segunda-feira, 13 de junho de 2016

Toho Heroes (I)

De vez em quando, eu escolho um assunto para um post que, por determinadas razões - normalmente porque eu não consegui encontrar as informações que queria - acabo descartando. Alguns desses assuntos depois eu retomo e realmente viram um post, outros são descartados para sempre. E uns poucos eu acho que eu descartei para sempre, quando de repente acho as informações que eu queria e me animo a escrevê-los. É o caso da série que eu vou começar hoje, falando sobre as séries de tokusatsu produzidas para a TV pelo estúdio japonês Toho, o responsável pelos filmes do Godzilla. Originalmente, eu planejava escrever essa série logo depois de terminar a que fiz sobre os tokusatsu da Toei, em 2011, mas, incapaz de encontrar as informações necessárias sobre os seriados mais antigos, acabei desistindo e fazendo apenas um post sobre os Chouseishin, que eram justamente os mais recentes. Há pouco, entretanto, após finalizar os posts sobre os baralhos de tarô, me lembrei desse fato, e resolvi dar mais uma procurada. Qual não foi minha surpresa ao encontrar justamente as informações que não conseguia encontrar há cinco anos, e que me animaram a finalmente escrever sobre esses heróis.

Mais prolífica no cinema, onde já produziu centenas de filmes, a Toho tem poucos tokusatsu no seu currículo, principalmente porque a maioria deles não teve grande expressão. Evidentemente, ela decidiu entrar nesse mercado para competir com a Toei, que, desde que lançou o Kamen Rider, em 1971, o dominou completamente. Não é que os tokusatsu da Toho fossem ruins - bem, nem todos, alguns eram mesmo - mas, tendo a Toei mais cancha no negócio, além de os melhores profissionais à disposição, a Toho jamais conseguiu se firmar nesse mercado, quem dirá ameaçar a rival

Os altos e baixos nos tokusatsu da Toho também fizeram com que ela não tivesse uma sequência de produções. Basicamente, ela começou forte, desistiu por um tempo, voltou, desistiu de novo, fez uma última tentativa, e já há mais de dez anos que não produz uma série nova. Ao todo, a Toho produziu apenas 14 tokusatsu, entre 1972 e 2005. Sobre quatro deles (Cybercop e os três dos Chouseishin) eu já falei aqui em outros posts; nessa série, vou falar sobre os outros dez, em várias partes não-sequenciais, para que ninguém que não gosta de tokusatsu fique de saco cheio e fuja daqui.

Assim como quando eu fiz a série sobre os tokusatsu da Toei que não eram Sentai, nem Kamen Riders, nem Metal Heroes, eu resolvi colocar o nome de Toei Heroes, dessa vez eu vou usar o nome Toho Heroes. Que todo mundo já deve ter visto ali no título, mas eu queria falar sobre isso assim mesmo. Sem mais delongas, vamos lá.

Ike! Godman
1972

Por uma certa ironia do destino, Vai! Godman (sendo "godman" o "homem-deus") não seria o primeiro tokusatsu da Toei a entrar em produção (título que caberia a Rainbowman, que veremos ainda hoje), mas seria o primeiro a estrear, o que faz com que ele seja considerado o primeiro herói de tokusatsu para a TV da Toho.

Godman era um alienígena do planeta Firegod (o "deus do fogo"), e não tinha forma humana ou identidade secreta. Seus poderes incluíam a capacidade de voar; a de disparar tiros de metralhadora por seus punhos, água, ácido e ondas de choque por seus dedos; a de fazer aparecer do nada em suas mãos suas armas, a maça God Crush e os discos de arremesso explosivos God Circle; e a mais importante de todas: originalmente de tamanho humano, Godman podia assumir uma segunda forma, de 30 metros de altura, indispensável para que ele pudesse combater os monstros gigantes.

Além de Godman não ter identidade secreta, seus episódios não tinham qualquer história. Basicamente, surgia um monstro, de tamanho normal ou gigante, e fazia alguma maldade, tipo tentar poluir a água da cidade, sair cuspindo fogo pelas ruas ou destruir alguns prédios. Ato contínuo, alguma criança gritava "vai, Godman" (talvez no sentido de "socorro, Godman") e lá vinha Godman voando pelos céus, crescendo até 30 metros de altura se necessário e enfrentando o monstro. Fora esse curto início, do momento em que o monstro aparecia até o momento no qual a criança gritava, e um curto final, no qual Godman se despedia e saía voando, todo o restante do episódio era a luta de Godman contra o monstro, sem qualquer enredo. Tirando o grito da criança e o fato de que Godman, como todo bom herói de tokustatsu, gritava o nome das armas que iria usar, também não havia qualquer diálogo.

Godman estrearia na TV Nippon em 5 de outubro de 1972, dentro do programa infantil Ohayo! Kodomo Shou ("Bom Dia! O Show das Crianças"), que era até parecido com o famoso Vila Sésamo. Em teoria, 26 episódios seriam produzidos, mas, na prática, seriam 156, já que cada episódio foi dividido em seis partes com entre 3 e 5 minutos cada, que eram, então, exibidas de segunda-feira a sábado, sempre com o novo monstro surgindo na segunda e sendo derrotado no sábado (exceto o primeiro, que foi exibido em três partes de 10 minutos cada, de quinta-feira a sábado, mas redividido em seis partes para as reprises). O último episódio inédito seria exibido em 14 de abril de 1973, mas, depois dele, os episódios seriam reprisados, fora da ordem - o que não fazia a menor diferença, já que não tinha enredo mesmo - até 29 de setembro do mesmo ano.

Godman seria produzido a toque de caixa para substituir outro tokusatsu exibido nesse programa, Redman, produzido pela Tsuburaya (a criadora do Ultraman), e que seguia a mesma estrutura: episódios divididos em seis partes de 3 a 5 minutos cada, na primeira surge um monstro, alguém chama Redman, Redman luta contra o monstro ao longo das seis partes, destruindo-o no final da última. Também de baixo orçamento e sem qualquer enredo, Redman reaproveitaria vários dos monstros das séries de Ultraman, prática que a Toho quis imitar ao produzir Godman, reaproveitando monstros de suas produções para o cinema: aparecem como vilões de alguns dos episódios os monstros Gaira e Sanda, de War of the Gargantuas (1966); Gorossauro, de King Kong 2 (1967); Gabara, de A Vingança de Godzilla (1969); Kamoebas, de Space Amoeba (1970); e um dos membros do povo-morcego do filme Latitude Zero (1969). Embora seu comportamento denunciasse que não se tratava do mesmo monstro do cinema, a Toho optaria por não mudar os nomes, apenas rebatizando o integrante do povo-morcego - que, afinal de contas, nem tinha nome específico em seu filme - com o curioso nome de Batman - vale citar, aliás, que, embora o nome dos monstros não fosse citado durante os episódios, ele aparecia no título, que sempre seguia o modelo Godman vs. e o nome do monstro, como, por exemplo, Godman vs. Kamoebas. A aparência dos monstros também era sempre idêntica às dos filmes, exceto no caso de Gaira e Sanda, que ganharam novos rostos, de Gorossauro, que parece ter um buraco no peito, e de Gabara, que não tinha cabelo; essas mudanças não seriam feitas por opção artística, entretanto, e sim porque as roupas estavam em mau estado de conservação e necessitando de reparos - a de Gorossauro, aliás, estava tão deteriorada que foi aposentada definitivamente após ser usada em Godman. A Toho, inclusive, pensou em reutilizar ainda mais monstros, mas chegou à conclusão de que sairia mais barato criar novos monstros (e roupas novas) do que remendar as que tinha.

Na época em que foi exibido, Godman fez um relativo sucesso dentre as crianças - por isso a decisão de "estender" a série com as reprises - e, hoje, graças principalmente à memória afetiva de quem viveu a infância naquela época, é até um herói bastante conhecido no Japão. A inegável baixa qualidade da série, porém, aliada à falta de enredo e de maiores explicações sobre quem seria Godman, de onde viriam os monstros e outros detalhes, fariam com que a série fosse considerada, em retrospecto, como um dos piores tokusatsu já produzidos. Ainda assim, parece que Godman ainda tem uma certa base de fãs: em 2008, por ocasião do lançamento da série completa em DVD, foi filmado um novo episódio, chamado simplesmente Go! Godman, para ser incluído dentre os extras, no qual Godman enfrenta, simultaneamente, cinco dos monstros que apareceram em episódios da série original, incluindo Gaira. Todas as roupas desses monstros eram novas, e produzidas especialmente para este episódio.

Ai no Senshi Rainbowman
1972

Takeshi Yamato é um jovem lutador de luta livre cuja irmã, Miyuki, sofreu um grave acidente e corre o risco de perder a perna, e seu treinador e melhor amigo, Yoshi, está cheio de dívidas e em risco de perder sua escola de luta. Para tentar remediar a situação, Takeshi decide viajar à Índia em busca do lendário Mestre Divadatta, que supostamente pode despertar poderes psíquicos latentes nas pessoas e elevar sua força física ao limite. Takeshi planeja usar esses poderes psíquicos e força ampliada para vencer suas lutas e ganhar muito dinheiro, mas, após realmente encontrar Divadatta e começar seu treinamento, através dos atos de seu Mestre, ele decide mudar de vida e lutar em prol dos fracos e oprimidos. Ao concluir o treinamento, Divadatta revela que já viveu 150 anos, e que está na hora de deixar a Terra e ascender ao plano espiritual; antes de fazer isso, porém, ele precisava encontrar um sucessor, e, quando viu Takeshi, imediatamente soube que seu coração era puro, e que ele iria usar seus poderes para o bem. Divadatta, então, ascende ao plano espiritual, transferindo todos os seus poderes para Takeshi e transformando-o no Guerreiro do Amor Rainbowman (que, aliás, é a tradução do nome do seriado em japonês, sendo "rainbowman" o "homem do arco-íris".

Concentrando todo o seu poder psíquico, Takeshi consegue assumir uma segunda forma, que não se chama Rainbowman, e sim Taiyo no Kenshin (algo como "forma solar"). Nessa forma, ele pode sentir a presença de outras pessoas ou de objetos fora de seu campo de visão; paralisar outras pessoas temporariamente; criar duas espadas de energia com as quais luta; lançar um raio devastador que sai do sol no centro de seu turbante; e voar, mas tendo de assumir a forma de um globo branco se tiver que percorrer longas distâncias. Quanto mais usa os poderes dessa forma, entretanto, mais esgotado Takeshi fica, e, para recuperar suas energias, ele deve reverter à sua "forma humana" e entrar em uma espécie de transe, durante o qual seu corpo fica paralisado e indefeso.

A maior habilidade da forma solar, entretanto, é pode ser transformar em seis outras formas, cada uma com poderes diferentes. Essas formas são numeradas, e conhecidas como Dash - sendo a forma solar, de uniforme branco, a Dash 7. A Dash 1, de uniforme amarelo, é a forma lunar (Tsuki no Kenshin), que permite que Takeshi tenta total controle da forma de seu corpo, esticando seus membros ou até mesmo reduzindo de tamanho, além de permitir que ele lance um raio elétrico que sai da lua em sua testa. A Dash 2, de uniforme vermelho, é a forma do fogo (Hi no Kenshin), que pode lançar chamas e bolas de fogo pelas mãos, além de ser completamente invulnerável ao calor e ao fogo. A Dash 3, de uniforme azul, é a forma da água (Mizu no Kenshin), com a qual Takeshi pode manipular livremente ou congelar pequenas quantidades de água, disparar água e gelo pelas mãos, nadar como um peixe e respirar sob a água. A Dash 4, de uniforme verde, é a forma das plantas (Kusaki no Kenshin), que permite lançar ondas sônicas e pequenos dardos feitos de pinhas pelas mãos, criar um vendaval que carrega folhas para atingir os oponentes, e se camuflar perfeitamente toda vez que está encostado em uma árvore. A Dash 5, de uniforme dourado, é a forma dourada (Ogon no Kenshin), com a qual Takeshi pode voar por uma curta distância e lançar um raio de calor por suas mãos capaz de derreter quase todos os materiais existentes. Finalmente, a Dash 6, de uniforme marrom, é a forma da terra (Tsuchi no Kenshin), que permite que Takeshi gire como uma broca para cavar túneis ou crie terremotos batendo com seu pé no chão.

Mais para o final da série, Rainbowman ganha a habilidade de combinar os poderes de duas outras formas com a forma solar, a qual ele usa três vezes: combinando as formas do fogo e dourada à solar, ele consegue lançar raios elétricos; combinando as formas das plantas e da terra à solar, ele consegue se camuflar quando encostado a rochas; e combinando as formas da água e dourada à solar, ele consegue criar uma tempestade. Essas formas combinadas, entretanto, gastam ainda mais energia que as normais, o que faz com que ele precise recorrer ao transe pouco depois de usá-las. As formas combinadas usam o mesmo uniforme da forma solar, com a única mudança ocorrendo na cor do sol do turbante de Rainbowman.

Ao retornar ao Japão, Takeshi descobre que Yoshi realmente perdeu sua escola de luta (a perna da irmã, felizmente, é salva), graças às maquinações de um empresário corrupto conhecido apenas como Mr. K. Secretamente o líder de uma organização criminosa chamada Shine Shine Dan (algo como o "clã da morte"), Mr. K desenvolveu uma droga experimental chamada Olho de Gato, que amplia a força e resistência de seus usuários, mas desperta neles uma fúria animal, muitas vezes fazendo com que lutem até a morte. Mr. K planeja usar essa droga para controlar o Japão, traficando-a entre os jovens, e chega até mesmo a usá-la em Takeshi, que só se livra de seus efeitos devido a seus poderes de Rainbowman.

Mr. K e o Shine Shine Dan, portanto, são os vilões da série. Ninguém sabe a origem ou verdadeira identidade de Mr. K, mas ele possui treinamento militar, um gancho no lugar da mão esquerda, e quase tanto ódio pelo Japão quanto dinheiro - alguns dizem que ele teria sido torturado por soldados japoneses durante a Segunda Guerra Mundial, e dedicou o restante de sua vida a conseguir meios para se vingar. Mr. K possui três "secretárias" ocidentais, chamadas Diana, Cathy e Mitchie, todas com excepcionais habilidades de combate, que são as principais generais do Shine Shine Dan. Outros vilões incluem o Dr. Gurudo, cientista louco da organização e criador da Olho de Gato; Iguana, uma feiticeira amazona praticante de necromancia; e o Dr. Borg, cientista especializado em criar ciborgues. Nesse aspecto, Rainbowman se parece mais com um dos tokusatsu da Toei do que Godman, já que, a cada episódio, além dos soldados rasos do Shine Shine Dan, Rainbowman deve enfrentar um dos assassinos sobrenaturais de Iguana, um dos ciborgues do Dr. Borg, ou um vilão qualquer sob o efeito da Olho de Gato, sem a presença de monstros gigantes, enquanto tenta impedir alguma das maquinações de Mr. K.

Ao todo, Rainbowman teria 52 episódios, exibidos entre 6 de outubro de 1972 (estreando exatamente um dia depois de Godman) e 18 de setembro de 1973 na TV Asahi. A série foi uma criação de Kohan Kawauchi, que também criou a primeira série de tokusatsu da TV japonesa, Gekko Kamen, de 1958, e o primeiro tokusatsu da Toei, Nanairo Kamen, de 1959. Nanairo Kamen e Rainbowman, aliás, possuem várias semelhanças, já que, através do uso de máscaras, Nanairo Kamen podia assumir sete formas diferentes - muitos consideram Rainbowman, inclusive, como uma espécie de remake de Nanairo Kamen, algo que o próprio Kawauchi chegou a admitir em algumas entrevistas da época.

Também como a série de Nanairo Kamen (e como todos os primeiros tokusatsu, embora na época de Rainbowman essa prática já não fosse comum), a série de Rainbowman é dividida em "sagas", com um arco de história completo em cada uma delas: apenas no primeiro arco Rainbowman se vê às voltas com a Olho de Gato, devendo, no segundo, impedir que o Shine Shine Dan coloque em circulação milhões de ienes falsos, fazendo ruir a economia japonesa; impedindo-os de isolar o Japão do resto do mundo ao destruir todos os portos e aeroportos no terceiro; e tentando evitar que o Dr. Borg transforme toda a população japonesa em ciborgues no quarto. Diferentemente, porém, do que ocorria nos primeiros tokusatsu, nos quais a cada arco os vilões eram diferentes, Mr. K e o Shine Shine Dan são os vilões do início ao final da série.

Rainbowman é considerado até hoje como o mais bem sucedido dos tokusatsu da Toho, e, na época, fez tanto sucesso que chegou a ser adaptado para um mangá, publicado entre dezembro de 1972 e dezembro de 1973 na revista TV Magazine Otomodachi. Em 1982, aproveitando os dez anos da série, o estúdio MBS negociaria com a Toho e produziria uma série em anime, de 22 episódios, exibidos entre outubro de 1982 e março de 1983 no canal TBS. Esse anime, porém, tem pouquíssimo a ver com a série: nele, Takeshi é um adolescente, e, ao invés de mudar de forma, ganha a habilidade de controlar sete robôs gigantes, cada um com habilidades semelhantes à sua Dash equivalente - e que podem se combinar para formar um robô ainda mais gigante, chamado Rainbowman.

Para terminar, vale citar que Rainbowman influenciaria dois personagens de destaque na minha lista de preferidos: Go Nagai, criador da Cutey Honey, declararia ser fã da série, e que, quando criou a heroína, pensava em criar uma versão feminina de Rainbowman; além dele, Keiji Inafune também era fã de Rainbowman, e se inspirou no herói para criar Megaman - o título original do jogo no Japão, aliás, era Rainbowman, mas a Capcom decidiria mudar para Rockman antes do lançamento após ser alertada por seus advogados que a Toho poderia processá-la por quebra de direitos autorais se ela usasse o nome.

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