quarta-feira, 2 de julho de 2008

Nascar

Desde criança, eu adoro corridas de automóvel. Como fã da Fórmula 1, porém, duas coisas não entravam na minha cabeça: como é que os americanos podiam gostar de corridas de 200 voltas em ovais, e como que alguém podia gostar de corridas de stock cars, que eu achava grandes e desajeitados demais para correr em autódromos. Após umas duas temporadas de Fórmula Indy, venci meu preconceito contra corridas de 200 voltas em ovais. A resistência aos stock cars, porém, demorou bem mais para ser vencida.

Apenas há pouco tempo, coisa de uns três anos no máximo, resolvi assistir a uma corrida da Stock Car Brasil enquanto tomava o café-da-manhã. Não vou dizer que me apaixonei pela categoria, mas resolvi dar mais algumas chances e assitir a mais algumas provas. Continuo achando os carros grandes e desajeitados demais para correr em autódromos, mas até que as corridas são bem interessantes. Este ano, pela primeira vez, decidi acompanhar o campeonato inteiro.

Mas ainda faltava um teste de fogo para derrubar minha resistência de vez: a Nascar, que não somente é de stock cars, mas ainda tem corridas de 200 voltas em ovais. Eu não tinha um plano deliberado, tipo "vou assistir Nascar para ver como é que é", mas, no ano passado, estava eu zapeando quando achei uma corrida, e resolvi ficar assistindo. Mais uma vez, não vou dizer que me apaixonei pela categoria, mas de lá pra cá assisti a várias corridas, ao vivo ou em VT, e devo confessar que passei a achá-las bastante interessantes. Tanto que a Nascar virou o assunto do post de hoje.

A relação que eu mantenho com a Nascar é a mesma que eu mantenho com o beisebol: apesar de gostar da categoria, e de acompanhar razoavelmente o campeonato, eu assisto a poucas corridas inteiras, pelo simples motivo de que elas demoram muito. Tudo bem, Indianápolis também demora umas quatro horas, mas é uma vez por ano, e não uma vez por semana. Aliás, eu acho que alguém devia fazer uma tese sobre o porquê dos americanos gostarem tanto de eventos esportivos tão demorados.

A Nascar, sigla para National Association for Stock Car Auto Racing ("Associação Nacional para Corridas de Stock Cars") foi fundada pelo mecânico William France, Sr. em fevereiro de 1948, com a ajuda de vários pilotos de stock cars de todos os Estados Unidos. As corridas de stock cars - que tinham este nome por utilizar carros comuns, que podiam ser encontrados em qualquer loja de automóveis, ao invés de carros fabricados especificamente para corridas - já eram muito populares nos Estados Unidos desde a década de 30; as corridas, porém, eram isoladas, sem fazer parte de um único campeonato, como a famosíssima prova da Daytona Beach, Flórida. O intuito de France e seus amigos era reunir várias destas corridas e criar um campeonato, onde cada corrida conferiria pontos aos pilotos de acordo com a sua posição de chegada, se sagrando campeão o que tivesse mais pontos ao final da última prova. Diz a lenda que o primeiro sistema de pontos da categoria foi escrito em um guardanapo.

A primeira prova da Nascar foi disputada em 19 de junho de 1949 em Charlotte. O primeiro campeonato contou com oito provas, e foi vencido por Red Byron. No início, as regras eram tão rígidas que os carros deveriam ser exatamente iguais aos fabricados para a venda, sendo desclassificado qualquer piloto que fizesse a menor modificação que fosse no intuito de ganhar velocidade - o que, curiosamente, resultava em cenas como os pilotos indo de sua casa ou hotel ao autódromo dirigindo o mesmo carro que usariam para correr. A partir do meio da década de 1950, começaram a ser permitidas modificações, desde que elas fossem feitas em nome da segurança. A rigidez das regras foi diminuindo, porém, e a partir do final da década de 1960, os stock cars já eram o que são hoje: carros fabricados especificamente para corridas, mas sob uma "casca" que os deixa com aparência de carros comuns. A partir da década seguinte, a categoria entraria no que é conhecido hoje pelos fãs como sua "era moderna", com a entrada dos patrocinadores, mudanças no regulamento e no sistema de pontos, e grandes inovações tecnológicas a cada campeonato. Em 1979, seria televisionada a primeira prova ao vivo do início ao final, as 500 Milhas de Daytona, pela CBS.

Após estes 60 anos, a Nascar se tornou um gigante não só do automobilismo, mas também do esporte mundial. A entidade organiza por ano 1.500 corridas em mais de 100 pistas de 39 estados norte-americanos, Canadá e México. Seu campeonato é o segundo mais assistido pela TV nos Estados Unidos, perdendo apenas para o da NFL. Dos 20 eventos esportivos norte-americanos de maior público presente, 17 são corridas da Nascar - e dois dos outros três são o Super Bowl e as 500 Milhas de Indianápolis. Suas provas são transmitidas ao vivo para mais de 150 países, e sua categoria principal é a segunda mais rentável do automobilismo mundial, perdendo apenas para a Fórmula 1.

"Categoria principal" porque é claro que as 1.500 corridas por ano da Nascar não são todas do mesmo campeonato. A rigor, "Nascar" não é uma categoria, mas uma entidade que controla o automobilismo de stock cars na América do Norte; sendo assim, ela regula diversas categorias, sendo cinco "nacionais", com corridas por todo o país, e diversas outras regionais, com corridas em uma única região, ou até mesmo em um único estado, dos Estados Unidos ou Canadá.

Das cinco categorias nacionais, a principal e mais importante, atrás apenas da Fórmula 1 em rentabilidade, é a conhecida como Sprint Cup. Este nome, ao contrário do que possa parecer, não tem nada a ver com velocidade (sprint é um verbo que equivale a "arrancada", "disparada", ou simplesmente ao ato de sair correndo a toda velocidade); a categoria foi assim batizada por ser patrocinada pela Sprint, uma companhia de telecomunicações que é dona da Nextel. Entre 2004 e 2007, aliás, a categoria era conhecida como Nextel Cup; e, antes disso, entre 1972 e 2003, como Winston Cup, patrocinada pela R.J. Reynolds Tabaco, que fabricava o cigarro Winston. Antes disso, entre 1950 e 1971, ela se chamava simplesmente Grand National Series, e a temporada de 1949 teve o nome de Nascar Strickly Stock Series.

É na Sprint Cup que correm os principais pilotos da Nascar, e onde são disputadas as principais provas. O calendário atualmente conta com 36 provas, disputadas em 22 autódromos diferentes. Destes, cinco são ovais curtos, de uma milha ou menos de comprimento (Bristol', Dover', Martinsville', Phoenix' e Richmond'); nove são ovais intermediários, entre uma e duas milhas de comprimento (Atlanta', Charlotte', Chicagoland, Darlington, Homestead, Kansas City, Las Vegas, New Hampshire' e Texas'); seis são os chamados superspeedways, ovais de mais de duas milhas de comprimento (Daytona', Fontana', Indianápolis, Michigan', Pocono' e Talladega'); e dois são em circuitos mistos (Infineon e Watkins Glen). Autódromos marcados com um ' sediam duas corridas a cada temporada. A cada prova os pilotos correm entre 300 e 600 milhas, o que dá uma média de 200 voltas e umas quatro horas de corrida.

40 carros largam a cada corrida, mas qualquer número de pilotos pode se inscrever para o campeonato - alguns, inclusive, nem disputam o campeonato inteiro, apenas algumas provas. Em cada prova, os 35 mais bem colocados do campeonato têm participação garantida, independente da posição de largada que obtiverem durante a classificação; os demais disputam as cinco vagas restantes. Esta regra é diferente para as cinco primeiras corridas da temporada, onde têm lugar garantido os 35 primeiros do campeonato do ano anterior. Curiosamente, a numeração dos carros considera zeros à esquerda em números de dois dígitos, então podemos ter dois carros diferentes com os números 7 e 07, por exemplo. O carro da Sprint Cup é tão cheio de inovações tecnológicas que ganhou o apelido de "Carro do Amanhã" ("Car of Tomorrow"). A maior parte das inovações, porém, visa a segurança, tanto que o número de acidentes diminuiu consideravelmente após sua estréia no ano passado.

O campeonato da Sprint Cup utiliza um sistema de playoffs, chamado de Chase for the Sprint Cup. Após as 26 primeiras corridas, os doze primeiros do campeonato ganham um bônus de 5.000 pontos, mais dez pontos para cada corrida que tenham vencido. Isto faz com que somente eles tenham a chance de continuar brigando pelo campeonato, já que os demais ficam bem para trás - mas todos continuam correndo, com os pontos das últimas dez corridas sendo distribuídos normalmente. Este sistema, criado em 2004 e aperfeiçoado em 2007, busca garantir que o campeão não seja conhecido por antecipação, mantendo a emoção até a última prova.

Assim como a jóia da coroa da IRL são as 500 Milhas de Indianápolis, a jóia da Sprint Cup são as 500 Milhas de Daytona. Disputada desde 1959, em um autódromo construído especialmente para a Nascar, a corrida é o evento automobilístico mais assistido pela TV nos Estados Unidos, superando até Indianápolis - que é o maior evento de público presente - e é considerada o maior evento do stock car mundial. Disputada em 200 voltas ao redor do oval, e com direito a troféu próprio para o vencedor, as 500 Milhas de Daytona ainda contam com um sistema de classificação curiosíssimo: apenas as duas primeiras posições do grid são definidas na classificação; os demais pilotos devem correr duas corridas especiais, chamadas The Duels, de 60 voltas cada, disputadas na quinta-feira anterior às 500 Milhas. Metade dos pilotos que tentam se classificar disputam o primeiro Duel, e a outra metade o segundo, distribuídos de acordo com a colocação no campeonato do ano anterior, e largando de acordo com a velocidade obtida na classificação. O resultado dos Duels é que formará o grid das 500 Milhas, com o primeiro definindo as posições ímpares, e o segundo, as pares. Assim, o vencedor do primeiro Duel larga em terceiro, o segundo colocado em quinto, o terceiro em sétimo, o vencedor do segundo Duel em quarto, e assim por diante.

O calendário da Sprint Cup conta ainda com duas provas que não valem pontos, mas rendem gordos prêmios em dinheiro aos vencedores. A primeira, conhecida como The Shootout, é sempre disputada no fim de semana anterior às 500 Milhas de Daytona, no mesmo autódromo. A prova é disputada apenas pelos pilotos que conseguiram pole positions no ano anterior, mais os que já a venceram em alguma ocasião, consiste de dois segmentos, um de 20 voltas e um de 50 voltas, com um intervalo de 10 minutos entre eles, e tem seu grid de largada determinado por sorteio, ao invés de classificação. No fim de semana anterior às 600 Milhas de Charlotte, no mesmo autódromo, é disputada a All Star Race, composta de 100 voltas divididas em quatro partes de 25 voltas cada, com intervalos entre elas. Participam da All Star os vencedores de todas as provas do ano anterior, de todas as provas da mesma temporada anteriores a ela, os últimos dez vencedores dela, os últimos dez campeões da Sprint Cup, e os dois primeiros colocados da Sprint Showdown, uma corrida de classificação de 40 voltas divididas em duas partes de 20, realizada um pouco antes da All Star, e da qual participam todos os pilotos que já não estejam classificados para ela.

Depois da Sprint Cup, a categoria mais importante da Nascar é a Nationwide Series, que também não tem este nome por correr em pistas de todos os Estados Unidos, mas por ser patrocinada pela companhia de seguros Nationwide. Criada em 1982 com o nome de Busch Grand National Series, devido ao patrocínio da cervejaria Anheuser-Busch, fabricante da Budweiser, a Nationwide Series é uma espécie de categoria de acesso, onde correm os pilotos que desejam ganhar experiência em provas de stock cars ou em ovais, para eventualmente se transferirem para a Sprint Cup. Os carros da Nationwide Series são um pouco menos potentes e tecnologicamente avançados que o da Sprint Cup, mas boatos dizem que a categoria também passará a usar o Carro do Amanhã a partir da próxima temporada.

O campeonato da Nationwide Series conta com 35 provas, mas não tem playoffs, sendo campeão o piloto que somar mais pontos ao final da última corrida. Nem todas as provas são disputadas nos mesmos autódromos que as da Sprint Cup, mas as que são costumam ser realizadas no dia anterior, para estimular a presença do público - tanto que, em alguns autódromos, um mesmo ingresso vale para ambas as corridas. Graças a isso, nos últimos anos os pilotos das equipes mais endinheiradas da Sprint Cup têm se inscrito também na Nationwide Series, usando a corrida da Nationwide como "aquecimento" ou "treinamento" para a corrida da Sprint. Isto tem gerado muitas reclamações por parte dos pilotos e equipes da Nationwide, pois, sendo os pilotos da Sprint Cup mais experientes, e suas equipes mais ricas, eles acabam tendo vantagem sobre os pilotos da Nationwide, vencendo a maioria das provas, e impedindo que muitos pilotos da Nationwide se classifiquem para a maioria delas. Embora as equipes da Nationwide queiram que pilotos da Sprint Cup sejam proibidos de correr suas provas, a Nascar, não querendo irritar seus principais garotos-propaganda, tem estudado uma saída que acabe sendo boa para ambas as partes, tipo fazer com que os pilotos da Sprint Cup não possam ganhar pontos válidos pelo campeonato da Nationwide.

Dos 26 autódromos usados na Nationwide Series, sete são ovais curtos (Bristol', Dover', Memphis, Milwaukee, O'Reilly Park, Phoenix' e Richmond'), doze são ovais intermediários (Atlanta, Charlotte', Chicagoland, Darlington, Homestead, Kansas City, Kentucky, Las Vegas, Madison, Nashville', New Hampshire e Texas'), quatro são superspeedways (Daytona', Fontana', Michigan e Talladega) e três são circuitos mistos (Cidade do México, Montreal e Watkins Glen). Autódromos marcados com um ' sediam duas corridas a cada temporada. A categoria é a única das três nacionais a realizar provas fora do território norte-americano. As corridas da Nationwide Series têm entre 200 e 312 milhas, durando uma média de duas horas e meia cada.

A terceira categoria nacional da Nascar atende pelo nome de Craftsman Truck Series, como vocês já devem ter imaginado, por ser patrocinada pelas ferramentas Craftsman. Diferentemente da Sprint Cup e da Nationwide Series, a Truck Series não é uma categoria de stock cars, mas sim de stock trucks, caminhonetes com caçambinha e tudo, modificadas para correr. A categoria foi criada em 1995, e a princípio foi vista como uma excentricidade destinada a pilotos que não conseguissem passar da Nationwide Series para a Sprint Cup, mas hoje atrai cada vez mais jovens pilotos, e alguns deles acabam passando para a Sprint Cup sem nunca correr na Nationwide. Os índices de audiência da Truck Series crescem a cada dia, mas ainda não são tão bons quanto os das outras duas categorias.

O calendário da Truck Series é bem mais curto, com 25 provas disputadas em 22 autódromos, dos quais oito são ovais curtos (Bristol, Dover, Mansfield, Martinsville, Memphis, Milwaukee, O'Reilly Park e Phoenix), dez são ovais intermediários (Atlanta, Charlotte, Homestead, Kansas City, Kentucky, Las Vegas, Madison, Nashville, New Hampshire e Texas), e quatro são superspeedways (Daytona, Fontana, Michigan e Talladega). Apenas os autódromos de Martinsville, Phoenix e Texas sediam duas provas cada, e não existem circuitos mistos. As provas têm entre 150 e 400 milhas cada, e algumas caem no mesmo local e fim-de-semana da Sprint Cup ou da Nationwide Series. o campeonato da Truck Series não tem playoffs, sendo campeão o piloto que tiver mais pontos ao final da última prova.

As outras duas categorias nacionais da Nascar são, na verdade, "internacionais". A primeira é a Canadian Tire Series, o campeonato canadense de stock cars, disputado desde 2006, quando a Nascar comprou a Cascar, sua equivalente canadense, que organizava o campeonato desde 1981. Exceto por algum eventual estrangeiro aventureiro, todos os pilotos da Canadian Tire - que, como de costume, leva o nome de seu patrocinador - são canadenses, e todas as 13 provas do calendário são disputadas no Canadá, sendo seis em ovais curtos e sete em circuitos mistos.

Finalmente, temos a Corona Series, o campeonato mexicano, patrocinado pela cerveja Corona. Como era de se esperar, todos os pilotos são mexicanos, e todas as 15 provas são disputadas no México, sendo dez em ovais e cinco em mistos. A Corona Series é disputada desde 2004 - entre 2004 e 2006 se chamou Desafío Corona - e foi criada por uma parceria entre a Nascar e a mexicana OCESA, que visava popularizar as corridas de stock cars no México, tradicionalmente apreciador das categorias do tipo Fórmula.

Apesar de ser uma categoria tão antiga, e de já ser conhecida de longa data de alguns brasileiros, principalmente devido a videogames, a Nascar ainda está longe de ser uma categoria popular aqui no Brasil, talvez devido a dois fatores: primeiro, apenas recentemente as temporadas completas passaram a ser exibidas, através de canais pagos não muito distribuídos, como BandSports e Speed; e segundo, é provável que ela sofra do mesmo antiamericanismo que afeta outros esportes norte-americanos, agravado pelo fato de que os estrangeiros têm pouca vez na Nascar: o número de pilotos estrangeiros é mínimo e, até uma vitória da Toyota neste ano, a última vez que uma marca estrangeira havia vencido uma corrida havia sido em 1954 com a Jaguar. Até hoje, apenas um único piloto brasileiro já se atreveu a correr na Sprint Cup, Christian Fittipaldi, que disputou 15 provas em 2003, pilotando um Dodge, e terminando na 44a posição.

Para os fãs da velocidade, porém, eu recomendo uma olhada. As últimas 30 voltas de cada corrida costumam ser bem interessantes.

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