segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Power Instinct

Perto de onde eu estudava havia um fliperama, digamos, pouco ortodoxo. Lá, ao invés de sucessos da época como Street Fighter e Mortal Kombat, só tinha máquinas de jogos pouco conhecidos, como o jogo de porrada do Double Dragon, Power Instinct, Breakers e até uma máquina que, mesmo claramente com defeito, o dono do lugar insistia em ligar, o que fazia com que ela exibisse eternamente uma tela branca, que lhe valeu o apelido, dentre meus colegas, de Eternal White - na verdade, fui eu quem inventou esse nome, quando me perguntaram "que jogo será esse?", mas a piada deve ter sido boa, porque todo mundo passou a chamá-la assim.

Enfim, foi graças a esse fliperama que eu conheci esses três jogos (Eternal White, evidentemente, não conta) e até gostava muito de jogar todos os três. Dos três, o que eu gostava mais era Power Instinct, que depois pude continuar jogando na versão Super Nintendo. Já faz tempo que eu quero escrever um post sobre Power Instinct - aliás, até outro dia eu jurava que já tinha escrito um - mas esbarrava no problema de sempre: falta de informação - a Wikipédia, por exemplo, dedica apenas uma página, bem pobrezinha, a todos os games da série juntos. Essa semana, eu finalmente encontrei informações adicionais capazes de produzir um post minimamente interessante, e decidi não adiar mais. Vamos, portanto, a um post sobre Power Instinct!


Lançado para arcades em novembro de 1993 pela Atlus (cujo forte era jogos de navezinha) com o nome original de Goketsuji Ichizoku ("Família Goketsuji"), Power Instinct era, na verdade, uma sátira aos jogos de luta, trazendo personagens bizarros e caricatos que se enfrentavam sem motivo aparente. O jogo até tem uma história: a tal família Goketsuji é a terceira mais rica do mundo, e várias pessoas ambiciosas desejam controlá-la. Para evitar assassinatos e traições, a sábia Oshima Goketsuji, terceira dos líderes da família, decretou que, a cada cinco anos, haveria um torneio, do qual qualquer um com o sangue da família poderia participar. Os participantes então, se enfrentariam até que só restasse um, que ganharia o direito de enfrentar, na final, o atual líder da família. Vencendo, ele assumiria seu posto até o próximo torneio; perdendo, tudo continuaria como estava, com o atual líder ganhando mais cinco anos de comando.

Vários anos e torneios se passaram, até chegarmos em 1993. Nessa época, a líder da família é Oume Goketsuji, de 78 anos, filha de Oshima, que ganhou seu primeiro torneio ao derrotar a mãe quando tinha 18 - ou seja, há 60 anos ou 11 edições do torneio que ela controla a família. Para o torneio desse ano, oito novos lutadores se apresentam, todos tentando derrotar Oume e assumir sua posição - o que não será nada fácil, já que a velhinha possui poderes sobre-humanos.

Os oito candidatos ao título de 1993 são a italiana Angela Belti, mulher enorme e musculosa, porque todo jogo de porrada tem de ter um lutador grande e musculoso; Anny Hamilton, moça de 21 anos filha de um Gojetsuji com uma aristocrata inglesa, inexperiente nas artes marciais, mas que quer provar que tem o sangue da família; Keith Wayne, ex-membro de gangue norte-americano que quer mudar de vida através das artes marciais; Reiji Oyama, o Ryu do jogo, que deseja provar ser mais forte que os demais; Saizo Hattori, ninja mascarado que serve como estereótipo dos jogos de ninja; Chinnen, monge inescrupuloso e violento que quer o dinheiro da família para se fartar de comida e mulheres; White Buffalo, que participa do torneio como parte de seu treinamento para ser o próximo chefe de sua tribo; e Otane Goketsuji, irmã gêmea mas menos poderosa de Oume, que não se conforma de não ser capaz de derrotar a irmã. Oume, evidentemente, é a última chefe.

Mesmo sendo um jogo satírico, Power Instinct introduziu algumas novidades, como o fato de que os cenários têm objetos nas extremidades que podem ser destruídos durante a luta, deixando-os cada vez mais extensos; o pulo duplo, que permitia aos personagens alcançar distâncias bem maiores; e o ataque com corrida, que causava bem mais dano que um ataque igual "parado" - mas também deixava o lutador aberto para um contra-ataque enquanto estava correndo. Cada lutador tinha dois botões de soco e dois de chute, além dos já tradicionais golpes especiais, diferentes para cada um deles. Um dos especiais mais famosos de Power Instinct, que se tornaria uma das marcas registradas da série, era a "transformação": Otane e Oume tinham um golpe com o qual podiam se transformar em uma versão de 18 anos de si mesmas, mais forte, rápida e bonita. A transformação durava 10 segundos, durante os quais a personagem ganhava um bônus na velocidade e no dano causado por seus ataques.

O primeiro Power Instinct também seria o único da série a trazer "fases bônus", das quais o jogador podia participar a cada três oponentes derrotados: na primeira, o objetivo era derrotar vários dos juízes da luta (vestidos igual aos de Samurai Shodown e também chamados Kuroko, que, em japonês, significa "roupa preta" e é o nome usado para denominar um dos personagens tradicionais do teatro kabuki) que vinham correndo em sua direção; na segunda, o objetivo era acertar com golpes vasos que eram arremessados na sua direção por algum personagem misterioso fora da tela.

Power Instinct fez bastante sucesso no Japão, mas pouco nos Estados Unidos, onde só foi lançado para tentar pegar uma carona no sucesso de outros jogos de luta da época. Mesmo assim, além da versão arcade, ele ganhou versões para o Super Nintendo e para o Mega Drive. Curiosamente, a versão norte-americana do Super Nintendo era severamente editada em relação à japonesa, não contando com as biografias dos personagens durante a abertura nem com uma cut scene que ocorria antes da luta contra Oume; enquanto na versão japonesa cada personagem tinha uma fala de provocação para cada oponente após cada luta, na norte-americana era sempre a mesma fala em todas as lutas, dependendo apenas do personagem escolhido pelo jogador, e não do oponente; e o pior de tudo, os personagens não tinham final, apenas uma tela genérica de parabenização. Mas pelo menos houve uma versão norte-americana para o Super Nintendo, já que a versão Mega Drive foi lançada exclusivamente no Japão.

O sucesso do jogo no Japão levaria, evidentemente, a uma continuação, Power Instinct 2 (Goketsuji Ichizoku 2), lançada em abril de 1994. No final do primeiro torneio, Otane finalmente conseguiu vencer sua irmã Oume, que não se conformou com a derrota. Seis meses se passaram, e Oume recebeu uma visita surpresa de sua mãe, Oshima, que dizia ter a solução para que ela recuperasse seu cargo de líder da família: segundo as regras do torneio (criadas por ela mesma), caso o líder da família morresse entre um torneio e outro, deveria ser realizado um "torneio de emergência", cujo vencedor assumiria o posto. Oume, então, trama para que Otane seja sequestrada e jogada no mar por seus capangas, para que ela possa organizar um novo torneio e voltar a ser a líder. O que ela não sabe é que tudo isso é um plano de Oshima, que planeja vencer o torneio e voltar a ser a líder após 60 anos.

Usando uma nova placa, chamada CAVE, o jogo tinha gráficos aprimorados, animações mais fluidas e corrigia alguns bugs presentes no primeiro. Aumentando a galhofa, os retratos dos lutadores derrotados a cada luta vinham não cheios de hematomas e escoriações, mas pintados e rabiscados como se eles tivessem dormido bêbados perto de amigos sem-vergonha. Power Instinct 2 também inovava ao trazer músicas cantadas durante as lutas, e foi o primeiro da série a trazer a "barra de stress", uma espécie de barra de super que só enchia quando o lutador apanhava ou tivesse seus golpes bloqueados. Uma vez cheia, a barra de stress não permanecia assim por muito tempo, logo esvaziando, mas, enquanto estivesse cheia, o lutador ficava envolto em chamas, derrubando e causando dano a oponentes que se atrevessem a atacá-lo, e podia usar um super especial, que esvaziava a barra instantaneamente. A barra de stress não enchia e não podia ser usada caso o lutador estivesse transformado.

Power InstinctO jogo traz de volta Angela, Anny, Chinnen, Keith, Reiji, Saizo, White Buffalo e Oume (agora selecionável), e adiciona cinco novos lutadores: Oshima, mãe de Oume e Otane, com 101 anos de idade, que quer voltar a ser a líder; Kanji Kokuin, um velhinho ágil e musculoso que, durante a luta, acidentalmente pode se transformar em um velhinho baixinho e caquético; Kintaro Kokuin, um menino gordinho, neto de Kanji, que luta praticamente nu e tem o poder de se transformar em um cachorro antropomórfico chamado Poochy; Clara Hananokoji, menininha mágica ao estilo Sakura Card Captor, com vários poderes mágicos conferidos por um cajado e a capacidade de se transformar em uma versão adulta de si mesma, chamada Super Clara; e Sahad Asran Ryuto, jovem aristocrata árabe que encontrou uma lâmpada que lhe conferiu poderes mágicos, e os quer testar no torneio. Otane, que não morreu, é a última chefe; Oshima, se você não estiver jogando com ela, é uma espécie de subchefe, sempre vindo antes de Otane.

O terceiro jogo da série seria lançado em junho de 1995. No Japão, ele teria o nome de Goketsuji Gaiden Saikyou Densetsu ("história paralela dos Goketsuji: a lenda do mais forte"), mas sua versão norte-americana, seja lá por que motivo, decidiu adotar o nome de Gogetsuji Legends, sem nenhuma referência ao nome Power Instinct. O "história paralela" do título original vem do fato de que esse não é um novo torneio da família Goketsuji: no final de Power Instinct 2, quem derrotou Otane foi Kanji, que se tornou o novo líder da família. Empolgado com sua vitória, ele convidou os demais lutadores para um "torneio de exibição", no qual a liderança da família não estava em jogo. Mordidos com a derrota, os lutadores aceitaram.

A maior novidade de Gogetsuji Legends é que as lutas são em duplas: cada jogador escolhe dois personagens, sendo que um começa a luta e o seguinte entra quando o primeiro é derrotado (ao estilo King of Fighters; não é possível alternar entre os personagens como em Marvel vs. Capcom). Outras novidades foram o Charge Attack, um ataque carregado que joga o oponente para cima e o deixa aberto para um combo se acertá-lo; o Special Guard, uma defesa que, se executada na hora precisa, anula totalmente o ataque do oponente e o deixa aberto para um contra-ataque; e o Shadow Attack, evolução do "ataque correndo" dos jogos anteriores, que fazia com que uma trilha de sombras seguisse o personagem executando o golpe. Mas uma das coisas mais bizarras do jogo era a "morte súbita": se o tempo de uma luta terminasse sem um vencedor, a energia de ambos os lutadores era totalmente esvaziada, a barra de stress totalmente cheia, e novos 5 segundos eram adicionados ao cronômetro - quem acertasse o oponente primeiro, ganharia.

Todos os personagens de Power Instinct 2 estavam de volta: Angela, Anny, Chinnen, Keith, Reiji, Saizo, White Buffalo, Oume, Otane, Oshima, Kanji, Kintaro, Clara e Sahad - pela primeira vez, Oume e Otane eram ambas selecionáveis desde o início do jogo. Super Clara e Poochy podiam ser selecionados como personagens separados, deixando de ser transformações de Clara e Kintaro, que ganharam novos especiais para compensar - o que fez com que os únicos personagens com transformações fossem os velhinhos Oume, Otane e Kanji. Curiosamente, Kuroko deixaria de ser juiz e poderia também ser escolhido pelo jogador, embora somente como segundo personagem, nunca como primeiro (e, mais curiosamente ainda, na versão norte-americana ele se chamaria Ninja Boy). Ao todo, portanto, 17 personagens estavam à disposição do jogador, sendo que o jogo ainda trazia um novo chefe, Chuck, primeiro personagem da série a não ter o sangue dos Gouketsuji (bem, talvez o segundo, não é bem claro se Kuroko o tem ou não). Narcisista e exibido, Chuck se considera o mais forte e mais sexy homem do mundo, e é convidado por Kanji para ser o último oponente de seu torneio de exibição. Chuck, que sempre faz dupla com Kuroko, na realidade não é tudo o que acha que é - o que foi feito propositalmente, já que ele é uma paródia do personagem Dan Hibiki, de Street Fighter Alpha.

Também em 1995, seria lançado, exclusivamente no Japão, um jogo para o Playstation chamado Goketsuji Ichizoku 2: Chotto Dake Saikyo Densetsu ("uma lenda um pouco mais violenta"). Esse jogo era uma mistura de Power Instinct 2 e Gogetsuji Legends, com a mesma história de Power Instinct 2, mas contando com Otane, Kuroko e Chuck dentre os personagens selecionáveis e um modo para dois jogadores no qual era possível jogar em duplas. Super Clara e Poochy continuavam sendo transformações de Clara e Kintaro, porém, e o Charge Attack, o Special Guard e o Shadow Attack não estavam presentes.

O quarto jogo da série seria lançado apenas em abril de 1997, e, dessa vez, exclusivamente no Japão, sem versão norte-americana. Chamado Groove on Fight, ele era ambientado em 2015, 20 anos (e quatro edições do torneio) após os eventos de Power Instinct 2. Nesse futuro, Oume é novamente a líder da família, mas, já com 98 anos de idade, teme não conseguir manter seu título no torneio que se aproxima, e, para ter uma vantagem, decide usar de sua prerrogativa de líder para alterar as regras, permitindo a participação de lutadores sem o sangue da família. O intuito de Oume é fazer um novo torneio em duplas, como o criado por Kanji, e chamar um antigo amante, Falco, para ser seu parceiro. Infelizmente, o tiro sai pela culatra quando poderosos lutadores de uma família rival, disposta a destruir os Goketsuji a qualquer preço, se inscrevem no torneio. Oume, então, não tem outra saída senão chamar sua irmã Otane para lutar junto com ela como se ambas fossem um único lutador, prometendo-a liderança compartilhada da família caso vençam.

Todos os 12 personagens de Groove on Fight (onze à disposição do jogador e um último chefe) são novos, à exceção de Oume e Otane, que foram combinadas em um único personagem - bizarramente, elas lutam amarradas, uma de costas para a outra, com movimentos sincronizados. Oume e Otane não têm o poder da transformação nesse jogo, mas mudam de forma ao executar alguns especiais, e, em um deles, até fazem com que o espírito de Oshima ataque o oponente. Os outros dez lutadores à disposição do jogador são Falco, que tem o poder de ler a mente dos oponentes, o que lhe dá uma vantagem em qualquer luta (que, infelizmente, não se traduz em vantagem para o jogador); Rudolph Gartheimer, líder da família Gartheimer, devotada a destruir os Goketsuji (que, assim como Oshima em Power Instinct 2, é o subchefe se você não estiver jogando com ele); Chris Wayne, filho de Keith e Anny; Larry Light, jovem otimista que acha que a felicidade é mais importante que o dinheiro, mas é excelente lutador, tanto que quase derrotou Oume na final do torneio anterior; Hizumi Yukinoue, fã de mangás e animes que sonha ser um verdadeiro ninja; M.A.D. (cujo "nome verdadeiro" é Max Ax Dax), cientista maluco que trabalha para a família Gartheimer; Popura Hananokoji, filha de Clara, que tem os mesmos poderes que a mãe (exceto o da transformação - aliás, esse jogo, diferentemente dos demais, não tem transformações); Remi Otogiri, descendente de uma antiga e poderosa bruxa japonesa, que encontrou o livro de magias de sua antepassada e descobriu como usar seus poderes; Suijiroku Tenjinbashi, filho mais velho da família Tenjinbashi, que não é levado a sério por seu pai, o líder da família, por ser viciado em malhação, e deseja vencer o torneio para mostrar seu valor ao pai; e Solis R8000, a mascote do jogo, uma ciborgue policial que investiga a família Goketsuji. O último chefe é Bristol Weller, mais poderoso representante da família Gartheimer - não por acaso, já que fez um pacto com um demônio para ganhar seus poderes - que deseja usar o torneio para destruir ambas as famílias e se tornar o homem mais poderoso do mundo. Bristol tem duas formas, sendo a segunda, demoníaca e conhecida como Bristol-D, revelada apenas após a primeira ser derrotada - o que faz com que, na prática, o jogo não tenha um último chefe, mas dois.

Groove on Fight, assim como Gogetsuji Legends, é um jogo de luta em duplas, mas agora os lutadores podem ser alternados livremente (como em Marvel vs. Capcom; é interessante registrar, também, que Oume e Otane contam como um único personagem, podendo fazer dupla com qualquer outro). Assim como em outros jogos de luta em dupla, quando os personagens são trocados, o que está fora da tela recarrega sua energia lentamente; o personagem de fora pode ser chamado para executar um golpe e deixar a tela; e há um "combo duplo", uma sequência de golpes executada por ambos os personagens ao mesmo tempo e que custa um nível da barra de stress. Diferentemente de todos os outros jogos de luta em dupla que eu conheço, e de forma um tanto bizarra, quando um dos personagens é derrotado, seu "cadáver" permanece na tela, podendo ser arremessado no oponente. Groove on Fight manteve o Special Guard e o Charge Attack (sendo que cada um deles agora deve ser executado com um botão próprio, o que aumentou o número de botões do jogo para seis, incluindo os dois socos e dois chutes), bem como os Shadow Attacks, e introduziu o Pounce Attack, que permite atacar um oponente caído no chão; o Unblockable Attack, ataque super lento, mas que não pode ser defendido; e a provocação, que não serve para nada além de irritar o oponente. A barra de stress foi modificada, tendo agora nove níveis e não mais esvaziando sozinha ou deixando o personagem em chamas, sendo usada apenas para os super especiais e para o combo duplo.

Groove on Fight seria produzido para a placa Sega Titan, e teria um estilo gráfico bastante diferente dos demais jogos da série, bem mais sombrio e sem tanta galhofa. O jogo ganharia uma versão para Sega Saturn, que perderia fluidez devido à menor memória e velocidade de processamento do console em relação ao arcade, mas compensaria incluindo macetes para jogar com Bristol, Bristol-D e com um novo personagem, Damian Shade, órfão adotado por Rudolph Gartheimer e que deseja retribuir todo o amor que recebeu vencendo o torneio em nome da família. Usando um acessório do Saturn, o jogo também permitia que quatro jogadores jogassem ao mesmo tempo, cada um controlando individualmente um dos personagens de cada dupla.

Groove on FightNo final da década de 1990, a Atlus passou por sérios problemas financeiros, que deixaram a série em suspenso. Então, no início dos anos 2000, a desenvolvedora Noise Factory, que havia trabalhado junto com a Evoga em Rage of the Dragons, a procurou querendo usar os personagens de Power Instinct em um novo jogo para a placa MVS, da SNK. A Atlus concordou, com a condição de que a propriedade dos personagens continuasse pertencendo à Atlus, e que seu nome aparecesse no jogo como se ela também tivesse participado do desenvolvimento. Assim surgiria Shin Goketsuji Ichizoku: Toukon Matrimelee ("a nova família Goketsuji: espírito de luta Matrimelee"), que, na versão norte-americana, teria seu nome reduzido para apenas Matrimelee - um jogo de palavras com matrimony, "matrimônio" em inglês, e melee, "luta com armas brancas" no mesmo idioma.

A história do jogo não deixa bem clara a época na qual ele é ambientado, mas, com certeza, é entre Gogetsuji Legends e Groove on Fight. Nela, o Rei de Um Certo País (sendo que esse é o nome do país) está velho e procurando um sucessor à altura, e decide realizar um torneio para que o mais forte lutador seja o novo monarca, além do novo marido de sua linda filha - ou a nova esposa de seu filho, embora também não fique bem claro por quê esse filho não pode ser o sucessor. Vários personagens de Power Instinct decidem se inscrever, junto com algumas caras novas, todos se candidatando ao posto de Rei ou Rainha.

Estão de volta Anny, Clara, Otane, Oume, Chinnen, Kanji, Keith, Poochy, Reiji, Saizo e White Buffalo. Os novos são Buntaro Kuno, líder de gangue que se faz de durão, mas tem um bom coração; Shintaro Kuno, irmão de Buntaro, que entrou no torneio para impressionar o irmão; Hikaru Joumon, única menina de uma numerosa família de homens, que decide participar do torneio fingindo ser homem para provar que pode ser tão boa lutadora quanto qualquer um deles; e Olof Linderoth, guarda-costas da Princesa. A Princesa, aliás, que se chama Princess Sissy, é a última chefe, e decide cair na porrada por não estar nada satisfeita com essa história de ser o prêmio do torneio - aliás, Sissy é a última chefe para todos os lutadores, não existindo um lindo filho insatisfeito por ser o prêmio para enfrentar as mulheres. O jogo tem ainda quatro personagens secretos que podem ser escolhidos através de truques, todos oriundos de Rage of the Dragons: Elias Patrick, Jimmy Lewis, Johnny Jones e Lynn Baker. Na versão Neo Geo, Sissy também pode ser escolhida através de um truque.

Voltando às origens, Matrimelee é um jogo de um contra um. A barra de stress foi novamente reformulada, e agora tem três níveis, cada um servindo a um propósito: ao custo de um nível, o jogador pode usar um Stress Shot, que é um super especial comum; ao custo de dois níveis, o jogador pode usar um Ippatsu Ougi, uma espécie de super combo; e, ao custo de três níveis, o jogador pode usar um Kinjite, um super ataque que tira uma energia absurda do oponente. Os Kinjite eram considerados secretos - os próprios jogadores deveriam descobrir seus comandos - e a maioria deles não teve seus comandos revelados, o que levou muitos jogadores a acreditar que nem todos os personagens possuem Kinjites. Toda vez que a barra aumenta um nível, o personagem fica em chamas durante alguns segundos, causando dano a oponentes que decidam atacá-lo.

Usar um Special Guard agora gasta um nível da barra, e provocar o oponente a enche um pouco, desde que você não seja atingido durante a provocação antes de a barra começar a encher. Se dois oponentes se provocarem mutuamente, aliás, ocorre um "duelo de provocação", durante o qual botões devem ser pressionados na ordem correta rapidamente, com o jogador que errar um botão primeiro perdendo o duelo e sofrendo dano. Outras novidades incluem poder usar Kuroko como parte de golpes ou como escudo nos cenários nos quais ele está presente, e uma barra de energia vermelha junto à barra comum, amarela. Durante toda a luta, a energia vai recarregando até o limite dessa barra vermelha, mas, se o jogador for derrubado e falhar em executar um movimento que faz com que ele role, a barra vermelha some. Matrimelee, assim como Groove on Fight, não tem transformações.

Lançado em maio de 2003, Matrimelee seria o primeiro Power Instinct em seis anos, e, curiosamente, seria um dos últimos jogos lançados para a placa MVS e para o console Neo Geo. Como todo jogo lançado para um console à beira da morte, não fez muito sucesso, mas, no Japão, fez o suficiente para revitalizar o interesse dos fãs e permitir o lançamento de mais jogos da série. O primeiro desses novos jogos também foi criado pela Noise Factory, e foi lançado exclusivamente para o Playstation 2, somente no Japão, em maio de 2006 com o nome de Shin Goketsuji Ichizoku: Bonnou no Kaihou ("liberação dos desejos mundanos").

Bonnou no Kaihou é uma espécie de continuação de Matrimelee, e tem o mesmo estilo de jogo, exceto por uma nova alteração na barra de stress: agora ela enche como uma barra de especial normal - não somente quando o personagem apanha ou é bloqueado, mas também quando acerta o oponente - e, além disso, não há Kinjites, e todos os especiais (incluindo os que eram Ippatsu Ougi, que passaram a causar menos dano) custam apenas um nível. O jogo também trouxe de volta as transformações de Clara, Oume, Otane e Kanji.

Estão presentes todos os personagens de Matrimelee, exceto Poochy e os quatro que eram de Rage of the Dragons, mas incluindo Princess Sissy, que agora é selecionável desde o início e atua como subchefe se você não estiver jogando com ela. Angela e Kintaro, que não davam as caras desde Gogetsuji Legends, também foram adicionados, para um total de 18 personagens selecionáveis - o motivo de Poochy não estar presente, aliás, foi que ele voltou a ser uma transformação de Kintaro. O último chefe é Bobby Strong, lutador de boxe contratado pelo Rei de Um Certo País para ser o desafio final. Na história, aliás, a Princesa está muito triste com o fim do torneio, no qual sentiu uma emoção que jamais havia experimentado, e o Rei, para ver sua filha feliz novamente, decide organizar um novo torneio, no qual garantirá ao vencedor qualquer desejo exceto o trono.

O mais recente jogo da série foi lançado em agosto de 2009, mais uma vez pela Noise Factory, exclusivamente para arcades, usando a placa Taito Type X, e, novamente, apenas no Japão. Com o nome de Goketsuji Ichizoku Matsuri Senzo Kuyou ("festival da celebração dos ancestrais"), ele é um retorno ao jogo original: trata-se, nada menos, da mais recente versão do torneio da família Goketsuji, com Oume mais uma vez defendendo seu título - mas a diferença é que, como o torneio será realizado durante o festival Senzo Kuyou, o vencedor, além de se tornar o líder da família, será considerado um deus na Terra.

MatrimeleeA maior novidade de Senzo Kuyou é a presença de combos aéreos e a possibilidade de se correr e defender durante um pulo, ao estilo Marvel vs. Capcom. Os personagens podem também acionar um Chain Combo, um modo no qual vários ataques são ligados para causar mais dano durante um certo tempo, e há um Rage Mode, ativado quando a barra alcança o nível 3 com um golpe normal bloqueado ou com uma provocação, no qual o dano de todos os ataques do personagem é aumentado. Além da barra de stress, agora há também uma barra de fadiga, que enche conforme o personagem bloqueia ataques do adversário; quando ela está totalmente cheia, o personagem se torna incapaz de bloquear por alguns segundos enquanto ela esvazia. Finalmente, o jogo trouxe de volta os Kinjite, que gastam todos os três níveis da barra de stress, mas causam dano maciço ao oponente.

Dos personagens antigos, estão presentes Angela, Anny, Chinnen, Clara, Kanji, Keith, Kintaro, Reiji, Saizo, Oume, Otane e White Buffalo. Temos cinco personagens novos: Sandra Belti, avó octogenária de Angela; Elizabeth Belti, irmã mais nova, mas nem tanto, de Sandra (assim como Oume e Otane, Sandra e Elizabeth podem se transformar em versões mais jovens, fortes, rápidas e belas de si mesmas; diferentemente das gêmeas Goketsuji, entretanto, as irmãs Belti são amigas e se dão bem); Rin Oyama, prima-irmã de Reiji, que sonha se tornar a maior carateca do mundo; Takumi Hattori, primo de Saizo, criança obcecada pelo exército, que tem golpes com motivos militares; e Prince, o irmão mais velho de Princess Sissy, um bon vivant covarde que não participou dos torneios anteriores por medo (e talvez por isso não tenha sido considerado pelo Rei como um bom herdeiro), mas agora, diante da possibilidade de se tornar um deus, se interessou. O jogo traz ainda cinco personagens secretos, Buntaro, Shintaro, Hikaru, Olof e Sissy, que podem ser selecionados com truques, e um personagem estranho, Maruta, um boneco de treino feito de palha usado durante uma espécie de tutorial. O último chefe é Shinjuro Goketsuji, ninguém menos que o fundador da família, cujo espírito vem à Terra todo Senzo Kuyou para testar pessoalmente os candidados a líder da família e deus na Terra.

Durante muitos anos, rolaram boatos de que Senzo Kuyou ganharia uma versão para consoles ou uma versão norte-americana, que se acentuaram quando uma versão 2.0 do jogo foi lançada, em fevereiro de 2012, para a placa NESiCAxLive, corrigindo alguns bugs e trazendo super especiais inéditos que só podiam ser usados por Oume, Otane, Kanji, Clara, Kintaro, Elizabeth e Sandra quando estivessem transformados. Até hoje, porém, nem versão caseira, nem versão norte-americana, nem novo jogo foram lançados, e ninguém sabe se a Noise Factory ou a Atlus - hoje uma subsidiária da Sega - pretendem dar continuidade à série.

O mais curioso, porém, é que o último torneio disputado foi em 2009, e estamos nos aproximando de 2015 - ano no qual Groove on Fight é ambientado. Quem sabe não teremos um novo Power Instinct para 2020?

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