quarta-feira, 29 de julho de 2009

Stardust

Cinema é um negócio bastante curioso. Basta um filme qualquer fazer sucesso que, nos anos seguintes, trezentos outros são produzidos com temas e ambientações semelhantes - foi por causa de Star Wars, por exemplo, que a década de 1980 foi povoada de filmes com robôs e naves espaciais. Atualmente, o filão explorado é o da fantasia: inaugurado por O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel e Harry Potter e a Pedra Filosofal, ele já deu origem a centenas de filmes com elfos, goblins, animais falantes e outras coisas que antigamente eram bonecos ou anões vestidos, mas hoje podem ser feitas de computação gráfica, para um maior realismo. De Nárnia a Spiderwick, da Ponte para Terabítia à Bússola de Ouro, praticamente não se passam seis meses sem que um novo mundo fantástico ganhe as telas.

Essa moda dos filmes de fantasia, porém, possui um "agravante" em relação à moda dos filmes de ficção científica: a grande maioria deles não nasce como filmes, mas como livros, que então têm seus direitos comprados e são transformados em filmes pelos grandes estúdios, ávidos por mais um sucesso. Essa prática, infelizmente, faz com que bombas que jamais chegariam aos cinemas de outra forma sejam adaptadas só por causa do cenário de fantasia (Eragon me vem à mente...). É claro que se pode alegar que isso sempre existiu, que o saldo ainda está positivo a favor dos bons filmes, e coisas do gênero, mas, mesmo assim, é uma prática que tem me incomodado de uns tempos pra cá.

Mas, como nem tudo na vida são agruras, de vez em quando surge um filme pelo qual eu não dava uma pataca, mas que acaba me surpreendendo favoravelmente. Um daqueles que, antes de assistir, a gente pensa "oh, não, mais um!" mas depois fica satisfeito por ter dado uma chance. O último que fez isso comigo foi Stardust: O Mistério da Estrela.

Confesso: não fui ver Stardust no cinema - e nem A Bússola de Ouro, nem Spiderwick, nem Terabítia, nem Eragon, já que é para confessar, vamos confessar tudo de uma vez. Meu tempo para ir ao cinema está cada vez mais escasso, então não dá para ficar indo ver tudo o que é filme só porque tem um bicho falante ou um dragão nele. Após vê-lo na televisão, porém, me senti absolutamente conquistado, comprei seu DVD, e fiquei com vontade de escrever um post. Depois achei que ficaria um post muito pequeno, e larguei pra lá. Essa semana, porém, enquanto pensava em um assunto para o post de hoje, resolvi escrevê-lo mesmo assim. E o resultado está nas linhas que agora se seguem.

Assim como todos os filmes que já foram citados neste post até agora (à exceção de Star Wars), Stardust também é a adaptação de um livro; no caso, um livro escrito por Neil Gailman - e esse foi um dos motivos que me afastaram do cinema; já conhecendo o talento de Hollywood para adaptações, achei que uma adaptação de uma obra de Neil Gailman boa coisa não iria ser. Para quem não sabe, Gailman é aquele autor inglês, que fez fama internacional escrevendo os quadrinhos do Sandman e costuma ser citado nas músicas da Tori Amos. Stardust, publicado originalmente em 1998, foi seu primeiro livro escrito em prosa sem a ajuda de nenhum co-autor. Curiosamente, ele nem seria um livro, mas uma espécie de história em quadrinhos, com grandes ilustrações e poucas linhas de texto, publicado pela DC Comics, que já publicava o Sandman. Convencido pela editora Avon de que o material renderia um romance, Gailman decidiu lançã-lo como livro, com mais texto e sem as ilustrações, no ano seguinte, 1999.

Stardust é ambientado na metade final do século XIX em Stormhold, um reino fantástico no Mundo das Fadas, uma espécie de dimensão paralela "composta de todas as terras empurradas para fora do mapa por bravos exploradores que quiseram provar que elas não existiam". Seu enredo começa, porém, em 1839, na Vila do Muro, uma pequena cidade inglesa margeada por uma enorme muralha de pedra. De um lado do Muro, fica a Inglaterra como nós a conhecemos; do outro, o Mundo das Fadas, com todas as suas criaturas mágicas. A única passagem entre os dois mundos é através de um buraco no Muro, guardado 365 dias por ano por dois sentinelas, exceto a cada nove anos no dia 1o de maio, quando uma feira se instala do outro lado do muro, e os moradores de Muro podem atravessá-lo para afzer compras.

A trama começa a se desenrolar quando Dunstan Thorn, um jovem morador de Muro, vai à feira comprar um presente para sua noiva, Daisy. Lá, ele acaba se envolvendo com uma moça de orelhas de gato, escrava de uma bruxa dona de uma das barracas da feira. Os dois têm uma noite de amor antes de Dunstan retornar a Muro, que cobra seu preço nove meses depois, quando Dunstan e Daisy, já casados, encontram em sua porta uma cestinha com o filho de Dunstan com a moça-gato. Batizado Tristran, ele é criado por Dunstan e Daisy como se fosse filho de ambos, sem jamais saber sobre sua herança mágica.

Dezessete anos se passam, e agora é Tristran que está apaixonado, pela "moça mais bonita em um raio de 100 Km", Victoria Forester. Ao ver uma estrela cadente se dirigindo para o outro lado do mundo, Tristran promete a Victoria que irá buscá-la e trazê-la de presente. Cruzando o muro, ele acaba descobrindo que a estrela, na verdade, é uma linda moça, Yvaine, que ainda por cima é caçada por oponentes perigosos: as três bruxas conhecidas como Lilim, que pretendem comer seu coração, para se tornarem jovens e bonitas por séculos; e Septimus, o filho mais novo do recém-falecido Rei de Stormhold, que pretende suceder ao pai no trono. Juntos, Tristran e Yvaine viverão aventuras incríveis viajando por todo o Mundo das Fadas, fugindo de seus perseguidores e tentando retornar a Muro, até Tristran descobrir que sua mãe, na verdade, era Lady Una, a filha mais velha do Rei, e que o trono é seu por direito.

Gailman teve a ideia de escrever a história quando, viajando por uma estrada do interior, viu um muro à sua margem, que parecia não ter fim. Imediatamente, ele imaginou que poderia haver um Mundo das Fadas do outro lado, e decidiu usar esse argumento em uma futura história. Pouco depois, ele e o ilustrados Charles Vess estavam em uma festa por ocasião de um prêmio recebido por Gailman, quando este viu uma estrela cadente, e imaginou que poderia usar também esse elemento em sua história sobre o muro. Imediatamente ele abordou Vess e lhe disse o que já havia pensado, e este concordou em fazer as ilustrações. Em pouco tempo, Stardust estava pronta, sendo lançada pela DC como uma minissérie de luxo, com papel especial e sem propagandas, em quatro edições mensais.

Gailman e Vess, porém, preferiam que a história fosse lançada completa, e, após muito insistir, convenceram a DC a relançá-la em um só volume, em duas versões, uma de capa mole e uma de capa dura com capa imitando couro e estrelas em alto-relevo. Esta edição chegou às mãos da editora Avon, que já havia publicado algumas obras de Gailman na Inglaterra, e o convenceu a relançar Stardust mais uma vez, agora como um romance.

O sucesso do romance, por sua vez, chamou a atenção dos estúdios Miramax, que entraram em contato com Gailman e conseguiram os direitos preliminares para adaptar a história para o cinema. A Miramax levou uma eternidade na pré-produção, porém, e o prazo para que eles começassem a fazer o filme acabou expirando. Gailman, então, começou a conversar sobre uma possível adaptação com o diretor Terry Gilliam, que não aceitou por já estar envolvido com Os Irmãos Grimm. A segunda escolha seria Matthew Vaughn, que na época filmava Nem Tudo é o que Parece, e estava cotado para dirigir X-Men: O Confronto Final. Quando Vaughn desistiu do filme dos X-Men, sendo substituído por Brett Ratner, retomou as conversas com Gailman, e foi convencido a adquirir os direitos preliminares de adaptação em janeiro de 2005. Vaughn os ofereceu à Paramount, que decidiu bancar o filme, desde que o orçamento não ultrapassasse os 70 milhões de dólares.

O roteiro do filme seria escrito pelo próprio Vaughn, em pareceria com a inglesa Jane Goldman, famosa por apresentar um programa de investigação paranormal na TV. Após ler o livro, Vaughn perguntou a Gailman se poderia amenizar a história, originalmente escrita para adultos, com trechos de sexo e violência, transformando-a em um filme para toda a família, com mais elementos de humor. Gailman concordou, dizendo que preferia ver uma versão mais amena, mas bem sucedida, de sua história do que uma adaptação extremamente fiel que fracassasse nas bilheterias. Gailman também ajudou Vaughn a condensar a história, pois, segundo projeções, um roteiro que contivesse todos os elementos do livro resultaria em um filme de dez horas e meia.

Graças a isso - e aliás, como sempre - o livro e o filme possuem algumas importantes diferenças. Para começar, a passagem no Muro não é guardada por dois sentinelas, mas por um velhinho (David Kelly), e Dunstan (Ben Barnes) decide atravessá-la não para ir à feira comprar um presente para sua noiva (que no filme nem existe), mas simplesmente por curiosidade de saber o que se encontra do outro lado. Lá chegando, ele se encanta com Una (Kate Magowan, que no filme não tem orelhas de gato), que trabalha como escrava na loja de Madame Seleme (Melanie Hill), e passa uma noite de amor com ela. Nove meses depois, ele encontra em sua porta uma cesta contendo o pequeno Tristan (que perdeu um r na versão cinematográfica), fruto de seu relacionamento.

Dezessete anos se passam, e Tristan (Charlie Cox) se torna um rapaz tímido e um tanto atrapalhado, apaixonado por Victoria (Sienna Miller), a moça mais linda da Vila do Muro. Victoria pretende se casar com o almofadinha Humphrey (Henry Cavill), mas, sabendo do poder que tem sobre Tristan, fica sempre próxima a ele, se divertindo com suas atitudes abobalhadas. Um dia, para impressionar Victoria, Tristan a convida para um piquenique, no qual ambos vêem uma estrela cadente passando por sobre o Muro. Victoria promete a Tristan que, se ele a trouxer a estrela, se casará com ele. Tristan conta sobre seu plano para seu pai, Dunstan (Nathaniel Parker), que então decide contar para o rapaz a verdade sobre sua mãe, e encorajá-lo a ir para o outro lado do Muro.

Enquanto isso, do outro lado do Muro, no Reino de Stormhold, o Rei (Peter O'Toole) está à beira da morte. Ele então convoca seus quatro filhos sobreviventes, Primus (Jason Flemyng), Secundus (Rupert Everett), Tertius (Mark Heap) e Septimus (Mark Strong), que mataram seus outros três irmãos, Quartus (Julian Rhind-Tutt), Quintus (Adam Buxton) e Sextus (David Walliams), cada um buscando ser o único sobrevivente no dia da sucessão, estando os irmãos mortos condenados a vagar como fantasmas até que um dos sobreviventes assuma o trono. Como ainda restam quatro irmãos vivos, o Rei pega seu rubi real e proclama que o primeiro a retorná-lo será o novo Rei, sucedendo-o. É este rubi que, ao ser arremessado em direção aos céus, acaba derrubando a bela Yvaine (Claire Danes), uma estrela que, em Stormhold, possui forma humana.

Tristan acaba encontrando Yvaine, e planeja levá-la para Victoria como presente. O local onde a estrla caiu, porém, é distante do Muro, e eles levarão um bom tempo para chegar até lá. Para infelicidade de Tristan, Yvaine também é cobiçada não somente pelos príncipes - já que, inadvertidamente, passa a usar o rubi real como joia após sua queda - mas também pela maligna bruxa Lamia (Michelle Pfeiffer), mais velha de um trio de irmãs que também inclui Empusa (Sarah Alexander) e Mormo (Joanna Scanlan). Com séculos de idade, as três já se encontram em estado deplorável, e sua única chance de voltarem a ser jovens e bonitas é comendo o coração de uma estrela. Como se já não bastassem todos esses contratempos, o casal ainda acaba cruzando o caminho do Capitão Shakespeare (Robert DeNiro), um temível pirata no comando de um navio voador que armazena raios em tambores para vender ao comerciante Ferdy (Ricky Gervais).

Lançado em 2007, Stardust foi um grande sucesso de crítica e público, rendendo quase 10 milhões de dólares apenas em seu primeiro fim de semana nos Estados Unidos, 38 milhões em toda a temporada nos Estados Unidos, 31 milhões no Reino Unido, e mais de 135 milhões no mundo inteiro. As críticas também foram bastante positivas, e o filme acabou reacendendo o interesse pelo livro que lhe deu origem, tanto que Gailman já fala em escrever uma continuação, ou pelo menos uma segunda história ambientada na Vila do Muro.

E todo esse sucesso é merecido. Stardust é um filme muito divertido, tem um elenco de primeira, e uma história bem aos estilo dos romances de sucesso: ao longo de sua jornada, Tristan reavalia sua vida, cresce como pessoa, e tem um final feliz ao lado das pessoas que ama. Mais que elfos ou dragões, esses são elementos que todo filme de fantasia merece ter.

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