segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Dagon

Hoje teremos um novo post sobre os contos de H.P. Lovecraft, meu autor preferido. Se você chegou agora, fique sabendo que minha técnica para falar dos contos é falar dos seis livros lançados aqui no Brasil pela Editora Iluminuras, que contêm a maioria deles. Hoje eu vou falar sobre o terceiro livro, Dagon, que reúne oito contos. Como de costume, a ordem dos contos é a ordem na qual eles aparecem no livro. Vamos a eles!

O Medo à Espreita (The Lurking Fear) - Como foi comentado no post anterior dessa série, o primeiro conto que Lovecraft escreveu como profissional foi Herbert West - Reanimador. A convite de seu amigo George Julius Houtein, que estava lançando uma nova revista no mercado, a Home Brew, Lovecraft escreveria uma história em seis partes, recebendo cinco dólares por cada parte. Lovecraft não gostaria de escrever tal história - principalmente pela obrigação de terminar cada parte com um "gancho" e começar a seguinte com uma recapitulação - mas Houtein a adoraria, e a consideraria a principal responsável pela boa vendagem dos seis números da revista nos quais ela seria publicada.

Assim, nada mais natural do que Houtein pedir a Lovecraft uma nova história nos mesmos moldes. Sentindo que agora estava em posição melhor que da primeira vez, Lovecraft fez, entretanto, duas exigências: que a história fosse no número de partes que bem entendesse, com cada parte tendo o tamanho que bem quisesse; e que não precisasse terminar cada parte com um gancho e começar a seguinte com uma recapitulação. Houtein aceitou, com a condição de que Lovecraft aceitasse que ele mesmo escrevesse as recapitulações, para o comprador casual não ficar de todo perdido. Assim nasceu O Medo à Espreita, história em quatro partes, publicadas nas edições de janeiro a abril de 1923 da Home Brew. Lovecraft, mais uma vez, receberia cinco dólares por cada parte da história.

Escrita no final de 1922, logo após Lovecraft e Houtein firmarem os termos de seu acordo, O Medo à Espreita tem bem mais seu estilo do que Herbert West. A história é o relato de um narrador sem nome, que se auto-entitula um "especialista em horrores", cujo "amor pelo grotesco e o terrível" o levou a várias buscas na vida e na literatura. A mais recente dessas buscas envolve uma viagem à misterios Tempest Mountain, montanha aparentemente eternamente assolada por tempestades, no alto da qual repousa a Mansão Martense, certa vez lar de uma importante porém reclusa família holandesa, mas agora abandonada há várias gerações, desde que seus últimos moradores desapareceram sem deixar vestígios. O motivo da visita do narrador é investigar a causa de várias mortes bizarras e inexplicáveis, que ele atribui a alguma espécie de demônio que teria sido conjurado pelos Martense antes de seu desaparecimento.

Mas, como é comum em se tratando de Lovecraft, um demônio seria uma explicação muito simples - e a verdade é muito mais terrível. É interessante registrar que a descoberta dessa verdade levará o narrador a um medo irracional de locais subterrâneos, como o metrô, já que ele estava em um túnel quando se encontrou pela primeira vez com a criatura. Lovecraft aparentemente gostaria bastante desse resultado, já que essa fobia de algo corriqueiro causada pelo encontro com o inexplicável assolaria diversos de seus personagens ao longo de sua carreira.

Também é interessante notar que Martense, um nome realmente de origem holandesa, é bastante comum em Nova Iorque. Há uma Rua Martense próxima ao apartamento de Sonia Haft Greene, que Lovecraft citaria em O Horror em Red Hook como próxima à casa de Robert Suydam; e a casa mais velha ainda de pé na cidade se chama Jan Martense, mesmo nome com o qual Lovecraft batizou o último dos Martense a não levar uma vida de reclusão em sua mansão.

Dagon (Dagon) - O conto que dá nome a este livro foi um dos dois primeiros escritos por Lovecraft em sua vida adulta. Após um longo tempo sem escrever, Lovecraft foi convidado a se filiar à UAPA, uma associação norte-americana de escritores amadores. Lá, diversos outros escritores leram as histórias que ele havia escrito na adolescência, e gostaram tanto delas que decidiram publicá-las nos periódicos impressos pela associação. Um desses escritores, W. Paul Cook, era editor de seu próprio periódico, The Vagrant, e foi um dos principais incentivadores para que Lovecraft voltasse a escrever. Entusiasmado com o ânimo de Cook, no verão de 1917 Lovecraft escreveria duas histórias quase que simultaneamente, Dagon e A Tumba. Dagon seria a primeira das duas a ser publicada, na edição de novembro de 1919 de The Vagrant.

O narrador de Dagon, como de costume sem nome, é um marinheiro cujo navio fora capturado pelos alemães no Oceano Pacífico (lembrem-se que era época da Primeira Guerra Mundial). Conseguindo escapar em um bote salva-vidas, ele ficou à deriva, navegando para o Sul, até um dia acordar inexplicavelmente naufragado em uma ilha desconhecida, cujo ar e solo tinham aspecto putrescente. Após alguns dias, ele se põe a explorar a ilha, na qual não consegue dormir sem ter um sono agitado e de sonhos fantásticos.

Em dado momento, o narrador se depara com uma espécie de cratera, à borda da qual há um obelisco com hieróglifos que lembram enormes homens-peixe. Enquanto observa o obelisco, ele vê uma enorme e horrenda criatura saindo da água, e foge em frenesi. Sem se recordar de mais nada, acorda em um hospital em São Francisco. Sem saber se o que vivera fora delírio ou realidade, ele se torna viciado em morfina, pois só a droga consegue afastar, momentaneamente, a lembrança da criatura.

Lovecraft alegou ter escrito Dagon motivado por um sonho que tivera, o qual achou muito real. O mais provável, porém, é que ele tenha sido influenciado por duas outras obras, No Coração da Terra, de Edgar Rice Burroughs, que cita uma antiga raça que um dia se erguerá para destruir a humanidade, e Fishhead, de Irvin S. Cobb, citada por Lovecraft em seu livro O Horror Sobrenatural em Literatura, que descreve uma estranha criatura parte homem, parte peixe.

Muitos estudiosos da obra de Lovecraft argumentam que O Chamado de Cthulhu, mais famosa das histórias do escritor, seria uma releitura de Dagon, já que ambas apresentam uma história fantástica contada por um marinheiro ao ser resgatado do mar, uma cidade submersa que volta à superfície trazendo consigo horrores ocultos, uma horrenda e gigantesca criatura submersa, e um narrador que teme a morte em decorrência do conhecimento proibido que adquiriu. Também se costuma argumentar que Dagon e Cthulhu seriam a mesma criatura - inclusive com a justificativa de que Lovecraft jamais daria a um de seus monstros um nome tão "fácil" quanto Dagon, sendo mais provável que este tenha sido um nome dado a Cthulhu por algum humano que ficou sabendo dele sem saber seu nome. Como curiosidade, vale citar que um dos recortes de jornal guardados pelo Professor Angell em O Chamado de Cthulhu traz uma notícia claramente relacionada aos eventos de Dagon.

Também vale citar como curiosidade que Dagon faz menção ao Homem de Piltdown, fóssil consistente de fragmentos de um crânio e uma mandíbula encontrados na cidade de mesmo nome, na Inglaterra, em 1912. Na época, acreditava-se que os fósseis pertencessem a um ancestral do homem moderno. Lovecraft, sempre antenado com as últimas descobertas científicas, decidiu citar o Homem de Piltdown em seu conto. Em 1953, porém, descobriu-se que o suposto ancestral não passava de uma fraude, criada por seus "descobridores", que enterraram eles mesmos um crânio humano e uma mandíbula de orangotango, para obter fama. Mas aí já não dava mais para Lovecraft, morto há 16 anos, consertar sua história.

Arthur Jermyn (Facts Concerning the Late Arthur Jermyn and His Family) - Escrito em 1920, esse conto foi publicado pela primeira vez na edição de março de 1921 do jornal The Wolverine, dedicado a contos de escritores amadores. Esta foi a primeira história de Lovecraft a ser republicada, já que apareceria novamente na edição de junho do mesmo ano do mesmo jornal. Contra a vontade e para desgosto de Lovecraft, quando a Weird Tales a aceitou para publicação, em 1924, seu editor, Farnsworth Wright, decidiu mudar seu nome, que considerava inapropriado para um conto de terror, para The White Ape ("o macaco branco"). Em todas as outras republicações, a história seria chamada simplesmente de Arthur Jermyn, até 1986, quando, com seu título original ("fatos a respeito do falecido Arthur Jermyn e sua família"), seria publicada na coletânea Dagon and Other Macabre Tales, da editora Arkham House. Desde então, ela tem sido republicada com o título original, embora aqui no Brasil aparentemente tenham preferido usar o mais curto.

Narrado em terceira pessoa, o conto começa justamente com o suicídio de Arthur Jermyn, e então retorna no tempo para falar de seus ancestrais, em especial Sir Wade Jermyn, explorador que alegava ter encontrado no interior do Congo uma antiga cidade de habitantes de etnia branca, e que foi ridicularizado por seu colegas, que jamais aceitaram tal teoria. Coincidência ou não, todos os Jermyn a partir de então passaram a exibir características físícas levemente repulsivas e demonstrar desequilíbrio mental, até Arthur, que, apesar de também ter os traços da família, era sereno e educado, se tornando um estudioso e acadêmico. Curioso quanto à sua árvore genealógica, ele decide estudar as descobertas de seu antepassado na África, inclusive viajando ao Congo para procurar a tal cidade perdida. Como é tradicional em Lovecraft, seria melhor se ele tivesse deixado quieto.

Arthur Jermyn teria como inspiração, segundo estudiosos, as obras de Edgar Rice Burroughs, em especial O Retorno de Tarzan e Tarzan e as Joias de Opar. Oficialmente, entretanto, Lovecraft assumiria como única inspiração o livro Winesburg, Ohio, de Sherwood Anderson, o qual teria sido convencido - segundo ele, praticamente obrigado - a ler por amigos que consideravam que também fosse importante que ele lesse obras contemporâneas que não fossem de terror ou fantasia. Lovecraft disse em uma de suas cartas que quase dormiu de tão entediante que era a leitura, mas que pelo menos teve a ideia de uma obra mais ao seu estilo enquanto, estimulado pela leitura, pensava nos segredos que a ancestralidade de um homem poderia conter.

O Templo (The Temple) - Escrito em 1920, O Templo foi o primeiro conto de Lovecraft a ser publicado na Weird Tales, na edição de fevereiro de 1925, e sua primeira história a aparecer em uma publicação destinada a escritores profissionais. Devido ao temperamento do escritor, porém, quase que essa estreia não acontece: em meados de 1924, Lovecraft enviaria uma pasta com cinco de suas histórias para outra revista, a Black Mask, que as rejeitaria todas. Como não lidava bem com rejeição, ele provavelmente teria passado mais algum tempo apenas publicando em periódicos destinados a amadores, mas acabou convencido por alguns amigos a enviar histórias também para a Weird Tales, que havia feito sua estreia no ano anterior, e provavelmente seria mais receptiva a autores novos do que a Black Mask. Aparentemente, Lovecraft não ficou muito satisfeito de ter sido convencido, já que enviou as exatas mesmas cinco histórias, e ainda escreveu na carta à revista que elas já haviam sido rejeitadas pela Black Mask. Para sua surpresa, as histórias foram aprovadas para publicação na Weird Tales, mas com uma condição: a de que elas fossem datilografadas novamente, desta vez em espaço duplo, exigência da editora que publicava a revista. Lovecraft achou que seria um saco ter de datilografar tudo de novo, jogou a pasta em um canto e foi fazer outra coisa da vida. Somente no início de 1925, sabe-se lá por qual razão, ele encontrou ânimo para redatilografar e reenviar O Templo, que então foi publicada na edição do mês seguinte, rendendo um bom dinheiro e vários elogios dos leitores. A partir de então, Lovecraft passaria a enviar histórias - sempre em espaço duplo - para a Weird Tales regularmente, e a revista se tornaria o principal veículo para a publicação de sua obra.

O protagonista de O Templo é Karl Heinrich, tenente-comandante do submarino U-29 da Marinha Imperial Alemã durante a Primeira Guerra Mundial, que narra seus acontecimentos em um bilhete, encontrado boiando dentro de uma garrafa próximo à costa de Iucatã, México. Segundo o relato de Heinrich, após atacar e afundar o navio HMS Victory, da Marinha Real Britânica, a tripulação do U-29 encontrou, agarrado ao casco do submarino, um dos marinheiros ingleses, que em um dos bolsos trazia uma estranha escultura de marfim, aparentemente de origem grega. Após a tripulação se livrar do corpo, o tenente Kienze, acreditando que a peça possuía algum valor, decidiu guardá-la para si. A partir de então, diversos acontecimentos fantásticos e inexplicáveis passariam a assolar o U-29, em especial uma explosão na casa de máquinas que impossibilitaria o controle da direção e velocidade do submarino, e faria com que ele ficasse navegando à deriva. Eventualmente, o U-29 chega a uma fenda no oceano, no fundo da qual está uma cidade que Heinrich acredita ser Atlântida. Como o submarino está afundando cada vez mais, acaba por parar no meio da praça da cidade, de frente com um antigo templo, que chama em especial a atenção do marinheiro alemão.

Embora tenha um interessante clima de ficção científica, pouco comum nas obras de Lovecraft, O Templo possui um grave defeito: durante o desenrolar da história, Heinrich narra diversos acontecimentos bizarros, como um grupo de golfinhos que acompanha o U-29 durante horas, não se importando com a profundidade e sem subir para respirar. Evidentemente, o leitor fica imaginando que, ao final da história, todas essas bizarrices serão explicadas, que todas se encaixarão após a descoberta do templo. Só que a história acaba, e, se há alguma conexão entre os eventos bizarros e a escultura de marfim, ninguém fica sabendo. Mesmo assim, O Templo não é considerado uma história ruim - apenas uma que acabou cedo demais.

O Pântano Lunar (The Moon-Bog) - Este conto foi escrito em 10 de março de 1921, na cidade de Boston, durante um congresso de jornalistas amadores do qual Lovecraft participou, no qual cada participante foi convidado a escrever um conto tendo a Irlanda como tema. Publicado na edição de junho de 1926 da Weird Tales, é considerado um dos contos de horror mais "convencionais" de Lovecraft, já que se utiliza de criaturas sobrenaturais corriqueiras, ao invés dos horrores ancestrais tradicionais do escritor. Ainda assim, há espaço para o horror oculto e para o trauma que muda para sempre a vida do narrador, mais uma vez sem nome.

Narrador este que viaja à Irlanda, mais precisamente até a fictícia cidade de Kilderry, para visitar seu amigo Denys Barry, que conseguiu realizar seu sonho de juventude: comprar um antigo castelo que pertenceu à sua família ao longo de gerações. Ao lado deste castelo fica um pântano, cujas ruínas aparentes denunciam que ali havia construções ao estilo grego. Curioso por revelar mais ruínas, e chateado com o fato de uma área tão extensa de terra estar ocupada por um pântano, Barry decide dragá-lo, para melhor aproveitar o terreno. A população local, porém, é cheia de superstições envolvendo o local, e tenta convencê-lo de todas as formas a deixá-lo como está. Como Barry não obedece, o narrador assistirá de camarote ao que acontece quando se decide bulir com espíritos ancestrais.

Estudiosos da obra de Lovecraft apontam diversas semelhanças entre O Pântano Lunar e The Curse of the Wise Woman, escrita por Lord Dunsany e também ambientada na Irlanda; como Dunsany era um dos autores preferidos de Lovecraft e uma de suas principais influências, acredita-se que o conto teria sido escrito como uma espécie de homenagem. Também vale registrar que um dos sonhos de juventude de Lovecraft era justamente recomprar um castelo, na Inglaterra, no qual sua família havia vivido por gerações antes de migrar para os Estados Unidos. Principalmente por falta de dinheiro, Lovecraft jamais realizou seu sonho, mas ainda escreveria outra história na qual o protagonista o consegue, Os Ratos nas Paredes.

O Inominável (The Unnamable) - Escrito em setembro de 1923 e publicado na Weird Tales de julho de 1925, esse conto é uma conversa entre dois amigos, um narrador, identificado apenas como Carter, e seu interlocutor, Joel Manton. Ambos acreditam no sobrenatural, mas Joel se recusa a aceitar que exista algo no mundo verdadeiramente "inominável", sem relação com algo que já conhecemos ou que já tenha sido classificado pela ciência. Carter tenta convencê-lo do contrário, usando como argumento uma lenda da região, registrada no diário de um de seus antepassados, envolvendo uma antiga casa, um menino xereta e um monstro, segundo Carter, inominável.

Muitos argumentam que Carter seria um dos mais famosos personagens recorrentes de Lovecraft, Randolph Carter, protagonista de À Procura de Kadath, o que pode ser evidenciado por uma passagem de A Chave de Prata, na qual é explicado que uma visita de Carter a Arkham o fez selar certas páginas do diário de um de seus antepassados. Já Joel seria uma homenagem de Lovecraft a seu amigo Maurice W. Manton, diretor da East High School nascido e criado em Boston, duas características atribuídas a Joel por Carter no primeiro parágrafo do conto.

Talvez o elemento mais curioso de O Inominável seja justamente o próprio "inominável", que guarda muitas semelhanças com o diabo da mitologia cristã, com chifres na cabeça e cascos no lugar dos pés. Acrescentando um dado pessoal, devo dizer que O Inominável foi um dos contos de Lovecraft que me causou uma das maiores surpresas enquanto eu estava lendo. De tão acostumado com o estilo do autor, eu normalmente conseguia adivinhar mais ou menos o que iria acontecer, mas esse conto tem uma reviravolta que nem eu previ.

O Intruso (The Outsider) - Depois que Lovecraft faleceu, dois de seus amigos, Donald Wandrei e August Derleth, decidiram fundar uma editora, a qual chamaram de Arkham House, por três motivos: primeiro, para que as obras de Lovecraft não caíssem no esquecimento; segundo, para que outros escritores de mesmo estilo, como os próprios Wandrei e Derleth, pudessem publicar suas histórias; e terceiro, para que os contos de Lovecraft finalmente fossem publicados em livros, algo que ele jamais conseguiu em vida.

O primeiro dos livros lançados pela Arkham House, uma coletânea dos contos mais famosos de Lovecraft, tiraria seu nome não dos "greatest hits" do autor, como O Chamado de Cthulhu ou A Sombra Fora do Tempo, mas de um conto que era bem menos famoso. Wandrei e Derleth decidiriam nomeá-lo The Outsider and Others ("O Intruso e Outros"), aparentemente de forma estranha, mas com um bom motivo: O Intruso podia não ser um dos contos mais conhecidos, mas fora um dos mais elogiados escritos por Lovecraft. Escrito entre março e agosto de 1921, demorou para ser publicado, aparecendo pela primeira vez na Weird Tales de abril de 1926, rendendo uma avalanche de cartas que o transformariam em um dos contos mais populares da história da revista. Desde então, O Intruso se tornou uma dos mais republicadas obras de Lovecraft, bem como uma das mais debatidas pelos estudiosos.

O próprio Lovecraft afirmou, em uma de suas cartas, que, de todas as suas histórias, essa foi aquela na qual ele mais conseguiu se aproximar do estilo de seu grande ídolo Edgar Allan Poe. De fato, o início do conto lembra Berenice, enquanto a cena da festa lembra A Máscara da Morte Escarlate, duas das mais comentadas histórias de Poe. Estudiosos da obra de Lovecraft também encontram paralelos entre a tal cena da festa e uma passagem de Frankenstein, de Mary Shelley, livro que Lovecraft conhecia bem. Outras duas obras de mestres da literatura, Fragments From the Journal of a Solitary Man, de Nathaniel Hawthorne, e The Birthday of the Infanta, de Oscar Wilde, costumam ser apontados como possíveis influências, devido a semelhanças no clímax da história.

Mais que uma colcha de retalhos de influências famosas, entretanto, O Intruso é considerado um clássico do horror gótico, abordando temas tradicionais desse estilo de literatura, como a solidão, o pós-vida e o abhumano - aquilo que seria apenas parte humano, sempre em risco de se tornar algo monstruoso, como um vampiro ou um lobisomem. Esses temas têm sido muito debatidos por estudiosos de Lovecraft, e O Intruso costuma ser estudado também por estudiosos do horror gótico em geral. Há quem argumente que o conto seria uma crítica de Lovecraft aos que acreditam na vida após a morte - já que ele mesmo não acreditava - e alguns chegam até a procurar elementos autobiográficos na narrativa, sabendo que Lovecraft se sentia uma pessoa solitária e deslocada da sociedade.

O narrador de O Intruso é um homem de extrema solidão, que mora sozinho, desde que se lembra, em um castelo cercado por altas árvores, o que faz com que ele jamais consiga ver a Lua ou a luz do Sol. Todo o seu contato com a luz advém de velas, e todo o seu conhecimento sobre a vida fora do castelo, inclusive sobre os seres humanos, vem dos inúmeros livros de sua biblioteca. O narrador também desconhece sua própria aparência, já que o castelo não possui espelhos, e o som da voz humana, já que jamais precisou dizer uma única palavra. Um dia, cansado dessa vida, ele decide deixar o castelo, e acaba se deparando com uma festa. Ao invés de finalmente encontrar seu lugar na sociedade, porém, ele acaba é se sentindo ainda mais solitário, um intruso em seu próprio mundo.

A Sombra sobre Innsmouth (The Shadow Over Innsmouth) - Lovecraft jamais publicou um livro em vida, mas A Sombra sobre Innsmouth foi quando ele chegou mais perto. Essa novela, escrita no final de 1931, foi publicada em abril de 1936 pela editora Visionary Publishing Company, com direito a título e nome do autor em destaque na capa e ilustrações de Frank Utpatel. Entretanto, pelo reduzido número de páginas, e por ser vendida em bancas de jornal, a edição não era considerada oficialmente um "livro", mas uma revista dedicada a uma única história. Ainda assim, A Sombra sobre Innsmouth entraria para a história como a única obra de Lovecraft publicada durante a vida do escritor que não estreou em um periódico.

Curiosamente, a história por pouco nem viu a luz do dia. Após finalizá-la, Lovecraft a considerou cheia de defeitos, e confessou a seu amigo August Derleth que não planejava oferecê-la jamais a qualquer revista. Derleth, porém, leu a história e a adorou, e, em 1933, sem o conhecimento de Lovecraft, a ofereceu a Farnsworth Wright, editor da Weird Tales. Wright também adorou a história, mas disse a Derleth não saber o que fazer com ela, já que era grande demais para ser publicada de uma vez só, intrincada demais para ser dividida em duas partes, e não ser de seu desejo quebrar seu ritmo dividindo-a em mais de duas. Derleth não desistiu, e escreveu a William L. Crawford, da Visionary Publishing Company, descrevendo a história como "Lovecraft em seu melhor". Crawford, então, aceitou publicá-la, mas, sem saber se teria um retorno financeiro aceitável, com uma tiragem de apenas 200 exemplares.

A Sombra sobre Innsmouth é ambientada na cidade de mesmo nome, que logo se tornaria um dos locais mais importantes do universo ficcional de Lovecraft, junto com Arkham e Dunwich. Seu narrador não tem nome citado em seu texto, mas é referenciado como Robert Olmstead em várias notas sobre a história deixadas por Lovecraft. Olmstead é um antiquário amador, que está viajando pela Nova Inglaterra atrás de dados para compor sua própria árvore genealógica, enquanto estuda a arquitetura e a arte local. No início da história, ele está em Newsburyport, e planeja chegar a Arkham. Descontente com o preço da barca, ele é aconselhado a tomar um ônibus, bem mais barato, que passa pela cidade de Innsmouth. A boa notícia é que Innsmouth é uma cidade antiga, então teria muitos atrativos para Olmstead; a má é que, além de decadente, com várias casas em ruínas e população ínfima, ela também possui péssima fama, sendo evitada pelos habitantes de todas as cidades das redondezas. Mas a curiosidade, como de costume, fala mais alto, e Olmstead decide dar uma paradinha por lá antes de seguir seu caminho.

Aos poucos, Olmstead percebe que a má fama de Innsmouth não é de todo infundada. Seus moradores, muito desconfiados de forasteiros, possuem características físicas incomuns, que Olmstead decidiu apelidar de "jeito Innsmouth", como grandes olhos que parecem nunca piscar, mãos e pés grandes demais para o tamanho de seus corpos, e um cheiro de peixe incessante provavelmente decorrente da principal atividade da cidade, a indústria pesqueira - aliás, é curioso como Innsmouth parece ter sempre peixe à vontade, enquanto as cidades vizinhas parecem não ter nenhum. Igualmente curioso é o fato de que Innsmouth possui uma refinaria de ouro que funciona a pleno vapor, mesmo sem ter nenhuma mina de ouro nas imediações.

Durante sua estada em Innsmouth, Olmstead conhece Zadok Allen, um velho bêbado de 96 anos que possui uma explicação surreal para o "jeito Innsmouth" e para a prosperidade de indústria pesqueira e aurífera da cidade: há quase um século, Obed Marsh, um dos mais ilustres cidadãos de Innsmouth, que possuía uma frota de navios mercantes, conheceu, em uma ilha afastada da civilização, uma tribo que tinha uma espécie de pacto com criaturas das profundezas do mar, chamadas por Olmstead de Profundos (Deep Ones no original), que se pareciam com cruzas de peixes e sapos e veneravam o deus Dagon. Segundo Allen, os Profundos forneciam à ilha todo o peixe que eles pudessem imaginar, e ainda presenteavam seus habitantes com estranhas joias, colares e tiaras de ouro puro; em troca, exigiam apenas que os humanos também venerassem Dagon, e que permitissem que os Profundos acasalassem com eles, o que resultava em estranhos híbridos, alguns com mais, outros com menos características dos monstros. Os Profundos também venerariam Cthulhu, e estariam esperando pelo dia em que o Grande Antigo finalmente acordaria, para botar em prática algum plano sinistro.

Olmstead, evidentemente, não acredita nas palavras de Allen, mas, depois dessa conversa, passa a ser tratado com desconfiança pelos nativos da cidade. Obrigado a passar a noite em Innsmouth, devido a um alegado defeito no ônibus que o levaria a Arkham, Olmstead descobrirá que Allen pode ser um velho bêbado, mas suas histórias possuem um terrível fundo de verdade.

Para escrever A Sombra sobre Innsmouth, Lovecraft teria se inspirado na história The Harbor-Master, de Robert W. Chambers, que descreve a descoberta de uma civilização de homens-peixe nas profundezas do atlântico. Lovecraft ficou tão empolgado após ler a história que escreveu uma carta a seu amigo Frank Belknap Long elogiando-a efusivamente. Embora The Harbor-Master traga uma descrição dos homens-peixe, Lovecraft parece ter decidido reaproveitar em A Sombra sobre Innsmouth as criaturas que havia inventado para Dagon, que foram inspiradas pela já citada obra Fishhead. Muitos também encontram paralelos entre os Profundos e a criatura descrita em In the Abyss, conto de H. G. Wells.

Em relação aos personagens, Olmstead parece ter características do próprio Lovecraft, que também procurava sempre o meio mais barato de viajar, mesmo que nem sempre fosse o mais seguro, e costumava jantar sopa de vegetais com cream crackers, exatamente o prato que o narrador janta em Innsmouth. Já a descrição de Zadok Allen lembra um poeta amigo de Lovecraft, Jonathan E. Hoag, embora sua inspiração literária pareça ter sido outro bêbado que conhece segredos de sua cidade, Humphrey Lathrop, personagem de The Place Called Dagon, escrito por Herbert Gorman. Os Profundos, evidentemente, são as mesmas criaturas vistas nas gravuras encontradas pelo narrador de Dagon, e o fato de eles venerarem Dagon mas serem servos de Cthulhu é tido como uma indicação de que ambos realmente seriam a mesma entidade.

A Sombra sobre Innsmouth é uma das mais famosas histórias de Lovecraft, tendo inspirado diversas outras obras, inclusive uma canção do Metallica, The Thing That Should Not Be. Lovecraft voltaria a citar a cidade em A Coisa na Soleira da Porta, cuja protagonista feminina, Asenath Waite, nascida na cidade, de acordo com sua descrição, apresenta o "jeito Innsmouth", o que significa que ela é mais do que aparenta.

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