segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Frankenstein

De tanto falar de Frankenstein semana passada, acabou que eu fiquei com vontade de fazer um post sobre ele. Diante disso, vamos a um!

Frankenstein é um dos maiores clássicos da literatura mundial. É considerado uma das mais importantes obras do romantismo, bem como o primeiro livro de ficção científica - obras anteriores já tratavam de ciência, mas sempre com um toque místico ou com seus personagens se envolvendo com a ciência por acidente; Frankenstein foi o primeiro no qual o protagonista decide usar a ciência propositalmente para alcançar seus objetivos, e essa ciência é calcada puramente no que se conhecia na época, sem nenhum traço de magia ou misticismo.

E essa obra tão importante foi escrita por uma menina de apenas 19 anos.

Em 1815, o vulcão Monte Tambora, na Indonésia, entrou em erupção, e suas cinzas, levadas pelo vento, cobriram a Europa. No verão de 1816, o continente enfrentou o que se chama de "inverno vulcânico", já que as cinzas, ainda espalhadas pela atmosfera, não deixavam a luz do sol passar, criando um clima frio e chuvoso que em nada se assemelhava ao verão europeu. O ocorrido foi tão grave que, em alguns países, o ano de 1816 entrou para a história como "o ano sem verão".

Desde antes da erupção, entretanto, o escritor britânico Percy Bysshe Shelley já havia combinado com seu amigo e também escritor Lord Byron de passar o verão no chalé de Byron, localizado à beira de um lago em Genebra, Suíça. Percy não iria sozinho, levando consigo sua amante, Mary Wollstonecraft Godwin.

A vida do casal, aliás, daria um livro por si só. Mary nasceu em 30 de agosto de 1797, e era filha do escritor e filósofo político William Godwin. Sua mãe, também chamada Mary Wollstonecraft, faleceu quando ela tinha apenas 11 dias de vida, deixando a filha para ser criada pelo pai junto com uma meio-irmã mais velha, Fanny Imlay, filha ilegítima de sua mãe com um amante, o especulador norte-americano Gilbert Imlay. Quando Mary tinha quatro anos de idade, seu pai se casou novamente, dando a ela outra meio-irmã, Claire Clairmont - que acabaria tendo um caso e um filho com Lord Byron, 13 anos mais velho que ela. Mary e Claire foram criadas pelo pai para serem mulheres independentes, pensantes e liberais, características que atrairiam Percy e Byron.

Percy, nascido em 4 de agosto de 1792, era filho de um parlamentar britânico de família abastada e de uma moça cujo pai possuía muitas terras, o que conferia ao casal uma fortuna considerável. Desde criança, porém, Percy nunca se deu bem com os pais, e, aos 19 anos, para afrontá-los por proibirem um romance que começou com sua prima, Harriet Grove, fugiu para a Escócia e se casou em segredo com uma menina de 16 anos, amiga de suas irmãs, chamada Harriet Westbrook - e o mesmo nome não foi coincidência. A família Westbrook ficou muito satisfeita com o casamento da filha, mas o pai de Percy ficou enfurecido e o deserdou. Para piorar, Harriet insistia que sua irmã mais velha, a quem Percy detestava, morasse com eles após o casamento.

Casamento que, portanto, não seria lá muito feliz. Sem o dinheiro do pai, Percy, que sempre escreveu, teve de buscar quem publicasse suas histórias para poder sobreviver. Ele chegou a convidar um amigo para morar com eles e dividir as despesas, mas acabou expulsando-o quando descobriu que esse amigo estava dando em cima de Harriet. Infeliz no casamento, ele se apaixonaria pela filha de um de seus maiores ídolos - William Godwin. Quando começaram a namorar, Percy tinha 21 anos e Mary 16. Os dois manteriam uma relação quase-secreta - daquelas que todo mundo desconfia mas ninguém pergunta - até o final de 1816, quando Harriet, já com dois filhos e grávida do terceiro, ainda infeliz, e certa da traição do marido, se suicidou. Percy e Mary se casariam duas semanas após o suicídio, e ela passaria a usar o nome Mary Shelley.

Mas a viagem ao chalé de Lord Byron aconteceria antes do casamento, quando Mary ainda era Godwin. Como o clima estava muito frio, as atividades ao ar livre originalmente programadas não puderam ser realizadas, e Percy, Mary, Byron e outro hóspede, o também escritor John Polidori, passavam a maior parte do tempo dentro de casa. Seu principal entretenimento era ler histórias sobrenaturais de um livro alemão traduzido para o francês, chamado Fantasmagoriana. Quando todos os contos do livro já haviam sido lidos, Byron propôs que cada um escrevesse sua própria história de terror, para que se desse prosseguimento às sessões de leitura.

Aparentemente, a proposta de Byron não incluía Mary, única do grupo que jamais havia escrito nada; mesmo assim, entretanto, ela decidiria participar. Motivada por ter ouvido conversas dos homens sobre galvanização, energia elétrica e sobre o poeta Erasmus Darwin, que dizia ter conseguido reanimar matéria morta usando eletricidade, ela teria um sonho, no qual um cientista tenta criar um ser humano a partir de partes de cadáveres. Ao acordar, ela começaria a escrever um conto com esse enredo, pedindo a ajuda de Percy. Percy acharia a história tão boa que a motivaria a escrever um romance completo.

Mary começaria a desenvolver a história após retornar do chalé, e escreveria os quatro primeiros capítulos após o suicídio de sua meio-irmã Fanny, que tiraria a própria vida dois meses antes de Harriet Shelley - segundo boatos, porque ela também era apaixonada por Percy, e não suportou descobrir que ele estaria tendo um caso com Mary. Ela concluiria o livro em maio de 1817, e, após as revisões e adequações necessárias, Percy decidiria enviá-lo para publicação. Temendo que ninguém fosse levar a sério um livro de terror escrito por uma mulher, Percy sugeriu que o livro fosse publicado de forma anônima.

Percy ofereceria o livro a seu editor, Charles Ollier, e ao editor de Byron, John Murray, mas ambos o rejeitariam. O livro, cujo título completo é Frankenstein ou O Prometeu Moderno (Frankenstein; or, The Modern Prometheus) acabaria tendo sua primeira edição publicada apenas em janeiro de 1818 por uma editora minúscula e de nome comprido - a Lackington, Hughes, Harding, Mavor & Jones - que pagaria uma mixaria. Originalmente, o livro seria publicado em três volumes, prática comum no século XIX para primeiras edições de livros de mais de 100 páginas, e, apesar de ser anônimo, contava com um prefácio escrito por Percy, o que levou vários críticos e leitores a suspeitarem de que ele fosse o autor.

Inicialmente, o livro não foi bem recebido pela crítica, que o considerou absurdo, revoltante, nojento e outros adjetivos menos agradáveis ainda. Dentre o público, porém, o livro seria um imenso sucesso, vendendo grandiosamente bem e se tornando popular especialmente dentre os intelectuais - tanto que logo surgiriam peças de teatro baseadas nele e as primeiras traduções para outros idiomas, sendo a primeira de todas a feita para o francês por Jules Saladin. Após esse sucesso, a crítica começou a mudar, e surgiram avaliações bastante positivas; curiosamente, depois que foi publicamente revelado que a autora era uma mulher, a crítica passou a ser majoritariamente negativa mais uma vez, com avaliações como "é compreensível que o livro seja assim, já que o autor é uma mulher", e até com comparações desfavoráveis entre a obra de Mary e as de seu pai e de seu marido. Somente no século XX as críticas voltariam a ser majoritariamente positivas e o livro passaria a ser considerado um clássico.

A primeira edição creditada a Mary Shelley seria publicada apenas em agosto de 1822, um mês após a morte de Percy - ele se afogaria, aos 29 anos, durante uma tempestade que atingiu o barco em que viajava pelo litoral da Itália. Essa segunda edição sairia em dois volumes e seria publicada pela G. and W.B. Whittaker, que se interessaria devido ao sucesso de uma peça, Presumption; or, the Fate of Frankenstein, baseada no livro e escrita por Richard Brinsley Peake. A princípio, a editora não acreditou que fosse Mary, e não Percy, a autora do livro, só sendo convencida após ver os manuscritos originais.

Já a primeira edição em apenas um volume seria publicada pela Colburn & Bentley em 31 de outubro de 1831. Essa seria uma edição revisada, com um novo prefácio escrito pela própria Mary, no qual ela fala sobre a reunião no chalé e as origens de sua história. Essa é a edição que costuma ser traduzida e republicada hoje, com a edição original de 1818 - considerada "mais pura" ou "mais atraente" por alguns estudiosos, por nunca ter sido revisada - sendo mais rara e praticamente só sendo encontrada em inglês.

O livro é escrito como se fosse uma carta escrita pelo Capitão Robert Walton para sua irmã, Margaret Walton Saville. Na carta, o Capitão conta como se encontrou por acaso com o cientista Victor Frankenstein, que decidiu lhe revelar a história de sua vida e de sua tragédia: filho de uma rica família suíça, Victor foi criado para perseguir uma maior compreensão do mundo através da ciência, e, desde a morte de sua mãe, passou a realizar experiências para reanimar tecido morto usando a eletricidade. Durante uma dessas experiências, ele cria um monstro, uma criatura horrenda a qual rejeita por não se parecer com o que tinha planejado. Deprimido, ele cai doente, e fica de cama por quatro meses. Durante esse período, a criatura conhece a rejeição dos habitantes da cidade, que o temem por sua aparência, e, irado, decide procurar o cientista para se vingar, não matando-o, mas destruindo sua vida.

Curiosamente, praticamente todo mundo hoje usa o nome "Frankenstein" para se referir ao monstro, embora, no livro, esse nome pertença apenas ao cientista, com o monstro sendo chamado simplesmente de "monstro", ou "criatura", ou outros termos bastante pejorativos - o monstro, aliás, não tem um nome de propósito, para mostrar que a rejeição do cientista à sua criação foi tão forte que ele, inclusive, se recusou a nomeá-la. Essa confusão não é recente, ocorrendo praticamente desde a primeira publicação do livro, e, segundo a teoria mais aceita, teria começado com pessoas que tiveram conhecimento da história mas não leram o livro, imaginando que Frankenstein fosse o nome do monstro e não de seu criador. No início, críticos literários, jornalistas e admiradores da obra se desesperavam tentando fazer com que as pessoas parassem de chamar o monstro pelo nome do cientista, mas, após o lançamento do filme de 1931, com Boris Karloff, a prática se tornou tão difundida que hoje já é aceito nos círculos literários se referir também ao monstro pelo nome de Frankenstein.

Mais curiosamente ainda, "Frankenstein" era um nome até bastante comum dentre a nobreza da alemanha - significa "pedra dos francos" - o que faz com que várias cidades possuam um Castelo Frankenstein em suas imediações - aliás, existe uma cidade inteira chamada Frankenstein, no leste da Alemanha, próxima à fronteira com a República Tcheca. Existe uma teoria de que, no caminho para a Suíça, Percy e Mary teriam visitado o Castelo Frankenstein de Darmstadt, no qual um alquimista fazia experiências com corpos humanos, e que Mary tenha tirado o nome e a inspiração para a história dessa visita, mas ninguém nunca conseguiu provar que a visita realmente ocorreu.

Vale citar também que, tecnicamente, o monstro de Frankenstein é um golem. Originalmente, um golem era uma criatura do folclore judaico, feita de barro, com aparência humana e animada através de magia; hoje, entretanto, já existem na literatura golens feitos de outros materiais e animados de outras formas - o monstro de Frankenstein, portanto, é um golem feito de carne e animado por eletricidade.

Frankenstein seria adaptado para uma infinidade de peças de teatro, filmes, programas de TV, de rádio, romances, histórias em quadrinhos e games. A primeira adaptação para o cinema seria em preto e branco, muda e teria apenas 16 minutos, feita em 1910 pelos estúdios Edison, escrita e dirigida por J. Searle Dawley e com Charles Ogle no papel do monstro. Mas o filme mais famoso seria o lançado pela Universal em 21 de novembro de 1931: dirigido por James Whale, ele trazia Colin Clive como o cientista Henry Frankenstein; Mae Clarke como sua paixão, Elizabeth; e, em uma das atuações mais memoráveis do cinema, Boris Karloff como o monstro. Esse filme estabeleceria vários dos elementos que se tornariam parte do imaginário popular sobre Frankenstein - quase nenhum deles presente no livro - como a multidão enfurecida perseguindo o monstro com ancinhos e tochas, o fato de que o monstro não é inteligente porque o cérebro é inadequado, e o ajudante corcunda e manco do Dr. Frankenstein - que, por alguma razão bizarra, entraria para a história com o nome de Igor, embora seu nome no filme seja Fritz (interpretado por Dwight Frye). A aparência do monstro, com a testa quadrada e parafusos no pescoço, se tornaria sua "aparência oficial", usada em praticamente todos os filmes que o retratam desde então, e a cena de sua criação, com uma mesa de operação sendo elevada em meio a uma tempestade de raios, se tornaria uma das mais icônicas do cinema.

O sucesso desse filme geraria várias continuações, sendo a primeira delas considerada igualmente um clássico, e um dos melhores filmes de monstros da Universal. A Noiva de Frankenstein (Bride of Frankenstein) seria lançado em 22 de abril de 1935, e usaria partes do livro não aproveitadas no primeiro filme - no livro existem sequências nas quais o monstro realmente aprende a falar articuladamente e exige que o Dr. Frankenstein crie uma companheira para ele, embora no livro o cientista jamais finalize o projeto. O filme conta, ainda, com uma interessante introdução na qual Mary Shelley (Elsa Lanchester, que também interpreta a Noiva), Percy (Douglas Walton) e Lord Byron (Gavin Gordon) estão no chalé de Byron conversando sobre a história. Assim como ocorreu no filme anterior, a aparência da Noiva, de pele alva e cabelos pretos com uma faixa branca de cada lado, se tornaria a oficial para a personagem.

Os filmes seguintes não fariam tanto sucesso, e somente O Filho de Frankenstein (Son of Frankenstein), de 1939, último a trazer Karloff como o monstro, e centrado no filho de Henry Frankenstein, que deseja provar que o pai não era louco, pode ser considerado sério, com os demais (cinco ao todo, lançados entre 1942 e 1948) descambando para o estilo dos filmes B, o exagero e a comédia. O estúdio inglês Hammer também produziria uma bem sucedida série de sete filmes entre 1957 e 1974, com o primeiro, A Maldição de Frankenstein (Curse of Frankenstein) contando com Christopher Lee como o monstro. Além desses, quase uma centena de filmes baseados no livro seriam produzidos entre 1957 e 2011, sendo um dos mais famosos Frankenstein de Mary Shelley (Mary Shelley's Frankenstein), de 1994, dirigido por Kenneth Branagh e com Robert de Niro no papel do monstro - e que, apesar do título, tem muito pouco em comum com o livro. Isso sem contar as produções japonesas da Toho, como Frankenstein Conquista o Mundo (Frankenstein Conquers the World) e War of the Gargantuas, que trazem versões gigantescas dos monstro de Frankenstein enfrentando outros monstros gigantes ou lutando entre si.

Hoje, o monstro de Frankenstein e sua noiva estão dentre os personagens mais populares e reconhecíveis da cultura pop, ocupando um lugar cativo ao lado de monstros baseados em lendas ancestrais, como o vampiro, o lobisomem e a múmia amaldiçoada. E todo esse sucesso começou com uma menina de 19 anos.

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