domingo, 21 de julho de 2013

Tomb Raider (II)

Às vezes eu queria saber quem foi que inventou o reboot. Dizem que foi a Warner, com Batman Begins, mas ainda não consegui confirmar. Seja lá quem foi, o fato é que virou moda. Homem-Aranha 3 teve pouco público, Homem-Aranha 4 foi cancelado? Reboot. Os atores estão velhos (ou mortos) demais para fazer um novo filme de Jornada nas Estrelas? Reboot. Um filme qualquer foi considerado ruim, mas o estúdio aposta nele? Reboot. O reboot também não deu certo? "Reboota" de novo.

E aí, de reboot em reboot, não se consegue construir um clássico. Já pensaram que doido se, no meio da década de 1980, o George Lucas tivesse decidido "rebootar" Star Wars? Ou se, quando chegou a hora de levar Arquivo X para os cinemas, Chris Carter tivesse optado por um reboot? E isso sem nem mencionar o fato de que está se passando cada vez menos tempo entre a estreia de um filme e de seu reboot - O Cavaleiro das Trevas Ressurge, por exemplo, ainda estava nos cinemas quando a Warner anunciou sua intenção de "rebootar" o Batman.

Comecei a filosofar sobre isso essa semana, quando vi vendendo o novo Tomb Raider. A série Tomb Raider sempre esteve dentre meus favoritos, cheguei a comprar os seis primeiros jogos, exceto o primeiro, pouco depois do lançamento de cada um (e comprei também os CDs de bônus, o que faz com que eu tenha dois discos de Tomb Raider II - do original eu só tenho um porque nunca comprei o jogo "solto", comprei direto o Unfinished Business), mas, já há alguns anos, não me interesso tanto por ela. Em parte, por causa do reboot.

Tudo bem que a série já não tinha mais para onde ir, Angel of Darkness foi horroroso, mas, quando disseram que o sétimo jogo iria recomeçar tudo do zero, inclusive com uma nova "origem" para Lara Croft, não me interessei em comprar. E aí, quando depois de apenas dois jogos (na verdade quatro, mas dois nem contam) eles disseram que iriam recomeçar tudo de novo, bem, aí eu tive certeza de ter tomado a decisão certa.

Ou não. Vai ver que os Tomb Raider que eu nunca joguei são excelentes, que eu me divirtiria muito jogando e que esteja perdendo essa diversão por causa de um preconceito. Por isso, sempre que eu vejo o novo vendendo, fico na dúvida se compro ou não. Enquanto eu não decido, resolvi fazer uma segunda parte do post sobre Tomb Raider, para falar também sobre os jogos lançados depois que eu escrevi a primeira, aqueles pós-reboot.


O primeiro jogo pós-reboot seria Tomb Raider: Legend, lançado em 2006 para PC, Playstation 2, Xbox, Xbox 360, GameCube, PSP, Nintendo DS e Game Boy Advance - essas duas últimas versões com algumas diferenças impostas pelas limitações dos sistemas. Assim como todos os jogos pós-reboot, Legend não seria produzido pela Core, mas pela Crystal Dynamics, comprada pela Eidos, criadora da série Tomb Raider, em 1998 - assim, tudo ficaria "em casa". A jogabilidade característica da série foi mantida e houve um notável avanço nos gráficos desde Angel of Darkness, mas, como todo bom reboot, o jogo ignorava completamente os acontecimentos dos seis anteriores, recontando a história de Lara.

Aos nove anos de idade, Lara estava viajando com sua mãe quando seu avião caiu no Himalaia. Ambas sobreviveram, e acabaram encontrando um estranho templo no qual havia um fragmento de espada em um altar. Lara mexeu na espada, o que ativou uma espécie de portal que sugou sua mãe. Anos mais tarde, já adolescente, Lara estava explorando algumas ruínas no Peru em companhia de uma amiga, Amanda Evert, quando houve um desabamento. Lara conseguiu fugir, mas Amanda, aparentemente, morreu.

Nos dias atuais, Lara descobre que ambos os incidentes estão interligados, já que o desabamento foi causado por um fragmento de espada semelhante ao que abriu o portal que levou sua mãe. Esses fragmentos pertenceriam à Excalibur, e o inescrupuloso aventureiro James Rutland estaria tentando reuni-los em proveito próprio. Acreditando que os fragmentos podem ajudá-la a recuperar sua mãe, Lara parte para também reuni-los. Em sua viagem, ela passará por Bolívia, Peru, Japão, Cazaquistão, Inglaterra e Nepal, e descobrirá não somente que Amanda ainda está viva e também procura pelos fragmentos - se tornando sua principal antagonista na busca - mas também que o portal levou sua mãe para Avalon, a mítica terra onde descansa o Rei Arthur.

Curiosamente, enquanto a Crystal Dynamics produzia Legend, a Core, responsável pelos seis jogos anteriores, também trabalhava em um Tomb Raider: em 2005, a Core desenvolvia um novo engine (o software que faz o jogo funcionar e cuida de todas as suas características), chamado Free Running, e, para testá-lo, a equipe de desenvolvimento usaria um modelo de Lara. Durante o teste, surgiu a ideia de que se criasse um remake do primeiro Tomb Raider, para comemorar os dez anos de seu lançamento, usando o Free Running e acrescentando elementos que só surgiriam nos jogos seguintes, como a habilidade de "dobrar esquinas" ao escalar e a de usar barras para impulso como uma ginasta. A Core entrou em contato com a Eidos, que permitiu, e o desenvolvimento do jogo começou, sob o título de Tomb Raider: 10th Anniversary Edition. Até mesmo um trailer do novo jogo chegou a ser produzido para ser exibido em feiras e convenções.

Enquanto a Core trabalhava no jogo, porém, Legend seria lançado, e, satisfeita com o resultado e com as vendas, a Eidos decidiria passar a produção do remake também para a Crystal Dynamics. A Core, evidentemente, não ficou nada satisfeita com a notícia, principalmente pela forma como ela foi dada: uma semana após o trailer ser divulgado na internet, a Eidos convocaria uma coletiva de imprensa e anunciaria que a Crystal Dynamics estava trabalhando em um jogo chamado Tomb Raider: Anniversary, para ser lançado no ano seguinte. Pouco tempo depois, a Eidos entraria em contato com a Core e informaria que, até segunda ordem, eles não tinham mais autorização para produzir nenhum jogo de Tomb Raider.

Tomb Raider: Anniversary seria lançado em 2007, para PC, Mac, Playstation 2, Xbox 360, PSP e Wii. Exceto pelos gráficos - Anniversary usa uma versão aperfeiçoada do engine de Legend - por algumas novas cut scenes e por algumas mudanças na jogabilidade, o jogo é idêntico ao primeiro Tomb Raider, com Lara viajando ao Peru, Roma, Egito e Atlântida para impedir que Jacqueline Natla ponha as mãos em um antigo artefato. A versão Wii trazia algumas modificações a mais, para aproveitar as características do Wiimote - ele podia ser apontado para a tela para mirar, ou movido como se fosse uma pá quando Lara precisasse escavar, por exemplo.

Curiosamente, Anniversary também seria considerado pela Eidos um jogo pós-reboot, ou seja, tendo ocorrido no mesmo universo que Legends (e não no mesmo universo do Tomb Raider do qual ele é um remake). Situar Anniversary cronologicamente, entretanto, é meio problemático, já que Legends possui um final aberto e o jogo seguinte, Tomb Raider: Underworld, é sua continuação direta, começando exatamente de onde Legends terminou - a teoria mais aceita é que Anniversary ocorre entre o acidente que supostamente matou Amanda e o confronto entre Lara e Rutland na Bolívia.

Lançado em 2008 para PC, Mac, Playstation 2, Playstation 3, Xbox 360, Wii, N-Gage e Nintendo DS, Underworld acompanharia Lara em sua busca por Avalon, tentando resgatar sua mãe. Nessa busca, ela passará pelo Mar Mediterrâneo, pela Tailândia, pela Mansão Croft, pelo México, pela ilha de Jan Mayen e pelo Oceano Ártico, tudo buscando encontrar antigas relíquias relacionadas aos deuses nórdicos que lhe permitiriam reabrir o portal, e tendo de enfrentar Amanda Evert, Jacqueline Natla e uma duplicata maligna de si mesma ao longo do caminho. A versão Xbox 360 contava ainda com duas novas fases disponíveis através do donwloadable content, com uma delas, inclusive, permitindo que o jogador controlasse a duplicata maligna.

Underworld não usou o mesmo engine de Legends e Anniversary, mas um totalmente novo, ainda mais poderoso. Os programadores aproveitaram esse fato para dar uma repaginada no visual de Lara, que, pela primeira vez, foi desenvolvida usando a tecnologia de captura de movimentos, com a ginasta norte-americana Heidi Moneymaker realizando os movimentos que depois seriam transferidos para o modelo criado no computador. O novo engine também possibilitou que Lara afetasse o ambiente à sua volta - e vice-versa - de uma forma nunca vista na série - pegadas deixadas na lama somem quando chove, mas ficam lá enquanto isso, por exemplo - o que contribuía não só para maior realismo, mas também para a própria jogabilidade - é mais difícil escalar uma pedra molhada ou quebrada do que uma seca e inteira. Novidades na jogabilidade também incluíam a capacidade de atirar em dois alvos diferentes quando Lara estivesse com uma arma em cada mão, um novo sistema de luta corpo a corpo, que permitia que Lara atacasse seus oponentes com socos, chutes e arremessos, e os chamados "momentos de adrenalina", nos quais o jogo fica em câmera lenta para que o jogador possa definir melhor o que Lara deve fazer. Mais uma vez, a versão Wii contou com modificações que permitiam que o jogador usasse o Wiimote para efetuar tarefas, ao invés de simplesmente pressionar botões.

Em 2009, a Eidos seria comprada pela Square Enix, de Final Fantasy, que consideraria que a série estava "encerrada", e que Legend, Anniversary e Underworld formavam a trilogia oficial de Tomb Raider. A princípio, portanto, não seriam lançados novos jogos para a série. Lara, porém, não ficaria desempregada, se tornando protagonista de uma nova série que levaria seu nome, uma série de jogos chamados Lara Croft.

O primeiro jogo dessa nova série, Lara Croft and the Guardian of Light, seria lançado em 2010, para PC, Mac, Playstation 3 e Xbox 360. O engine era o mesmo de Underworld, e a equipe responsável a mesma que havia trabalhado nos três jogos anteriores, mas havia pelo menos uma diferença grande: o principal foco do jogo era no modo multiplayer, com dois jogadores precisando cooperar corretamente para que a missão fosse cumprida sem percalços. Para não desagradar quem gosta mais de jogar sozinho, um modo de um jogador também foi incluído, mas com alguns mapas e quebra-cabeças diferentes - ao contrário de outros jogos do tipo, aqui, no modo de um jogador, Lara age verdadeiramente sozinha, sem a ajuda de um segundo personagem controlado pelo computador, por isso as mudanças.

No jogo, Lara encontra um antigo artefato, o Espelho da Fumaça, na América Central, mas é atacada por mercenários que planejam roubá-lo, sem saber que o Espelho é a prisão de Xolotl, o Guardião das Trevas. Inadvertidamente, os mercenários libertam Xolotl, o que faz com que Totec, o Guardião da Luz, retorne à vida para impedi-lo. No modo para um jogador, Lara e Totec seguem caminhos diferentes tentando encontrar e aprisionar Xolotl, com o jogador controlando Lara; no modo multiplayer, eles unem suas forças para fazê-lo, com um jogador controlando Lara e o outro controlando Totec. Entre as interações possíveis entre os dois personagens, Totec pode segurar seu escudo sobre a cabeça para que Lara o use como plataforma para alcançar lugares altos, ou lançar sua lança contra uma parede para que Lara a use como degrau; em contrapartida, Lara possui uma arma daquelas que disparam uma corda com gancho, e, se criar uma corda-bamba com ela, Totec pode atravessá-la. É interessante registrar que esse jogo não possui o mesmo estilo dos Tomb Raider, nos quais a câmera acompanha Lara de trás, sendo mais parecido com God of War, com a câmera assumindo posições diferentes a cada parte do jogo. Diferentemente do que ocorre nos Tomb Raider, nos quais Lara roda o mundo (à exceção de The Last Revelation, todo ambientado no Egito), Lara Croft and The Guardian of Light é totalmente ambientado em um mesmo templo da América Central.

Em 2011, seria lançada a coletânea The Tomb Raider Trilogy, exclusivamente para Playstation 3, que trazia versões remasterizadas de Legend e Anniversary junto com Underworld, tudo em um único disco. Antes do lançamento, foram prometidos "bônus exclusivos", e todo mundo achou que seriam as fases de Underworld até então exclusivas do Xbox 360; na verdade, porém, os tais bônus eram avatares, temas e vídeos de making ofs dos três jogos.

Então, no ano seguinte, surpreendendo a todos, ao invés de anunciar mais um jogo da série Lara Croft, a Square Enix anunciaria mais um jogo da série Tomb Raider. Como a série estava encerrada, o novo seria - adivinhem - um reboot, recomeçando a história de Lara do zero mais uma vez. A Crystal Dynamics continuaria como desenvolvedora do jogo, e trabalharia em um novo engine, ainda mais poderoso que o de Underworld, para tornar o jogo ainda mais realístico.

No novo jogo, Lara é recém-formada em arqueologia, e suas teorias sobre o Império Perdido de Yamatai chamam a atenção da família Nishimura, que decide financiar uma expedição a uma ilha na costa japonesa para encontrar vestígios de tal civilização. Além de Lara, a expedição conta com diversos outros membros, dentre eles uma moça da família Nishimura, um célebre arqueólogo e um militar que atua como mentor de Lara. Quando se encaminha para a ilha, porém, o navio da expedição é atingido por uma tempestade e naufraga. Lara, sozinha, parte em busca dos outros membros, tendo de lidar com animais selvagens e com a Irmandade Solarii, um grupo de criminosos, mercenários e náufragos que idolatra Himiko, Imperatriz Yamatai que teria poderes xamânicos.

Diferentemente dos Tomb Raider anteriores, o foco do novo jogo é mais na sobrevivência que na resolução de quebra-cabeças: Lara deve percorrer a ilha evitando ou se confrontando com a Irmandade, para descobrir o que teria acontecido com os demais membros da expedição; inexperiente e amedrontada, ela terá de se adaptar rápido se quiser escapar. Várias sidequests - missões que não fazem parte da história principal - levam Lara a explorar templos e tumbas e a revisitar locais por onde já passou, em busca de valiosos itens. Assim como Lara Croft and The Guardian of Light, o jogo conta com um modo multiplayer, no qual os jogadores podem escolher jogar como membros da Irmandade ou como sobreviventes da expedição, com um dos grupos tendo de realizar um objetivo antes do outro para vencer.

Lançado em março desse ano para PC, Playstation 3 e Xbox 360, o novo Tomb Raider mais uma vez usa a tecnologia da captura de movimentos para dar vida a Lara, que cada vez mais se parece com uma pessoa de verdadede - a Crystal Dynamics chegou a contratar a modelo Megan Farquhar para "ser" Lara Croft, usando sua aparência, altura e constituição física na hora de criar o modelo virtual da personagem. Como já se tornou tendência, o jogo conta com novas roupas para Lara e novos mapas para o modo multiplayer, que devem ser adquiridos por downloadable content.

O novo Tomb Raider foi recebido com grande estardalhaço, aclamado pela crítica e considerado um reboot bem-vindo e necessário. As principais reclamações ficaram por conta do modo multiplayer, visto como confuso e cheio de falhas.

Com certeza, após esse sucesso, virão novos Tomb Raider por aí. A Lara audaz e intrépida dos primeiros jogos deu lugar a uma nova, mais humana e falível. Se isso contribuirá positivamente para os novos títulos, só o tempo poderá dizer.

0 enfiaram o nariz:

Postar um comentário