segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Toho Heroes (IV)

E hoje teremos a última parte da série sobre os seriados de tokusatsu produzidos pela Toho para a TV, com os dois que estão faltando.

Hono no Chojin Megaloman
1979

Após tentar inovar com ninjas e sentais, a Toho decidiria retornar ao estilo com o qual mais se identificava, o dos heróis gigantes que combatem monstros igualmente gigantes. Assim surgiria o "Super-Homem Flamejante Megaloman" (sendo o "megalo" uma referência ao seu tamanho, já que esse prefixo grego é usado para se referir a algo de grande extensão), que se parecia com uma mistura de Ultraman com Godman, com pele prateada, grandes olhos amarelos, uma cabeleira branca e roupa vermelha.

O Megaloman da série é, na verdade, o segundo de seu nome. O Megaloman original era Go Shishido, o governante do planeta Rosetta, que um dia foi invadido pelo Exército Black Star e seus monstros gigantes. Go se transformou em Megaloman e tentou impedi-los, mas foi morto pelo Capitão Dagger, comandante do Exército Black Star, o que levou sua esposa, a Rainha Rosemary, a fugir para a Terra com o filho do casal, Takeshi. Adotando o nome de Mari, a Rainha e Takeshi viveram durante anos escondidos no Japão, fazendo se passar por humanos comuns, com Takeshi até mesmo estudando artes marciais e fazendo grandes amigos. Um dia, porém, o Exército Black Star descobriu o paradeiro dos dois, e enviou seus monstros gigantes para terminar o serviço. Sem escolha, Mari revelou a verdadeira história de sua vida a Takeshi, e lhe deu os braceletes que seu pai usava para se transformar em Megaloman. Usando-os, Takeshi se transformou, também, em Megaloman, e jurou usar seus poderes para defender a Terra, o planeta que considera como seu.

Além da habilidade óbvia de aumentar de tamanho para poder enfrentar os monstros - podendo alcançar até 150 metros de altura, o recorde na história do tokusatsu - Megaloman pode voar, disparar fogo por seus cabelos, e tem acesso a uma gigantesca espada chamada Megalo Blade, com a qual elimina os monstros de vez. Os braceletes também servem como detectores de monstros, avisando a Takeshi toda vez que um deles ou que um integrante do Exército Black Star está próximo, e servem para Megaloman se comunicar com Mari durante as batalhas, obtendo conselhos sobre as fraquezas dos monstros. O treinamento de artes marciais de Takeshi também é um diferencial, com Megaloman usando vários golpes de kung fu durante suas lutas, normalmente pegando os monstros desprevenidos quando o faz.

Megaloman foi exibido pela TV Fuji, e contou com um total de 31 episódios, televisionados entre 7 de maio e 24 de dezembro de 1979. Até o episódio 13, a série se chamava simplesmente Megaloman, com seu título completo (Hono no Chojin Megaloman) passando a ser usado a partir do episódio 14. A partir do episódio 14, aliás, a série também teria uma mudança de estilo, motivada, principalmente, pelo grande sucesso de Battle Fever J, série produzida pela rival Toei, que estava indo ao ar na concorrente TV Asahi.

Desde o início da série, Takeshi treinava artes marciais com o Mestre Sougen Takamine, junto com quatro colegas: Seiji Kurogawa, sério e compenetrado, que parecia imitar Bruce Lee; Hyosuke Yuri, o palhaço da turma; Ran Takamine, filha do Mestre e apaixonada por Takeshi, que parece incapaz de perceber; e Ippei Saru, o mais novo da turma, espécie de mascote do quinteto. De início, eles eram apenas coadjuvantes, servindo principalmente para mostrar como Takeshi tentava se integrar à sociedade japonesa enquanto buscava proteger seu segredo - apenas o Mestre Takamine sabia que Mari e Takeshi eram alienígenas e Takeshi podia se transformar em Megaloman; os quatro alunos apenas ficavam intrigados com seus constantes desaparecimentos, dando margem para situações cômicas e de suspense envolvendo a identidade secreta do herói.

No episódio 14, porém, Ran descobre acidentalmente que Takeshi é Megaloman, e, em seguida, os ouros três também acabam descobrindo. Com seu segredo revelado, Mari decide convidar os quatro para se juntarem a eles na luta contra o mal, e lhes fornece braceletes fabricados em Rosetta, com os quais eles também podem ganhar incríveis poderes. Com os braceletes, os cinco (incluindo Takeshi), se transformam no esquadrão Space Kung Fu, um pseudo-sentai com direito a roupas de lycra coloridas (mas sem capacetes, com seus rostos à mostra): vermelha para Takeshi, rosa para Ran, azul para Seiji, amarela para Hyosuke e verde para Saru. Quando "transformados", todos os cinco ganham força, agilidade e resistência sobre-humanas, embora apenas Takeshi tenha o poder de se transformar em Megaloman e ganhar os poderes extras advindos da transformação - e somente ele, portanto, pode lutar contra os monstros gigantes.

Os vilões da série não se limitavam aos mostros gigantes, que eram apenas uma das armas utilizadas pelo Exército Black Star para dominar a Terra e destruir Mari e Takeshi; além deles, o Exército empregava vários tipos de naves e veículos, além dos Soldados Black Star, tradicionais inimigos genéricos de seriados de tokusatsu, e principais oponentes nas batalhas travadas pelo esquadrão Space Kung Fu. No início da série, o líder do Exército Black Star era o Imperador Black Star, que usava um capacete dourado, e o comandante das tropas era o Capitão Dagger, que usava um capacete idêntico, mas prateado; no episódio 11, o Capitão Dagger, que considerava o Imperador incompetente, decidiu matá-lo e tomar o trono, passando a usar o capacete dourado e se tornando o líder e comandante supremo do Exército Black Star. Mais para o final da série, é feita uma revelação surpreendente: na verdade, o Capitão Dagger é Hiroshi, irmão gêmeo de Takeshi que foi dado como morto durante um ataque do Exército Black Star que ocorreu quando eles eram crianças, mas que, na verdade, foi adotado pelo Imperador e cresceu com ódio do pai e do irmão, que, segundo o Imperador, o haviam abandonado para morrer durante a batalha. Além do Imperador e do Capitão Dagger, os únicos outros membros do Exército Black Star dignos de nota são o cientista Berlock, que cria os monstros gigantes usando engenharia genética, e seu filho, Hyme.

Para terminar, vale citar uma curiosidade: como vocês devem ter reparado, Takeshi e seus amigos praticavam kung fu, o que pode ser considerado uma escolha de arte marcial estranha para uma série japonesa, já que o kung fu, de origem chinesa, não era muito popular por lá na época. Entretanto, algo que pode ter influenciado a Toho e motivado a escolha do kung fu ao invés, digamos, do caratê, foi o fato de que este estilo marcial era extremamente popular nos Estados Unidos na década de 1970, graças a filmes importados da China e de Hong Kong e de séries produzidas por lá mesmo, como a epônima Kung Fu, estrelada por David Carradine e exibida entre 1974 e 1975. A Toho, portanto, pode ter escolhido colocar praticantes de kung fu na série com a esperança de vendê-la para os Estados Unidos e fazer com que ela fosse igualmente bem-sucedida por lá, mas, talvez por que em 1979 o kung fu já não fosse tão popular na América, essa venda jamais se concretizou.

Shichisei Toshin Guyferd
1996

Megaloman não foi exatamente um sucesso, e, graças a isso, a Toho, mais uma vez passando por problemas financeiros, decidiria se afastar dos tokusatsu por um tempo. Somente nove anos após Megaloman, em 1988, a Toho decidiria retornar ao gênero com Cybercop, co-produzido com o canal a cabo NTV, de propriedade da TV Nippon. Mas, por motivos vários, dentre eles o fato de Cybercop ser filmado em vídeo (mais barato), enquanto os demais tokusatsu eram filmados em película (mais caro, mas também de maior qualidade), Cybercop também foi um fracasso de público, e os tokusatsu da Toho voltaram para a geladeira. Somente sete anos após o final de Cybvercop, em 1996, é que a Toho voltaria a produzir um sentai, dessa vez em parceria, ora vejam só, com a Capcom - sim, ela mesma, que, aparentemente, estava cheia de dinheiro trazido por Street Fighter II e queria usá-lo para diversificar.

Com o dinheiro da Capcom, surgiria o "Deus Lutador Sete Estrelas Guyferd" (pronuncia-se "gáiferd"), que, curiosamente, não era uma ideia original, e sim uma adaptação para a TV do mangá Kyoshoku Soko Guyver ("armadura de aprimoramento biológico Guyver"), de autoria de Yoshiki Takaya, publicado no Japão desde 1985, atualmente na revista Young Ace, e que, antes de Guyferd, já havia sido adaptado para uma animação lançada diretamente em vídeo (OVA) em 1986; uma série em anime de 12 episódios em 1989; e dois filmes para o cinema, em 1991 e 1994; mais recentemente, Guyver também ganharia uma série em anime de 26 episódios, exibida entre 2005 e 2006. Em todos esses meios, Guyver é uma armadura biológica criada pela Corporação Cronos, que, após ser roubada, se liga acidentalmente ao estudante Sho Fukamashi, aumentando sua força, agilidade e resistência e tornando-o virtualmente invulnerável - se a armadura for danificada demais, entretanto, devorará o hospedeiro para poder se consertar, o que se torna um certo motivo de preocupação para Sho. Incapaz de se livrar da armadura, Sho passa a usá-la para defender o Japão do ataque dos Zoanoids, criaturas alienígenas que, sem que ele saiba, são controladas pela própria Corporação Cronos, que planeja, secretamente, dominar o mundo.

Evidentemente, na hora de adaptar essa história para o tokusatsu, a Toho tomou algumas liberdades: para começar, o herói da série, apesar de ainda ser um estudante, se chama Gou Kazama, e a armadura foi criada pela Corporação Crown, que é abertamente maligna, ao contrário da Cronos, que posava de boazinha. Gou passou vários anos fora do Japão treinando artes marciais, mas voltou após seu irmão, um grande campeão, desaparecer misteriosamente. Investigando, Gou descobre que seu irmão foi sequestrado pela Crown, que planeja usar todos os maiores lutadores de artes marciais do mundo em experimentos para criar o lutador perfeito, que então usará para seus propósitos malignos. Ao tentar salvar o irmão, Gou acaba também capturado e transformado, através de engenharia genética, em uma criatura conhecida como Guyborg, que deveria não ter vontade própria e ser controlada pela Crown; sem que a Crown soubesse, porém, enquanto treinava no Peru, Gou foi infectado por uma criatura mística parasítica chamada Fallah, e, durante o processo de conversão em Guyborg, o Fallah não somente lhe protegeu como atuou sobre a transformação. Mantendo sua vontade própria e a capacidade de voltar à forma humana quando quisesse, Gou escapou, adotou o nome de Guyferd, e passou a usar seus novos poderes para combater a Crown e tentar encontrar seu irmão, ainda desaparecido.

Quando se transforma em Guyferd, Gou passa a ter acesso não somente a uma armadura biológica que amplia sua força, agilidade, resistência e o torna virtualmente indestrutível, mas, graças a seu treinamento nas artes marciais, ele se torna capaz de acessar os cinco elementos (fogo, água, terra, madeira e metal) e as duas energias etéreas (ar e estrela), podendo usá-los em sete ataques conhecidos como shichiseiha (as "ondas das sete estrelas"): o Soco Flamejante, o Chute Destruidor, a Onda de Choque Terrestre, a Dança das Flores Aéreas, o Ataque das Profundezas, o Rasante do Dragão e o Punho da Estrela Final. Seus principais aliados são Takeo Shiroishi, apelido Doutor, antigo cientista da Crown que pesquisava os efeitos do parasita Fallah sobre o organismo humano, mas, por não concordar com os métodos da Corporação, ajudou Gou a escapar e agora o ajuda a descobrir a verdadeira extensão de seus poderes; Rei Kujou, menina rica que estudava com o irmão de Gou, por quem Gou é apaixonado, e que, lá pelo meio da série, passa a usar as Power Accelator Boots, botas criadas pelo Doutor que aumentam a velocidade, o alcance dos pulos e a força dos chutes de seu usuário, para ajudar Gou a combater os soldados da Crown; Yuu Kujou, irmão mais novo de Rei, gênio da informática e hacker precoce, personagem infantil aparentemente obrigatório em tokusatsu da Toho, e que usa as Power Accelator Gloves, que aumentam a força de seus socos; e o Detetive Yuji Nakano, que investiga as atividades criminosas da Crown mas é desacreditado pelos colegas, que consideram tudo que concerne a Corporação como boatos e Nakano louco de acreditar neles.

A Corporação Crown é liderada pelo misterioso Zodiac, originalmente um cientista que descobriu o parasita Fallah, imaginou poder usá-lo para evoluir a humanidade, mas enlouqueceu após ser contaminado por ele. Seus principais asseclas são Mr. Bicross, artista marcial e mafioso que serve como testa de ferro para as operações mundanas da Corporação, e responsável por capturar Gou e transformá-lo em Guyferd; Metal Master, que usa uma máscara de caveira e supervisiona todas as atividades criminosas da Crown; e a Dra. Megumi Shion, cientista-chefe da Crown, responsável por criar os Guyborgs e outros monstros que a Corporação usa para alcançar seus objetivos.

Falando nisso, a Crown emprega vários tipos de criaturas. As mais fracas são os Fangs, soldados produzidos em massa e enfrentados às dúzias por Guyferd e seus amigos. Em seguida vêm os Mutians, humanos que, ao serem infectados pelo Fallah, tiveram sua força e inteligência aumentadas, mas também sofreram mutações que os transformaram em monstros, atuando como Monstros da Semana até o episódio 6. Os Guyborgs são ciborgues criados pela Dra. Shion combinando humanos com bio-armaduras; são mais fortes que os Mutians, e usados como Monstros da Semana nos episódios 7, 8, 15, 16 e 17. Ao descobrir que Gou se tornou Guyferd porque havia sido infectado pelo Fallah, a Crown passou a tentar duplicar o processo, infectando humanos antes de transformá-los em Guyborgs, criando, assim, os Metalferds, Guyborgs muito mais poderosos, que atuam como Monstros da Semana entre os episódios 9 e 14. Finalmente, quando a Crown toma posse de um artefato místico conhecido como Tabuleta Daruga, passa a usar seus poderes na criação dos Metalferds, transformando-os nos bem mais poderosos Gaia Soldiers, usados como Monstros da Semana dos episódios 18 ao 25.

Eventualmente, Gou encontra seu irmão, Masato, que também passou pelo processo de ser transformado em Guyborg, e mais tarde se tornou o primeiro Metalferd, sendo infectado pelo Fallah e passando a adotar o nome de Deathferd. Como de costume, Guyferd e Deathferd se tornaram grandes rivais, principalmente porque Deathferd não manteve sua vontade própria, sendo controlado pela Dra. Shion. Diferentemente dos demais Metalferds, mas assim como Guyferd, Deathferd também pode retornar para sua forma humana e se transformar novamente em Deathferd por vontade própria.

Guyferd teve um total de 26 episódios, exibidos entre 8 de abril e 30 de setembro de 1996 pela TV Tokyo. Como a Capcom foi co-produtora da série, decidiu também produzir e lançar um game para Playstation e Saturn, chamado Shichisei Toshin Guyferd: Crown Kaimetsu Sakusen ("a estratégia devastadora da Crown"), em 1998, e, nada surpreendentemente, exclusivamente no Japão. Surpreendente foi que, ao invés de ser um jogo de porrada, ou, no mínimo, tipo Devil May Cry, é um jogo de batalha com cards, no qual o protagonista, Koichi Hayami, está preso em uma espécie de labirinto, no qual deve utilizar seus cards em batalhas contra outros jogadores e contra membros da Crown (ganhando mais cards quando vence) se quiser encontrar a saída, com os tais cards, evidentemente, representando Guyferd, Deathferd, os Mutians, Guyborgs, Metalferds e Gaia Soldiers.

Mais uma vez, Guyferd não fez sucesso, e os tokusatsu da Toho voltaram para a geladeira, onde ficariam por mais sete anos, até que, em 2003, estrearia Gransazer (curiosamente uma co-produção com outra empresa de games, a Konami), a primeira das três séries dos Chouseishin. Gransazer até faria bastante sucesso, mas sua sucessora, Justirisers, de 2004, já não faria tanto, e o terceiro e último Choseishin, Sazer-X, de 2005, seria um fracasso. Depois dela, aparentemente a Toho desistiria dos tokusatsu de vez: lá se vão mais de dez anos sem nem ser anunciado um novo.

0 enfiaram o nariz:

Postar um comentário