segunda-feira, 30 de maio de 2016

O Último Guerreiro das Estrelas

Desde criança, sempre tive um especial apreço por filmes de ficção científica, por vários motivos, como, por exemplo, o já citado por aqui fato de que minha mãe era fã, e eu acabava assistindo a um monte deles junto com ela. Outro motivo era que, quando eu era criança, havia uma oferta enorme de filmes de ficção científica, diferentemente do que ocorre hoje, quando parece que todos os filmes são de super-heróis, fantasia ou sobre meninas valentes lutando pela sobrevivência em futuros distópicos governados por tiranias. Quando eu era criança, a ficção científica, principalmente a espacial, estava em voga, e, como era mais fácil e mais barato fazer um filme do que hoje em dia, todo mundo tentava ganhar uns trocados colocando naves espaciais para enfrentar impérios intergalácticos na tela do cinema. Como sempre acontece nesses casos, alguns desses filmes eram bons e se eternizaram, outros eram ruins e foram esquecidos, e alguns eram até bons mas, por um motivo ou outro, foram esquecidos do mesmo jeito. Na minha opinião, um exemplo desse terceiro grupo é o tema do post de hoje, O Último Guerreiro das Estrelas.

Quando eu era criança, eu adorava esse filme. Passava quase toda semana na Sessão da Tarde. E, pelo visto, não era só eu: O Último Guerreiro das Estrelas rendeu 29 milhões de dólares só nos Estados Unidos (cifra respeitável para um filme de ficção científica voltado para o público jovem), foi elogiado por quase toda a crítica (e, até mesmo quando o crítico tinha alguma ressalva, ainda acabava falando bem, como um que disse que o filme era "uma cópia de Star Wars, mas a melhor delas") e acabou adaptado para vários outros meios, dando origem a um romance, uma série em quadrinhos publicada pela Marvel com roteiro de Bill Mantlo, e até mesmo um musical off-Broadway, que ficou em cartaz durante três anos - isso sem contar games lançados para arcades, Atari, NES e PC, cujo lançamento foi meio óbvio dado o enredo do filme, e um jogo de tabuleiro.

Mesmo com tudo isso, e apesar de ter ganhado um certo status de cult, com o passar dos anos o filme foi sendo esquecido. Principalmente aqui no Brasil, onde não somente ele parou de ser exibido na TV, como também jamais foi lançado em DVD - nos EUA, ele chegou a ser lançado em uma edição comum e uma especial de 25 anos, mas ninguém se interessou de lançar nenhuma das duas por aqui.


Dirigido por Nick Castle, que, antes disso, só tinha dirigido um único filme, Jogo Assassino (que tem a distinção de ter sido o primeiro da carreira de Linda Hamilton, de O Exterminador do Futuro), e depois não dirigiria mais nada que merecesse destaque, O Último Guerreiro das Estrelas, cujo nome original é The Last Starfighter, estrearia nos Estados Unidos em 13 de julho de 1984. O roteiro ficaria a cargo de Jonathan R. Betuel, em seu primeiro trabalho - depois disso, ele escreveria e dirigiria o divertido A Máquina do Outro Mundo, em 1985; escreveria, dirigiria e produziria um episódio da série de TV CBS Summer Playhouse, em 1988; produziria a série de TV Freddy's Nightmare (baseada na série de filmes A Hora do Pesadelo), da qual escreveria um episódio e dirigiria dois, em 1989; e escreveria, produziria e dirigiria o desastroso Meu Parceiro é um Dinossauro, com Whoopi Goldberg, um fracasso tão grande que encerraria sua carreira, em 1995.

O protagonista do filme é Alex Rogan (Lance Guest), um adolescente comum norte-americano, que vive em um parque de trailers com sua mãe e irmão. Alex não está muito satisfeito com a vida que leva, e sua principal diversão é jogar um fliperama, chamado Starfighter, cuja máquina fica em frente a um mercadinho próximo. Alex é o maior jogador de Starfighter da região, e atrai os olhares de todos os vizinhos quando está jogando, única ocasião na qual se sente um vencedor.

Sem que Alex saiba, porém, o Starfighter não é somente um jogo, mas também um simulador de batalhas desenvolvido para treinar guerreiros espaciais e descobrir novos talentos. Assim, quando ele quebra o recorde do jogo, é visitado por seu criador, Centauri (Robert Preston, de Victor ou Victoria, em seu último papel no cinema), que o convida para um passeio. Centauri acaba levando Alex para o espaço, mais precisamente para o planeta Rylos, onde ele é convidado, graças à sua perícia no jogo, a se juntar à Resistência, que tenta defender a Fronteira do ataque da Armada Ko-Dan, liderada pelo maléfico Xur - não por acaso, mesmo enredo do jogo. Originalmente de Rylos, Xur (Norman Snow) traiu seus companheiros e se aliou aos Ko-Dan, com a promessa de que poderia governar o planeta após a Fronteira - uma espécie de cerca de satélites, que protege Rylos de ataques externos - ser destruída.

Alex aceita, e é designado como canhoneiro da nave pilotada por Grig (Dan O'Herlihy, o presidente da OCP em Robocop), alienígena que lembra um pouco o drac de Inimigo Meu. Enquanto treina no espaço, Alex é substituído na Terra por um androide que assume sua forma, chamado Beta, que, pouco acostumado com o comportamento dos humanos, acaba se metendo em algumas confusões com a namorada de Alex, Maggie Gordon (Catherine Mary Stewart). E, como era de se esperar em um filme voltado para o público jovem, um evento inesperado colocará Alex e Grig, mesmo com a pouca experiência do menino, frente a frente com Xur, dando a ele a chance de salvar o universo.

O Último Guerreiro das Estrelas foi um dos primeiros filmes a fazer uso extensivo de computação gráfica (CG) em seus efeitos especiais, e o primeiro a usar CG para criar objetos "reais" - até então, filmes que usavam CG, como Tron, usavam desse recurso apenas para criar objetos "virtuais", ou seja, que só existiam em um ambiente de computação gráfica dentro do próprio filme. No total, o filme contém mais de 300 cenas nas quais aparecem objetos de CG, incluindo todas as naves espaciais, cujos designs ficaram a cargo de Ron Cobb, que já havia trabalhado como designer em Star Wars, Alien: O Oitavo Passageiro e Conan: O Bárbaro. A opção de usar CG ao invés dos efeitos tradicionais da época foi da empresa contratada para realizar os efeitos especiais, a Digital Productions, que já havia usado essa técnica em outras produções, e, por experiência própria, calculou que levaria a metade do tempo para produzir os efeitos em CG do que se usasse modelos e maquetes. Ao contrário do que possa parecer, os efeitos em CG também sairiam mais baratos, também custando em torno de metade a um terço do valor que a empresa teria de gastar caso optasse por efeitos tradicionais. Ainda assim, O Último Guerreiro das Estrelas seria um dos filmes voltados para o público jovem mais caros de sua época, gastando, ao todo, 15 milhões de dólares - felizmente ele rendeu quase o dobro disso, pois, diante desse orçamento, um fracasso seria catastrófico para a produção.

Apesar de conter mais de 27 minutos de cenas com CG, um recorde para a época, O Último Guerreiro das Estrelas também fez uso de técnicas tradicionais em alguns efeitos especiais, principalmente nos do androide Beta, que, evidentemente, em sua "forma humana" também foi interpretado por Guest. Curiosamente, na versão original do roteiro a participação de Beta seria bem menor, mas as plateias de teste gostaram tanto das cenas com o androide que Castle decidiria filmar algumas novas e incluí-las no filme antes do lançamento. O problema foi que, como as filmagens já haviam acabado, Guest havia cortado o cabelo bem curto - e, ainda por cima, contraído uma doença de pele. Por causa disso, nas novas cenas, Guest teve de usar peruca e uma maquiagem bem pesada, o que acabou contribuindo involuntariamente para que o androide tivesse uma aparência artificial, o que até fez sentido. Também é curioso notar que, para incluir as novas cenas com Beta sem estender demais o filme, Castle excluiu algumas cenas que mostravam o irmão de Alex, Louis (Chris Hebert), com seu melhor amigo, interpretado por Wil Wheaton (o Wesley Crusher de Jornada nas Estrelas: A Nova Geração), que, graças a essa exclusão, acabou ficando de fora do filme.

Com distribuição da Universal, O Último Guerreiro das Estrelas seria uma produção do estúdio Lorimar, conhecido por suas produções para a TV, como as séries Alf: O E.Teimoso e Full House: Três é Demais, e os desenhos Thundercats e Silverhawks. Em 1992, a Lorimar seria comprada pela Warner, e aí começaria uma certa confusão sobre quem ainda detém os direitos sobre o filme - os DVDs foram lançados pela Universal, mas a Warner entende que ela é que seria a atual detentora dos direitos. Para completar a bagunça, Betuel alega que ele é quem detém os direitos, pois isto estaria previsto em seu contrato original - e, curiosamente, ele nem sabia, só tendo descoberto em 2010.

Em 2008, às vésperas do aniversário de 25 anos do filme, começaram a circular rumores na internet de que a produtora GPA Entertainment teria conseguido os direitos para uma sequência, também ambientada 25 anos depois, e chamada simplesmente Starfighter. Durante os quatro anos seguintes, essa sequência estaria oficialmente em pré-produção, mas pouco se ouviria falar dela, embora nomes como Seth Rogen e até mesmo Steven Spielberg tenham manifestado interesse em dirigi-la, e Gary Whitta (de O Livro de Eli e Depois da Terra) tenha se oferecido para escrever o roteiro. Betuel declarou jamais ter passado os direitos para a GPA, e chegou a ameaçar recorrer à justiça para impedir que a sequência fosse produzida, o que levou ao cancelamento do projeto em 2012.

Em 2015, mais um anúncio relacionado ao filme seria feito, dessa vez de uma série de TV, chamada Starfighter Chronicles, escrita pelo próprio Betuel e produzida pela Surreal.tv, empresa especializada em filmes que façam uso de realidade virtual - algo que Betuel acha que cai como uma luva para o enredo da série. Como de costume, a série está em pré-produção e pouco se fala nela. Vamos esperar para ver no que vai dar.

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