segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Rambo

Nunca tive vergonha de dizer que meu ator preferido é Arnold Schwarzenegger. Tem gente que me olha torto, talvez achando que Schwarzenegger não é ator, mas isso é problema deles, não meu. O que me interessa é que quase todos os filmes estrelando Schwarzenegger entrariam fácil para uma lista de, digamos, meu 100 filmes preferidos de todos os tempos. E se isso não for o suficiente para fazer de um ator o meu preferido, não sei o que é.

Além de me olhar torto, algumas pessoas chegam a uma conclusão estranha quando eu declaro que meu ator preferido é o Schwarzenegger: a de que eu não gosto de Sylvester Stallone, como se Schwarzenegger e Stallone fossem excludentes entre si. Bom, até é verdade que eu não gosto de muitos dos filmes do Stallone, mas, assim como a DC tem o Super-Homem e o Batman, Stallone tem em seu currículo duas das séries de filmes mais emblemáticas de todos os tempos, às quais eu não tenho como ficar indiferente: Rocky e Rambo. De Rocky eu já falei, de Rambo falarei hoje.

E, em tempo, antes que alguém chegue a uma conclusão precipitada, Rocky e Rambo não são os únicos filmes do Stallone dos quais eu gosto. Também gosto, por exemplo, de Tango e Cash, O Demolidor e Falcão: O Campeão dos Campeões. Ok, podem olhar torto agora.

Como eu disse no post sobre Mad Max, o primeiro filme do Rambo sofre de uma espécie de crise de identidade - e não só porque seu título original é First Blood, sem "Rambo" em lugar nenhum. O que ocorre é que o Rambo amarrando as botas e a faixa na cabeça, se armando até os dentes e partindo para travar uma guerra de um homem só em um país longínquo é uma imagem construída a partir do segundo filme, quando a série se tornou uma de filmes de ação. O primeiro filme - que, aqui no Brasil, virou Rambo: Programado para Matar é um thriller psicológico que faz uma crítica ao tratamento dado nos Estados Unidos aos veteranos da Guerra do Vietnã, que, ao voltar para casa, pouco sabendo fazer além de lutar, eram considerados vagabundos e vistos como problema até pelas autoridades.

Assim como pouca gente sabe disso, pouca gente sabe que o filme é baseado em um livro, também chamado First Blood - expressão usada em guerras e combates para designar quem atacou primeiro, quem "começou" o conflito - escrito por David Morell em 1972. Morell disse ter começado a escrevê-lo em 1968, inspirado por outro livro, Rogue Male, escrito por Geoffrey Household em 1939, e que mostra um esportista inglês que escapa da cadeia após ser preso e torturado por tentar matar um ditador e decide dar o troco aos oficiais da lei que o perseguem. Morell teria decidido adaptar a história para envolver o conflito do Vietnã, à época em seu auge.

O livro, portanto, começa com o protagonista, John Rambo - nome que Morell teria tirado de uma marca de maçãs que sua esposa costumava comprar - pedindo carona em uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos, pouco tempo depois de voltar para casa após retornar da Guerra. Abordado pelas autoridades locais, ele acaba preso como vagabundo e andarilho. A aparência da cela na delegacia local faz com que Rambo se lembre da época em que foi torturado no Vietnã, e ele acaba surtando quando os guardas vêm cortar seu cabelo e barbeá-lo, lutando contra eles, fugindo, roubando uma motocicleta e se escondendo nas montanhas. A polícia, então, arma uma verdadeira operação de caça ao fugitivo, com a qual espera capturar Rambo e devolvê-lo à prisão. Graças ao treinamento que recebeu para lutar no Vietnã, entratanto, Rambo consegue não somente escapar como também matar ou ferir os que o perseguem, o que faz com que a caçada escale a uma proporção inimaginável, envolvendo também o exército e a Guarda Nacional.

Apesar de ter sido criticado por ser muito violento, o livro de Morell foi um grande sucesso, e, praticamente desde sua publicação, houve interesse de adaptá-lo para o cinema, com diversos roteiros sendo escritos. Em várias fases de negociação, chegaram a ser considerados para o papel de Rambo nomes como Steve McQueen, Clint Eastwood, Al Pacino, Robert De Niro, Paul Newman, Nick Nolte, John Travolta, Dustin Hoffman, James Garner, Kris Kristofferson, Michael Douglas, e até mesmo Terence Hill. Foi somente após Stallone, que havia alcançado o sucesso recentemente com Rocky, decidir se envolver no projeto é que o filme finalmente saiu do papel.

Além de protagonizar o filme, Stallone sugeriu várias mudanças no roteiro, para que o público se tornasse mais simpático em relação a Rambo, e a crítica ao tratamento dispensado aos veteranos do Vietnã fosse mais contundente - no livro, por exemplo, Rambo mata a maioria dos policiais e soldados que o estão perseguindo, enquanto no filme ele apenas os fere. Além disso, no final original do livro, Rambo se suicida; embora esse final tenha sido originalmente gravado, acabou sendo descartado e alterado para um final no qual Rambo se entrega, considerado menos depressivo.

Curiosamente, a alteração do final fez com que Kirk Douglas desistisse de interpretar o Coronel Trautman, comandante de Rambo no Vietnã, responsável por seu treinamento, e que vai até o local da perseguição convencê-lo a se entregar. Lee Marvin e Rock Hudson foram considerados para o papel, mas o primeiro declinou e o segundo teve de se submeter a uma cirurgia de emergência no coração, então o Cel. Trautman acabou ficando com Richard Crenna, se tornando o personagem mais famoso de sua carreira. Também houve certo problema para escalar o ator que interpretaria o xerife Teasle, principal antagonista de Rambo, oferecido a Gene Hackman e Robert Duvall, mas que ficaria com Brian Dennehy.

Dirigido por Ted Kotcheff, Rambo estrearia em outubro de 1982, com orçamento de 14 milhões de dólares. Rendeu 47 milhões, o que foi considerado de bom tamanho para um filme que estreou no mesmo ano que E.T. - O Extraterrestre, Tootsie, Jornada nas Estrelas 2: A Ira de Khan, 48 Horas, Poltergeist, Ghandi, Tron, Blade Runner e Conan: O Bárbaro. Mais importante que a renda, entretanto, foi a recepção extremamente bem favorável da crítica, que o considerou um dos melhores filmes de 1982 - um título e tanto, como a lista citada comprova - e elogiaram consideravelmente a interpretação de Stallone, que entraria de vez para a galeria dos favoritos de Hollywood.

Rambo se tornaria um dos maiores clássicos do cinema norte-americano, mas sua própria natureza não o tornava candidato a uma continuação. Pelo menos até James Cameron ter uma de suas ideias brilhantes e transformar Rambo em um herói de ação, levando-o de volta ao Vietnã para explodir coisas e salvar prisioneiros - não necessariamente nessa ordem.

Cameron levou sua ideia a Stallone, que a adorou, e, juntos, ambos escreveram o roteiro do novo filme. Assim surgiu Rambo: First Blood Part II - que, no Brasil, virou Rambo 2: A Missão; curiosamente, o título originalmente criado por Cameron e depois descartado foi First Blood II: The Mission - oficialmente dirigido por George P. Cosmatos, embora ele mesmo tenha revelado que, na verdade, quem dirigiu foi o próprio Stallone. Ou seja, assim como já ocorria na série Rocky, Stallone era roteirista, diretor e protagonista de Rambo 2.

Filmado no México (pois é, nada de Vietnã) entre junho e agosto de 1984 e lançado em maio de 1985, Rambo 2 começa com Rambo em uma prisão federal, recebendo a visita do Cel. Trautman, que lhe faz uma proposta: participar de uma nova missão no Vietnã, dessa vez para identificar campos de prisioneiros ilegais onde soldados americanos ainda possam estar sendo mantidos, em troca de perdão total para os crimes que cometeu no primeiro filme. Rambo aceita, e é levado por Trautman para conhecer Marshal Murdock (Charles Napier), o responsável pela operação. Murdock ordena a Rambo que apenas identifique os campos, proibindo-o de libertar quaisquer prisioneiros que encontre. Ao ver seus compatriotas sofrendo as mesmas provações que ele mesmo sofreu, porém, Rambo evidentemente não consegue ficar indiferente, e, como era de se esperar, desobedecerá essas ordens.

Durante a missão, Rambo terá a ajuda de uma agente infiltrada, Co Bao (Julia Nickson), pela qual desenvolverá um interesse amoroso. Curiosamente, os produtores do filme, Mario Kassar e Andrew G. Vajna, queriam que Rambo tivesse um parceiro masculino, e chegaram a convidar John Travolta para o papel, mas Stallone vetou a ideia. Lee Marvin foi mais uma vez convidado, dessa vez para o papel de Murdock, mas mais uma vez recusou. Também vale citar que Martin Kove, o John Kreese de Karate Kid, participa do filme como um soldado violento de nome Ericson.

Apoiado na popularidade de Stallone, Rambo 2 foi o primeiro filme da história a estrear simultaneamente em mais de 2.000 salas de cinema nos Estados Unidos. Com orçamento de 44 milhões e rendendo mais de 150 milhões, foi o segundo filme mais rentável de 1985, perdendo apenas para De Volta para o Futuro. Apesar disso, a crítica caiu matando em cima, com resenhas altamente desfavoráveis, que não impediram que o filme atingisse status de cult entre os fãs de filmes de ação e de guerra. Rambo 2 também se tornaria um dos filmes mais referenciados e parodiados de todos os tempos, principalmente a clássica cena em que Rambo se apronta para a batalha.

Depois do segundo filme, Rambo faria sua estreia na TV - em um desenho animado. Para tentar pegar carona no sucesso do desenho dos Comandos em Ação, a Ruby-Spears, concorrente da Sunbow, inventou um desenho no qual Rambo, seguindo ordens do Cel. Trautman, lidera uma equipe internacional de soldados altamente treinados, a Força da Liberdade, cujo principal objetivo é deter os planos de uma organização terrorista, a S.A.V.A.G.E.. Originalmente chamado Rambo and the Forces of Freedom (Rambo: A Força da Liberdade no Brasil), o desenho estreou nos Estados Unidos em 14 de abril de 1986 como uma minissérie de 5 episódios, e depois voltou entre 15 de setembro e 26 de dezembro do mesmo ano como uma série regular de 60 episódios. Apesar de gerar uma linha de brinquedos que incluía Rambo, seus aliados e inimigos, e vários veículos militares, o sucesso não foi suficiente para que uma segunda temporada fosse produzida.

Rambo and the Forces of Freedom foi o primeiro desenho animado da história a ser baseado em um filme classificado como R (ao qual menores de 17 anos só podem assistir na companhia dos pais ou responsáveis), o que gerou muitas críticas na época, assim como uma recomendação por parte de psicólogos consultados pela Ruby-Spears de que nenhuma referência aos dois filmes fosse feita no desenho. Como os filmes seguintes da série também não fazem referência ao desenho, muitos consideram que este é ambientado em uma espécie de "realidade alternativa", na qual Rambo jamais sofreu os horrores do Vietnã. Seja como for, a forma como o desenho foi produzido - sem nenhuma restrição para crianças de todas as idades - provou que fazer um desenho baseado em um filme R-Rated não era uma ideia tão absurda assim, o que abriu caminho para os desenhos do Robocop, da Loucademia de Polícia e do Vingador Tóxico.

Após concluir o segundo filme, Stallone já começaria a trabalhar em um roteiro para uma sequência, na qual Rambo usaria suas habilidades em um local diferente: depois das montanhas dos Estados Unidos e das selvas do Vietnã, sua missão o levaria aos desertos da Ásia Central. Auxiliado por Sheldon Lettich, ele escreveu um roteiro no qual Rambo, vivendo na Tailândia após os eventos do filme anterior, é procurado pelo Cel. Trautman mais uma vez, agora para auxiliá-lo em uma missão no Afeganistão, cujo intuito é fornecer armas para que rebeldes Mujahideen possam combater os soviéticos. Rambo recusa, mas, quando descobre que o Cel. Trautman foi capturado durante a missão, decide ir salvá-lo. Para isso, ele contará com a ajuda do traficante de armas Mousa (Sasson Gabai) e do menino Hamid (Doudi Shoua), e terá de enfrentar o cruel Cel. Zaysen (Marc de Jonge), comandante das tropas soviéticas. O filme conta ainda com a participação de Omar Shariff como um Mujahideen.

Filmado na Tailândia e em Israel (pois é, nada de Afeganistão), dirigido por Peter MacDonald e lançado em maio de 1988 com o simples título de Rambo 3, o filme custou 62 milhões de dólares e rendeu apenas 53 nos Estados Unidos, precisando de sua renda internacional para não ser considerado um fracasso. Desde seu lançamento, Rambo 3 foi alvo de muitas críticas, principalmente porque mostra os soviéticos como vilões sanguinários em uma época na qual Mikhail Gorbachev já se esforçava para mudar a imagem de seu país perante o mundo. Para piorar a situação, dez dias antes da estreia do filme a guerra entre a União Soviética e o Afeganistão acabou, e Gorbachev ordenou a retirada das tropas, o que fez com que o filme fosse alvo de uma piada segundo a qual Rambo estaria impedindo os soviéticos de sair do país. Como se isso já não fosse o bastante, depois dos eventos do 11 de setembro de 2001, Rambo 3 acabou ganhando estigma de filme político, já que mostra os Estados Unidos ajudando e fornecendo armas para os Mujahideen, um dos principais fatos apontados como responsáveis pela instabilidade política na região que culminaria com a ascensão ao poder dos Talibãs. Para coroar a maré de azar do filme, o Guinness Book of Records decidiu nomeá-lo "filme mais violento da história", com 221 atos de violência, sendo 108 mortes.

Isso tudo levou Stallone e os produtores a acreditar que o melhor para Rambo seria encerrar sua carreira, e que o mundo da década de 1990 não era lugar para um herói como ele. E assim se passariam 20 anos, até o próprio Stallone inaugurar uma onde de ressurreições de filmes da década de 1980 com seu Rocky Balboa. Imediatamente após o sucesso de Rocky, Rambo entraria em pauta como um dos mais prováveis filmes da época a ganhar uma nova continuação.

Lançado em 2008, exatos 20 anos após o terceiro, dirigido por Stallone e com roteiro de Stallone e Art Monterastelli, o quarto filme da série mostra Rambo vivendo mais uma vez na Tailândia, até ser procurado por um grupo de missonários, liderados por Michael Burnett (Paul Schulze) e sua noiva Sarah Miller (Julie Benz), que desejam contratá-lo para que ele os leve de barco até a Birmânia, onde trabalharão em um projeto social. Sabendo que isso representa encrenca, Rambo se recusa, mas Sarah consegue convencê-lo. Evidentemente, os missionários acabam capturados pelo exército birmanês, e Rambo é contratado mais uma vez, agora para levar um grupo de mercenários para salvá-los. Afeiçoado por Sarah, Rambo decide se unir aos mercenários em sua missão de resgate.

Originalmente, o título desse quarto filme é apenas Rambo, mas, como aqui no Brasil isso possibilitaria que o confundissem com o primeiro filme, ele acabou se chamando Rambo 4. Durante a produção, os produtores queriam que o filme se chamasse John Rambo, em alusão a Rocky Balboa, mas Stallone foi contra; ainda assim, o filme acabaria lançado como John Rambo em diversos países da Europa e Ásia.

Surpreendentemente, embora tenha sido filmado quase que completamente na Tailândia, o filme realmente teve algumas de suas cenas filmadas na Birmânia - ainda que meio sem querer, já que em alguns pontos as fronteiras entre os dois países são meio confusas. Durante as filmagens, Stallone e a equipe se espantaram com a real situação dos birmaneses, e foram expulsos do país a bala pelo exército, que não queria nenhum americano se metendo lá. Evidentemente, o filme é banido na Birmânia, sendo sua venda expressamente proibida, embora cópias piratas façam sucesso entre os rebeldes que combatem o governo, que até declaram que o filme lhes deu um novo ânimo para lutar. Exilados birmaneses em outros países também elogiaram o filme por mostrar uma guerra que a maioria das pessoas parece nem saber que existe.

Rambo 4 foi bem recebido pela crítica, apesar de algumas terem sido bem desfavoráveis, e foi elogiado por Morell, que declarou que o espírito original de seu personagem foi mantido. Essa boa recepção fez com que um Rambo 5 permanecesse cogitado por bastante tempo, embora agora pareça que Rambo esteja finalmente curtindo sua aposentadoria. Pelo menos até alguém procurá-lo para uma nova missão.

2 enfiaram o nariz:

BOND disse...

kra, só uma observação : no final do livro original, Rambo não se mata, o próprio cel. Trautman arrebenta sua cabeça com um rifle, pois era a única maneira de pará-lo.

10:11 PM
Guil disse...

Eu nunca li o livro, mas já vi o final original gravado para o filme e descartado, e nele o Rambo se mata com a arma do Cel. Trautman. Imaginei que no livro fosse assim também.

Valeu pela informação!

10:16 PM

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