sábado, 19 de janeiro de 2008

Blade Runner

Eu nunca entendi muito bem o conceito de cult. Um filme cult não é necessariamente um filme que tenha feito sucesso, não é necessariamente um filme bom, nem é necessariamente um filme que tenha muitos fãs, mas por outro lado existem alguns filmes que são considerados cult e foram grandes sucessos, são ótimos, e têm milhares de fãs. Em outras palavras, os mecanismos que transformam um filme em cult são para mim totalmente incompreensíveis. Isso não quer dizer, que fique bem claro, que eu detesto filmes cult, ou algo do tipo; na verdade eu gosto de muitos deles, só gostaria de saber quem é que aponta o dedo e diz que um filme pode ou não pode se tornar cult.

Após esta introdução altamente filosófica, acho que já deu para perceber que eu vou hoje falar de um filme cult. Um filme que hoje é visto como um grande clássico da ficção científica, mas que na época de seu lançamento fez tanto barulho quanto um estalinho de São João. Um filme que fez parte da minha lista de favoritos desde que eu o assisti pela primeira vez, mas que, graças a uma certa confusão por parte da Warner Bros, somente pude adquirir em DVD no Natal passado. O tema de hoje é Blade Runner.

Sim, como eu disse, atualmente Blade Runner é um clássico da ficção científica, e até influenciou outros filmes e até livros, mas em 1982, quando foi lançado, chegou a ser considerado um fracasso de público e crítica: consumindo 28 milhões de dólares para ficar pronto - valor que hoje já é considerado alto, mas que na época era maior ainda - arrecadou apenas 6,15 milhões em seu primeiro fim de semana, e 26 milhões no total. Parte deste desempenho se deveu ao fato de que dois outros filmes de ficção científica mais bem cotados, O Enigma de Outro Mundo e E.T., o Extraterrestre, estrearam quase no mesmo dia, e parte foi culpa dos críticos, que, dentre outras coisas, o acusaram de ter um monte de clichês, de valorizar mais os efeitos especiais que o enredo, e de ter um ritmo tão lento que deveria se chamar "Blade Crawler" (um trocadilho com o fato de que runner significa "corredor", enquanto crawler é "rastejador").

Com o passar do tempo, porém, Blade Runner foi se tornando uma referência. Profeticamente, o filme antecipou temas como a influência da cultura asiática nos Estados Unidos, expansão desenfreada das metrópoles, globalização, clonagem, engenharia genética e mudanças climáticas. Seu clima de filme noir, com muitas seqüências escuras, contribuiu para que o filme ganhasse uma pequena mas sólida base de fãs. Além disso, uma confusão feita pela Warner Bros à época da finalização do filme fez com que o diretor Ridley Scott ficasse inconformado com a versão do filme que foi aos cinemas, e lutasse durante anos por uma "versão do diretor", o que manteve o filme de certa forma vivo na mídia. Quando esta nova versão estreou nos cinemas norte-americanos dez anos após o lançamento do filme original, em 1992, a base de fãs já não era tão pequena assim, e o filme conseguiu arrecadar mais 4 milhões de dólares - pouco, mas um bom número em se tratando de um relançamento.

Blade Runner, que em português ganhou o subtítulo O Caçador de Andróides, é inspirado em um conto do autor norte-americano Philip K. Dick, que tem o curioso nome de Do Androids Dream of Electric Sheep? (algo mais ou menos como "Será que Andróides Sonham com Carneirinhos Elétricos?"), publicado em 1968. O nome "Blade Runner", que é quase impossível de ser traduzido de forma a resultar em algo compreensível, veio de outro livro, The Bladerunner, escrito por Alan E. Nourse e publicado em 1974. Este livro e o filme, pórém, têm pouco em comum além da ambientação em um futuro tenebroso; Scott decidiu usar o mesmo nome porque achou que ele combinava com o clima do filme. Embora um filme baseado no livro de Nourse já estivesse sendo considerado, Scott conseguiu com o autor os direitos para o uso do título sem maiores problemas. Dick, por outro lado, sequer sabia que um filme baseado em um conto seu estava sendo escrito, e demonstrou uma certa preocupação ao descobrir; mas após ler a versão final do roteiro e assistir a um especial de 40 minutos produzido pela Warner para divulgar o projeto, deu sua total aprovação, declarando que a ambientação estava justamente como ele imaginava. Dick faleceu em decorrência de um derrame quatro meses antes da estréia do filme, mas o sucesso de Blade Runner, ainda que tardio, possibilitou que seus contos fossem redescobertos pelo público, e garantiu diversas outras adaptações, que renderam filmes como O Vingador do Futuro, Minority Report, O Homem Duplo e O Vidente.

O tal "futuro tenebroso" onde o filme se passa é o ano de 2019, quando a humanidade já alcançou grandes avanços na ciência, que possibilitaram a colinização espacial e a criação de diversas colônias fora da Terra. A construção destas colônias, porém, requer trabalho muitas vezes perigoso à saúde e integridade física dos seres humanos; para contornar este problema, foram criados os replicantes, andróides idênticos em aparência a um humano comum, mas imunes à dor, com grande força física, e tão inteligentes quanto os cientistas que os criaram. Os replicantes, porém, não são autômatos: possuem consciência, e são capazes de tomar suas próprias decisões. Como uma medida de segurança, portanto, a Tyrell Corporation, a empresa que os criou, fez com que eles tivessem um ciclo de vida curto, "morrendo" quatro anos após sua data de ativação.

Um dia, cansados de serem submetidos a trabalhos perigosos, humilhantes e degradantes, e ainda por cima fadados a morrer tão cedo, alguns replicantes se rebelaram contra os humanos que os criaram. Após uma violenta insurreição em uma das colônias espaciais, os replicantes foram declarados ilegais na Terra, e uma unidade especial da polícia foi criada para exterminar qualquer replicante que se atrevesse a vir a nosso planeta. Estes policiais se tornaram conhecidos como Blade Runners (ou, na versão em português, Caçadores de Andróides), e seu trabalho não era considerado assassinato ou extermínio, mas apenas "retirada" de robôs defeituosos.

O enredo do filme começa quando quatro replicantes, Leon (Brion James), Zhora (Joanna Cassidy), Pris (Daryl Hannah) e Roy (Rutger Hauer), conseguem chegar clandestinamente à Terra. Sabendo que estão com os dias contados, os quatro, liderados por Roy, planejam invadir a Tyrell Corporation e obrigar seu criador, Dr. Eldon Tyrell (Joe Turkel), a remover a limitação de vida, para que eles possam viver como humanos normais. Em busca deste objetivo, eles acabam conseguindo a ajuda do cientista J.F. Sebastian (William Sanderson), que simpatiza com os replicantes por sofrer de uma rara doença degenerativa, que fará com que ele também tenha uma vida curta.

Mas por mais nobres que sejam seus objetivos, os replicantes ainda são ilegais e sujeitos à retirada. E é aí que entra o protagonista, o Blade Runner aposentado Rick Deckard (Harrison Ford), convencido a voltar à ativa com um novo parceiro, Gaff (Edward James Olmos), após o Blade Runner que estava investigando o caso ser mortalmente ferido pelos replicantes. A princípio, seria apenas mais uma missão comum, se Deckard não começasse a sentir remorsos e outros sentimentos contraditórios pelos replicantes, principalmente após se apaixonar por Rachael (Sean Young), uma replicante de última geração, tão parecida com um ser humano que tem até memórias falsas de sua infância.

Embora não tenha muito tempo para discuti-los a fundo, Blade Runner toca em temas como a definição de humanidade - embora tenham consciência e sentimentos, os replicantes não são considerados humanos por serem artificiais - e o avanço descontrolado da civilização tecnológica, a ponto de ameaçar a natureza - animais verdadeiros, por exemplo, já quase não existem, tendo sido substituídos por animais criados por engenharia genética. Além de basear-se no conto de Dick, Scott foi buscar inspiração nas tragédias gregas, na filosofia da religião, na poesia de William Blake, no filme Metropolis de Fritz Lang, na história em quadrinhos The Long Tomorrow de Dan O'Bannon e Moebius, e até mesmo na Bíblia, o que fez com que Blade Runner se tornasse um dos mais profundos filmes de ficção científica da história, digno de longas discussões sobre seus elementos.

Com todas estas referências em mente, Ridley Scott fez de Blade Runner um projeto extremamente pessoal seu. Ainda assim, a versão que foi às telas do cinema não foi a visão original do diretor. Isto ocorreu porque a Warner Bros, produtora do filme, achou que os custos estavam muito altos, e se negou a liberar mais dinheiro quando os gastos alcançaram 28 milhões de dólares. Na prática, Scott foi proibido de terminar o filme da forma como queria, e um grupo de empresários e investidores assumiu a produção. Sob a batuta da Warner, eles incluíram um final feliz que não estava previsto (usando filmagens que não haviam sido aproveitadas no filme O Iluminado) e uma narração, através da qual Deckard explicava alguns elementos do filme, já que, segundo eles, o público que havia assistido à sessão teste tinha tido dificuldades para entender o enredo - segundo Scott, seu plano original era filmar novas cenas para explicar estes elementos, mas a Warner não permitiu. O desempenho de Ford na narração é tão fraco que deu origem a uma lenda segundo a qual ele teria interpretado mal de propósito, no intuito do estúdio rejeitar as falas e não usá-las, mas o próprio Ford já declarou que leu as falas da melhor forma que pôde, mas elas é que foram mal escritas, daí o resultado ruim - embora anos mais tarde, talvez contraditoriamente, ele tenha assumido ter feito a narração contrariado pelo fato dela não representar os interesses do diretor.

Graças a toda esta confusão, Blade Runner acabou ficando com sete versões diferentes. A primeira delas foi justamente a versão teste, que tem 113 minutos e foi exibida para platéias selecionadas em Denver, Dallas e Londres em Março de 1982. Uma segunda versão teste, de 118 minutos, foi exibida em San Diego em maio de 1982. A que seria a "versão final" hoje é conhecida como Domestic Cut ou Theatrical Cut, tem 115 minutos, e foi a que estreou nos cinemas dos Estados Unidos em 25 de junho de 1982. A versão que estreou na maior parte dos outros países (mas não no Brasil, que comprou a versão americana) entre 1982 e 1983, é hoje conhecida como International Cut, e tem 117 minutos, graças a três cenas violentas removidas da versão americana. E se você achou isso besteira, a quinta versão é a que passou na televisão norte-americana a partir de 1986, editada para remover cenas "inadequadas", e acabou com 86 minutos.

Estas poderiam ser as únicas versões, mas em 1990, talvez para ganhar um dinheirinho extra, a Warner decidiu lançar nos cinemas de Los Angeles e São Francisco a versão teste, picaretamente rebatizada como "versão do diretor". A procura por ingressos foi tão grande que a Warner decidiu lançar uma versão do diretor "verdadeira" nos cinemas de todo o país no aniversário de dez anos do filme. Embora Ridley Scott tenha gostado da idéia, na época ele estava envolvido com as filmagens de Thelma & Louise, e não pôde trabalhar diretamente na edição do filme. A versão acabou montada pelo editor assistente da versão original, Les Healey, e pelo restaurador de filmes Michael Arick. Sob supervisão de Scott, eles removeram as cenas violentas da versão internacional, a narração e o final feliz, e inseriram dicas de que Deckard poderia ser ele também um replicante. Embora esta versão, de 115 minutos e conhecida hoje como Director's Cut, tenha feito sucesso nos cinemas, desagradou a muitos fãs puristas, que consideraram que o clima do filme foi alterado. Pessoalmente, eu gostei de terem removido a narração, mas achei que Deckard replicante era um pouco além da conta, por isso eu ainda não tinha comprado o DVD, já que a Versão do Diretor era a única disponível no Brasil até o mês passado.

Assim como eu, Ridley Scott também não ficou totalmente satisfeito com a Versão do Diretor, e no ano 2000 resolveu fazer uma nova versão, desta vez envolvendo-se diretamente em todos os estágios. O filme foi totalmente restaurado através dos negativos originais, os efeitos especiais ganharam novo tratamento, o som foi remasterizado, e algumas cenas foram estendidas ou cortadas, resultando em uma versão de 117 minutos conhecida como Final Cut, ou, finalmente, a Versão Final. O plano era lançá-la em DVD no Natal de 2001, mas alguns dos investidores que concluíram o filme em 1982 entraram na justiça alegando serem os detentores dos direitos sobre o filme. A Warner só conseguiu resolver esta disputa em 2006, e decidiu esperar 2007, quando Blade Runner faria 25 anos, para lançá-la. O filme foi lançado em alguns cinemas dos Estados Unidos e Austrália em outubro, e nos formatos DVD e Blu-Ray em dezembro. Aqui no Brasil foi lançada uma versão em DVD com três discos, incluindo a Theatrical Cut, a International Cut, a Director's Cut e a Final Cut, mais três horas de documentários e making ofs, mas o original norte-americano tem cinco discos, e traz também as outras três versões do filme. Alguns fãs mais ardorosos já começaram a reclamar, mas não se sabe se a Warner lançará este pacotão por aqui - eu acho pouquíssimo provável, já que até hoje eles ainda não resolveram lançar as versões estendidas de O Senhor dos Anéis.

Seja qual for sua versão preferida, Blade Runner entrou para a história ao mostrar um futuro cada vez mais possível se a humanidade não parar para prestar atenção nos valores que realmente importam. São poucos os filmes de ficção científica que 25 anos após seu lançamento conseguem continuar estimulando debates. De minha parte, eu espero que inventem logo aquela maquininha que amplia fotos sem limite. Isso sim é que é tecnologia.

1 enfiaram o nariz:

Anônimo disse...

eu amo esse filme.. qdo tinha onze anos assisti mais de 15 vezes no vídeo cassete! :)

2:35 PM

Postar um comentário