos filhos de Barbapapa possuía uma personalidade marcada e distinta, o que abriu possibilidades de se explorar diversos temas comuns a livros infantis: Barbaclic (Barbibul no original francês, Barbabright em inglês), de cor azul, é apaixonado por ciências, está sempre criando poções incríveis e máquinas mirabolantes, e serve para introduzir às crianças conhecimentos de química, física e astronomia; Barbazoo (Barbidou em francês), de cor amarela, é apaixonado pela natureza, tem um tucano de estimação (chamado simplesmente Tucano) e está sempre trabalhando em sua horta; Barbaploc (Barbidur em francês, Barbabravo em inglês), de cor vermelha, é atlético, apaixonado por esportes e, em companhia da cachorrinha da família, Lalita, se veste de Sherlock Holmes e se põe a desvendar mistérios; Barbabela (Barbabelle em inglês e francês), de cor violeta e com um colar de pérolas, é a mais vaidosa da família, e usada principalmente para ensinar às crianças que beleza não é tudo; Barbacuca (Barbotine em francês, Barbalib em inglês), de cor laranja e óculos, é apaixonada pelos livros, sempre estando lendo um, e, recentemente, se tornou também a ativista da família, se dedicando a causas sociais; Barbalala, de cor verde, adora música, sabendo tocar diversos instrumentos; e Barbatinta (Barbouille em francês, Barbabeau em inglês) de cor preta e cabeludo, é um artista, sabendo desenhar, pintar e esculpir. Todos eles, assim como seus pais, podem mudar livremente de forma, mas sempre mantendo sua cor e os olhos característicos da espécie.

Depois de A Mansão de Barbapapa, a L'École de Loisirs ainda publicaria mais três livros, A Arca de Barbapapa (L'Arche de Barbapapa), de 1974, A Escola de Barbapapa (L'École de Barbapapa), de 1976, e O Teatro de Barbapapa (Le Théâtre de Barbapapa), de 1978, além da coleção A Pequena Biblioteca de Barbapapa (La Petite Bibliothèque de Barbapapa), com 21 livros dedicados a crianças bem pequenas - curtos, com pouco texto em linguagem simples e muitas figuras - lançados entre 1974 e 1979. A partir de 1980, porém, a relação entre Taylor e Fehmers começou a azedar, principalmente, como de costume, por questões financeiras, e a Família Barbapapa ficaria mais de vinte anos sem o lançamento de um novo livro.

Somente em 1990 Annette e Taylor conseguiriam encerrar seu contrato com Fehmers e assinar um com a editora Dragon D'Or, que não somente relançaria os livros antigos, mas também publicaria alguns novos: A Árvore de Barbapapa (L'Arbre de Barbapapa), de 1991, As Férias de Barbapapa (Le Vacance de Barbapapa), de 1995, O Inverno de Barbapapa (L'Hiver de Barbapapa), de 2004, e Barbapapa em Marte (Barbapapa sur Mars), de 2005. A Dragon D'Or também lançaria duas séries para crianças pequenas de quatro livros cada, sem nome coletivo, a primeira em 1996 e a segunda em 2004 - valendo citar como curiosidade que um dos livros dessa segunda série buscava ensinar às crianças suas primeiras palavras em inglês.

Falando nisso, diferentemente do que ocorreu com os livros da L'École de Loisirs, os da Dragon D'Or não seriam lançados simultaneamente na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos; ainda assim quase todos eles acabariam lançados por diferentes editoras nesses dois países - pelo que pude averiguar, as exceções foram apenas os oito infantis, mas, até onde consegui descobrir, os 21 infantis da L'École de Loisirs também não foram. França, Grã-Bretanha e Estados Unidos, aliás, não foram os únicos países agraciados com os livros da Família Barbapapa, que, ao longo dos anos, seriam traduzidos para mais de trinta idiomas diferentes e lançados em mais de cem países, incluindo o Brasil, onde A Mansão de Barbapapa e alguns dos livros para crianças pequenas da L'École de Loisirs seriam lançados no início dos anos 1980, para pegar carona no sucesso do desenho - vale citar, aliás, que um disco de vinil com as músicas do desenho em português também seria lançado por aqui.

Pois é, falta falar do desenho, já que, afinal, foi ele que motivou esse post. Assim como os livros, o desenho surgiu com uma mãozinha de Fehmers, que conhecia o executivo Joop Visch, da holandesa Polygram. Produzido pela Polyscope, o braço televisivo da Polygram, o desenho teria duas temporadas, a primeira com 45 episódios de cinco minutos cada, exibidos entre 1974 e 1975 no meio da programação infantil do canal holandês NOS e do francês ORTF. Essa temporada contava com um narrador, quase não tinha diálogos, seus episódios seguiram todos o mesmo arco de história (ou seja, eram continuação uns dos outros) e teve três partes bem distintas de 15 episódios cada, com apenas Barbapapa, Cindy e Frank (que, na Holanda, se chamam Annabel e Michiel) estrelando a primeira; Barbamama e as crianças entrando apenas na segunda, centrada na construção da mansão; e a terceira tendo um forte viés ecológico, com os Barbapapas se transformando em monstros para espantar caçadores e lutando contra a poluição - o último episódio, inclusive, é ambientado no futuro, e mostra um mundo completamente poluído.

A segunda temporada teve mais 48 episódios, que estrearam em 1977 no NOR e no canal francês TF1, mas mais tarde chegaram também aos Estados Unidos (em syndication, ou seja, passando em vários canais diferentes), Suécia (pelo canal SVT) e Brasil, pela TV Globo, onde foi exibido entre 1981 e 1983, nos programas TV Globinho, apresentado pela atriz Paula Saldanha, e Balão Mágico. Apesar de também só terem cinco minutos cada, os episódios da segunda temporada são bem mais parecidos com um desenho tradicional, com a Família Barbapapa vivendo aventuras sem conexão umas com as outras, e cada episódio sendo centrado em um dos personagens, com a história explorando suas características - episódios centrados em Barbazoo eram ecológicos, em Barbalala eram musicais etc.

Os Barbapapas ainda estrelariam um desenho produzido em 1999 no Japão, chamado Barbapapa ao Redor do Mundo (Barbapapa autour du Monde em francês, Barbapapa Sekai o Mawaru em japonês), com 50 episódios de 5 minutos cada, exibidos na TV Nippon e no canal francês Télétoon, no qual, como o nome sugere, a Família Barbapapa viaja pelo mundo, estando a cada episódio em um país diferente, onde se envolve com um acontecimento qualquer. Alguns anos depois, o desenho seria exibido em vários outros países da Europa (como a Holanda, onde seria exibido no NPO3), mas só chegaria aos Estados Unidos em DVD, e não chegaria ao Brasil. Apesar da distância de 22 anos entre essa série e a anterior, ela é oficialmente considerada como a terceira temporada do desenho.

Taylor faleceu em 2015, aos 82 anos, e Annette, aos 74, está aposentada. Atualmente, os direitos sobre os Barbapapas pertencem a seus filhos, Alice e Thomas, que, em 2012, firmaram um contrato de distribuição com a TF1 Enterprises, a maior empresa de entretenimento da França, dona do canal de TV TF1. O primeiro lançamento da TF1 foi uma grande coleção, composta de livros, revistas de atividades, brinquedos de pelúcia, DVDs e outros itens (como apoios de livros para segurar a coleção na estante), vendida em bancas de jornal na França, e com planos futuros de lançamento na Bélgica e Luxemburgo. Uma bela forma de apresentar a Família Barbapapa às novas gerações, e impedir que esses seres tão fofos e gentis caiam no esquecimento - algo que parece já ter acontecido aqui no Brasil.

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