quinta-feira, 27 de maio de 2010

Máquina Mortífera

É raro, mas, eventualmente, acontece aqui no átomo um "efeito cascata" - um post me deixa com vontade de fazer outro, que me deixa com vontade de fazer outro. Foi o caso hoje - até porque senão eu não teria um bom motivo para começar a introdução assim. Primeiro, eu fiz um post sobre A Gata e o Rato, que me deixou com vontade de escrever sobre Duro de Matar. Por sua vez, o post do Duro de Matar me deixou com vontade de escrever sobre outro dos meus filmes de ação preferidos, Máquina Mortífera. Post esse que vocês estão lendo hoje.

O primeiro Máquina Mortífera foi lançado em 1987, com o nome original de Lethal Weapon. Dirigido por Richard Donner (que também dirigiu o primeiro filme do Super-Homem e meu filme preferido de todos os tempos, O Feitiço de Áquila), o filme mostra dois policiais de Los Angeles, o sargento Roger Murtaugh (Danny Glover) e o detetive Martin Riggs (Mel Gibson), trabalhando juntos no que parece ser um caso de assassinato. Seria uma premissa bastante banal se não fossem as acentuadas diferenças entre os policiais, que levam a várias situações inusitadas.

Murtaugh é um pai de família, negro, com recém-completados 50 anos, e que de certa forma está deprimido por estar se sentindo velho. Riggs é mais jovem, ex-soldado das Forças Especiais, viúvo, jamais se conformou com a morte da esposa, e, desde então, apresenta um comportamento suicida no cumprimento do dever. Ambos se tornam parceiros quando Riggs, originalmente da divisão de narcóticos, é transferido para a divisão de homicídios, onde Murtaugh originalmente trabalha, já que seu superior, o capitão Ed Murphy (Steve Kahan), acredita que lá ele se meterá em menos encrenca. A princípio, Murtaugh se irrita imensamente com o novo parceiro, não somente por seu comportamento errático, mas também por sua filha adolescente, Rianne (Traci Wolfe), se mostrar romanticamente interessada por Riggs.

O caso que Murtaugh e Riggs investigam é originalmente classificado como suicídio, de uma garota de programa que se atira da janela de um apartamento de luxo. A garota, porém, é filha de um antigo colega de Murtaugh da Guerra do Vietnã, Michael Hunsaker (Tom Atkins), que, por acaso, vinha tentando entrar em contato com ele sem sucesso nos dias que precederam sua morte. Além disso, durante a autópsia, o legista encontrou soda cáustica nos barbitúricos que ela tomou antes de se atirar, o que classifica o crime como tentativa de homicídio, já que, se não se atirasse, ela morreria de qualquer jeito.

Murtaugh começa a investigar o crime imaginando estar fazendo um favor a Hunsaker, descobrindo para ele como sua filha se envolveu no mundo das drogas e prostituição, mas ele e Riggs, como sempre, acabam se deparando com um esquema bem maior, que envolve tráfico de heroína, lavagem de dinheiro e um general da reserva, Peter McAllister (Mitchell Ryan), cujo capanga, Mr. Joshua (Gary Busey), logo se torna inimigo mortal de Riggs. Outros personagens significativos são a psicóloga da polícia, Dra. Stephanie Woods (Mary Ellen Trainor), que tenta analisar Riggs sem sucesso, e o resto da família de Murtaugh, sua esposa Trish (Darlene Love) e seus filhos Nick (Damon Hines) e Carrie (Ebonie Smith).

O roteiro do filme foi escrito em 1985 por Shane Black, que havia acabado de se formar na UCLA. Seu agente conseguiu entregar o roteiro ao produtor Joel Silver, que o adorou, e o encaminhou à Warner Bros., que, após algum polimento, o aprovou para filmagem. O estúdio convidou Leonard Nimoy para dirigir, mas, como ele estava envolvido com Três Solteirões e um Bebê, e ainda se achava meio verde para dirigir um filme de ação, recusou a oferta. Donner, que iria produzir o filme junto com Silver, e também havia adorado o roteiro, então, se ofereceu para a vaga.

Danny Glover foi o primeiro nome escolhido pelo elenco, vindo de um grande sucesso em A Cor Púrpura, e animado por poder interpretar um personagem apegado a valores familiares. Para o papel de Riggs, porém, o estúdio pensou primeiro em Bruce Willis, e acabou fechando com Mel Gibson por sugestão da diretora de elenco Marion Dougherty. A escolha acabou se mostrando acertada, pois ambos tiveram uma química perfeita, e, segundo Donner, encontraram risos e lágrimas em pontos do roteiro onde estes nem estavam inicialmente previstos. De fato, Gibson, até então lembrado apenas pelo papel de Mad Max, teve uma atuação tão fantástica que foi convidado por Franco Zefirelli para protagonizar Hamlet, e escreveu seu nome na lista dos grandes atores de Hollywood. E Máquina Mortífera não foi um marco apenas para Gibson: Gary Busey, que interpreta o rival de Riggs, foi escolhido durante um teste, algo que não precisava fazer há anos, e credita o filme como responsável por reavivar sua carreira, que se encontrava na descendente.

Ao todo, as filmagens consumiram apenas quatro dias. A sequência mais complicada foi a da luta final entre Riggs e Joshua, que Donner queria fazer o mais impressionante possível, mostrando na tela uma arte marcial jamais explorada. A solução foi inventar uma nova, misturando elementos de capoeira, jailhouse rock (estilo usado por presidiários dos Estados Unidos) e jiu-jitsu, com a consultoria de vários especialistas, dentre eles o brasileiro Rorion Grace. O filme contaria ainda com uma tragédia, a morte do famoso dublê Dar Robinson, durante um acidente de moto. Donner dedicaria o filme a ele.

A tensão entre os dois protagonistas, que começam se odiando, passam a se respeitar ao longo do filme e terminam amigos é o elemento principal da trama, tendo influenciado vários filmes de ação posteriores, e, para muitos, criando um novo subgênero de filme de ação, o buddy cop, no qual dois policiais parceiros, muitas vezes de temperamentos opostos, são os heróis. A mistura de ação e comédia do roteiro - embora esse primeiro filme tenha muito mais ação que comédia - também é citada como uma das principais causas de seu sucesso, e também acabaria copiada por vários filmes de ação do final da década de 1980 e início da de 1990. De fato, Máquina Mortífera e Duro de Matar, lançado no ano seguinte, são creditados por muitos críticos como responsáveis por revolucionar o cinema de ação, trazendo novos elementos às tramas. Curiosamente, ambos os filmes são ambientados no Natal, embora nenhum deles tenha estreado em dezembro.

Além de um grande sucesso de crítica, Máquina Mortífera foi um grande sucesso de bilheteria, estreando na primeira posição da lista dos mais assistidos e lá permanecendo por três semanas, até ser suplantado por Encontro às Escuras (que, por acaso, era protagonizado por Bruce Willis). Sua bilheteria total nos Estados Unidos foi de 120 milhões de dólares, quase dez vezes mais os 15 milhões que o filme custou. Evidentemente, o sucesso lhe rendeu uma continuação.

Máquina Mortífera 2 (Lethal Weapon 2), lançado em 1989, foi mais uma vez dirigido por Donner, e com Gibson, Glover, Love, Wolfe, Hines, Smith, Kahan e Trainor repetindo seus papéis. O filme também traz um novo personagem que se tornaria recorrente na série, Leo Getz (Joe Pesci), que trabalha com lavagem de dinheiro e resolve depor contra seus antigos contratantes, se tornando uma testemunha protegida. Riggs e Murtaugh são designados para protegê-lo, mas acabam envolvendo-o em sua investigação, e quase enlouquecendo devido à sua personalidade paranoica e irritante.

Além de proteger Leo, Riggs e Murtaugh investigam um esquema liderado pelo cônsul da África do Sul, Arjen Rudd (Joss Ackland), que se esconde por detrás de sua imunidade diplomática para cometer os clássicos crimes de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Durante a investigação, Riggs acaba se envolvendo amorosamente com a secretária do consulado, Rika van den Haas (Patsy Kensit), e descobre que o braço-direito de Rudd, Pieter Vorstedt (Derrick O'Connor), foi responsável pela morte de sua esposa.

O roteiro do filme foi mais uma vez escrito por Black, mas, originalmente, Riggs morreria no final. Quando os produtores decidiram manter Riggs vivo, Black se recusou a continuar escrevendo, e o roteiro foi passado para Jeffrey Boam (de Indiana Jones e a Última Cruzada), que fez os últimos ajustes para a história ficar ao gosto de Donner e Silver.

Máquina Mortífera 2 foi mais um grande sucesso de público e crítica, custando 25 milhões e rendendo 150 milhões de dólares apenas nos Estados Unidos, o que fez com que ele fosse o terceiro filme mais assistido de 1989, perdendo apenas para Batman e Indiana Jones e a Última Cruzada. Donner, Gibson e Glover (e eu também) o consideram o melhor da série. Aparentemente, o único que não gostou do filme foi o verdadeiro cônsul da África do Sul, que o classificou como "horrível". Curiosamente, mesmo tocando em temas sensíveis como o apartheid e diplomatas criminosos, o filme foi exibido na África do Sul sem nenhum corte, e lá também foi um sucesso de público e crítica.

Uma das razões pelas quais Donner não quis matar Riggs foi que ele já planejava fazer um terceiro filme, Máquina Mortífera 3 (Lethal Weapon 3), que estreou nos cinemas em 1992, com roteiro de Jeffrey Boam e Robert Mark Kamen, e, mais uma vez, Gibson, Glover, Love, Wolfe, Hines, Smith, Kahan, Trainor e Pesci repetindo seus papéis. Na verdade, Pesci quase ficou de fora, já que Leo originalmente não participaria do filme, e todas as cenas com ele foram reescritas de última hora, por sugestão de Donner. Vale citar que Leo deixou de ser criminoso, e agora trabalha como corretor de imóveis, tentando, inclusive, vender a casa de Murtaugh, que está prestes a se aposentar.

O terceiro filme não começa bem para Riggs e Murtaugh, que são rebaixados a guardas de rua depois de fazerem besteira em uma denúncia de bomba: sem querer esperar o esquadrão anti-bomba, Riggs corta um dos fios do dispositivo, o que resulta na implosão do prédio. Essa cena acabou se tornando uma das mais emblemáticas da série, e ainda conta com um detalhe curioso: o prédio implodido no filme também foi implodido na vida real. Trata-se da antiga prefeitura de Orlando, implodida para dar lugar a uma praça em frente à nova prefeitura, construída bem atrás dela. Para ser autorizada a filmar bem na hora da implosão - e a colocar explosivos cenográficos que fizessem o efeito de uma explosão imediatamente antes dos dispositivos de implosão serem acionados - a Warner fez um acordo com a prefeitura, pagando pela demolição do prédio. Como cortesia, o estúdio também permitiu que o prefeito de Orlando na época, Bill Frederick, fizesse uma ponta no filme, como um policial que aplaude Riggs e Murtaugh depois de sua "proeza".

Pois bem, enquanto trabalham nas ruas, Riggs e Murtaugh acabam, acidentalmente, se metendo em uma investigação da corregedoria de assuntos internos da polícia, que investiga um ex-policial, Jack Travis (Stuart Wilson), que estaria desviando armas apreendidas e as vendendo para criminosos, além de fornecer a eles balas "mata-tira", capazes de furar coletes a prova de balas. A investigação também faz com que eles conheçam a sargento Lorna Cole (Rene Russo), por quem Riggs se apaixona, E Leo acaba se mostrando mais valioso que de costume, já que a fachada de Travis é um empreedimento imobiliário.

Máquina Mortífera 3 não foi tão bem sucedido quanto o segundo filme, custando 35 milhões e rendendo 145 milhões de dólares nos Estados Unidos, mas ainda assim foi o quarto filme mais assistido de 1992 (perdendo para Aladdin, Esqueceram de Mim 2 e Batman: O Retorno), e um enorme sucesso de crítica. Donner ainda planejava um quarto filme, para fechar de vez a série, mas teve de esperar algum tempo até conseguir tirá-lo do papel.

Máquina Mortífera 4 (Lethal Weapon 4) estrearia apenas em 1998, mais uma vez com Donner na direção; Gibson, Glover, Love, Wolfe, Hines, Smith, Kahan, Trainor, Pesci e Russo repetindo seus papéis; e roteiro de Channing Gibson (da série de TV Murder One; esse filme foi sua estreia no cinema). Neste quarto filme, Riggs e Murtaugh, que desistiu de se aposentar, com a ajuda de Leo, que agora é detetive particular, investigam um esquema que traz imigrantes ilegais da China para trabalharem como escravos em Los Angeles. O esquema, porém, é apenas parte de um plano maior, liderado por Wah Sing Ku (Jet Li), que planeja libertar quatro chefes da Tríade, a máfia chinesa, e levá-los para os Estados Unidos. Paralelamente à investigação, Riggs tem de lidar com a gravidez de Lorna, e Rianne esconde de seu pai que se casou com um policial, Lee Butters (Chris Rock), e também espera um filho dele.

Máquina Mortífera 4 foi o filme menos rentável da série, custando 140 milhões e rendendo 135 milhões de dólares nos Estados Unidos - só não foi considerado um fracasso por causa dos rendimentos internacionais. A crítica também não o aceitou bem, se dividindo entre críticas positivas e negativas. Ainda assim, Donner considerou que foi um desfecho digno para a série, que começa com um Riggs desesperado e desestruturado que, aos poucos, com a ajuda de Murtaugh e sua família, encontra seu caminho, até, no quarto filme, conseguir formar sua própria família.

Quando começou a onda de "novas continuações para antigos sucessos", a Warner decidiu estudar a possibilidade de lançar um Máquina Mortífera 5. Donner, porém, considerando que sua história estava encerrada, não quis se envolver com o projeto. Em 2007, a Warner chegou até a anunciar que as negociações estavam adiantadas, e que Shane Black seria o roteirista e diretor. Gibson e Glover, porém, também não aceitaram repetir seus papéis, segundo muitos, por lealdade a Donner. No momento, há muita especulação sobre se haverá mesmo um quinto filme, e alguns boatos dizem até que os protagonistas não seriam Martin Riggs e Roger Murtaugh, mas Nick Murtaugh, agora também policial, e um novo parceiro.

A minha opinião vocês já conhecem: se for para fazer besteira, melhor deixar quieto.

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